Espaços urbanos

Espaços urbanos
BANRISUL, antigo Banco Pelotense (1922) - Foto Renato F. Thomsen

sábado, 17 de agosto de 2019

Patrimônio cachoeirense em pauta


Há 25 anos o Conselho Municipal do Patrimônio Histórico-Cultural – COMPAHC conquistou o maior prêmio nacional na área da preservação da memória: o Prêmio Rodrigo Melo Franco de Andrade. A premiação ocorreu no Rio de Janeiro, para onde se dirigiu a presidente do COMPAHC à época, Ione Maria Sanmartin Carlos.

Troféu Prêmio Rodrigo M. F. de Andrade - Acervo COMPAHC

Diploma do Prêmio Rodrigo M. F. de Andrade - Acervo COMPAHC

Ione no Rio de Janeiro recebendo a premiação em nome do COMPAHC
- Acervo COMPAHC

Rodrigo Melo Franco de Andrade foi uma das lideranças culturais do Brasil a partir do movimento modernista, tornando-se um dos responsáveis pela legislação que rege o patrimônio cultural desde a década de 1930. Rodrigo esteve à frente das ações relacionadas ao patrimônio histórico-cultural por 30 anos, devendo o Brasil a ele a proteção de bens em que se incluem alguns de interesse mundial. O dia de seu nascimento, 17 de agosto (1898), foi escolhido para a comemoração do patrimônio histórico nacional.

Rodrigo Melo Franco de Andrade - Wikipédia

Criado em 1981, o COMPAHC tinha em sua bagagem, no ano de 1994, o primeiro inventário de bens culturais feito no interior do Rio Grande do Sul (1989), vários tombamentos de bens patrimoniais de relevante valor histórico-cultural (1985 e 1986) e atividades de fomento à ideia da preservação. Com este conjunto de ações se credenciou ao prêmio e o conquistou.

Relembrar este feito é oportuno neste dia 17 de agosto de 2019, quando em comemoração ao Dia Nacional do Patrimônio o governo do Estado do Rio Grande do Sul resolveu também instituir a data como Dia Estadual do Patrimônio Histórico. Para marcar a importância deste dia, o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico do Estado – IPHAE promoveu o tombamento dos prédios que foram construídos para agências do extinto Banco Pelotense, dentre eles o de Cachoeira, atualmente ocupado pelo BANRISUL.

Banco Pelotense (1922) - Fototeca Museu Municipal

Verdadeira joia da paisagem urbana, o prédio do antigo Banco Pelotense foi inaugurado em 1922. O projeto do edifício era do arquiteto Manoel Itaqui, tendo sido construído por Santiago Borba.

A sua arquitetura, alterosa, tem como destaque a cúpula e um conjunto escultórico composto por três figuras representativas das atividades comerciais e industriais. Além da riqueza arquitetônica, é importante destacar a sua localização, tendo ele inaugurado a quadra que depois seria conhecida como “dos bancos”.

Conjunto escultórico do frontão do BANRISUL - Foto Renato F. Thomsen

Cachoeira do Sul, rumo aos seus duzentos anos de instalação como município, tem motivos de sobra para se orgulhar do patrimônio que tem conservado. Muito se perdeu, é verdade, mas o que já cativou o coração dos cachoeirenses ganha, dia a dia, o respeito e a estima de quem tem apreço pelas marcas da história. São 15 bens tombados pelo município, através do premiado COMPAHC, e quatro pelo Estado, através do IPHAE. Mas há muito ainda a ser descoberto pelos cachoeirenses. Mais de 80 edificações, consideradas em sua importância histórica ou arquitetônica, aguardam a oportunidade de também se tornarem de fato bens que habitam a estima da cidade que teve capacidade de erguê-los ao longo de sua rica e diferenciada trajetória histórica.

domingo, 14 de julho de 2019

Um certo A. Saidenberg


Nos tempos que correm, a fotografia tornou-se uma atividade para lá de corriqueira, pois todo mundo, a qualquer hora do dia, está com a câmera de seu celular a postos para o próximo clique!

Mas houve tempos em que ela era para raros praticantes e poucos fotografados. Até a forma de referir o sujeito que praticava a fotografia tinha uma acepção mais artística: fotógrafo era retratista.

Em Cachoeira, os jornais mais antigos, como O Commercio (1900-1966), trazem notícias daqueles que se ofereciam para retratar pessoas e ambientes por temporadas. Estes profissionais, vindos de centros maiores, geralmente se hospedavam em lugar central para favorecer a atração da clientela. Esta prática provavelmente vinha desde meados do século XIX, quando as primeiras experiências com fotografia começaram a ter lugar por aqui.

