Espaços urbanos

Espaços urbanos
Placa do 1.º Centenário - Catedral N. Sra. da Conceição - foto Elizabeth Thomsen

terça-feira, 4 de agosto de 2020

Cachoeira do Sul 200 anos #belaquesóela

Cachoeira do Sul chega aos seus 200 anos de instalação como município e o fotógrafo e publicitário Renato F. Thomsen, com o apoio do filho Maurício Thomsen, presenteia a aniversariante com um passeio pelas suas riquezas históricas, arquitetônicas e naturais. Ela, a aniversariante, se vê refletida sob todos os ângulos, redescobrindo-se em suas belezas e no lirismo de quem lhe olha com os olhos do coração. 

Parabéns, bicentenária Cachoeira do Sul! 

domingo, 2 de agosto de 2020

Série: Cachoeira Bicentenária - primeiros vereadores

Quando a Vila Nova de São João da Cachoeira foi instalada, em 5 de agosto de 1820, um dos rituais cumpridos foi a eleição dos vereadores, homens probos que iriam dirigir os destinos do novo município. Aqueles eram tempos pré-independência do Brasil e, portanto, a conduta administrativa e as atribuições das autoridades eram ditadas pela legislação portuguesa.  

Segundo o livro História Administrativa, Judiciária e Eclesiástica do Rio Grande do Sul, de Amyr Borges Fortes e João B. S. Wagner, se compunham as Câmaras de um juiz, seu presidente nato, três ou quatro vereadores, segundo o foral ou costume da terra, (...) além de um escrivão, um procurador e, em alguns lugares, um tesoureiro. Todos estes membros tomavam o nome de oficiais da Câmara.

Joaquim Bernardino de Sena Ribeiro da Costa, Ouvidor Geral, Corregedor e Provedor da Comarca de São Pedro e Santa Catarina, foi a autoridade encarregada de proceder ao rito de instalação do município. Coube a ele e a seu escrivão, Antônio José Soares de Campos, organizarem, realizarem e publicarem a eleição dos três primeiros vereadores. Procedida a eleição, redigiram o auto de publicação do resultado:

(...) depois de se proceder à eleição na forma da lei, e sendo convocadas as pessoas da Nobreza e Povo da mesma, e na presença de todos, foi aberta e publicada pelo dito Ministro a eleição, e se achou estarem nomeados os seguintes = Para Vereadores João Soeiro de Almeida e Castro, Joaquim Gomes Pereira, Francisco José da Silva Moura, para Procurador Antônio Xavier da Silva, e saiu igualmente eleito para Tesoureiro da Câmara Francisco de Loreto.

Quem eram esses homens? Quais atribuições assumiram? 

O capitão-mor João Soeiro de Almeida e Castro, português de Lamego, nasceu por volta de 1760, filho do cavalheiro João Soeiros de Almeida e Castro e de Josefa Maria de Castro. Casou por duas vezes, sem descendência, falecendo em 6 de janeiro de 1822. Como era costume da época, foi sepultado no adro da Igreja Matriz, junto à porta do consistório do Santíssimo Sacramento. Na eleição, por ser o mais velho, saiu como vereador presidente.


Assinatura de João Soeiro de Almeida e Castro - Arquivo Histórico

O capitão Joaquim Gomes Pereira era natural de Porto Alegre, onde nasceu por volta de 1777, filho do alferes Manoel Gomes Pereira, do Rio de Janeiro, e da açoriana Maria Tereza de São José de Figueredo. Sua esposa, Luiza Joaquina da Natividade, era neta de João Pereira Fortes, um dos troncos das famílias cachoeirenses. O casal teve vários filhos. Além de vereador da primeira composição da Câmara Municipal, foi juiz e coletor das décimas urbanas. Seguiu na vereança, chegando à presidência da Câmara em 1829.


Assinatura de Joaquim Gomes Pereira - Arquivo Histórico

O português Francisco José da Silva Moura era natural da Freguesia de Santa Eulália da Palmeira, nascido por volta de 1787. Seus pais foram Raimundo José da Silva Moura e Joana Rosa. Casou com Joaquina Severa de Mendonça, com descendência. Depois da vereança, foi coletor das décimas urbanas e juiz. Era membro do Partido Português e durante a Revolução Farroupilha, perseguido pelos liberais, teve que fugir para Porto Alegre, de onde só retornou depois de terminada a refrega.

Assinatura de Francisco José da Silva Moura - Arquivo Histórico

O procurador eleito Antônio Xavier da Silva, também português de nascimento, era natural da cidade de Braga, onde foi batizado por volta de 1774. De todos os oficiais da Câmara, foi o que mais funções públicas desempenhou, tendo sido comandante da Vila e vereador por mais de uma vez. Em 1823, inaugurou o serviço do correio local. Era comerciante de vulto, mantendo casa de negócios na Rua da Igreja (Moron). De seu casamento com Catarina Maria de Jesus, houve vários filhos, dentre eles Gaspar Xavier da Silva, que foi genro do Comendador Antônio Vicente da Fontoura e pai do poeta Fontoura Xavier. Antônio Xavier da Silva faleceu em 22 de dezembro de 1848.


