Espaços urbanos

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Château d'Eau - Méia Albuquerque

domingo, 31 de maio de 2020

Série: Cachoeira Bicentenária - Primeiro teatro


Lá se vão 190 anos que o povo de Cachoeira, vanguardista e ousado, instalou um barracão junto à Praça da Igreja para nele funcionar um teatro, o primeiro do interior da então Província de São Pedro do Rio Grande do Sul. Com o passar do tempo, certamente o barracão foi recebendo melhorias, chegando sua imagem até nossos dias por uma antiga fotografia que há no Museu Municipal.

Teatro Cachoeirense ao lado da Intendência Municipal (atual Museu)
- Museu Municipal

A iniciativa do erguimento do teatro coube à classe caixeiral da Vila, ou dos comerciantes e empregados do comércio, atestando que este segmento foi muito forte e decisivo não somente para a arte e outras generalidades, mas para garantir status econômico e político a Cachoeira. A força dos caixeiros era notável, pois foram capazes de construir um teatro com capacidade para 500 espectadores, duas ordens de camarotes, cenário e teto elegantemente pintados.

Frente do Teatro Cachoeirense
- Museu Municipal

Na noite marcada para a inauguração, estando já cheio o teatro, um incômodo de saúde em um dos atores mudou o programa, sendo apresentado apenas um entremez, espécie de peça cômica e alegre. Ficou então marcada a noite de 25 de abril de 1830 para a inauguração oficial.

Chegado o grande momento, e estando o teatro lotado em sua capacidade, ocupavam os camarotes apenas as senhoras “ornadas de grande riqueza”. Na plateia, as autoridades e o “povo nobre”. Subiu então o pano do cenário, exibindo uma sala imperial atapetada, tendo ao fundo o retrato de Sua Majestade Imperial, D. Pedro I, “debaixo do precioso dossel e sobre um iluminado e rico trono”. Faziam guarda ao retrato os tenentes José Gomes Porto e Tristão da Cunha e Souza, além do alferes Antônio Xavier da Silva, com o estandarte da Câmara, posicionando-se os atores nos flancos da sala. Descortinado este cenário, o juiz de paz João Nunes da Silva, postado na plateia, deu vivas à Sua Majestade, à Imperatriz Leopoldina, à Constituição e à Assembleia dos brasileiros, ao que os atores, acompanhados de orquestra, entoaram um hino dedicado ao casal imperial e sua prole, findando essa introdução com vibrantes ovações.

Logo após, teve lugar a encenação da tragédia romana Virgínia e o entremez A filha teimosa com os livros, ficando registrada na ata que a Câmara Municipal lavrou sobre a inauguração que “enquanto o pano estava descido todas as famílias ocupavam-se em alegres conversações sobre Vossa Majestade Imperial e sobre a Constituição”. Ao encerramento da noite, todos saíram muito satisfeitos com a novidade. 

A Câmara deixou evidente a alegria quando registrou na referida ata de 27 de abril: “E posto que todos os moradores mereçam um extremo elogio por terem todos concorrido já com suas pessoas, já com quantias pecuniárias, não se pode, contudo, tirar a palma a Joaquim Corrêa de Oliveira e José Joaquim da Graça, principais diretores deste entusiasmo”.

Pela descrição da noite de 25 de abril, é notória a grande importância econômica e política da iniciativa do teatro, tendo em vista a maciça presença das famílias nobres e abastadas da Vila e das autoridades constituídas, com participação de personalidades históricas importantes na cena inaugural. Além do mais, o registro feito em ata dá a dimensão de acontecimento político-administrativo àquela memorável noite.

A história do prédio do Teatro Cachoeirense pode ser comprovada quando da construção do sobrado de Casa de Câmara, Júri e Cadeia (1861 a 1864), atual Museu Municipal, pois o terreno julgado próprio para a obra foi o que ficava “na Praça da Igreja Matriz no lado direito do Teatro, na esquina da Rua Travessa que segue em direção ao Passo do Amorim”, conforme registrado em documento da Câmara Municipal (CM/OF/A-005, fls. 324v e 325), do arranjo documental do Arquivo Histórico.

O primeiro teatro existiu provavelmente por mais de 60 anos. Poucas notícias há sobre ele, muito em razão de ter sido inaugurado anteriormente ao aparecimento de nosso primeiro jornal (O Cachoeirense, de 1879) e mesmo pela ausência de exemplares de outros jornais surgidos depois. No acervo de imprensa do Arquivo Histórico, há um raro exemplar do jornal Clarim, de 22 de maio de 1887, que traz o seguinte anúncio:

“Na próxima quinta-feira realiza-se, em nosso teatro, um espetáculo particular, constando do magnífico drama de Dumas Filho, O suplício de uma mulher, da comédia As coincidências e de uma poesia A vida do ator, recitada pelo ator Machado”.