Certamente a mais antiga fotografia existente em Cachoeira de que se tem conhecimento é a que registrou o Comendador Antônio Vicente da Fontoura e sua mulher Clarinda por volta de 1856, ou seja, quatro anos antes da morte do comendador. A fotografia é atribuída ao fotógrafo italiano radicado em Porto Alegre Luigi Terragno. Na bagagem deste conhecido profissional, que se deslocava pelo estado para executar sua arte, estão registros da cidade de Porto Alegre e do próprio Imperador Pedro II.

Antônio Vicente da Fontoura e Clarinda em foto atribuída a Luigi Terragno
- cerca de 1856 - Fototeca Museu Municipal
Muitas são as fotografias da Cachoeira antiga que suscitam curiosidade sobre quem teriam sido seus autores, uma vez que nem todos identificavam os seus ateliês. Portanto, associar fotógrafo ao trabalho é tarefa desafiadora e extremamente recompensadora quando se torna possível.

Notas fiscais do Photo-Atelier de A. Saidenberg, preservadas no acervo documental do Arquivo Histórico, referem séries fotográficas feitas pelo profissional na Praça José Bonifácio, quando de sua reestruturação e embelezamento, e das obras de saneamento, todas em meados da década de 1920, numa rara oportunidade de associação do "criador" à "criatura".

Nota do Photo-Atelier de A. Saidenberg - 14/4/1926
- Acervo documental do Arquivo Histórico - IM/RP/SF/D-Caixa 9

Uma das notas, emitida em 14 de abril de 1926, é sobre o serviço de 6 retratos da Praça José Bonifacio, ao custo de 30 mil réis. Das imagens produzidas por A. Saidenberg, salvo outra prova documental que surja, provavelmente uma delas pode ter sido esta:


Vista de uma das quinas da Praça José Bonifácio já remodelada - 1926

A outra nota, desta vez emitida por A. Saidenberg para a Intendência em 4 de novembro daquele mesmo ano, discrimina o serviço de 32 retratos das Obras de Saneamento em construcção, ao custo de 3.500 réis cada. Esta série de fotos está reproduzida na íntegra em um álbum do arquivo particular de Joaquim Vidal, existente no acervo do Arquivo Histórico.

Eis algumas das fotografias e a nota fiscal em questão:


Nota fiscal emitida em 4/11/1926
Acervo documental do Arquivo Histórico - IM/RP/SF/D-Caixa 13

Depósito do material das obras de saneamento

Construção da casa dos filtros - 2.ª Hidráulica



Tanque alemão

Poço de captação

Construção do R2 - na atual Praça Borges de Medeiros
As fotos foram feitas durante e ao término das obras da segunda hidráulica, onde estavam incluídos o Château d'Eau e o R2 da atual Praça Borges de Medeiros.

As fotos produzidas por A. Saidenberg muito mais do que retratos, são verdadeiros documentos de uma das mais efervescentes e progressistas eras da história de Cachoeira do Sul. Atribuir autoria a elas confere-lhes ainda um maior valor histórico.

Observe a animação produzida pelo fotógrafo Renato F. Thomsen em foto atribuída a A. Saidenberg feita na Rua Sete de Setembro, 1926 (programa Pixaloop).



Nota: ofereço esta postagem à colega Neiva Köhler que coloca na minha mão estes preciosos documentos.

domingo, 30 de junho de 2019

O primeiro jornal de Cachoeira


Por ocasião da chegada do Jornal do Povo ao seu 90.º ano de circulação, de imediato vem à memória o primeiro órgão de imprensa escrita surgido em Cachoeira.

O Cachoeirense era o nome desse jornal surgido em maio de 1879. A notícia de sua existência chegou até nós por meio do historiador Aurélio Porto, ele mesmo um entusiasta da imprensa e com passagens por vários jornais.  Era impresso duas vezes por semana e tinha caráter político. O fundador d’O Cachoeirense foi o tipógrafo Amaro José Lisboa, tendo como redator e diretor Bento Porto da Fontoura, um dos filhos de Antônio Vicente da Fontoura.

A época do surgimento do jornal coincidiu com um momento político especial vivido pelo Brasil, que era o da propaganda republicana e abolicionista. Certamente O Cachoeirense reproduziu em suas páginas, dentre anúncios comerciais, literários e do cotidiano da cidade, um pouco daquele cenário que antecedia a abolição da escravatura e logo depois a proclamação da República.

No entanto, nenhum exemplar d’O Cachoeirense era conhecido, ficando as informações sobre o seu formato, circulação e ideário a critério do que o nosso historiador-mor levantou. Até que uma espiada no conteúdo de um CD de inventários vindo do Arquivo Público do Estado do Rio Grande do Sul – APERS trouxe luz sobre o primeiro jornal de Cachoeira! Este grande achado, ainda que reduzido a uma foto de parte da primeira página do jornal, comprovou que O Cachoeirense era um periódico comercial, noticioso e literário, como também a maior parte dos jornais de seu tempo. A circulação se dava nas quintas-feiras e domingos, e o endereço do escritório e tipografia era a Rua do Imperador n.º 4, hoje a Rua 15 de Novembro.

