Espaços urbanos

Espaços urbanos
Château d'Eau - Méia Albuquerque

domingo, 18 de outubro de 2020

Château d'Eau - 95 anos!

No dia 18 de outubro de 1925, depois de meses de obras, foi feita a experiência oficial de funcionamento da 2.ª Hidráulica, da qual fazia parte, como reservatório elevado, o CHÂTEAU D'EAU, nosso principal e mais referenciado cartão-postal. 

Construção do Château d'Eau - Coleção Joaquim Vidal

A experiência foi relatada em ata e como que a dar dimensão ao que o Château d'Eau se tornaria para os cachoeirenses, o livro em que foi assentado aquele momento solene foi o mesmo utilizado para fazer o registro da instalação da Vila Nova de São João da Cachoeira, conhecido como Livro 1..º da Câmara Municipal.

Constaram da ata as seguintes anotações:

Aos dezoito dias do mês de outubro de mil novecentos e vinte e cinco, nesta cidade de Cachoeira, Estado do Rio Grande do Sul, no edifício da Hidráulica Municipal, situado nas proximidades do quartel do 3.º Batalhão de Engenharia, à margem esquerda do rio Jacuí, ali presentes o Dr. João Neves da Fontoura (...), autoridades, funcionários federais, estaduais e municipais, associações civis e religiosas, pessoas gradas e grande massa popular, foi feita a experiência oficial das máquinas, filtros e demais obras de que se compõe a Hidráulica Municipal, as quais, postas em execução, deram excelentes resultados.

O jornal O Commercio, edição de 4 de novembro de 1925, descreve as instalações da 2.ª Hidráulica,, dentre elas o Château d'Eau:

Château d'Eau - O Château d'Eau, situado no largo da Praça Dr. Balthazar de Bem, defronte ao edifício da Municipalidade, acha-se também concluído, apresentando belo aspecto arquitetônico, concorrendo muito para o embelezamento da cidade. A parte arquitetônica foi projetada pelo engenheiro Walter Jobim e a parte de cálculo e estabilidade pelo engenheiro chefe da Comissão de Saneamento do Estado, Dr. Antonio de Siqueira. As obras de escultura, constante de estátuas e grupos de ninfas e sereiais que circundam o Château d'Eau, foram executadas nas oficinas de Vicente Friedrichs, de Porto Alegre, sob a direção do professor Giuseppe Gaudenzi.. O fim deste Château d'Eau é o de levar a água por gravidade ao reservatório de distribuição à Rua Júlio de Castilhos, e regular ao mesmo tempo a pressão da água nas zonas mais elevadas.

Château d'Eau e a Igreja Matriz - Museu Municipal

Uma obra construída para o aperfeiçoamento da distribuição de água na cidade extrapolou sua função original (aliás nem exercida mais) para se transformar no maior ícone urbano. Cachoeira do Sul se reconhece e é reconhecida por ser a terra do Château d'Eau - o lindo castelo das nossas águas. 


Château d'Eau - Mirian Ritzel


Vista aérea do Château d'Eau - Renato Thomsen

segunda-feira, 12 de outubro de 2020

União de Moços Católicos

AOS MOÇOS DE CACHOEIRA! 

Com este chamamento o Pe. Luiz Scortegagna, Floriano Neves da Fontoura, Manoel Fialho de Vargas, Octacilio Ribas, Jary C. de Abreu, Souto Menor, Manoel Carvalho de Abreu e Miguel Fachin conclamaram a mocidade a se unir para a fundação da União de Moços Católicos em Cachoeira e participar de uma reunião no Conservatório de Música com esta finalidade. Funcionava o Conservatório de Música na Rua Sete de Setembro, sede do Clube Renascença.


Pe. Luiz Scortegagna - Museu Municipal

Clube Renascença - Rua Sete de Setembro - Benjamin Camozato

A reunião preparatória para a fundação ocorreu no dia 14 de setembro de 1924, com o objetivo de congregar moços para orientá-los nos princípios cristãos e sociais, treinar suas faculdades intelectuais e incentivar o civismo, afinal o lema da entidade, cuja existência se firmava em outros estados do Brasil, era "Deus e Pátria". Apesar do domingo chuvoso, um grande número de jovens atendeu ao convite, ouvindo palestra sobre os propósitos da União de Moços Católicos proferida pelo Pe. Geraldo Pires, que discorreu sobre ações desenvolvidas pelas congêneres recentemente fundadas em São Paulo, Minas Gerais, Maranhão e Rio de Janeiro.

A fundação oficial da União de Moços Católicos de Cachoeira, a primeira do interior do estado do Rio Grande do Sul, se deu em 12 de outubro de 1924 e foi assim noticiada pelo jornal O Commercio, edição do dia 15:

A BRILHANTE FUNDAÇÃO DA UNIÃO DE MOÇOS CATÓLICOS

Domingo passado, dia da descoberta da América, foi solenemente fundada a União de Moços Católicos desta localidade. O Clube Renascença, gentilmente cedido pelo seu presidente, estava repleto de cavalheiros, gentis senhoritas e moços de nossa sociedade. Cachoeira primou na fidalguia de sua representação. Às 8 horas, abria o revmo. Padre Luiz Scortegagna, na qualidade de presidente honorário, a sessão solene, dando a palavra ao revmo. Padre Geraldo Pires de Souza, missionário redentorista.