Assinatura de Antonio Xavier da Silva - Arquivo Histórico

O tesoureiro eleito Francisco de Loreto era natural de Laguna, onde nasceu em 1742, filho de Antônio de Loreto, de ascendência nobre, e Domingas Bicudo. Francisco de Loreto foi um dos primeiros moradores de Cachoeira, aonde chegou por volta de 1780, trazendo a mulher Rosa Luiza e o primeiro filho, Constantino. Foi o primeiro morador da rua que tomou seu nome - Rua do Loreto, hoje Sete de Setembro. 


Assinaturas do Auto de Criação da Vila
- Francisco de Loreto (à esquerda, a sexta)

Os vereadores e o procurador prestaram juramento perante o Ouvidor Geral, segundo as tradições, apondo sobre o evangelho cada um deles a sua mão direita, jurando verdadeiramente servir ao Rei e aos cargos para os quais haviam sido eleitos.

Desses homens que representaram em seus atos os anseios da Vila Nova de São João da Cachoeira, tomando para si a responsabilidade de conduzir o seu destino, resta hoje a lembrança em nomes de ruas do Bairro Soares. Suas assinaturas são as marcas da passagem pela vida pública, pois João, Joaquim e Francisco José viveram e atuaram em um tempo em que pouco ou nada restou de registro imagético.

O tempo varre os homens e seus atos. Cabe à História recuperar suas memórias.

domingo, 12 de julho de 2020

Série: Cachoeira Bicentenária - Primeira ponte


A primeira ponte erguida em Cachoeira casualmente também é a primeira do Rio Grande do Sul em seu estilo construtivo. Trata-se da Ponte do Botucaraí, mais conhecida como Ponte de Pedra. Sua construção foi de vital importância para estabelecer a ligação da Vila Nova de São João da Cachoeira com a Vila de Rio Pardo e, a partir dela, com Porto Alegre, aproveitando a existência do Passo Real do Botucaraí.

Ponte de Pedra (março de 1955) - Família Friedrich

A história da construção da Ponte de Pedra foi longa e interrompida pelo decênio farroupilha, momento histórico conturbado e de desaceleração do desenvolvimento da província.

A primeira referência a ela surgiu em 19 de maio de 1832, quando o presidente da Câmara de Cachoeira, José Custódio Coelho Leal, apresentou aos demais vereadores uma correspondência do presidente da província, Manoel Antônio Galvão, determinando a elaboração da planta da ponte. A partir disso, teve início uma série de tratativas entre o governo municipal e o provincial no acerto de quais seriam as etapas e as atribuições de cada um para a execução da obra. Quase um ano depois, em 18 de abril de 1833, a Câmara de Cachoeira oficiou ao engenheiro da província, João Martinho Buff, solicitando que elaborasse a planta da ponte. Entre abril de 1833 e setembro de 1835, quando estourou a Revolução Farroupilha, cessaram notícias sobre a obra.

Passados os dez anos da revolução e mais algum tempo, em 5 de junho de 1847, novamente o presidente da província, casualmente o mesmo Manoel Antônio Galvão, pediu a planta da ponte e, em 15 de setembro, recebeu-a junto com o orçamento da construção. No dia 5 de outubro, na abertura da Assembleia Legislativa Provincial, ele apresentou a seguinte informação:

Ponte do Passo Real do Botucaraí. A planta desta ponte encomendada pela Lei nº 33, de 5 de maio de 1846, foi concluída. Ser-vos-á apresentada, bem como o orçamento na importância de Rs. 36:994$720.

Vencidos os trâmites burocráticos, a obra teve início sob o comando de Manoel Fialho de Vargas Filho, empreiteiro que a arrematou pela quantia de 46 contos e oitocentos mil réis e assinou o contrato de execução em 10 de janeiro de 1848.

Em 28 de outubro de 1848, um ofício do Capitão Engenheiro Ajudante do Chefe dos Engenheiros da Comarca, João Pedro de Gusmão Mariz, dava conta ao seu superior que havia feito exame na ponte, informando que “se acha concluída conforme a planta e contrato feito pelo arrematante e me parece estar construída com toda a solidez, visto que tem passado carretas e tropas de gado e não tendo havido até o presente indício de ruína.”

A Ponte de Pedra passou pela história e seguirá testemunhando histórias graças às ações de um grupo de voluntários que em 2010 salvaram-na da destruição. E hoje, ainda que desafie o tempo e as adversidades, segue bela, forte e deleitando os apreciadores das obras do passado e os banhistas nos dias quentes de verão. 

Em 2014, por decisão do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico do Estado - IPHAE, foi tombada como patrimônio histórico-cultural do Rio Grande do Sul.