O Cachoeirense, edição de 1/3/1882 - Acervo APERS

A circulação do nosso primeiro jornal não chegou a completar cinco anos, saindo a última edição em 31 de março de 1884, quando o seu fundador foi embora para Porto Alegre.

No acervo documental do Arquivo Histórico, é possível encontrar documentos que provam que logo depois de fundado, graças ao tino comercial de Amaro José Lisboa, um dos primeiros assinantes foi a Câmara Municipal. A Câmara, como hoje a Prefeitura, necessitava divulgar editais e tornar públicas outras informações de interesse da comunidade. Um bom negócio para ambos.

Recibo dado por Amaro José Lisboa - 18/7/1879 - CM/Po/RD/DD-035

Cachoeira teve muitos outros jornais a partir d’O Cachoeirense. Alguns circularam pouco tempo, outros foram mais persistentes. O mais duradouro de todos, o Jornal do Povo, teve como mais próximo em longevidade O Comércio, que circulou de janeiro de 1900 a fevereiro de 1966.

A imprensa, na história de Cachoeira, tem muito ainda a revelar, pois boa parte dos jornais que aqui circularam não deixaram exemplares disponíveis para uma análise dos conteúdos que produziram. Vive-se, então, a eterna espera de um dia topar com um recorte, uma folha, quem sabe uma edição inteira de um destes jornais para então entrever um retrato de seu tempo.

sábado, 15 de junho de 2019

Clube Comercial - 95 anos


O marco inicial da história do Clube Comercial Cachoeirense se perde no tempo. Antes da fundação da sociedade que se mantém até hoje, ocorrida em 15 de junho de 1924, outras agremiações, de nomes diversos, constituíram suas células fundadoras.

Símbolo do Clube Comercial Cachoeirense - Jornal do Povo

Existia na cidade, desde 1899, uma sociedade chamada Clube Cachoeirense e, em 7 de janeiro de 1900, alguns empregados do comércio fundaram o Clube Caixeiral, sociedade beneficente e recreativa, tendo o conhecido comerciante Pedro Stringuini como primeiro presidente. O número de sócios era de 173, sendo 85 efetivos e contribuintes, 30 fundadores, 56 honorários e dois beneméritos. O Caixeiral era um clube com inclinação a atividades culturais, como concertos musicais e peças teatrais, mantendo inclusive uma banda de música com 18 figuras e instrumental completo.

Em 19 de julho de 1902, o Clube Caixeiral inaugurou sua sede e o jornal O Commercio de 23 de julho deu destaque ao fato, descrevendo-a assim: Lembrava a fachada do alteroso sobrado – uma das mais risonhas vivendas dos contos orientais. Bandeiras, galhardetes, pavilhões e outros adornos naturais chamavam a atenção daquela quadra da nossa bela Rua Sete de Setembro. Um bonito coreto ali construído despertava também a admiração de quantos o avistavam.

Em 1902, tanto o Clube Caixeiral como o Clube Cachoeirense tinham existência própria e independente, com a imprensa local noticiando atividades de ambos. Mas não demorou muito para as duas sociedades se fundirem, por iniciativa da Associação dos Empregados no Comércio de Cachoeira, nascendo o Clube Comercial em 5 de novembro daquele ano.

Mas esse primeiro Clube Comercial não durou muito, sendo extinto em 27 de março de 1910, ocasião em que foi criado o Cassino Clube, agremiação que assumiu o passivo e o ativo da anterior. Foi aclamado primeiro presidente do Cassino Clube o farmacêutico Augusto Cezar Castilho, tendo como vice o Dr. Balthazar de Bem, secretários José Carlos Barbosa e Raul de Freitas Boccanera, com Paulino Breton como tesoureiro.

Em 15 de junho de 1924, no salão do Clube Renascença, foi fundado um novo Clube Comercial, que agregou ao nome a alcunha "Cachoeirense", e em 6 de julho se instalou na casa que pertencia ao Dr. Balthazar de Bem, localizada na Rua Sete de Setembro, onde hoje está sediada a Casa de Cultura Paulo Salzano Vieira da Cunha.

Residência do Dr. Balthazar de Bem - sede do Clube Comercial a partir de 1924
- Acervo COMPAHC

A casa do Dr. Balthazar de Bem, apesar de confortável e ampla, não oferecia as acomodações necessárias para a prática de esportes ao ar livre, uma das atrações preferidas dos que procuravam associar-se a entidades do gênero naquela época. Portanto, os primeiros tempos de funcionamento do Clube Comercial na casa foram essencialmente de realização de bailes e de outras atividades, como competições de xadrez e horas de arte.