Sob salvas de palmas, levantou-se, então, o Padre Pires e discorreu sobre os fins da União, dizendo que vinha, em nome do Conselho Superior de Belo Horizonte, aceitar o compromisso da diretoria a ser empossada. Comparou sua revma. os moços às energias perdidas das nossas cachoeiras, das nossas minas, das nossas florestas e da nossa terra. Disse que era preciso reunir a mocidade a exemplo do que se faz em outros países da Europa e da América. Porém a força da mocidade só serviria para reformar o Brasil, caso estivesse encaminhada pela prudência e graça da Igreja Católica. O lema "Deus e Pátria", expôs sua revma.; pretende realizar no Brasil essa reunião de energias latentes nos arroubos juvenis. Terminou convidando os presentes membros da diretoria a prestarem o compromisso.

Em nome de todos, o Sr. Jary Carvalho de Abreu pronunciou o seguinte juramento, levantando-se toda a plateia: “Juro ser católico apostólico romano e não pertencer a nenhuma seita proibida pela Igreja Católica. Prometo trabalhar pela grandeza e desenvolvimento da União de Moços Católicos, prestando obediência a seus estatutos”. Os demais membros da diretoria repetiram as palavras de juramento e promessa.

(...)

A diretoria empossada ficou assim constituída: presidente, Jary C. de Abreu; vice-presidente, Octacilio Ribas; tesoureiro, Nicolau Salzano; 1.º secretário, Manoel C. de Abreu; 2.º secretário, Achylles Figueiredo; orador oficial, Dr. Joaquim Borges de Medeiros; bibliotecário, João Weinmann; sindicante, Manoel Fialho de Vargas.

Exercendo seu cargo, o Sr. Presidente convidou os sócios presentes ao juramento de praxe, lendo-o, em nome e com aprovação dos demais, o Sr. Manoel Fialho. Declarados aceitos pelo presidente, os senhores sócios (40 era o seu número) receberam o emblema da União, que lhes foi colocado à lapela por gentis senhoritas e exmas. senhoras e cavalheiros.

(...)

A inauguração contou com a participação de outros grupos católicos e teve horas de arte muito apreciadas e elogiadas pela matéria do jornal. 

Em 12 de maio de 1925, a União de Moços Católicos adquiriu o prédio do Clube Renascença, que vinha ocupando desde a sua fundação, e em 3 de outubro de 1980, já sem o funcionamento regular, doou-o para a Mitra Diocesana de Santa Maria. Hoje a fachada do antigo prédio erguido por José Custódio Coelho Leal em 1850 emoldura o Residencial União de Moços, marcando com seu nome uma história que segue ainda como referência para indicação e localização do belo e histórico endereço da Rua Sete de Setembro.

Antiga sede da União de Moços Católicos - Renato Thomsen


Estátuas do frontão - Renato Thomsen

O principal propósito da União de Moços Católicos, que era formar uma intelectualidade calcada nos ensinamentos do catolicismo para galgar postos de liderança, se traduz numa personalidade: Liberato Salzano Vieira da Cunha. Moço católico com passagem marcante dentro da entidade, Liberato desempenhou funções de relevo primeiro em Cachoeira, sua terra natal, onde foi o prefeito mais jovem da história, e no Rio Grande do Sul, quando a morte o colheu no exercício do cargo de Secretário de Educação. Não fosse o desaparecimento precoce, Liberato Salzano Vieira da Cunha teria facilmente chegado a governador do estado.

Outros moços alcançaram destaque na sociedade local alicerçados pelo convívio na União de Moços. Mas foi Liberato, sem dúvida, um exemplo profícuo e completo dos ideais unionistas para a posteridade.

Liberato Salzano Vieira da Cunha
- Museu Municipal

sábado, 3 de outubro de 2020

Ossos na Praça da Conceição

Houve um tempo em que a Praça Dr. Balthazar de Bem era chamada de Praça da Conceição, em virtude de ficar fronteira ao largo da Igreja Matriz Nossa Senhora da Conceição. Por essa época, era ainda desprovida do Château d'Eau, ocupante do canteiro central dos três que a constituem hoje.


Igreja Matriz Nossa Senhora da Conceição
- Museu Municipal

A praça sofreu várias modificações ao longo de sua história, algumas delas comprobatórias de que uma grande extensão do terreno que rodeava a igreja havia sido utilizada para sepultamento dos mortos. 

Em 7 de janeiro de 1890, época em que a Cidade da Cachoeira era dirigida por um grupo de cidadãos - a chamada Junta Municipal ou Comissão Administrativa dos Negócios do Município*- , houve uma reunião em que foi discutido o macabro resultado de aterros realizados na Praça da Conceição, expondo à população restos mortais dos antigos sepultamentos procedidos ali. 

Os constantes aterros, principiados ainda na década de 1850 pelo então construtor português José Ferreira Neves, tinham por intuito nivelar o terreno da praça em relação à Igreja Matriz. Ao contrário do que é hoje, a igreja ficava num platô mais elevado em relação à praça, o que foi resolvido depois de várias e trabalhosas intervenções. Como prova disso, o acesso à igreja se dá por degraus.


Praça Dr. Balthazar de Bem, antiga Praça da Conceição
- Renato F. Thomsen


No início de 1890, assustados com o estado deplorável da praça após mais uma obra de aterramento, os membros da comissão administrativa oficiaram ao delegado de polícia na expectativa de resolverem a situação:

"Ilmo. Sr. Achando-se a descoberto na praça denominada da Conceição, nesta cidade, grande quantidade de assamenta humana, visto ter ali sido outrora cemitério, esta Comissão pede-vos para que ordeneis o emprego dos presos da cadeia na remoção da dita ossamenta, com cujo procedimento prestareis um importante serviço pelo qual se antecipa esta administração agradecendo-vos." Assinaram o ofício encaminhado ao delegado Olympio Coelho Leal os cidadãos J. Ferreira B. e Silva, Isidoro Neves da Fontoura e Antonio Nelson da Cunha. 

