Espaços urbanos

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Nossa Senhora abençoa o Centro Histórico - foto Renato F. Thomsen

sábado, 28 de março de 2015

Excursão de ciclistas

Há exatos 115 anos o jornal O Commercio noticiava que ciclistas integrantes do Clube União haviam saído em excursão pelo interior, passando pela estância de Antonio Libanio e depois pela de José Sebastião Vieira da Cunha.

José Sebastião Vieira da Cunha
- acervo da Fazenda da Tafona

Até aí mais uma notícia do fantástico jornal que registrava o cotidiano de Cachoeira em suas edições semanais das quartas-feiras.  O sensacional da localização desta notícia é a possibilidade de datação da foto até hoje considerada como a mais antiga que mostra a sede da Fazenda São José, de José Sebastião Vieira da Cunha, hoje patrimônio histórico de Cachoeira do Sul.

Sede da fazenda de José Sebastião Vieira da Cunha e os ciclistas
- fototeca do Museu Municipal

O texto da notícia de 28 de março de 1900 é o seguinte:

Domingo último diversos ciclistas do Clube União fizeram um passeio à estância do Sr. Antonio Libanio, sendo generosamente recebidos pela família do Sr. Libanio, que os obsequiou com um opulento almoço e uma lauta mesa de doces e finos líquidos. Na volta chegaram na estância do Sr. José Sebastião Vieira da Cunha, onde lhes foi oferecido licores, etc.

Os ciclistas pedem para agradecermos por eles o bom acolhimento que tiveram em casa destas duas famílias.

Notícia em O Commercio, de 28/3/1900, p. 2
- acervo de imprensa do Arquivo Histórico
Lamentavelmente a notícia não dá os nomes dos ciclistas, nem o seu número.

E para satisfazer nossa curiosidade sobre o que havia de oferta para ciclistas na Cachoeira de 1900, um anúncio da loja Ao Preço Fixo, de Carlos Lange, publicado no mesmo jornal O Commercio, edição de 31 de janeiro de 1900, estampa os modelos disponíveis para homens e senhoras.

Anúncio em O Commercio, de 31/1/1900, p. 4
- acervo de imprensa do Arquivo Histórico

Aos aficionados do ciclismo, O Commercio e a foto na Fazenda da Tafona permitem um bom passeio pela história das “magrelas” em nosso meio.

domingo, 22 de março de 2015

Escola Antônio Vicente da Fontoura - 22/3/1915 - 22/3/2015 - cem anos a serviço da educação

A comunidade escolar de Cachoeira do Sul comemora em 22 de março de 2015 o centenário da Escola Estadual de Ensino Médio Antônio Vicente da Fontoura, a nossa mais antiga escola pública.

E. E. E. M. Antônio Vicente da Fontoura - arquivo Jornal do Povo
A história deste tradicional educandário começou a se desenhar em 1912. Em setembro daquele ano, um articulista do jornal O Commercio, que assinava com o nome Aristarcho Demophilo Martyr, escreveu sobre a ideia da instalação de um colégio elementar em Cachoeira, e estimava para isto um prazo de três a quatro anos.

No ano seguinte, o Coronel Horácio Gonçalves Borges, chefe local do Partido Republicano Rio-Grandense, solicitou ao Presidente do Estado, Dr. Borges de Medeiros, a criação de um colégio elementar, justificando que um município do porte de Cachoeira, vasto e populoso, necessitava de um estabelecimento de ensino que honrasse o seu adiantamento e população, conforme noticiou o jornal Rio Grande de 23 de fevereiro de 1913. Cinco meses depois, no dia 18 de agosto, o coletor federal Major José Pinós Filho, em nome do Governo do Estado, recebeu da Intendência o prédio do Teatro Municipal, cedido para nele funcionarem o Fórum e o futuro Colégio Elementar. Estava dado o primeiro passo para o estabelecimento do projetado educandário.