Festa no Clube Comercial - Acervo Terezinha Mainieri V. da Cunha

Em junho de 1949, foi lançada a pedra fundamental da nova sede que o Clube Comercial Cachoeirense construiria na Rua Sete de Setembro, esquina com a Rua General Portinho. O edifício foi inaugurado em 5 de setembro de 1957, tendo como grandes impulsionadores da obra Theobaldo C. Burmeister e Edwino Schneider. A obra foi executada pela empresa construtora de Roberto Jagnow & Cia. Ltda., dirigida pelo engenheiro Hugo Schreiner.

Projeto da fachada do Clube Comercial - Acervo do Arquivo Histórico

O tradicional e aristocrático Clube Comercial Cachoeirense foi por muitos anos um dos mais destacados e atuantes clubes da cidade. Reunia a sociedade cachoeirense em eventos de glamour e encantamento. Adquiriu, ao longo de sua história, uma sede campestre, equipando-a com piscina e área de camping que atraiu gerações de cachoeirenses.

Os tempos de hoje são de novos modelos de convívio. As sociedades tradicionais têm encontrado dificuldades em manter seus patrimônios e atraírem os associados para eventos em suas sedes. Mas estas novas características não invalidam a importância que entidades como o Clube Comercial Cachoeirense tiveram e têm para a história associativa da cidade. Alternativas de uso e fruição de seu patrimônio são desafios para as diretorias e os sócios que se mantêm fieis a uma história que chega às portas de um século. Importante demais para ser esquecida.

Entrada do Clube Comercial - Foto Jornal do Povo

domingo, 26 de maio de 2019

O senhor da Tafona


Quem tem a possibilidade de conhecer a sede da antiga Fazenda São José, mais conhecida como Fazenda da Tafona, na localidade de Porteira Sete, interior de Cachoeira do Sul, fica intrigado com um retrato a óleo que domina a sala principal da casa.

Sede da Fazenda da Tafona - foto Renato F. Thomsen

O senhor de olhar plácido, porém decidido, domina o ambiente e parece hipnotizar quem circula pelo local. Como os bons retratos do passado, de dentro da moldura, a figura parece acompanhar os passos de quem ocupa a sala de seu domínio...

Retrato de José Sebastião Vieira da Cunha - obra do Atelier Calegari
- Foto Renato F. Thomsen

O senhor da Tafona é José Sebastião Vieira da Cunha, nascido a 20 de janeiro de 1846, filho de Pamphilo Vieira da Cunha e de Clara Vieira da Cruz Brilhante. Ele não foi o primeiro morador do local. A propriedade remonta ao grande sesmeiro açoriano João Pereira Fortes, bisavô de José Sebastião.

A sorte parece ter sido a sua sina, materializada em proteção e fortuna. Com vinte anos, em 18 de junho de 1866, José Sebastião, certamente movido pelos arroubos da juventude, foi para o Rio de Janeiro oferecer-se para servir ao Brasil na Guerra do Paraguai. Acontece que José Sebastião era o sobrinho preferido e protegido da solteira e rica Anna da Cruz Brilhante que, no desespero de ver o risco que o rapaz corria, conseguiu, certamente com um bom pagamento, que outro moço tomasse o seu lugar. José Sebastião, no entanto, não desperdiçou a oportunidade de ficar na capital do Império e lá se empregou no comércio.

Em 1868, Pamphilo Vieira da Cunha, pai de José Sebastião, morreu. O rapaz teve que voltar para Cachoeira a fim de assumir os negócios da fazenda de criação da tia, de que já era herdeiro universal, e cuja administração até então havia ficado sob os encargos de seu pai.

Readaptado às suas novas funções, em 23 de abril de 1870, José Sebastião casou-se com a prima Maria Manoela Pereira, filha de rico fazendeiro, na Fazenda do Capané. Como era comum aos bem aquinhoados da época, o enxoval da noiva foi encomendado em Portugal, sendo embarcado para o Brasil em uma arca (baú), até hoje conservada no acervo da Tafona.

Arca do enxoval de Maria Manoela Pereira da Cunha - 1870
- Foto Renato F. Thomsen

José Sebastião e Maria Manoela tiveram 13 filhos: Pamphilo, Emília, Afonso, Eduardo, Hermínia, Maria, Manoel, Hugo, Jorge, Edmundo, Julieta, Marieta e Carlos.

José Sebastião (1.º à esquerda) e família - Acervo Fazenda da Tafona

A morte de José Sebastião se deu em 19 de maio de 1916. Por essa época, a Fazenda da Tafona era constituída por uma légua de campos na margem esquerda do rio Piquiri, ocupados pela criação de gado. Outras atividades tinham sido experimentadas, uma delas a da extração de cal, e naquele ano um dos filhos de José Sebastião, Hugo Vieira da Cunha, era sócio de Mostardeiro & Cia., empresa arrendatária de parte das terras para produção de arroz.