Em 1896, novas obras de aterro e calçamento foram realizadas e, dois anos depois, em razão dos animais que pastavam os jardins da praça, inutilizando qualquer tipo de iniciativa no sentido de melhorar o aspecto daquele logradouro, o intendente David Soares de Barcellos autorizou o pagamento da última etapa do serviço de muramento dos jardins da Praça da Conceição. O custo da obra foi de 130 mil réis, cabendo a Bruttus Machado a sua execução.**


Jardim norte da |Praça da Conceição - defronte ao Império do Divino
- Museu Municipal

A Praça da Conceição permaneceu murada por mais de 20 anos. Em janeiro de 1921, os muros e as grades que cercavam o jardim do lado norte da praça, ou seja, o que ficava fronteiro ao prédio do Império do Divino Espírito Santo começaram a ser removidos. Os materiais foram aproveitados para levantar os muros no entorno do terreno da Hidráulica Municipal, cuja inauguração ocorreu em 20 de setembro daquele ano. Parte do muro original e das grades encontra-se lá até hoje.


Muros e grades removidos em 1921 - Museu Municipal



Primeira hidráulica - Grande Álbum de Cachoeira,
de Benjamin Camozato


A prática regular de sepultamentos na Igreja Matriz e em seu entorno desde a inauguração do templo, acumularam grande quantidade de restos humanos. A cada obra nas imediações, o material se revelava, causando dores de cabeça às autoridades e distintos sentimentos na população.

*A instituição de uma Comissão Administrativa ou Junta Municipal foi a solução encontrada para garantir a administração dos municípios logo depois da proclamação da República (15 de novembro de 1889) e perdurou até 1892.

**Comprovado por documento do acervo do Arquivo Histórico - IM/RP/SF/D-039, fl. 506.

segunda-feira, 7 de setembro de 2020

A derradeira viagem de Silveira Martins


Gaspar Silveira Martins foi uma das maiores lideranças políticas do Rio Grande do Sul. Quando ele morreu, em 23 de julho de 1901, achava-se exilado em Montevidéu, no Uruguai, desde que a revolução federalista terminara em 1895. A repercussão de seu desaparecimento foi grande, ceifando dos federalistas o seu maior vulto. De deputado provincial ao tempo do Império, Gaspar Martins chegou a senador da República, sempre loquaz na defesa de suas ideias liberais.

Gaspar da Silveira Martins
worthpoint.com

O que poucos sabem é que há 100 anos os despojos do grande tribuno passaram por Cachoeira, a caminho de seu destino – o mausoléu da família na Catedral de São Sebastião, em Bagé. O pedido de traslado dos restos mortais foi feito pelos membros do Partido Federalista, que queriam dar repouso ao seu líder em terras rio-grandenses.

Catedral de São Sebastião - Bagé - RS
jornalminuano.com.br

Os despojos foram embarcados no porto de Montevidéu, seguindo até Rio Grande, de onde, por via férrea, percorreram várias cidades do estado, dentre elas Cachoeira. Em cada cidade, a passagem foi marcada por atos solenes, ficando esquecidas as antigas desavenças políticas e prevalecendo o respeito ao homem público que foi Gaspar Silveira Martins.

O jornal O Commercio, em sua edição de 1.º de setembro de 1920, à página 3, traz a seguinte nota:

Conselheiro Gaspar Martins. Segundo boletim distribuído pelo diretório do Partido Federalista local, deviam ter chegado ontem, procedentes de Porto Alegre e com destino a Bagé, os despojos mortais do grande tribuno rio-grandense Gaspar da Silveira Martins. Nesse boletim eram convidados os correligionários, amigos e admiradores do grande morto, bem como o comércio, estabelecimentos bancários, sociedades locais, autoridades civis e militares, imprensa e povo para associarem-se às homenagens a serem tributadas ao corpo do grande orador extinto, homenagens constantes de recepção na estação, discurso oficial, exéquias solenes na Igreja Matriz e visitação ao corpo. A chegada dos despojos devia ser anunciada com uma hora de antecedência, pelo repique dos sinos do templo católico.

Na edição de 8 de setembro de 1920, em terceira página, o mesmo jornal relata a chegada dos despojos e os atos de homenagem que foram procedidos pelos cachoeirenses:

Conselheiro Gaspar Martins. Pelas cinco horas da tarde de 31 de agosto passou por esta cidade, procedente de Porto Alegre e com destino a Bagé, o trem especial que conduzia o corpo embalsamado do grande tribuno Gaspar Silveira Martins. Como dissemos na edição anterior, o diretório do Partido Federalista local havia convidado os correligionários, amigos e admiradores do morto, bem como o comércio, estabelecimentos bancários, sociedades locais, autoridades civis e militares, imprensa e povo para associarem-se às homenagens ao corpo do grande orador extinto. Quando repicaram os sinos da Igreja Matriz e o da Igreja Metodista, tendo o comércio cerrado as suas portas, começou a afluência de povo à estação ferroviária, onde pouco antes das 5 horas chegou o trem especial. Sobre o caixão que encerrava os despojos mortais do ilustre rio-grandense, uma comissão de senhoritas colocou diversos ramalhetes de flores naturais.

