Espaços urbanos

Espaços urbanos
Estátuas no frontão da União de Moços - foto Antônio Sarasá

domingo, 29 de abril de 2018

Um prédio enigmático


Quem se aproximar da margem esquerda do rio Jacuí, chegando perto da plataforma do pretenso segundo porto de Cachoeira do Sul, irá divisar um pavilhão portentoso. Quase alheio a algumas ruínas que a ele se ligam e ignorando o ar de decadência, o pavilhão domina o paredão do rio. Paineiras centenárias lhe servem de moldura, marcando as estações de um tempo de convivência que eles, pavilhão e paineiras, não sabem mais contar em anos... 

Charqueada e plataforma do porto - Fototeca Museu Municipal

Paineira na Charqueada - Foto Defender

O cenário é o da extinta Charqueada e Estabelecimento Paredão, a primeira grande indústria da cidade, fundada em 1877. 
   
O portentoso pavilhão aparece em registro fotográfico de 1910, cercado de outras construções que dão a ideia do quanto grandioso era o complexo industrial da Charqueada.

Charqueada do Paredão - 1910 - Fototeca Museu Municipal


Por esses tempos a Charqueada se apresentava com a razão social de Brazilian Extract of Meat & Hide Factory Ltd., companhia inglesa que introduziu uma série de melhoramentos materiais no complexo. Anos mais tarde, em 1909, ainda sob administração inglesa, o pavilhão que domina até hoje o alto do paredão passou por uma expressiva obra, sendo melhorado em sua estrutura e nas condições higiênicas. O projeto, de engenheiros ingleses, mostrou-se sólido o suficiente para estar ainda hoje, mesmo que abandonado, ostentando sua condição de portentoso.


Placa indicativa da indústria - Fototeca Museu Municipal

As obras são referidas com detalhes pelo jornal Rio Grande, edição do dia 23 de dezembro de 1909, à página 2:

Fábrica Modelo
Estabelecimento do Paredão
A convite de seu operoso gerente, nosso amigo Sr. Henrique Pearson, tivemos o prazer de domingo último, assistir, às últimas demãos da nova fábrica de conservas alimentícias ali reconstruída.
A impressão que dela nos ficou é que não existe em todo o Rio Grande um estabelecimento que a este se avantaje, podendo nós sem temor de erro classificá-lo de fábrica modelar. É com desvanecimento, pois, que iniciamos a notícia desse novo edifício, acrescido aos que já existem naquele estabelecimento, que vem trazer à nossa terra pela sua terminação farta messe de benefícios, que atestam exuberantemente o engrandecimento material da conhecida fábrica.
Não há quem vindo a Cachoeira, embora passageiramente, e visitando o Paredão, não afirme ser este um modelo entre seus congêneres, máxime agora, com os melhoramentos que ali foram introduzidos e a reedificação da fábrica de conservas.
Esta que mede 58 metros de comprimento por 16 metros de largura, é um edifício de uma solidez inigualável, tendo a planta sido traçada por engenheiros ingleses que há pouco tempo visitaram a Charqueada. Dada a planta, feito o orçamento respectivo, começaram as obras sob a imediata fiscalização do digno gerente daquele próspero estabelecimento, nosso amigo Sr. Henrique Pearson.
Aproveitando o local onde se erguia a antiga fábrica, que apresentava base não muito sólida, houve necessidade de nele se fazer obras d’arte de valor, sendo as construções de uma solidez a toda prova.
Encarregou-se da parte relativa à construção de alvenaria o conhecido mestre Antonelli Oreste que mais uma vez mostrou a sua competência de profissional, sendo diretor da parte concernente à carpintaria Carlos Böer.
Uma das coisas que mais nos impressionou nessa construção foram as condições higiênicas que ela apresenta. Como de fato, em uma fábrica onde promiscuamente trabalham centenares de empregados em misteres pesados é condição primordial a capacidade cúbica de ar que cada um ali absorve, bem como a luz proveniente das aberturas existentes.
Na nova fábrica que o Estabelecimento do Paredão acaba de concluir, além de dezenas de janelas, a cada qual corresponde outras pequenas, tem o cimo da cumeeira aberturas laterais, de ponta a ponta, trazendo ao vasto salão muito ar facilmente renovado.
Todo o vigamento do edifício é de aço de primeira qualidade, vindo diretamente da Inglaterra, sendo as madeiras empregadas cabriúva, louro e pinho de riga. O piso da fábrica será de lajes, achando-se já ali 1.700. O custo total não excederá de 54 contos de réis, sendo que a inauguração será feita em janeiro.
Assistimos, porém, à terminação da cumeeira. Ao ser pelo chefe dos carpinteiros pregado o último prego, foram hasteadas sobre ela, desfraldando-se ao vento, as bandeiras brasileira e inglesa, ao espocar de dezenas de foguetes, sob a chuva de aplausos dos operários em festa.
Descobertos, ante o imponente ato, elevamos também os nossos vivas entusiásticos à digna companhia inglesa, cujo capital vem trazer à nossa terra e aos nossos operários a honrada contribuição de seu labor, na pessoa do cavalheiro Henrique Pearson, que sabe perfeitamente cumprir o seu dever na gerência que lhe foi em boa hora confiada. A fábrica que vimos de falar é uma das grandes iniciativas que a companhia e a nossa terra lhe devem; é um atestado de que o progresso em que marchamos é uma realidade. Não conhecemos, desde a fronteira, onde tivemos a ventura de visitar estabelecimentos saladeris de primeiro plano, outro que leve vantagens ao do Paredão com os melhoramentos por que passou. São dignos de nota, ficando em destaque, e ainda uma vez seja acentuado ser um estabelecimento modelo.
Terminada a cerimônia da conclusão da cumeeira foi aos operários, no grande salão que se acabava de inaugurar, servido um churrasco, sendo os convidados e representantes da imprensa levados para a sala de refeições do estabelecimento, onde lhes foi oferecido lauto almoço.
(...)
Mais uma vez seja-nos dado prantear, com efusão, os nossos agradecimentos ao Sr. Henrique Pearson pelo modo gentil e cavalheiresco com que fomos acolhidos, saudando pela consecução do seu desideratum em dotar a nossa terra com um estabelecimento superior aos seus similares no Estado.