Prédio do Teatro Municipal - fototeca Museu Municipal

Em 22 de março de 1915, reuniram-se as professoras indicadas para comporem o corpo docente do Colégio Elementar. Convocadas pelo inspetor Anthero de Almeida, foram empossadas Emilia Praia de Sá, Francisca L. Lopes, Anna V. da Silveira, Cândida Fortes Brandão, Mariana Porto da Fontoura e Margarida P. da Fonseca. Na ocasião da posse, as professoras foram orientadas pelo inspetor e presidente do Conselho Escolar, Leonel Friedrich, recebendo as indicações e explanações preliminares necessárias para o pleno funcionamento do Colégio Elementar. A matrícula de alunos teve início no dia 23 de março de 1915. A edição de O Commercio do dia posterior, 24 de março, com relação às matrículas, dizia o seguinte:
(...) o que não tem sido fácil, devido à distância das salas onde permanecerão ainda por algum tempo.

O comentário do jornal se devia ao fato de que o prédio do Teatro Municipal ainda precisava passar pelas obras de adaptação, o que a notícia de O Commercio, mesma edição citada anteriormente, confirma:
Dentro em pouco estará pronto o edifício oferecido pelo município e que está sendo pelo governo do Estado adaptado para alojamento do grupo e, então, já vencidas as maiores barreiras, começarão a patentear-se os magníficos resultados do que hoje talvez pareça a alguns um mero capricho de governantes com pruridos de inovações dispensáveis.

A professora Cândida Fortes Brandão, escolhida diretora, oficiou ainda em março de 1915 ao Secretário de Estado dos Negócios do Interior e Exterior solicitando que o novo grupo escolar recebesse o nome de Escola Elementar Antônio Vicente da Fontoura, homenageando o líder farroupilha que apesar de não ter sido educador, educava pelo exemplo. Em 31 de agosto daquele mesmo ano recebeu a resposta autorizando a denominação. 

Edifício do antigo Teatro Municipal adaptado para o Fórum e Colégio Elementar
- fototeca Museu Municipal

Parabéns, comunidade escolar da hoje Escola Estadual de Ensino Médio Antônio Vicente da Fontoura pelo centenário de existência!

Este centenário permite uma reflexão: o efêmero Teatro Municipal, construído pela vontade comunitária e pela coragem do intendente David Soares de Barcellos, não se firmou como a casa de espetáculos esperada pela população cachoeirense que fez a travessia do século XIX para o XX. Tampouco foi preservado em sua estrutura original. No entanto, o aproveitamento inicial de seu prédio para abrigar uma instituição educacional de certa forma preservou a prerrogativa comum entre arte e educação, que é a de serem ambas veículos imprescindíveis para a elevação do espírito. 


domingo, 15 de março de 2015

Primeiro motociclo em Cachoeira

Albino Pohlmann, um dos mais habilidosos e criativos mecânicos da história de Cachoeira, a quem se creditam as primeiras experiências com luz elétrica na cidade, empreendimentos cinematográficos, aplicação de tecnologia própria na irrigação das lavouras de arroz e a construção da primeira lancha lançada ao Jacuí, só para citar algumas das suas engenhosidades, também foi o primeiro cachoeirense a adquirir um motociclo e circular com o veículo em terras cachoeirenses.
O motociclo, adquirido na famosa Casa Bromberg & Cia., rodou pelas ruas de Cachoeira pela primeira vez em março de 1908, ou seja, há 107 anos.
A respeito do acontecimento, o jornal O Commercio, edição do dia 22 de março de 1908, disse o seguinte:
O nosso amigo Albino Pohlmann, hábil mecânico, fez aquisição na Casa Bromberg & Cia. de um aperfeiçoado motociclo. A estreia da máquina, a primeira que vem a esta cidade, tem feito sucesso idêntico ao automóvel.
Relembrando, o primeiro automóvel havia chegado por iniciativa do fazendeiro Eurípedes Mostardeiro no ano anterior. A Cachoeira da primeira década do século XX experimentava alguns dos inventos que marcariam aquele século como o de maiores avanços tecnológicos à humanidade.
Hoje as cidades estão tomadas pelas motocicletas, nome que estes veículos motorizados de duas rodas assumiram, embora a forma apocopada “moto” seja a mais difundida entre nós. 
Não há registro da marca do veículo ou do fabricante do primeiro motociclo adquirido por Albino Pohlmann. Teria sido uma CCM Lightweight De Luxe canadense?