Anúncio no O Clarim, de 22/5/1887 - Arquivo Histórico

Já o jornal Federalista, edição de 23 de janeiro de 1892, registra: “Em vista de terem sido tomadas assinaturas de todos os camarotes do nosso teatro, deve chegar de Santa Maria o nosso amigo e distinto ator Manoel da Nóbrega, acompanhado do simpático grupo de amadores santa-marienses que levarão à cena hoje e amanhã os dois esplêndidos dramas O anjo da meia-noite e Gonzaga ou a Revolução de Minas. O trabalho do Sr. Nóbrega e de seus auxiliares não carece de reclame, porque já é bem conhecido pela nossa plateia. Boa estada entre nós é o que desejamos a tão distintos hóspedes que nos vêm proporcionar algumas horas de recreio”.

Jornal Federalista - 23/1/1892
- Arquivo Histórico

No final do século XIX, o prédio foi demolido, sem muita clareza a respeito do que aconteceu. Até que, um contrato celebrado entre a Intendência Municipal e o construtor Francisco Miotti, em 7 de maio de 1906, jogou luz sobre a situação, esclarecendo qual havia sido seu fim. Para promover melhorias no prédio da Intendência, realocando secretarias no térreo, o intendente Isidoro Neves assinou contrato com Miotti para construção de um muro na “parede do lado Sul do teatro velho que foi incendiado”, aproveitando os mesmos tijolos nela empregados (IM/GI/AB/C-001).

Quais teriam sido as causas do incêndio? Quando teria se dado o sinistro? Tais perguntas por enquanto não têm resposta, mas também ajudam a explicar porque, poucos anos depois, novamente a cidade empenharia esforços, sob a liderança de David Soares de Barcellos, para erguer seu segundo teatro. 

Mas esta já é outra das tantas histórias da bicentenária Cachoeira do Sul.

sábado, 23 de maio de 2020

Série: Cachoeira Bicentenária - Primeiro trem


No dia 7 de março do ano de 1883, os habitantes da Cidade da Cachoeira ouviram pela primeira vez o apito do trem que inaugurou a estação local. Não há informação sobre a hora nem quem foram os passageiros da linha Porto Alegre – Uruguaiana que fizeram a viagem naquele dia.

O historiador Aurélio Porto registrou que em 13 de fevereiro foi nomeada uma comissão de pessoas para organizarem festas por ocasião da inauguração da estrada de ferro. Como não há jornais disponíveis daquela época, fica-se a imaginar a alegria dos cachoeirenses que se postaram pelo caminho do trem a levantar chapéus e lenços em regozijo da novidade!

Mas a inauguração foi confirmada pelo jornal A Federação, de Porto Alegre, em sua edição de 7 de março de 1884, exatos 12 meses depois: 

“Foi a 7 de março de 1883 que se inaugurou o primeiro trecho, de 148 quilômetros, da Estrada de Ferro de Porto Alegre a Uruguaiana, entre a margem do rio Taquari, ponto inicial, e a cidade da Cachoeira. Há um ano, pois, que acha-se estabelecida a rápida comunicação pela via férrea e, durante esse curto período, foram entregues ao tráfego mais trinta e dois quilômetros até o Jacuí. A linha atualmente abrange 180 quilômetros em tráfego.”

Uma das mais antigas fotos da Estação de Cachoeira - Museu Municipal

O certo é que a cidade da Cachoeira mudou completamente depois que o trem chegou à estação. A gare e todo o complexo demarcaram a zona alta e a zona baixa da cidade, definindo que acima da estação era o “alto”, então com menor índice populacional. Na parte de baixo, a zona urbana, com seu casario, comércio, atrações e serviços. E, naturalmente, em razão da facilidade do transporte e escoamento da produção, o entorno da estação transformou-se, pouco a pouco, em um espaço de grandes empreendimentos industriais, comerciais e de serviços, especialmente com engenhos de arroz. 

Descarregamento de máquinas e equipamentos - Museu Municipal

Gare movimentada - Museu Municipal

Largo da Estação - Museu Municipal

Até hoje grandes construções lembram aqueles tempos, testemunhas de uma história de pujança e oportunidades.

O largo da Estação entre o final de 1930 e início de 1940 - Museu Municipal

No entanto, as facilidades da ferrovia passaram a ser ofuscadas pela expansão e favorecimento do transporte rodoviário. A partir da década de 1950, com maior evidência, os cachoeirenses começaram a se incomodar com o trajeto do trem dentro da cidade e os imbróglios que causava, parando trânsito, impedindo passagens. A imprensa da época relata com certa frequência movimentos para desativar a estação, ou transferi-la do largo que ocupava há décadas.