Estação Ferroviária de Cachoeira - Museu Municipal

Em nome do diretório federalista, o Sr. João de Barros Cassal produziu um brilhante discurso, rememorando a vida do chefe homenageado. Responde, agradecendo, o Sr. Dr. José Julio Silveira Martins, filho do finado. Compareceram às homenagens muitas excelentíssimas senhoras e senhoritas, e fizeram-se representar algumas associações locais.

Diversas coroas e ramalhetes foram colocados sobre o esquife, oferecidos pelo diretório do Partido Federalista, por seus correligionários e pelo Partido Republicano local. Uma comissão do Tiro de Guerra 254, composta dos sargentos João Fialho, Pedro Maurilio de Farias e Alcibiades Raymundo Corrêa compareceu à estação.

O diretório federalista de Caçapava fez-se representar pelos srs. Milton Alves Marques, Franklin Rodrigues de Oliveira, Mario Medeiros e Waldomiro Medeiros, que acompanharam o corpo até Santa Maria, cuja população realizou homenagens ao tribuno extinto.

O diretório do Partido Federalista de Cachoeira em 1920 era constituído pelo Capitão José Maria d’Almeida, presidente honorário, Amaro de Lima Borges, presidente efetivo, Cacilio Menezes, vice-presidente, Fabio A. Leitão, 1.º secretário, José Candido de Vargas, 2.º secretário, e Ismael José Pereira, tesoureiro. 

Fábio Leitão - 1.º secretário do Partido Federalista
- Museu Municipal


Ismael Pereira - tesoureiro do Partido Federalista
- Museu Municipal

domingo, 30 de agosto de 2020

A Vila nasceu endividada...

Quando a Vila Nova de São João da Cachoeira foi criada por Dom João VI, no texto do alvará com força de lei havia um parágrafo que determinava o seguinte:

O Ministro que for encarregado da ereção da dita Vila fará levantar o Pelourinho, casas da Câmara, Cadeia e mais Oficinas debaixo da inspeção da Mesa do Meu Desembargo do Paço, e à custa dos moradores da dita Vila e seu Termo.

Pela determinação, todas as providências para cumprir o ritual de instalação da Vila e os seus custos deveriam ser pagos pelos habitantes do lugar. Findas as cerimônias de instalação do município e os demais atos que se seguiram, ficaram registradas no Livro 1.º de Criação da Vila as seguintes contas a pagar:

Conta ao Ministro

Rubricas de 18 livros para a criação = com 4066 folhas a 30 réis - 121$980

Pelouros* - 8$000

             129$980

Ao Escrivão

Autos**, Rasa*** e Registro -1$290

Rasa do traslado dos termos da Criação no Livro que fica no Cartório da Ouvidoria  - 1$038

Fatura das Justiças - 2$400

Posses e juramentos - 1$200

Editais – 3 - $450 = 6$378

                                                                           136$358

Livro 1.º de Criação da Vila (CM/OF/TA-008) - Arquivo Histórico

Como se vê, a despesa total do nascimento da Vila importou em 266 mil 338 réis para o pagamento dos serviços de Joaquim Bernardino de Senna Ribeiro da Costa, o Ministro, e do escrivão que o acompanhou, de nome Antonio Jozé Soares de Campos, e está devidamente registrada nos documentos de instalação da Vila. Coube, pois, aos empossados vereadores e seus oficiais providenciarem nos meios legais para satisfazerem as despesas do ouvidor geral e seu escrivão, quitando a primeira dívida do novo município.


Assinatura de Joaquim Bernardino de Senna Ribeiro da Costa - Arquivo Histórico

*Pelouro: bola de cera em que era depositado o voto de cada eleitor.
**Autos: registros escritos de processos.
***Rasa: página manuscrita em processos e autos.

terça-feira, 4 de agosto de 2020

Cachoeira do Sul 200 anos #belaquesóela

Cachoeira do Sul chega aos seus 200 anos de instalação como município e o fotógrafo e publicitário Renato F. Thomsen, com o apoio do filho Maurício Thomsen, presenteia a aniversariante com um passeio pelas suas riquezas históricas, arquitetônicas e naturais. Ela, a aniversariante, se vê refletida sob todos os ângulos, redescobrindo-se em suas belezas e no lirismo de quem lhe olha com os olhos do coração. 

Parabéns, bicentenária Cachoeira do Sul! 

domingo, 2 de agosto de 2020

Série: Cachoeira Bicentenária - Primeiros vereadores

Quando a Vila Nova de São João da Cachoeira foi instalada, em 5 de agosto de 1820, um dos rituais cumpridos foi a eleição dos vereadores, homens probos que iriam dirigir os destinos do novo município. Aqueles eram tempos pré-independência do Brasil e, portanto, a conduta administrativa e as atribuições das autoridades eram ditadas pela legislação portuguesa.  

Segundo o livro História Administrativa, Judiciária e Eclesiástica do Rio Grande do Sul, de Amyr Borges Fortes e João B. S. Wagner, se compunham as Câmaras de um juiz, seu presidente nato, três ou quatro vereadores, segundo o foral ou costume da terra, (...) além de um escrivão, um procurador e, em alguns lugares, um tesoureiro. Todos estes membros tomavam o nome de oficiais da Câmara.