Ponte de Pedra - Robispierre Giuliani
Ponte de Pedra - Renato Thomsen

Para saber mais sobre a salvação da Ponte de Pedra, acesse:


sábado, 4 de julho de 2020

Série: Cachoeira Bicentenária - Primeiro hospital


A primeira referência à instalação de um hospital em Cachoeira foi feita ainda no tempo da Vila Nova de São João da Cachoeira pelo vereador e também médico Dr. José Pereira da Silva Goulart. Sua proposta foi apresentada na sessão do dia 15 de outubro de 1846, e atendia ao disposto na Lei de 1.º de outubro de 1828, que estabelecia que as vilas providenciassem na criação de casas de caridade para dar assistência aos expostos* e aos doentes pobres. A instituição deveria se chamar Hospital de São João, mas não obteve aprovação dos demais vereadores, sendo arquivada.

Dr. José Pereira da Silva Goulart
- Acervo Família Vieira da Cunha

Quase vinte anos depois, quando o Imperador Pedro II visitou Cachoeira pela segunda vez, uma das coisas que chamou sua atenção na cidade foi a excelência do trabalho prestado pelo médico pernambucano Cristóvão José Vieira a 26 doentes distribuídos por “duas casas más, porém bem providas de tudo, leitos, colchões, cobertores, medicamentos, pratos de metal, talheres, etc.” Em razão disso, o Imperador sugeriu à Câmara que usasse o recém-aprontado prédio da Casa de Câmara, Júri e Cadeia como hospital, sendo transportados os doentes para lá quando “um dia mais quente permita expô-los ao ar”. 

Antiga Casa de Câmara, Júri e Cadeia - Foto Mirian Ritzel

O cirurgião-mor Cristóvão José Vieira foi reconhecido pelo Imperador que o nomeou diretor-chefe de todos os hospitais existentes ou a serem criados de Porto Alegre até a fronteira. Mas o Dr. Vieira não se afastou de Cachoeira enquanto não achou quem o substituísse. 

O sobrado da Casa de Câmara, Júri e Cadeia foi empregado como hospital militar para atendimento especialmente aos praças do Exército envolvidos com a Guerra do Paraguai, quase todos vitimados não pela guerra, mas pelas condições adversas do clima sulino. O uso não foi muito longo, eis que em novembro de 1865 os vereadores requisitaram ao Ministro da Guerra a devolução do prédio por estar ele sendo ocupado apenas por quatro doentes quase curados, o que foi feito.

Um intervalo de 38 anos separou a solicitação do Imperador da outra iniciativa para dotar a cidade finalmente de um hospital, ou asilo de caridade. Em 1903 o advogado Ernesto Barros publicou no jornal O Commercio um artigo intitulado “Apelo aos corações generosos”, em que conclamava a comunidade a unir esforços para a construção de um prédio que servisse de hospital. A recepção à ideia foi tamanha que em 23 de agosto daquele ano foi lançada a pedra fundamental do nosso primeiro hospital.

Dr. Ernesto Barros

A partir desse ato, muitas campanhas foram deflagradas junto à comunidade e muitos e de todos os tipos foram os auxílios. A obra coube ao construtor português Manoel Gomes Pereira que ergueu um sobrado de 52 palmos de frente por 103 de fundos. A inauguração ocorreu em 11 de dezembro de 1910.

O prédio do nosso primeiro hospital é tombado como patrimônio histórico do município e abriga hoje a Escola de Educação Profissional de Saúde do Hospital de Caridade. Dela já saíram muitos profissionais que estão distribuídos pelos mais diversos lugares do estado e até mesmo fora dele, honrando o profissionalismo demonstrado pelo quase desconhecido e esquecido cirurgião-mor Cristóvão José Vieira.

Escola Profissional de Saúde do HCB - Foto COMPAHC

 *Expostos: crianças abandonadas, enjeitadas.

sábado, 20 de junho de 2020

Série: Cachoeira Bicentenária - Primeiro templo


Do primeiro templo erguido em Cachoeira não resta nenhuma prova material. Os anais da história contam que em 1769, quando índios catequizados foram aldeados junto à margem esquerda do Jacuí, no lugar até hoje chamado de Aldeia, ergueram uma capela dedicada a São Nicolau. Acanhada, a capela foi construída de pau-a-pique e coberta com palha, atestando os limitados recursos de seus construtores.

Dez anos depois, o lugar foi elevado à condição de freguesia, adotando logo depois o nome de Nossa Senhora da Conceição da Cachoeira. A capela tomou proporção de maior abrangência e responsabilidade, passando a ser Igreja Matriz. São desta época os primeiros livros em que eram assentados os registros de batismos, casamentos e óbitos, a maior parte deles existente até hoje junto aos arquivos da Diocese de Cachoeira do Sul.