A Estação em um de seus últimos registros - Coleção Claiton Nazar

Trem atravessando a Rua Júlio de Castilhos - Museu Municipal

A modernidade e a ânsia de acesso livre entre zona baixa e zona alta decretaram a desobstrução da Rua Sete, liberando-a com a derrubada da Estação e franqueando o acesso à Rua David Barcellos. O apito do trem, antes motivo de novidades e de expectativas, tornou-se incômodo.

Reuniram-se técnicos da Prefeitura e especialistas vindos de fora. A velha estação estava tomada de cupins, segundo afirmavam, imprestável para obras de recuperação. Decretaram a sua demolição em 1975, levando com ela uma página de 90 anos de chegadas e partidas, de muitas histórias vividas e contadas. 

Começo da demolição - Acervo Marô V. da C. Silva
Remoção dos trilhos - Museu Municipal

Fecharam a velha estação ao tráfego de trens em 1973 e construíram outra, moderna, longe do centro, sem glamour e sem história. Durou pouco mais de 20 anos, sucumbindo junto com o transporte ferroviário de passageiros no país.

Segunda Estação - Museu Municipal

A Cachoeira bicentenária pelo menos pode relembrar pela memória e registros em documentos, objetos e fotos os tempos em que, altiva e progressista, dispunha conjuntamente de transporte hidroviário, ferroviário e rodoviário... Mas ainda resta uma esperança: a Estação Ferreira, integrante da linha, segue a desafiar o tempo, pedindo socorro! Salvá-la é imperativo para redimir o pecado da demolição da linda Estação Cachoeira.

segunda-feira, 18 de maio de 2020

Série: Cachoeira Bicentenária - Primeiro banco

No começo do século XX, o progresso de Cachoeira se fazia notar, especialmente pelo fabuloso impulso que as lavouras de arroz tiveram com o emprego da irrigação artificial. Tal impulso se estendeu para outros setores e, naturalmente, atraindo para a cidade empreendimentos da área financeira.  

O primeiro banco a se instalar na cidade foi o Banco da Província, instituição financeira fundada em Porto Alegre no dia 1.º de julho de 1858. A inauguração da caixa filial em Cachoeira, na Rua Sete de Setembro, esquina General Portinho, se deu na manhã de 18 de maio de 1911. 

O ato inaugural da filial, iniciado às 10 horas, foi conduzido por Emilio Guilayn, diretor do Banco da Província, que chegou a cidade na companhia de Antônio Vasconcelos, Mário Santos e João Gomes Filho, em trem especial, na manhã do dia anterior. Como de praxe, os visitantes foram recebidos na estação ferroviária com espocar de dinamites e banda musical, conforme noticiou a imprensa da época. À noite, foram recepcionados festivamente na Intendência Municipal.

Emilio Guilayn - www.geni.com

Na inauguração, o diretor anunciou ao grande número de pessoas que compareceram ao ato que o capital inicial da agência era de 300 contos de réis, apresentando os funcionários que estariam à frente dos negócios: Mário Lima Santos, gerente, Pedro A. Araújo Viana, contador, Paulino S. Breton, tesoureiro, e Oscar R. Vasconcelos, escriturário.

Flagrante da inauguração do Banco da Província - 18/5/1911
- Museu Municipal

Com o desenvolvimento dos negócios, o banco planejou a construção de um prédio próprio e que atendesse à crescente clientela que conquistara. Dois anos depois, na vitrine da casa J. Lima & Cia. estava exposta a planta do edifício de dois andares que seria erguido na Rua Sete de Setembro, esquina com Andrade Neves. O local era ocupado por sapataria de Carlos Wolff, que depois servira de sede da tipografia do jornal Rio Grande. A planta arquitetônica da agência do Banco da Província tinha sido confeccionada por Domingo F. Rocco, de Montevidéu, conforme noticiou o jornal O Comércio, de 15 de outubro de 1913. 

Sede da Tipografia do Rio Grande (esquerda)
- local em que seria erguido o Banco da Província
- Museu Municipal

Mas a obra demorou a ser iniciada. Em 1919, a Praça do Comércio (atual CACISC) e a Intendência fizeram um apelo à direção do Banco da Província para que desse início à construção, pois o terreno que havia sido comprado há anos estava ocupado por um casebre em ruínas, pouco recomendando lugar tão central da cidade. 

Finalmente, em 1927, a firma Azevedo Moura & Gertum, de Porto Alegre, levou a obra a efeito. O palacete é hoje ocupado pela Câmara de Vereadores e recebeu o nome de Palácio Legislativo João Neves da Fontoura. Tombado como patrimônio histórico, o prédio do extinto Banco da Província é uma das edificações referenciais da cidade.