Joaquim Bernardino de Sena Ribeiro da Costa, Ouvidor Geral, Corregedor e Provedor da Comarca de São Pedro e Santa Catarina, foi a autoridade encarregada de proceder ao rito de instalação do município. Coube a ele e a seu escrivão, Antônio José Soares de Campos, organizarem, realizarem e publicarem a eleição dos três primeiros vereadores. Procedida a eleição, redigiram o auto de publicação do resultado:

(...) depois de se proceder à eleição na forma da lei, e sendo convocadas as pessoas da Nobreza e Povo da mesma, e na presença de todos, foi aberta e publicada pelo dito Ministro a eleição, e se achou estarem nomeados os seguintes = Para Vereadores João Soeiro de Almeida e Castro, Joaquim Gomes Pereira, Francisco José da Silva Moura, para Procurador Antônio Xavier da Silva, e saiu igualmente eleito para Tesoureiro da Câmara Francisco de Loreto.

Quem eram esses homens? Quais atribuições assumiram? 

O capitão-mor João Soeiro de Almeida e Castro, português de Lamego, nasceu por volta de 1760, filho do cavalheiro João Soeiros de Almeida e Castro e de Josefa Maria de Castro. Casou por duas vezes, sem descendência, falecendo em 6 de janeiro de 1822. Como era costume da época, foi sepultado no adro da Igreja Matriz, junto à porta do consistório do Santíssimo Sacramento. Na eleição, por ser o mais velho, saiu como vereador presidente.


Assinatura de João Soeiro de Almeida e Castro - Arquivo Histórico

O capitão Joaquim Gomes Pereira era natural de Porto Alegre, onde nasceu por volta de 1777, filho do alferes Manoel Gomes Pereira, do Rio de Janeiro, e da açoriana Maria Tereza de São José de Figueredo. Sua esposa, Luiza Joaquina da Natividade, era neta de João Pereira Fortes, um dos troncos das famílias cachoeirenses. O casal teve vários filhos. Além de vereador da primeira composição da Câmara Municipal, foi juiz e coletor das décimas urbanas. Seguiu na vereança, chegando à presidência da Câmara em 1829.


Assinatura de Joaquim Gomes Pereira - Arquivo Histórico

O português Francisco José da Silva Moura era natural da Freguesia de Santa Eulália da Palmeira, nascido por volta de 1787. Seus pais foram Raimundo José da Silva Moura e Joana Rosa. Casou com Joaquina Severa de Mendonça, com descendência. Depois da vereança, foi coletor das décimas urbanas e juiz. Era membro do Partido Português e durante a Revolução Farroupilha, perseguido pelos liberais, teve que fugir para Porto Alegre, de onde só retornou depois de terminada a refrega.

Assinatura de Francisco José da Silva Moura - Arquivo Histórico

O procurador eleito Antônio Xavier da Silva, também português de nascimento, era natural da cidade de Braga, onde foi batizado por volta de 1774. De todos os oficiais da Câmara, foi o que mais funções públicas desempenhou, tendo sido comandante da Vila e vereador por mais de uma vez. Em 1823, inaugurou o serviço do correio local. Era comerciante de vulto, mantendo casa de negócios na Rua da Igreja (Moron). De seu casamento com Catarina Maria de Jesus, houve vários filhos, dentre eles Gaspar Xavier da Silva, que foi genro do Comendador Antônio Vicente da Fontoura e pai do poeta Fontoura Xavier. Antônio Xavier da Silva faleceu em 22 de dezembro de 1848.


Assinatura de Antonio Xavier da Silva - Arquivo Histórico

O tesoureiro eleito Francisco de Loreto era natural de Laguna, onde nasceu em 1742, filho de Antônio de Loreto, de ascendência nobre, e Domingas Bicudo. Francisco de Loreto foi um dos primeiros moradores de Cachoeira, aonde chegou por volta de 1780, trazendo a mulher Rosa Luiza e o primeiro filho, Constantino. Foi o primeiro morador da rua que tomou seu nome - Rua do Loreto, hoje Sete de Setembro. 


Assinaturas do Auto de Criação da Vila
- Francisco de Loreto (à esquerda, a sexta)

Os vereadores e o procurador prestaram juramento perante o Ouvidor Geral, segundo as tradições, apondo sobre o evangelho cada um deles a sua mão direita, jurando verdadeiramente servir ao Rei e aos cargos para os quais haviam sido eleitos.

Desses homens que representaram em seus atos os anseios da Vila Nova de São João da Cachoeira, tomando para si a responsabilidade de conduzir o seu destino, resta hoje a lembrança em nomes de ruas do Bairro Soares. Suas assinaturas são as marcas da passagem pela vida pública, pois João, Joaquim e Francisco José viveram e atuaram em um tempo em que pouco ou nada restou de registro imagético.

O tempo varre os homens e seus atos. Cabe à História recuperar suas memórias.

domingo, 12 de julho de 2020

Série: Cachoeira Bicentenária - Primeira ponte


A primeira ponte erguida em Cachoeira casualmente também é a primeira do Rio Grande do Sul em seu estilo construtivo. Trata-se da Ponte do Botucaraí, mais conhecida como Ponte de Pedra. Sua construção foi de vital importância para estabelecer a ligação da Vila Nova de São João da Cachoeira com a Vila de Rio Pardo e, a partir dela, com Porto Alegre, aproveitando a existência do Passo Real do Botucaraí.

Ponte de Pedra (março de 1955) - Família Friedrich

A história da construção da Ponte de Pedra foi longa e interrompida pelo decênio farroupilha, momento histórico conturbado e de desaceleração do desenvolvimento da província.