A capela original era modesta em dimensões e estrutura. Em 6 de outubro de 1793, foi lançada a pedra fundamental do novo templo que seria erguido em honra de Nossa Senhora da Conceição, junto à coxilha em que hoje se assenta a Praça Dr. Balthazar de Bem. A construção, coordenada pelas Irmandades de Nossa Senhora da Conceição e Santíssimo Sacramento, demorou seis anos e, embora inconclusa, foi inaugurada em 30 de setembro de 1799, com a transferência dos objetos litúrgicos da antiga capela da Aldeia.


Igreja Matriz projetada pelo militar Francisco João Róscio
- Museu Municipal

O projeto da igreja é atribuído ao militar Francisco João Róscio, autor também da Igreja de Nossa Senhora do Rosário de Rio Pardo. As obras arrastaram-se por décadas, sempre necessitando de reparos e acréscimos. Enquanto isto, algumas aquisições e melhorias foram sendo registradas, como uma lâmpada de prata chegada do Rio de Janeiro em 22 de maio de 1820, mesmo ano em que foi concluída a capela-mor.

Durante esse tempo, e mesmo na antiga capela da Aldeia, os mortos iam sendo sepultados no interior e no entorno da Igreja Matriz, prática corrente de então, o que demandava permanentes intervenções no templo.

No início da década de 1850, começaram tratativas para finalização da segunda torre, sendo para tal apresentada planta do engenheiro Frederico Heydtmann em 1853. Vinte anos depois, a frente da igreja precisava ser refeita com maior solidez, conforme registros das Irmandades. Todo o século XIX foi de obras e aquisições e, no ano de 1897, o Bispo D. Cláudio Ponce de Leão, depois de visita pastoral, finalmente teceu elogios ao estado geral da igreja.


Igreja Matriz no início do século XX - Museu Municipal

Torres da Igreja Matriz ao fundo - Coleção Aldo Schirmer

As maiores intervenções na Igreja Matriz foram feitas no correr do século XX, a começar pela grande reforma de 1929, quando toda a fachada foi alterada de forma a tornar mais rebuscada a arquitetura do velho templo. No início da década de 1960, uma radical reforma interior fez o contrário: tirou a beleza e suntuosidade da igreja, produzindo até hoje os lamentos de quem conheceu o seu esplendor.


Grande reforma de 1929 - Coleção Osni Schroeder


Em 1991, com a criação da Diocese de Cachoeira do Sul, a Igreja Matriz passou a ser Catedral Nossa Senhora da Conceição.

Mesmo tendo passado por tantas modificações ao longo de sua mais do que bicentenária história, a Catedral conserva ainda as fundações da velha Igreja Matriz do século XVIII, ostentando também, sem dúvida nenhuma, o título de edificação mais antiga de Cachoeira do Sul. 


Detalhe da Catedral - Mário H. Kämpf

domingo, 31 de maio de 2020

Série: Cachoeira Bicentenária - Primeiro teatro


Lá se vão 190 anos que o povo de Cachoeira, vanguardista e ousado, instalou um barracão junto à Praça da Igreja para nele funcionar um teatro, o primeiro do interior da então Província de São Pedro do Rio Grande do Sul. Com o passar do tempo, certamente o barracão foi recebendo melhorias, chegando sua imagem até nossos dias por uma antiga fotografia que há no Museu Municipal.

Teatro Cachoeirense ao lado da Intendência Municipal (atual Museu)
- Museu Municipal

A iniciativa do erguimento do teatro coube à classe caixeiral da Vila, ou dos comerciantes e empregados do comércio, atestando que este segmento foi muito forte e decisivo não somente para a arte e outras generalidades, mas para garantir status econômico e político a Cachoeira. A força dos caixeiros era notável, pois foram capazes de construir um teatro com capacidade para 500 espectadores, duas ordens de camarotes, cenário e teto elegantemente pintados.

Frente do Teatro Cachoeirense
- Museu Municipal

Na noite marcada para a inauguração, estando já cheio o teatro, um incômodo de saúde em um dos atores mudou o programa, sendo apresentado apenas um entremez, espécie de peça cômica e alegre. Ficou então marcada a noite de 25 de abril de 1830 para a inauguração oficial.

Chegado o grande momento, e estando o teatro lotado em sua capacidade, ocupavam os camarotes apenas as senhoras “ornadas de grande riqueza”. Na plateia, as autoridades e o “povo nobre”. Subiu então o pano do cenário, exibindo uma sala imperial atapetada, tendo ao fundo o retrato de Sua Majestade Imperial, D. Pedro I, “debaixo do precioso dossel e sobre um iluminado e rico trono”. Faziam guarda ao retrato os tenentes José Gomes Porto e Tristão da Cunha e Souza, além do alferes Antônio Xavier da Silva, com o estandarte da Câmara, posicionando-se os atores nos flancos da sala. Descortinado este cenário, o juiz de paz João Nunes da Silva, postado na plateia, deu vivas à Sua Majestade, à Imperatriz Leopoldina, à Constituição e à Assembleia dos brasileiros, ao que os atores, acompanhados de orquestra, entoaram um hino dedicado ao casal imperial e sua prole, findando essa introdução com vibrantes ovações.