A sucessão dos tempos fez da Tafona um repositório de lembranças de diferentes personalidades e épocas. Outros personagens da história de Cachoeira habitaram o lugar, nele interferindo e agregando memórias. Um dos mais célebres foi o médico José Pereira da Silva Goulart, figura proeminente da política cachoeirense e um dos mandatários do atentado contra Antônio Vicente da Fontoura.

Dr. José Pereira da Silva Goulart - Acervo familiar

José Sebastião Vieira da Cunha, cujo desaparecimento “da vida objetiva” já bate em 113 anos, afixou sua figura ao lugar de forma irrefutável. O retrato, obra do famoso Atelier Calegari, não é um simples objeto da história. Ele reflete o “Senhor da Tafona”, solenizado na grande sala da velha casa construída no início do século XIX. Reverência da sua filha Emília, herdeira do quinhão que restara das inúmeras sucessões familiares.

Em 1963, Emília Vieira da Cunha vendeu a propriedade para a sobrinha e afilhada Gemina Vieira da Cunha Silva e seu marido Sylvio Martins da Silva. Hoje a filha do casal, Marô Vieira da Cunha Silva e o marido Marco Schntz conservam aquele patrimônio histórico-cultural.

O retrato nunca saiu de lá. E os olhos de José Sebastião seguem a mirar o tempo. Já viram o passado, observam o presente e perscrutam o futuro.

quarta-feira, 1 de maio de 2019

Sem fugir do trabalho


O trabalho dignifica o homem e pode jogar o seu exemplo para o futuro. Existem personagens da história de Cachoeira do Sul que imediatamente remetem à memória do tanto que a sua força de trabalho representou para modificar e melhorar o seu tempo.

Dentre estas personagens, homens e mulheres. Ainda que alguns exemplos venham do século XIX, quando o protagonismo só era permitido aos homens, também aparecem mulheres que empreenderam, fizeram a diferença e deixaram sua marca.

Escolhemos apenas três e começamos por Albino Pohlmann. Este foi certamente um dos mais notáveis trabalhadores da nossa história. Criativo, engenhoso, inovador e com uma capacidade de produção incrível. De seu gênio inquieto, surgiram inovações que guindaram a economia local a outros patamares. Caso das primeiras experiências com a irrigação artificial das lavouras de arroz, no longínquo ano de 1906. Suas técnicas logo se difundiram, permitindo um incremento na produção arrozeira e no lugar que Cachoeira ocupava na economia do estado. Muito do título de Capital Nacional do Arroz devemos à genialidade de José Albino Pohlmann, para citar apenas uma de suas facetas.

José Albino Pohlmann - Acervo Tânia M. Möller Pohlmann

Antes dele, no século XIX, uma mulher teve que ser protagonista de uma obra e da vida de sua família. Seu nome: Castorina Ignacia Soares. O marido de Castorina, João Antônio de Barcellos, assumiu com a Câmara Municipal a obra de abertura da estrada Cachoeira – Cruz Alta (não é o município homônimo; tratava-se de um distrito de Rio Pardo, proximidades da serra do Botucaraí). No decorrer da obra, João Antônio foi vitimado, em 31 de março de 1853, pela queda de uma árvore. Sem alternativa e tendo que dar cumprimento ao contrato assinado pelo falecido marido, Castorina tocou a abertura da estrada. Em 28 de março de 1854, ou seja, antes de completar um ano da fatídica morte, Castorina cumpriu com o contrato, entregando a obra concluída à Câmara!

Pedro Fortunato Baptista, conhecido por “Pedro Faz Tudo”. Sua alcunha já diz muito! Italiano de nascimento – e bem nascido por lá – foi um dos mais inquietos cidadãos da Cachoeira entre o final do século XIX e o início do século XX. A primeira bicicleta, ou velocípede, aparecida na cidade foi através dele, isto em 1896! Um dos primeiros cinemas também foi sua iniciativa, assim como uma fábrica de licores e outra de sacos de aniagem e algodão. Dotado de boa verve, encantava com seus discursos. Foi um dos entusiastas fundadores da Sociedade Italiana Príncipe Umberto e agente consular da Itália em Cachoeira. As iniciativas que teve não lhe granjearam sucesso. Morreu pobre e solteiro, sob a proteção de um amigo de raízes italianas como ele...

José Albino Pohlmann, Castorina Ignacia Soares e Pedro Fortunato Baptista têm em comum a característica da força do trabalho. José Albino viveu uma vida altamente produtiva até o fim. Castorina recolheu-se ao lugar subalterno que caracterizava as mulheres de seu tempo, e Pedro Faz Tudo se aventurou em atividades que não compensaram seu esforço criativo. Cada um com sua história e todos tendo o trabalho como ponto comum. Viveram suas vidas sem fugir do trabalho.