A primeira referência a ela surgiu em 19 de maio de 1832, quando o presidente da Câmara de Cachoeira, José Custódio Coelho Leal, apresentou aos demais vereadores uma correspondência do presidente da província, Manoel Antônio Galvão, determinando a elaboração da planta da ponte. A partir disso, teve início uma série de tratativas entre o governo municipal e o provincial no acerto de quais seriam as etapas e as atribuições de cada um para a execução da obra. Quase um ano depois, em 18 de abril de 1833, a Câmara de Cachoeira oficiou ao engenheiro da província, João Martinho Buff, solicitando que elaborasse a planta da ponte. Entre abril de 1833 e setembro de 1835, quando estourou a Revolução Farroupilha, cessaram notícias sobre a obra.

Passados os dez anos da revolução e mais algum tempo, em 5 de junho de 1847, novamente o presidente da província, casualmente o mesmo Manoel Antônio Galvão, pediu a planta da ponte e, em 15 de setembro, recebeu-a junto com o orçamento da construção. No dia 5 de outubro, na abertura da Assembleia Legislativa Provincial, ele apresentou a seguinte informação:

Ponte do Passo Real do Botucaraí. A planta desta ponte encomendada pela Lei nº 33, de 5 de maio de 1846, foi concluída. Ser-vos-á apresentada, bem como o orçamento na importância de Rs. 36:994$720.

Vencidos os trâmites burocráticos, a obra teve início sob o comando de Manoel Fialho de Vargas Filho, empreiteiro que a arrematou pela quantia de 46 contos e oitocentos mil réis e assinou o contrato de execução em 10 de janeiro de 1848.

Em 28 de outubro de 1848, um ofício do Capitão Engenheiro Ajudante do Chefe dos Engenheiros da Comarca, João Pedro de Gusmão Mariz, dava conta ao seu superior que havia feito exame na ponte, informando que “se acha concluída conforme a planta e contrato feito pelo arrematante e me parece estar construída com toda a solidez, visto que tem passado carretas e tropas de gado e não tendo havido até o presente indício de ruína.”

A Ponte de Pedra passou pela história e seguirá testemunhando histórias graças às ações de um grupo de voluntários que em 2010 salvaram-na da destruição. E hoje, ainda que desafie o tempo e as adversidades, segue bela, forte e deleitando os apreciadores das obras do passado e os banhistas nos dias quentes de verão. 

Em 2014, por decisão do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico do Estado - IPHAE, foi tombada como patrimônio histórico-cultural do Rio Grande do Sul.

Ponte de Pedra - Robispierre Giuliani
Ponte de Pedra - Renato Thomsen

Para saber mais sobre a salvação da Ponte de Pedra, acesse:


sábado, 4 de julho de 2020

Série: Cachoeira Bicentenária - Primeiro hospital


A primeira referência à instalação de um hospital em Cachoeira foi feita ainda no tempo da Vila Nova de São João da Cachoeira pelo vereador e também médico Dr. José Pereira da Silva Goulart. Sua proposta foi apresentada na sessão do dia 15 de outubro de 1846, e atendia ao disposto na Lei de 1.º de outubro de 1828, que estabelecia que as vilas providenciassem na criação de casas de caridade para dar assistência aos expostos* e aos doentes pobres. A instituição deveria se chamar Hospital de São João, mas não obteve aprovação dos demais vereadores, sendo arquivada.

Dr. José Pereira da Silva Goulart
- Acervo Família Vieira da Cunha

Quase vinte anos depois, quando o Imperador Pedro II visitou Cachoeira pela segunda vez, uma das coisas que chamou sua atenção na cidade foi a excelência do trabalho prestado pelo médico pernambucano Cristóvão José Vieira a 26 doentes distribuídos por “duas casas más, porém bem providas de tudo, leitos, colchões, cobertores, medicamentos, pratos de metal, talheres, etc.” Em razão disso, o Imperador sugeriu à Câmara que usasse o recém-aprontado prédio da Casa de Câmara, Júri e Cadeia como hospital, sendo transportados os doentes para lá quando “um dia mais quente permita expô-los ao ar”. 

Antiga Casa de Câmara, Júri e Cadeia - Foto Mirian Ritzel

O cirurgião-mor Cristóvão José Vieira foi reconhecido pelo Imperador que o nomeou diretor-chefe de todos os hospitais existentes ou a serem criados de Porto Alegre até a fronteira. Mas o Dr. Vieira não se afastou de Cachoeira enquanto não achou quem o substituísse. 

O sobrado da Casa de Câmara, Júri e Cadeia foi empregado como hospital militar para atendimento especialmente aos praças do Exército envolvidos com a Guerra do Paraguai, quase todos vitimados não pela guerra, mas pelas condições adversas do clima sulino. O uso não foi muito longo, eis que em novembro de 1865 os vereadores requisitaram ao Ministro da Guerra a devolução do prédio por estar ele sendo ocupado apenas por quatro doentes quase curados, o que foi feito.

Um intervalo de 38 anos separou a solicitação do Imperador da outra iniciativa para dotar a cidade finalmente de um hospital, ou asilo de caridade. Em 1903 o advogado Ernesto Barros publicou no jornal O Commercio um artigo intitulado “Apelo aos corações generosos”, em que conclamava a comunidade a unir esforços para a construção de um prédio que servisse de hospital. A recepção à ideia foi tamanha que em 23 de agosto daquele ano foi lançada a pedra fundamental do nosso primeiro hospital.

Dr. Ernesto Barros

A partir desse ato, muitas campanhas foram deflagradas junto à comunidade e muitos e de todos os tipos foram os auxílios. A obra coube ao construtor português Manoel Gomes Pereira que ergueu um sobrado de 52 palmos de frente por 103 de fundos. A inauguração ocorreu em 11 de dezembro de 1910.