Logo após, teve lugar a encenação da tragédia romana Virgínia e o entremez A filha teimosa com os livros, ficando registrada na ata que a Câmara Municipal lavrou sobre a inauguração que “enquanto o pano estava descido todas as famílias ocupavam-se em alegres conversações sobre Vossa Majestade Imperial e sobre a Constituição”. Ao encerramento da noite, todos saíram muito satisfeitos com a novidade. 

A Câmara deixou evidente a alegria quando registrou na referida ata de 27 de abril: “E posto que todos os moradores mereçam um extremo elogio por terem todos concorrido já com suas pessoas, já com quantias pecuniárias, não se pode, contudo, tirar a palma a Joaquim Corrêa de Oliveira e José Joaquim da Graça, principais diretores deste entusiasmo”.

Pela descrição da noite de 25 de abril, é notória a grande importância econômica e política da iniciativa do teatro, tendo em vista a maciça presença das famílias nobres e abastadas da Vila e das autoridades constituídas, com participação de personalidades históricas importantes na cena inaugural. Além do mais, o registro feito em ata dá a dimensão de acontecimento político-administrativo àquela memorável noite.

A história do prédio do Teatro Cachoeirense pode ser comprovada quando da construção do sobrado de Casa de Câmara, Júri e Cadeia (1861 a 1864), atual Museu Municipal, pois o terreno julgado próprio para a obra foi o que ficava “na Praça da Igreja Matriz no lado direito do Teatro, na esquina da Rua Travessa que segue em direção ao Passo do Amorim”, conforme registrado em documento da Câmara Municipal (CM/OF/A-005, fls. 324v e 325), do arranjo documental do Arquivo Histórico.

O primeiro teatro existiu provavelmente por mais de 60 anos. Poucas notícias há sobre ele, muito em razão de ter sido inaugurado anteriormente ao aparecimento de nosso primeiro jornal (O Cachoeirense, de 1879) e mesmo pela ausência de exemplares de outros jornais surgidos depois. No acervo de imprensa do Arquivo Histórico, há um raro exemplar do jornal Clarim, de 22 de maio de 1887, que traz o seguinte anúncio:

“Na próxima quinta-feira realiza-se, em nosso teatro, um espetáculo particular, constando do magnífico drama de Dumas Filho, O suplício de uma mulher, da comédia As coincidências e de uma poesia A vida do ator, recitada pelo ator Machado”.

Anúncio no O Clarim, de 22/5/1887 - Arquivo Histórico

Já o jornal Federalista, edição de 23 de janeiro de 1892, registra: “Em vista de terem sido tomadas assinaturas de todos os camarotes do nosso teatro, deve chegar de Santa Maria o nosso amigo e distinto ator Manoel da Nóbrega, acompanhado do simpático grupo de amadores santa-marienses que levarão à cena hoje e amanhã os dois esplêndidos dramas O anjo da meia-noite e Gonzaga ou a Revolução de Minas. O trabalho do Sr. Nóbrega e de seus auxiliares não carece de reclame, porque já é bem conhecido pela nossa plateia. Boa estada entre nós é o que desejamos a tão distintos hóspedes que nos vêm proporcionar algumas horas de recreio”.

Jornal Federalista - 23/1/1892
- Arquivo Histórico

No final do século XIX, o prédio foi demolido, sem muita clareza a respeito do que aconteceu. Até que, um contrato celebrado entre a Intendência Municipal e o construtor Francisco Miotti, em 7 de maio de 1906, jogou luz sobre a situação, esclarecendo qual havia sido seu fim. Para promover melhorias no prédio da Intendência, realocando secretarias no térreo, o intendente Isidoro Neves assinou contrato com Miotti para construção de um muro na “parede do lado Sul do teatro velho que foi incendiado”, aproveitando os mesmos tijolos nela empregados (IM/GI/AB/C-001).

Quais teriam sido as causas do incêndio? Quando teria se dado o sinistro? Tais perguntas por enquanto não têm resposta, mas também ajudam a explicar porque, poucos anos depois, novamente a cidade empenharia esforços, sob a liderança de David Soares de Barcellos, para erguer seu segundo teatro. 

Mas esta já é outra das tantas histórias da bicentenária Cachoeira do Sul.

sábado, 23 de maio de 2020

Série: Cachoeira Bicentenária - Primeiro trem


No dia 7 de março do ano de 1883, os habitantes da Cidade da Cachoeira ouviram pela primeira vez o apito do trem que inaugurou a estação local. Não há informação sobre a hora nem quem foram os passageiros da linha Porto Alegre – Uruguaiana que fizeram a viagem naquele dia.