Banco da Província em construção - Museu Municipal

Palácio Legislativo - antigo Banco da Província
- Câmara de Vereadores

segunda-feira, 4 de maio de 2020

Menina prodígio


É notória a vocação musical de Cachoeira. Ao longo de sua bicentenária história, não é difícil identificar manifestações musicais protagonizadas por indivíduos ou por grupos que se associavam em bandas, conjuntos e orquestras. A atuação desses talentos marcou os diferentes momentos históricos, como que a lhes conferir trilha sonora. Neste universo predominavam os homens, como Venâncio Érico da Trindade, Roberto Silva, Miguel Iponema, Alcindo Barcellos, Andino Abreu, Souto Menor, Arno Matte e tantos outros. Mas apareciam também os talentos femininos. 

Maria de Lourdes Figueiró, filha de Luiz Ourique Figueiró e Olívia Barcellos Figueiró, foi um dos talentos femininos surgidos nesta terra. Era neta de David Soares de Barcellos e portanto herdeira dos reconhecidos pendores musicais da numerosa família por ele constituída com Alzira Águeda. A residência dos Barcellos, na Rua Sete de Setembro, era local de muitos ensaios e concertos promovidos pelos filhos e filhas do casal.

Sobrado de David Soares de Barcellos - Rua Sete de Setembro
- Fototeca Museu Municipal
Família de David Soares de Barcellos - Acervo familiar

Segundo relata João Carlos Alves Mór em sua obra A Minha Cachoeira, p. 76: 

“Aos seis anos de idade começou seus estudos de música com a prima Izar Barcellos, exímia pianista. Como demonstrou grande facilidade com as noções de música, sua mãe resolveu que a menina deveria estudar violino. D. Olga Fontoura, única professora de violino da cidade, notou logo a grande vocação de Maria de Lourdes e, antes dos três meses de estudos, promoveu um concerto para apresentação da aluna. Mais tarde, com a criação de uma Escola de Música pelos professores porto-alegrenses Guilherme Fontainha e José Corsi, Maria de Lourdes foi prontamente matriculada, chamando a atenção dos mestres. No final do ano, ao prestar exame na escola, a vocação para o violino estava evidente. Os professores então chamaram os pais da menina e ofereceram uma bolsa de estudos no Instituto de Belas Artes, em Porto Alegre, tentando convencê-los sobre o seu talento. Assim, no ano de 1923, a violinista cachoeirense seguiu para Porto Alegre, morando no pensionato do Colégio Nossa Senhora dos Anjos, que recebia jovens de todo o Estado, principalmente para cursarem a Escola Normal e o Conservatório de Música.”

Maria de Lourdes Figueiró - Fototeca Museu Municipal

Interessante destacar que a criação da Escola de Música de Cachoeira, citada por João Carlos Alves Mór em seu livro, remete ao impressionante impulso que Guilherme Fontainha e José Corsi, dois grandes nomes da educação musical no país, proporcionaram aos jovens talentos na década de 1920 ao instalarem em Porto Alegre o Centro de Cultura Artística. O propósito do Centro era fundar escolas de música nas principais cidades do estado, dentre elas Cachoeira, para fomentar a cultura musical. Com a criação, haveria a atração de talentos e a consequente formação e aperfeiçoamento de instrumentistas através dos métodos então mais modernos.  Além disto, as cidades que possuíssem as escolas de música poderiam realizar intercâmbios entre si, promovendo concertos e audições dos alunos e atraindo virtuoses de outros pontos do país para virem se apresentar no estado. 

A instituição cachoeirense, apoiada pela Intendência Municipal e inaugurada na tarde do dia 10 de julho de 1921, favoreceu a vinda de músicos de renome para nela lecionarem, como o francês Maurice Maissiat e o cearense João Souto  Menor.  A violinista Maria de Lourdes Figueiró foi uma das primeiras alunas da escola, que funcionava junto ao Clube Renascença, na Rua Sete de Setembro. No final de 1921, cursando o correspondente ao quinto ano de violino, Maria de Lourdes obteve nota 9,5.  Dois anos depois, seguiu para Porto Alegre para buscar aperfeiçoamento.

Clube Renascença - onde funcionava a Escola de Música
- Fototeca Museu Municipal
Maria de Lourdes seguiu seus estudos de violino até a morte da mãe, quando voltou a Cachoeira. Em 1928, recebeu um convite do Conservatório de Música de Bagé, transferindo-se para aquela cidade. Como às mulheres de seu tempo o ideal era a maternidade e a condução da vida doméstica, Maria de Lourdes encerrou sua carreira quando se casou com o médico carioca Ruy Vasques, dedicando-se à criação das três filhas do casal. Um talento musical que cedo foi subtraído das apresentações públicas, mas certamente seguiu exercitado na animação da vida familiar, fazendo jus à tradição dos Barcellos. 

Maria de Lourdes Figueiró - Fototeca Museu Municipal

Maria de Lourdes faleceu aos 90 anos em 1997.