Esta postagem é dedicada aos calouros (2018) da Faculdade de Arquitetura – UFSM/Cachoeira do Sul e aos professores Samuel Silva de Brito e Minéia Johann Scherer.

domingo, 15 de abril de 2018

As pedras do antigo porto

Muitas vezes o silêncio protege a história. Ou a ignorância da sua concretude. Tem sido assim com as velhas pedras que calçam o início da Moron, quando ela nasce lá no Jacuí, ainda mergulhada nas águas.


As grandes e irregulares pedras estão ali desde o início da década de 1850, quando Fidêncio Pereira Fortes empreitou a obra de construção da rampa de embarque e desembarque do porto da Vila Nova de São João da Cachoeira.


Cartão-postal em que se vê claramente as pedras da rampa da Moron
- Fototeca Museu Municipal

A navegação era, naqueles meados do século XIX, importante modal de transporte. O Jacuí, em sua magnitude de águas, permitia o trânsito de embarcações até 58 toneladas já no início da década de 1840, quando Antonio Kussmann e Nicolau Faller começaram a navegação comercial entre Rio Pardo e Cachoeira. Mas faltava um porto organizado, com uma rampa que garantisse comodidade ao trânsito no embarque e desembarque.

Em outubro de 1852, a Câmara de Cachoeira solicitou ao engenheiro Frederico Heydtmann uma planta e orçamento da rampa que chegou à cifra de 9:524$200 réis, considerada vultosa. Em janeiro de 1853, Fidêncio Pereira Fortes conseguiu arrematar a obra por 3:169$200 réis a menos. Como era praxe naquela época, apresentou como fiador Antônio Pereira Fortes e teve que aguardar que a presidência da Província aprovasse a arrematação, o que se deu em 4 de maio de 1853.

 Dentre as cláusulas do contrato de arrematação, estava prevista a entrega da obra para vistoria em dois anos, não sem antes comunicar, com a antecedência de dois meses, a conclusão de cada uma das etapas, como construção de alicerces, desaterro e empedramento, para que fossem examinadas por comissão designada pelas autoridades. O pagamento do valor contratado seria feito em três parcelas, sendo a mais alta, no valor de 3:177$500, no ato da portaria de arrematação, e as outras duas, no valor de 1:588$750 cada, quando a obra estivesse na metade e, por último, na conclusão.