O historiador Aurélio Porto registrou que em 13 de fevereiro foi nomeada uma comissão de pessoas para organizarem festas por ocasião da inauguração da estrada de ferro. Como não há jornais disponíveis daquela época, fica-se a imaginar a alegria dos cachoeirenses que se postaram pelo caminho do trem a levantar chapéus e lenços em regozijo da novidade!

Mas a inauguração foi confirmada pelo jornal A Federação, de Porto Alegre, em sua edição de 7 de março de 1884, exatos 12 meses depois: 

“Foi a 7 de março de 1883 que se inaugurou o primeiro trecho, de 148 quilômetros, da Estrada de Ferro de Porto Alegre a Uruguaiana, entre a margem do rio Taquari, ponto inicial, e a cidade da Cachoeira. Há um ano, pois, que acha-se estabelecida a rápida comunicação pela via férrea e, durante esse curto período, foram entregues ao tráfego mais trinta e dois quilômetros até o Jacuí. A linha atualmente abrange 180 quilômetros em tráfego.”

Uma das mais antigas fotos da Estação de Cachoeira - Museu Municipal

O certo é que a cidade da Cachoeira mudou completamente depois que o trem chegou à estação. A gare e todo o complexo demarcaram a zona alta e a zona baixa da cidade, definindo que acima da estação era o “alto”, então com menor índice populacional. Na parte de baixo, a zona urbana, com seu casario, comércio, atrações e serviços. E, naturalmente, em razão da facilidade do transporte e escoamento da produção, o entorno da estação transformou-se, pouco a pouco, em um espaço de grandes empreendimentos industriais, comerciais e de serviços, especialmente com engenhos de arroz. 

Descarregamento de máquinas e equipamentos - Museu Municipal

Gare movimentada - Museu Municipal

Largo da Estação - Museu Municipal

Até hoje grandes construções lembram aqueles tempos, testemunhas de uma história de pujança e oportunidades.

O largo da Estação entre o final de 1930 e início de 1940 - Museu Municipal

No entanto, as facilidades da ferrovia passaram a ser ofuscadas pela expansão e favorecimento do transporte rodoviário. A partir da década de 1950, com maior evidência, os cachoeirenses começaram a se incomodar com o trajeto do trem dentro da cidade e os imbróglios que causava, parando trânsito, impedindo passagens. A imprensa da época relata com certa frequência movimentos para desativar a estação, ou transferi-la do largo que ocupava há décadas.

A Estação em um de seus últimos registros - Coleção Claiton Nazar

Trem atravessando a Rua Júlio de Castilhos - Museu Municipal

A modernidade e a ânsia de acesso livre entre zona baixa e zona alta decretaram a desobstrução da Rua Sete, liberando-a com a derrubada da Estação e franqueando o acesso à Rua David Barcellos. O apito do trem, antes motivo de novidades e de expectativas, tornou-se incômodo.

Reuniram-se técnicos da Prefeitura e especialistas vindos de fora. A velha estação estava tomada de cupins, segundo afirmavam, imprestável para obras de recuperação. Decretaram a sua demolição em 1975, levando com ela uma página de 90 anos de chegadas e partidas, de muitas histórias vividas e contadas. 

Começo da demolição - Acervo Marô V. da C. Silva
Remoção dos trilhos - Museu Municipal

Fecharam a velha estação ao tráfego de trens em 1973 e construíram outra, moderna, longe do centro, sem glamour e sem história. Durou pouco mais de 20 anos, sucumbindo junto com o transporte ferroviário de passageiros no país.

Segunda Estação - Museu Municipal

A Cachoeira bicentenária pelo menos pode relembrar pela memória e registros em documentos, objetos e fotos os tempos em que, altiva e progressista, dispunha conjuntamente de transporte hidroviário, ferroviário e rodoviário... Mas ainda resta uma esperança: a Estação Ferreira, integrante da linha, segue a desafiar o tempo, pedindo socorro! Salvá-la é imperativo para redimir o pecado da demolição da linda Estação Cachoeira.

segunda-feira, 18 de maio de 2020

Série: Cachoeira Bicentenária - Primeiro banco

No começo do século XX, o progresso de Cachoeira se fazia notar, especialmente pelo fabuloso impulso que as lavouras de arroz tiveram com o emprego da irrigação artificial. Tal impulso se estendeu para outros setores e, naturalmente, atraindo para a cidade empreendimentos da área financeira.  

O primeiro banco a se instalar na cidade foi o Banco da Província, instituição financeira fundada em Porto Alegre no dia 1.º de julho de 1858. A inauguração da caixa filial em Cachoeira, na Rua Sete de Setembro, esquina General Portinho, se deu na manhã de 18 de maio de 1911. 

O ato inaugural da filial, iniciado às 10 horas, foi conduzido por Emilio Guilayn, diretor do Banco da Província, que chegou a cidade na companhia de Antônio Vasconcelos, Mário Santos e João Gomes Filho, em trem especial, na manhã do dia anterior. Como de praxe, os visitantes foram recebidos na estação ferroviária com espocar de dinamites e banda musical, conforme noticiou a imprensa da época. À noite, foram recepcionados festivamente na Intendência Municipal.