1908 CCM Lightweight DeLuxe - Canada's 1st Production Unit

Crédito da foto: "http://www.tripadvisor.com.br/LocationPhotoDirectLink-g154943-d2168221-i46813523-Deeley_Motorcycle_Exhibition-Vancouver_British_Columbia.html#46813450"><img alt="" src="http://media-cdn.tripadvisor.com/media/photo-s/02/ca/51/0a/deeley-motorcycle-exhibition.jpg"/></a><br/>Essa foto de Deeley Motorcycle Exhibition é cortesia do TripAdvisor

sábado, 7 de março de 2015

Marcelo Gama - tributo no centenário de sua morte

Marcelo Gama, ou Possidônio Cezimbra Machado, nome de batismo do poeta que alguns dão como natural de Mostardas, outros, como de Cachoeira, morreu há exatos 100 anos.

Crédito da imagem: O abominável Prado

Na madrugada do dia 7 de março de 1915, quando retornava de bonde da sua jornada como redator e revisor do jornal Correio da Manhã, do Rio de Janeiro, adormeceu. Estava a caminho da sua residência, localizada no Méier, onde a esposa Júlia e filhos o aguardavam. Numa das guinadas do bonde, desequilibrado pelo sono, Marcelo Gama caiu do banco, despencando prematuramente para a morte no viaduto do Engenho Novo. Tinha 37 anos.

Mas quem foi este poeta, hoje tão pouco conhecido, apesar de constar dos anais de literatura como um importante representante da poesia simbolista?

Sua primeira obra,Via Sacra, lançada em 1902, é considerada a introdutora do simbolismo no Rio Grande do Sul. Com uma produção poética mais intimista e que fugia da temática dominante entre os poetas gaúchos, voltada para o regionalismo, Marcelo Gama obteve aprovação de alguns críticos por ser dono de um interessante traço coloquial e irônico.

Crédito da imagem: O abominável Prado

Apesar da vida curta, foi profícua a sua produção e envolvimento com as letras. Publicou três livros: Via Sacra, Avatar e Noite de insônia. Deixou um quarto inacabado: Violoncelo do Diabo. Atuou em jornais, como Correio do Povo e Jornal da Manhã, em Porto Alegre, lançou o jornal A Lua (1900), em Cachoeira, onde assinava com o apropriado pseudônimo de Selenita, além de revistas e outras publicações, como Artes e Letras (1898), também em Porto Alegre.

O álcool foi sua perdição e motivo de luta. E a condição de alcoolista e boêmio lançou um olhar até certo ponto preconceituoso sobre sua produção literária.

Marcelo Gama foi embora de Cachoeira, onde viviam seus pais, depois de ter perdido o emprego de caixeiro quando a loja onde trabalhava incendiou. Em Porto Alegre, para onde partiu em busca de emprego e meios para expandir seu talento literário, passou a trabalhar no laboratório farmacêutico de João Daudt de Oliveira. Nessa que é considerada uma das primeiras indústrias farmacêuticas do Brasil, Marcelo Gama foi redator de anúncios publicitários, tarefa que desempenhava com maestria para a época.

Apesar do talento, o poeta vivia atormentado pelas dívidas da vida boêmia. Foi então socorrido pelo patrão João Daudt de Oliveira que pagou todas as suas dívidas para que assumisse com tranquilidade as tarefas na empresa. Por esses tempos desenvolveu amizade com o também poeta Felippe d’Oliveira, que dele guardava “parentescos estéticos”* e era sobrinho de seu empregador João Daudt. Marcelo Gama e Felippe d’Oliveira foram embora juntos para o Rio de Janeiro.

A vida de Marcelo Gama, ou Possidônio Machado, nome que não lhe agradava, foi breve e trágica. E breves têm sido também as referências e análises do seu legado literário.


*"parentescos estéticos" em: O abominável Prado, de Camilo Prado - http://oficinasnephelibata.blogspot.com.br/2011/10/marcello-gama.html