O início das obras apresentou uma dificuldade imprevista ao arrematante. Um grande banco de pedra vermelha encontrado no local causou sobrecarga de trabalho para escavação, obrigando Fidêncio a solicitar indenização e apresentar orçamento suplementar. Aprovado o aumento no valor, o arrematante precisou solicitar adição no tempo de entrega em mais um ano.

Após todos os percalços surgidos, Fidêncio Pereira Fortes finalmente entregou a primeira parte da rampa e calçada do porto em 1.º de dezembro de 1856, não deixando de alertar que deveriam ser tocadas as obras de construção dos paredões, calçada e empedramento até o banco de pedra vermelha. Em 7 de abril de 1857 a Câmara abriu concorrência para o restante das obras, sendo vencedor José Ferreira Neves, tendo como fiador Antônio Vicente da Fontoura.

Há mais de 160 anos as pedras assentadas por Fidêncio Pereira Fortes estão no nascedouro da Moron. Submetem-se, desde 1856, ao vai e vem das águas do Jacuí. Agora, como que tomadas de vida, andam assoprando nos ouvidos dos pescadores que por ali deixam suas canoas que têm medo do asfalto. Não são contra o progresso, como alguns insistem em afirmar. Elas querem mesmo é preservar sua história.


           
Fotos: Cristina da Gama Mór
Fonte: Cachoeira do Sul em busca de sua história, de Angela S. Schuh e Ione M. Sanmartin Carlos. Martins-Livreiro Editor, Porto Alegre, 1991.

domingo, 1 de abril de 2018

O Roberto da Música


Existem pessoas que apesar de terem desaparecido há dezenas de anos, vez ou outra têm seus nomes trazidos à tona, ora por um fato resgatado em algum documento, ora pela marca que imprimiram em seu distanciado tempo de vida. Uma destas figuras é o “Roberto da Música”, que emerge dos tempos idos, regendo bandas e dando tom aos sonhos coletivos de operários na velha Cachoeira do final do século XIX.

Roberto Francisco Silva, filho de José Francisco da Silva, nasceu em 7 de junho de 1860. Duraria apenas 49 anos, falecendo em 10 de novembro de 1909. Detalhes de sua curta vida são praticamente desconhecidos, talvez pelo seu caráter reservado e extremamente discreto. Não fosse por um artigo publicado no Jornal do Povo de 30 de junho de 1947, autoria de Gustavo Peixoto, ainda menos seria possível saber desta interessante personagem histórica.

Disse Gustavo, por ocasião da inauguração do retrato de Roberto Silva na Liga Operária Cachoeirense:

 “O Roberto da Música. (...) Assim o conheci, quando da minha infância. Admirava-o em sua boa vontade e maestria na banda de música na qual era estimado por seus companheiros, discípulos e toda a Cachoeira. Era de ver e admirar a banda de música por ele regida! ORDEM! RESPEITO! HARMONIA! AFINAÇÃO E ASSEIO.
Nos bailes, quando o terno era regido por ele, maior tornava-se o número de famílias. (...)
Ainda bem me lembro da banda de música do Clube Caixeiral, composta e formada pelos rapazes de nossa sociedade e que escolheram Roberto para organizar tão saudoso conjunto musical. E me vem à lembrança ainda (...) de uma retreta à frente da sede do clube, o sobrado dos Barcellos, em que a rapaziada toda fardada, com instrumentos novos e reluzindo, executava admiráveis peças de seu repertório e eu, guri, apaixonado por tudo aquilo, segurava o papel da música para um dos integrantes fazer a execução. E a banda era regida ali por David Soares Barcellos Filho, o nosso coletor federal, que na clarineta fazia o canto; também ali estavam Lúcio Gauss, filho do saudoso professor Gauss, no bombardão; Luiz Leão, o inesquecível cachoeirense, no bombo e pratos; o não menos saudoso Ceciliano Teixeira, fiscal federal, no piston, e tantos outros. Mas, de um lado, modesto, recolhido a um canto estava o maestro de fato, aquele que tudo organizara e para quem os olhares e atenção de todos estavam voltados: O ROBERTO DA MÚSICA.