Emilio Guilayn - www.geni.com

Na inauguração, o diretor anunciou ao grande número de pessoas que compareceram ao ato que o capital inicial da agência era de 300 contos de réis, apresentando os funcionários que estariam à frente dos negócios: Mário Lima Santos, gerente, Pedro A. Araújo Viana, contador, Paulino S. Breton, tesoureiro, e Oscar R. Vasconcelos, escriturário.

Flagrante da inauguração do Banco da Província - 18/5/1911
- Museu Municipal

Com o desenvolvimento dos negócios, o banco planejou a construção de um prédio próprio e que atendesse à crescente clientela que conquistara. Dois anos depois, na vitrine da casa J. Lima & Cia. estava exposta a planta do edifício de dois andares que seria erguido na Rua Sete de Setembro, esquina com Andrade Neves. O local era ocupado por sapataria de Carlos Wolff, que depois servira de sede da tipografia do jornal Rio Grande. A planta arquitetônica da agência do Banco da Província tinha sido confeccionada por Domingo F. Rocco, de Montevidéu, conforme noticiou o jornal O Comércio, de 15 de outubro de 1913. 

Sede da Tipografia do Rio Grande (esquerda)
- local em que seria erguido o Banco da Província
- Museu Municipal

Mas a obra demorou a ser iniciada. Em 1919, a Praça do Comércio (atual CACISC) e a Intendência fizeram um apelo à direção do Banco da Província para que desse início à construção, pois o terreno que havia sido comprado há anos estava ocupado por um casebre em ruínas, pouco recomendando lugar tão central da cidade. 

Finalmente, em 1927, a firma Azevedo Moura & Gertum, de Porto Alegre, levou a obra a efeito. O palacete é hoje ocupado pela Câmara de Vereadores e recebeu o nome de Palácio Legislativo João Neves da Fontoura. Tombado como patrimônio histórico, o prédio do extinto Banco da Província é uma das edificações referenciais da cidade.

Banco da Província em construção - Museu Municipal

Palácio Legislativo - antigo Banco da Província
- Câmara de Vereadores

segunda-feira, 4 de maio de 2020

Menina prodígio


É notória a vocação musical de Cachoeira. Ao longo de sua bicentenária história, não é difícil identificar manifestações musicais protagonizadas por indivíduos ou por grupos que se associavam em bandas, conjuntos e orquestras. A atuação desses talentos marcou os diferentes momentos históricos, como que a lhes conferir trilha sonora. Neste universo predominavam os homens, como Venâncio Érico da Trindade, Roberto Silva, Miguel Iponema, Alcindo Barcellos, Andino Abreu, Souto Menor, Arno Matte e tantos outros. Mas apareciam também os talentos femininos. 

Maria de Lourdes Figueiró, filha de Luiz Ourique Figueiró e Olívia Barcellos Figueiró, foi um dos talentos femininos surgidos nesta terra. Era neta de David Soares de Barcellos e portanto herdeira dos reconhecidos pendores musicais da numerosa família por ele constituída com Alzira Águeda. A residência dos Barcellos, na Rua Sete de Setembro, era local de muitos ensaios e concertos promovidos pelos filhos e filhas do casal.

Sobrado de David Soares de Barcellos - Rua Sete de Setembro
- Fototeca Museu Municipal
Família de David Soares de Barcellos - Acervo familiar

Segundo relata João Carlos Alves Mór em sua obra A Minha Cachoeira, p. 76: 

“Aos seis anos de idade começou seus estudos de música com a prima Izar Barcellos, exímia pianista. Como demonstrou grande facilidade com as noções de música, sua mãe resolveu que a menina deveria estudar violino. D. Olga Fontoura, única professora de violino da cidade, notou logo a grande vocação de Maria de Lourdes e, antes dos três meses de estudos, promoveu um concerto para apresentação da aluna. Mais tarde, com a criação de uma Escola de Música pelos professores porto-alegrenses Guilherme Fontainha e José Corsi, Maria de Lourdes foi prontamente matriculada, chamando a atenção dos mestres. No final do ano, ao prestar exame na escola, a vocação para o violino estava evidente. Os professores então chamaram os pais da menina e ofereceram uma bolsa de estudos no Instituto de Belas Artes, em Porto Alegre, tentando convencê-los sobre o seu talento. Assim, no ano de 1923, a violinista cachoeirense seguiu para Porto Alegre, morando no pensionato do Colégio Nossa Senhora dos Anjos, que recebia jovens de todo o Estado, principalmente para cursarem a Escola Normal e o Conservatório de Música.”