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sexta-feira, 26 de abril de 2019

26 de abril de 1819 ou 5 de agosto de 1820?

26 de abril de 1819:

Eu El Rei Faço Saber que aos que este Alvará com força de Lei virem: Que os Moradores da Freguesia da Cachoeira, Termo da Vila do Rio Pardo na Província de São Pedro do Rio Grande do Sul Me representaram os incômodos e prejuízos que sofriam em irem repetidas vezes à dita Vila, de mandar os seus recursos na distância de dez léguas, sendo-lhes necessário atravessar dois rios, a maior parte do ano invadeáveis, e deixar por muito tempo ao desamparo as suas casas e negócios: Pedindo-Me por isso a Graça d’erigir em Vila a sobredita Freguesia, a qual sendo reputada uma Povoação considerável pelo número de seus habitantes, e tendo as vantagens de estar situada à margem do Rio Jacuí, que é navegável, e de abundar em boas águas e matas, se achava nas circunstâncias de poder ser elevada àquela Graduação. O que sendo-Me ponderado em Consulta da Mesa do Meu Desembargo do Paço à vista das informações que a este respeito Mandei tirar pelo Governador e Capitão-General da referida Província, e do Ouvidor da respectiva Comarca com audiência da Câmara da dita Vila do Rio Pardo: E conformando-Me com o Parecer da mesma consulta, em que foi ouvido o Procurador da Minha Real Coroa e Fazenda: Hei por bem criar uma Vila na sobredita Freguesia da Cachoeira com a denominação de = Vila Nova de São João da Cachoeira = Cujo Território se comporá do que forma e constitui a mesma Freguesia;  (e segue o documento dando os limites da Vila).
O Ministro que for encarregado da ereção da dita Vila fará levantar o Pelourinho, Casas da Câmara, Cadeia e mais oficinas debaixo da inspeção da Mesa do Meu Desembargo do Paço, e à custa dos moradores da dita Vila e seu Termo. E este se cumprirá como nele se contém. Pelo que Mando à Mesa do Meu Desembargo do Paço, e da Consciência e Ordens, Presidente do Meu Real Erário, Conselho da Minha Real Fazenda, Regedor da Casa da Suplicação; e ao Governador, e Capitão General da Província de São Pedro do Rio Grande do Sul, e a todos os mais Governadores, Tribunais, Ministros de Justiça, e a quaisquer outras pessoas, a quem o conhecimento deste Alvará haja de pertencer, assim o Cumpram, e guardem, e façam Cumprir e guardar, não obstantes quaisquer Leis, Alvarás, Regimentos, Decretos, ou todos Hei por derrogados; como se delas e deles Fizesse expressa, e individual menção, para o referido efeito somente; ficando aliás sempre em seu vigor. E valerá como Carta passada pela chancelaria, posto que por ela não há de passar, e o Seu efeito haja de durar mais d’um ano sem embargo da Ordenação em contrário. Dado no Rio de Janeiro aos vinte e seis de abril de mil oitocentos e dezenove. = Rei com Guarda =

Capa do Livro n.º 1 da Câmara, onde estão todos os documentos que contam esta história
- CM/OF/TA-008 - Acervo documental do Arquivo Histórico

O documento acima, produzido há exatos 200 anos, representa o "nascimento" da Vila Nova de São João da Cachoeira. Ele atendeu à aspiração dos moradores da então Freguesia de Nossa Senhora da Conceição da Cachoeira, uma crescente povoação cuja dependência de Rio Pardo retrogradava os desembaraços das questões que lhe eram postas, seja de ordem administrativa, de justiça e de recursos, para citar apenas algumas.

Da emissão do alvará, em 26 de abril de 1819, até a instalação de fato da Vila, em 5 de agosto de 1820, decorreram um ano e pouco mais de três meses! Há que ser considerado para tal demora o fato das disponibilidades de comunicação da época, das distâncias geográficas entre a Corte, no Rio de Janeiro, e a Província de São Pedro do Rio Grande do Sul, da burocracia que envolvia tais atos e das resistências que certamente surgiram.

Ao se aproximar a data da instalação da Vila mandada erigir em 26 de abril de 1819, novo documento foi emitido por ordem de D. João VI, com data de 15 de maio de 1820, em que o rei determina ao ouvidor da Comarca de São Pedro e Santa Catarina, Joaquim Bernardino de Sena Ribeiro da Costa, dê cumprimento ao disposto no alvará e procedais à ereção da Vila Nova de São João da Cachoeira, regulando-vos em tudo pelo dito Alvará. E diz mais o rei: Cumpri-o assim, dando-Me conta de sua execução. Joaquim Bernardino de Sena Ribeiro da Costa não só o cumpriu, em 5 de agosto, como deixou registradas cópias de todos esses documentos nos primeiros livros que a norma portuguesa determinava fossem abertos. Se assim não o tivesse feito, haveria dificuldades de recontar esta história.