O sobrado dos Barcellos - Rua 7 de Setembro - Fototeca do Museu Municipal

Os anos passaram... Entrei, por uma destas coisas da vida, para a Liga Operária Cachoeirense e me fui à papelada e livros de sua biblioteca e, com imensa satisfação e alegria, me encontrei de novo com o Roberto da Música e fiquei mais satisfeito por saber de uma outra qualidade sua – fundador e primeiro presidente da Liga! Cresceu o conceito do Roberto em mim. Compreendi e avaliei os trabalhos por que passara para chegar à fundação da sociedade que, hoje, sem medo de errar, é a mais antiga de minha terra. Os que sucederam a Roberto souberam conservar o que ele com enormes sacrifícios fizera. – Sim – enormes sacrifícios – hoje para o operário tudo é fácil, tem leis que o amparam (...), mas, naqueles tempos, o operário nada tinha e nem podia ter e que se quisesse ter era tido como anarquista e logo preso e mal visto. – Por isto tudo, calculo o quanto trabalhou Roberto, ao lado de seus companheiros e outros, para conseguir fundar a Liga! (...)

Roberto era tido como cidadão respeitado e de todo acatamento – estes predicados fizeram ser escolhido pela comissão que veio de Porto Alegre para fundar uma sociedade de operários, e a polícia, que não consentia reuniões dos operários, teve que ceder, teve que se submeter e acatar o homem que tão benquisto era em Cachoeira. (...)

Como ia dizendo, entrei na Liga e vi mais a qualidade de quanto era estimado e querido por todos o nosso Roberto da Música. E nunca pensei que os de hoje, os que aqui vêm e gozam seus benefícios, que gozam seu edifício, não têm olhos para verem no REGISTRO DA SAUDADE o fundador de tão grande entidade de classe! – O RETRATO DE ROBERTO – POR ISSO FALEI – RECLAMEI (...) – e vi com satisfação que todos se prontificaram a colaborar no resgate de tão importante débito – a inauguração na sala principal da figura do maior entre os maiores sócios desta benemérita instituição e hoje aí está, simples, modesta como ele era, mas GRANDE EM SUA BONDADE, EM SEU ESPÍRITO DE ORGANIZAÇÃO, RETO EM SEUS DEVERES E ESPOSO E PAI AMANTÍSSIMO. – Aí está para os olhos de todos o 1.º presidente da Liga Operária Cachoeirense! Meus respeitos. (...)

Roberto Silva - 1.º presidente da Liga Operária

De fato a Liga Beneficente Operário Internacional Cachoeirense, hoje Liga Beneficente Operária Cachoeirense, foi fundada por Roberto Silva e outros em 1.º de novembro de 1897. Foi ele escolhido o seu primeiro presidente.

Segundo Ícaro Bittencourt, em O Mutualismo Operário em Cachoeira (1897-1923): o Caso das Sociedades Beneficentes Liga Operária Internacional Cachoeirense e União Operária 1.º de Maio, UFSM, 2008, a Liga oferecia aos seus sócios ajuda médica, auxílio farmácia, auxílio judiciário, enterro, escola, biblioteca e lazer. Um ano depois da fundação, há o registro do estabelecimento de uma aula em sua sede, recebendo o professor os proventos de 15.000 réis por três aulas semanais.

E justamente por este caráter assistencial da Liga que Gustavo Peixoto escreveu seu artigo, encerrado com o apelo de que os sócios destinassem um auxílio pecuniário a Clarice Silva, viúva de Roberto, anciã que se via desprovida de amparo, a despeito do muito que seu marido representara para aquela instituição. E encerrou seu apelo dizendo:

Embora pequena esta pensão, para nós é grande, porque todos os meses temos na presença o nosso saudoso fundador e maior esta pensão é para vós, respeitável senhora, porque vereis nela que não somos ingratos, que temos na lembrança a figura sempre alegre e modesta do nosso Roberto. (...) Tenho dito!

Independente de ter sido o intento de Gustavo Peixoto atendido ou não, o fato é que as palavras que empregou em seu artigo ofereceram um facho de luz sobre a figura do Roberto da Música, já desbotada pelo tempo, o Roberto Silva que hoje dá nome a uma das ruas da cidade, pálida homenagem ao grande e discreto homem que foi.