Maria de Lourdes Figueiró - Fototeca Museu Municipal

Interessante destacar que a criação da Escola de Música de Cachoeira, citada por João Carlos Alves Mór em seu livro, remete ao impressionante impulso que Guilherme Fontainha e José Corsi, dois grandes nomes da educação musical no país, proporcionaram aos jovens talentos na década de 1920 ao instalarem em Porto Alegre o Centro de Cultura Artística. O propósito do Centro era fundar escolas de música nas principais cidades do estado, dentre elas Cachoeira, para fomentar a cultura musical. Com a criação, haveria a atração de talentos e a consequente formação e aperfeiçoamento de instrumentistas através dos métodos então mais modernos.  Além disto, as cidades que possuíssem as escolas de música poderiam realizar intercâmbios entre si, promovendo concertos e audições dos alunos e atraindo virtuoses de outros pontos do país para virem se apresentar no estado. 

A instituição cachoeirense, apoiada pela Intendência Municipal e inaugurada na tarde do dia 10 de julho de 1921, favoreceu a vinda de músicos de renome para nela lecionarem, como o francês Maurice Maissiat e o cearense João Souto  Menor.  A violinista Maria de Lourdes Figueiró foi uma das primeiras alunas da escola, que funcionava junto ao Clube Renascença, na Rua Sete de Setembro. No final de 1921, cursando o correspondente ao quinto ano de violino, Maria de Lourdes obteve nota 9,5.  Dois anos depois, seguiu para Porto Alegre para buscar aperfeiçoamento.

Clube Renascença - onde funcionava a Escola de Música
- Fototeca Museu Municipal
Maria de Lourdes seguiu seus estudos de violino até a morte da mãe, quando voltou a Cachoeira. Em 1928, recebeu um convite do Conservatório de Música de Bagé, transferindo-se para aquela cidade. Como às mulheres de seu tempo o ideal era a maternidade e a condução da vida doméstica, Maria de Lourdes encerrou sua carreira quando se casou com o médico carioca Ruy Vasques, dedicando-se à criação das três filhas do casal. Um talento musical que cedo foi subtraído das apresentações públicas, mas certamente seguiu exercitado na animação da vida familiar, fazendo jus à tradição dos Barcellos. 

Maria de Lourdes Figueiró - Fototeca Museu Municipal

Maria de Lourdes faleceu aos 90 anos em 1997.

segunda-feira, 20 de abril de 2020

Triste desaparecimento de um ícone urbano

As edificações de uma cidade são testemunhas do tempo e carregam com elas, dentre outras coisas, a estética de sua época. Algumas podem desaparecer sem causar sustos ou lamentos. Outras, ao se desfazerem, levam embora não somente um marco urbano, mas principalmente a força identitária do ambiente em que estavam inseridas. Quando isto acontece, a cidade deixa de ser reconhecida em si mesma e as pessoas que nela vivem ou viveram perdem seu vínculo de pertencimento. 

Não fossem as instâncias de proteção criadas pela sociedade para garantir o futuro do passado, de um ano para outro a cidade mudaria tanto que os moradores não conseguiriam vincular-se mais com ela ou se reconhecerem como pertencentes àquele lugar. Mas nem tudo pode ser protegido e não há consciência plena da importância de manter a memória. Diante disto, infelizmente as surpresas desagradáveis nos atingem quando vemos tombar literalmente um ícone urbano.

Na esquina das ruas Saldanha Marinho e Presidente Vargas, está indo ao chão o antigo posto de combustíveis mandado construir por Theobaldo Carlos Burmeister em 1940. Em estilo art-déco, o posto guardava em sua arquitetura características que o distinguiam, marcado por estruturas curvilíneas e letreiros identificativos dos serviços que oferecia. Para completar o conjunto, o prédio que o ladeava guardava o mesmo estilo, conferindo à esquina uma elegância rara.


Trecho da Rua Saldanha Marinho, vendo-se o posto à esquerda
- Coleção Ignez Kowacs


Edifício e parte do posto de Theobaldo Burmeister em 1941
- Fotograma do filme da Festa do Arroz

Posto T. C. Burmeister em 1949 - Coleção Elinca Fontanari

Posto de combustíveis - acervo Renato F. Thomsen

A inauguração do posto ocorreu no dia 12 de outubro de 1940, com a presença de autoridades e representantes do comércio, indústria e imprensa. Com capacidade para abastecer de combustíveis e lubrificantes até quatro carros, tinha amplas entradas para as duas vias da esquina e uma oficina para pequenos consertos. O funcionamento, à época, também se estendia a qualquer hora da noite. Para marcar a inauguração, Theobaldo Burmeister ofereceu um suculento churrasco aos convidados.

O posto de combustíveis manteve sua função por 79 anos. Trocou de proprietário, mas conservou o charme que sua arquitetura e localização lhe conferiam. Agora, erguem-se sobre ele estruturas de outro prédio que apagará, lenta e dolorosamente, a memória de uma esquina que em outros lugares do mundo jamais seria destruída.






Fotografias da demolição - Renato F. Thomsen