Eis as razões documentadas para que comemoremos solene e oficialmente os 200 anos de instalação do Município de Cachoeira em 5 de agosto de 2020!

sexta-feira, 12 de abril de 2019

Uma casinha e nada mais?


O patrimônio histórico-cultural de Cachoeira do Sul é assunto tão palpitante que, vez ou outra, para não dizer, seguidamente, vem à discussão nas mais diversas rodas. Isto é bom, porque populariza e democratiza o tema, levando-o para dentro das casas dos cidadãos. E quanto mais as pessoas conhecerem da história e seu legado, mais chance há de preservação.

O assunto da vez é a casinha das Cinco Esquinas, ou casinha da família Scarparo. Até bem pouco tempo poucas pessoas se davam conta da sua existência, o que não deixa de ser o indicativo que está muito bem inserida na paisagem! De repente, a ideia de melhorias na mobilidade urbana e a desapropriação da casinha para as obras despertou na família e na comunidade o olhar de que a edificação carecia há tanto.

Casinha das Cinco Esquinas - www.jornaldopovo.com.br

As perguntas sobre a casinha são de toda ordem. Tem valor histórico? Tem valor arquitetônico? Por que tombá-la como patrimônio histórico se nem inventariada está e ficou por tanto tempo esquecida?

O que foi possível levantar da história da edificação que domina a quina mais emblemática das Cinco Esquinas é que ela foi adquirida em 1924 por Olindo Scarparo. Sua existência, desde data ainda incerta, deve remontar ao final do século XIX, pois o próprio Olindo Scarparo, quando a adquiriu, se servia do açougue que nela já estava instalado. Barbearia, revistaria e outras destinações comerciais teve a casinha.

No entanto, o mais significativo da sua existência suplanta o valor histórico e o arquitetônico e se firma na importância que ela tem para a definição do traçado urbano que a toma por base e, ao mesmo tempo, define o seu contorno.

Há priscas eras a casinha era o limite da cidade, o “fim da linha”. Depois dela estradas de terra, pedras e lama que levavam à zona colonial. A sua existência limitava a cidade e era pela cidade limitada em sua estrutura.

Merece a casinha a perpetuidade? Merecem as Cinco Esquinas perderem um de seus elementos?

A casinha, mais do que a sua materialidade, representa a imaterialidade e a força da denominação “Cinco Esquinas”. Está nas nossas mãos a decisão.

sábado, 16 de março de 2019

Helena Lauer - empreendedora do passado



Em Cachoeira do Sul, ao longo da história, muitas mulheres marcaram sua existência por ultrapassar os preceitos estabelecidos. Tentar listá-las seria correr o risco de omitir nomes significativos, tal o número de valorosas criaturas nos mais diferentes segmentos da vida da comunidade.

Helena Brendler Lauer. Este nome poderia estampar a Série Lojas do Passado, pelo seu ateliê de moda, ou encabeçar a lista de mulheres empreendedoras. Rememorá-la será forma de homenagear as mulheres em seu mês e trazer ao conhecimento sua trajetória de luta e superação.

As edições d’O Commercio dos primeiros anos de 1900 trazem propaganda de suas atividades comerciais, o que denota a percepção de Helena Lauer de que divulgá-las era fundamental para o sucesso dos negócios. Outro aspecto também fez dela uma mulher de avanços: a utilização de seu nome na atividade comercial, o que não era comum à época. Naqueles tempos, quando muito, a sociedade autorizava o uso do termo “viúva” nas razões sociais pelo falecimento do empreendedor. Casas existentes em Cachoeira, como Viúva Claussen (Charqueada do Paredão), Viúva José Müller e Viúva Oliveira ocultavam os nomes das responsáveis legais pelo negócio, pondo-as à sombra de um homem morto!

O Commercio, 4/12/1907, p. 4

Mas quem foi Helena B. Lauer? Uma modista, especializada em confecção de chapéus para senhoras e toucas para crianças, comercializando também itens utilizados para enfeitar estes acessórios de moda então obrigatórios. Florista, fazia também buquês para noivas, cestas de flores, cornucópias e coroas naturais e artificiais.

Seu empreendimento sobreviveu até a década de 1940, pelas notas na imprensa, tendo trocado diversas vezes de endereço. Em 1904, estava na Rua Saldanha Marinho, 62, quando além de chapéus e miudezas, também comercializava artigos de moda. Dois anos depois mudou o atelier para o prédio do antigo Hotel Central, na Rua Sete de Setembro. Em 1929, apareceu com “gabinete de manicure e corte de cabelo para senhoras anexo ao ateliê”, demonstrando que havia ampliado a oferta de serviços. Em 1941,  era proprietária da Casa de Modas.