O prédio do nosso primeiro hospital é tombado como patrimônio histórico do município e abriga hoje a Escola de Educação Profissional de Saúde do Hospital de Caridade. Dela já saíram muitos profissionais que estão distribuídos pelos mais diversos lugares do estado e até mesmo fora dele, honrando o profissionalismo demonstrado pelo quase desconhecido e esquecido cirurgião-mor Cristóvão José Vieira.

Escola Profissional de Saúde do HCB - Foto COMPAHC

 *Expostos: crianças abandonadas, enjeitadas.

sábado, 20 de junho de 2020

Série: Cachoeira Bicentenária - Primeiro templo


Do primeiro templo erguido em Cachoeira não resta nenhuma prova material. Os anais da história contam que em 1769, quando índios catequizados foram aldeados junto à margem esquerda do Jacuí, no lugar até hoje chamado de Aldeia, ergueram uma capela dedicada a São Nicolau. Acanhada, a capela foi construída de pau-a-pique e coberta com palha, atestando os limitados recursos de seus construtores.

Dez anos depois, o lugar foi elevado à condição de freguesia, adotando logo depois o nome de Nossa Senhora da Conceição da Cachoeira. A capela tomou proporção de maior abrangência e responsabilidade, passando a ser Igreja Matriz. São desta época os primeiros livros em que eram assentados os registros de batismos, casamentos e óbitos, a maior parte deles existente até hoje junto aos arquivos da Diocese de Cachoeira do Sul.

A capela original era modesta em dimensões e estrutura. Em 6 de outubro de 1793, foi lançada a pedra fundamental do novo templo que seria erguido em honra de Nossa Senhora da Conceição, junto à coxilha em que hoje se assenta a Praça Dr. Balthazar de Bem. A construção, coordenada pelas Irmandades de Nossa Senhora da Conceição e Santíssimo Sacramento, demorou seis anos e, embora inconclusa, foi inaugurada em 30 de setembro de 1799, com a transferência dos objetos litúrgicos da antiga capela da Aldeia.


Igreja Matriz projetada pelo militar Francisco João Róscio
- Museu Municipal

O projeto da igreja é atribuído ao militar Francisco João Róscio, autor também da Igreja de Nossa Senhora do Rosário de Rio Pardo. As obras arrastaram-se por décadas, sempre necessitando de reparos e acréscimos. Enquanto isto, algumas aquisições e melhorias foram sendo registradas, como uma lâmpada de prata chegada do Rio de Janeiro em 22 de maio de 1820, mesmo ano em que foi concluída a capela-mor.

Durante esse tempo, e mesmo na antiga capela da Aldeia, os mortos iam sendo sepultados no interior e no entorno da Igreja Matriz, prática corrente de então, o que demandava permanentes intervenções no templo.

No início da década de 1850, começaram tratativas para finalização da segunda torre, sendo para tal apresentada planta do engenheiro Frederico Heydtmann em 1853. Vinte anos depois, a frente da igreja precisava ser refeita com maior solidez, conforme registros das Irmandades. Todo o século XIX foi de obras e aquisições e, no ano de 1897, o Bispo D. Cláudio Ponce de Leão, depois de visita pastoral, finalmente teceu elogios ao estado geral da igreja.


Igreja Matriz no início do século XX - Museu Municipal

Torres da Igreja Matriz ao fundo - Coleção Aldo Schirmer

As maiores intervenções na Igreja Matriz foram feitas no correr do século XX, a começar pela grande reforma de 1929, quando toda a fachada foi alterada de forma a tornar mais rebuscada a arquitetura do velho templo. No início da década de 1960, uma radical reforma interior fez o contrário: tirou a beleza e suntuosidade da igreja, produzindo até hoje os lamentos de quem conheceu o seu esplendor.


Grande reforma de 1929 - Coleção Osni Schroeder


Em 1991, com a criação da Diocese de Cachoeira do Sul, a Igreja Matriz passou a ser Catedral Nossa Senhora da Conceição.

Mesmo tendo passado por tantas modificações ao longo de sua mais do que bicentenária história, a Catedral conserva ainda as fundações da velha Igreja Matriz do século XVIII, ostentando também, sem dúvida nenhuma, o título de edificação mais antiga de Cachoeira do Sul. 


Detalhe da Catedral - Mário H. Kämpf

domingo, 31 de maio de 2020

Série: Cachoeira Bicentenária - Primeiro teatro


Lá se vão 190 anos que o povo de Cachoeira, vanguardista e ousado, instalou um barracão junto à Praça da Igreja para nele funcionar um teatro, o primeiro do interior da então Província de São Pedro do Rio Grande do Sul. Com o passar do tempo, certamente o barracão foi recebendo melhorias, chegando sua imagem até nossos dias por uma antiga fotografia que há no Museu Municipal.

Teatro Cachoeirense ao lado da Intendência Municipal (atual Museu)
- Museu Municipal

A iniciativa do erguimento do teatro coube à classe caixeiral da Vila, ou dos comerciantes e empregados do comércio, atestando que este segmento foi muito forte e decisivo não somente para a arte e outras generalidades, mas para garantir status econômico e político a Cachoeira. A força dos caixeiros era notável, pois foram capazes de construir um teatro com capacidade para 500 espectadores, duas ordens de camarotes, cenário e teto elegantemente pintados.

