Espaços urbanos

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Cine Teatro Coliseu - Renato F. Thomsen

domingo, 14 de julho de 2019

Um certo A. Saidenberg


Nos tempos que correm, a fotografia tornou-se uma atividade para lá de corriqueira, pois todo mundo, a qualquer hora do dia, está com a câmera de seu celular a postos para o próximo clique!

Mas houve tempos em que ela era para raros praticantes e poucos fotografados. Até a forma de referir o sujeito que praticava a fotografia tinha uma acepção mais artística: fotógrafo era retratista.

Em Cachoeira, os jornais mais antigos, como O Commercio (1900-1966), trazem notícias daqueles que se ofereciam para retratar pessoas e ambientes por temporadas. Estes profissionais, vindos de centros maiores, geralmente se hospedavam em lugar central para favorecer a atração da clientela. Esta prática provavelmente vinha desde meados do século XIX, quando as primeiras experiências com fotografia começaram a ter lugar por aqui.

Certamente a mais antiga fotografia existente em Cachoeira de que se tem conhecimento é a que registrou o Comendador Antônio Vicente da Fontoura e sua mulher Clarinda por volta de 1856, ou seja, quatro anos antes da morte do comendador. A fotografia é atribuída ao fotógrafo italiano radicado em Porto Alegre Luigi Terragno. Na bagagem deste conhecido profissional, que se deslocava pelo estado para executar sua arte, estão registros da cidade de Porto Alegre e do próprio Imperador Pedro II.

Antônio Vicente da Fontoura e Clarinda em foto atribuída a Luigi Terragno
- cerca de 1856 - Fototeca Museu Municipal
Muitas são as fotografias da Cachoeira antiga que suscitam curiosidade sobre quem teriam sido seus autores, uma vez que nem todos identificavam os seus ateliês. Portanto, associar fotógrafo ao trabalho é tarefa desafiadora e extremamente recompensadora quando se torna possível.

Notas fiscais do Photo-Atelier de A. Saidenberg, preservadas no acervo documental do Arquivo Histórico, referem séries fotográficas feitas pelo profissional na Praça José Bonifácio, quando de sua reestruturação e embelezamento, e das obras de saneamento, todas em meados da década de 1920, numa rara oportunidade de associação do "criador" à "criatura".

Nota do Photo-Atelier de A. Saidenberg - 14/4/1926
- Acervo documental do Arquivo Histórico - IM/RP/SF/D-Caixa 9

Uma das notas, emitida em 14 de abril de 1926, é sobre o serviço de 6 retratos da Praça José Bonifacio, ao custo de 30 mil réis. Das imagens produzidas por A. Saidenberg, salvo outra prova documental que surja, provavelmente uma delas pode ter sido esta:


Vista de uma das quinas da Praça José Bonifácio já remodelada - 1926

A outra nota, desta vez emitida por A. Saidenberg para a Intendência em 4 de novembro daquele mesmo ano, discrimina o serviço de 32 retratos das Obras de Saneamento em construcção, ao custo de 3.500 réis cada. Esta série de fotos está reproduzida na íntegra em um álbum do arquivo particular de Joaquim Vidal, existente no acervo do Arquivo Histórico.

Eis algumas das fotografias e a nota fiscal em questão:


Nota fiscal emitida em 4/11/1926
Acervo documental do Arquivo Histórico - IM/RP/SF/D-Caixa 13

Depósito do material das obras de saneamento

Construção da casa dos filtros - 2.ª Hidráulica



Tanque alemão

Poço de captação

Construção do R2 - na atual Praça Borges de Medeiros
As fotos foram feitas durante e ao término das obras da segunda hidráulica, onde estavam incluídos o Château d'Eau e o R2 da atual Praça Borges de Medeiros.

As fotos produzidas por A. Saidenberg muito mais do que retratos, são verdadeiros documentos de uma das mais efervescentes e progressistas eras da história de Cachoeira do Sul. Atribuir autoria a elas confere-lhes ainda um maior valor histórico.

Observe a animação produzida pelo fotógrafo Renato F. Thomsen em foto atribuída a A. Saidenberg feita na Rua Sete de Setembro, 1926 (programa Pixaloop).



Nota: ofereço esta postagem à colega Neiva Köhler que coloca na minha mão estes preciosos documentos.