Frente do Teatro Cachoeirense
- Museu Municipal

Na noite marcada para a inauguração, estando já cheio o teatro, um incômodo de saúde em um dos atores mudou o programa, sendo apresentado apenas um entremez, espécie de peça cômica e alegre. Ficou então marcada a noite de 25 de abril de 1830 para a inauguração oficial.

Chegado o grande momento, e estando o teatro lotado em sua capacidade, ocupavam os camarotes apenas as senhoras “ornadas de grande riqueza”. Na plateia, as autoridades e o “povo nobre”. Subiu então o pano do cenário, exibindo uma sala imperial atapetada, tendo ao fundo o retrato de Sua Majestade Imperial, D. Pedro I, “debaixo do precioso dossel e sobre um iluminado e rico trono”. Faziam guarda ao retrato os tenentes José Gomes Porto e Tristão da Cunha e Souza, além do alferes Antônio Xavier da Silva, com o estandarte da Câmara, posicionando-se os atores nos flancos da sala. Descortinado este cenário, o juiz de paz João Nunes da Silva, postado na plateia, deu vivas à Sua Majestade, à Imperatriz Leopoldina, à Constituição e à Assembleia dos brasileiros, ao que os atores, acompanhados de orquestra, entoaram um hino dedicado ao casal imperial e sua prole, findando essa introdução com vibrantes ovações.

Logo após, teve lugar a encenação da tragédia romana Virgínia e o entremez A filha teimosa com os livros, ficando registrada na ata que a Câmara Municipal lavrou sobre a inauguração que “enquanto o pano estava descido todas as famílias ocupavam-se em alegres conversações sobre Vossa Majestade Imperial e sobre a Constituição”. Ao encerramento da noite, todos saíram muito satisfeitos com a novidade. 

A Câmara deixou evidente a alegria quando registrou na referida ata de 27 de abril: “E posto que todos os moradores mereçam um extremo elogio por terem todos concorrido já com suas pessoas, já com quantias pecuniárias, não se pode, contudo, tirar a palma a Joaquim Corrêa de Oliveira e José Joaquim da Graça, principais diretores deste entusiasmo”.

Pela descrição da noite de 25 de abril, é notória a grande importância econômica e política da iniciativa do teatro, tendo em vista a maciça presença das famílias nobres e abastadas da Vila e das autoridades constituídas, com participação de personalidades históricas importantes na cena inaugural. Além do mais, o registro feito em ata dá a dimensão de acontecimento político-administrativo àquela memorável noite.

A história do prédio do Teatro Cachoeirense pode ser comprovada quando da construção do sobrado de Casa de Câmara, Júri e Cadeia (1861 a 1864), atual Museu Municipal, pois o terreno julgado próprio para a obra foi o que ficava “na Praça da Igreja Matriz no lado direito do Teatro, na esquina da Rua Travessa que segue em direção ao Passo do Amorim”, conforme registrado em documento da Câmara Municipal (CM/OF/A-005, fls. 324v e 325), do arranjo documental do Arquivo Histórico.

O primeiro teatro existiu provavelmente por mais de 60 anos. Poucas notícias há sobre ele, muito em razão de ter sido inaugurado anteriormente ao aparecimento de nosso primeiro jornal (O Cachoeirense, de 1879) e mesmo pela ausência de exemplares de outros jornais surgidos depois. No acervo de imprensa do Arquivo Histórico, há um raro exemplar do jornal Clarim, de 22 de maio de 1887, que traz o seguinte anúncio:

“Na próxima quinta-feira realiza-se, em nosso teatro, um espetáculo particular, constando do magnífico drama de Dumas Filho, O suplício de uma mulher, da comédia As coincidências e de uma poesia A vida do ator, recitada pelo ator Machado”.

Anúncio no O Clarim, de 22/5/1887 - Arquivo Histórico

Já o jornal Federalista, edição de 23 de janeiro de 1892, registra: “Em vista de terem sido tomadas assinaturas de todos os camarotes do nosso teatro, deve chegar de Santa Maria o nosso amigo e distinto ator Manoel da Nóbrega, acompanhado do simpático grupo de amadores santa-marienses que levarão à cena hoje e amanhã os dois esplêndidos dramas O anjo da meia-noite e Gonzaga ou a Revolução de Minas. O trabalho do Sr. Nóbrega e de seus auxiliares não carece de reclame, porque já é bem conhecido pela nossa plateia. Boa estada entre nós é o que desejamos a tão distintos hóspedes que nos vêm proporcionar algumas horas de recreio”.

Jornal Federalista - 23/1/1892
- Arquivo Histórico

No final do século XIX, o prédio foi demolido, sem muita clareza a respeito do que aconteceu. Até que, um contrato celebrado entre a Intendência Municipal e o construtor Francisco Miotti, em 7 de maio de 1906, jogou luz sobre a situação, esclarecendo qual havia sido seu fim. Para promover melhorias no prédio da Intendência, realocando secretarias no térreo, o intendente Isidoro Neves assinou contrato com Miotti para construção de um muro na “parede do lado Sul do teatro velho que foi incendiado”, aproveitando os mesmos tijolos nela empregados (IM/GI/AB/C-001).

Quais teriam sido as causas do incêndio? Quando teria se dado o sinistro? Tais perguntas por enquanto não têm resposta, mas também ajudam a explicar porque, poucos anos depois, novamente a cidade empenharia esforços, sob a liderança de David Soares de Barcellos, para erguer seu segundo teatro. 

Mas esta já é outra das tantas histórias da bicentenária Cachoeira do Sul.