O Commercio, 2/2/1916, p. 3

A vida de Helena Lauer foi marcada pela sua capacidade empreendedora, mas também por percalços familiares que muito devem tê-la angustiado. Em 30 de julho de 1916 ficou viúva de Guilherme Lauer que se suicidou com um tiro, na Praça José Bonifácio. Com problemas financeiros, Guilherme pôs fim à existência nas proximidades do Mercado Público.

Helena, então já estabelecida com seu ateliê, certamente vinha provendo a família com o fruto de seu trabalho. Tal situação, no começo do século XX, era motivo para o desgosto masculino, pois aos homens era destinado o papel de provedores da família. Falhar neste aspecto era motivo de constrangimento.

A necessidade de sobrevivência em um mundo masculino fez de Helena Lauer uma mulher de tino comercial. Não fossem estas características e a propaganda que mandou publicar no Grande Álbum de Cachoeira, de Benjamin Camozato, publicação de 1922, teria desaparecido da memória coletiva, diluída na vida comum das mulheres de seu tempo.

Helena Lauer em seu ateliê - Grande Álbum de Cachoeira, de Benjamin Camozato
(1922)

quarta-feira, 27 de fevereiro de 2019

Republicanos X Federalistas


Não importa a época. Política é sempre política. A um partido sempre se oporá outro. Ou outros, como hoje acontece, pela profusão de siglas...

Entre o final do século XIX e começo do século XX, o Rio Grande do Sul vivia uma acirrada disputa entre os republicanos, do PRR - Partido Republicano Rio-Grandense, chefiado por Júlio de Castilhos, e o Partido Federalista, com acendrada liderança de Silveira Martins. Marcados pela simbologia dos adereços que usavam, os republicanos, de lenços verdes e depois brancos, chamados de pica-paus, e os federalistas, ou maragatos, de lenços vermelhos, estampavam nas cores a ideologia e, com o seu uso, a consequente antipatia que uns nutriam pelos outros.

O republicano Júlio de Castilhos - Wikipédia

O federalista Gaspar Silveira Martins - Wikipédia

Na Cachoeira de 1907, a grande liderança republicana era o Coronel Isidoro Neves da Fontoura e os federalistas, ainda que sufocados pela hegemonia dos republicanos, contavam com o apoio incondicional - e não local - de Raphael Cabeda, conhecido como o "generalito de Gaspar". Por sua conta, Cabeda percorreu o estado difundindo as ideias federalistas. Amealhou e congregou seguidores, contrabandeou armas, investiu e arrecadou recursos para a causa, conquistando, logicamente, amigos e inimigos. Em Cachoeira também.

Raphael Cabeda - Wikipédia

Na época, dois jornais de Cachoeira noticiavam a política, sendo o Rio Grande órgão ferrenho do Partido Republicano e O Comércio, embora não oficialmente de caráter político, acolhia outras bandeiras, aninhando dissidentes. Os embates entre ambos às vezes se tornavam virulentos.

Em setembro de 1907, Raphael Cabeda passou por Cachoeira. O Rio Grande, de forma satírica e debochada, relatou a vinda usando como personagem uma figura popular da época, Jacintho Urso, negro que ficou registrado para a posteridade em uma fotografia de autor anônimo, cuja identificação se deve à memória do Dr. Fritz Strohschoen.

Jacintho Urso - Coleção Martinho Schünemann - Museu Municipal
A matéria do Rio Grande se intitula:

Manifestadela

Passou o condutor do Urso, isto é, o Cabeda.
Música, foguetes. O Jacyntho, homônimo doutro, foi ouvir o discurso do Macedo. Vivas, palmas. Foi notada a falta do Virgilio. O Feliciano ontem tinha prevenido o Macedo, pelo telefone. E saiu a manifestadela. O Macedinho falou baixinho que quase nem se ouvia. De vez em quando o Felicianno o cutucava: - Fala mais alto! O Cabeda não ouve! Viva! Viva! Mas, o Virgilio? Onde está o Virgilio?
O Jacyntho Urso ria, o Cabeda abraçou-o. Viva a democracia!
E o homem do Accacio ergueu-se. Choveram palmas! Viva o Dr. Fernandes! Um cão uivou, profundo, nostálgico, triste. Subiram no ar três foguetes pchiiii... pom... bom!
O Macedo tomou fôlego. Um dos da manifestação encatarroado tossiu, cuspiu. O Macedo continuou... As moscas zumbiam... O Felicianno, por praxe, pôs a taça na boca...
Irra! Este cão maldito a uivar... Alguns populares se afastaram. O tempo anda de cães danados! Podia esse ser um. Viva! Viva! Viva!
Eis as notas tomadas por um repórter da manifestação ao Cabeda.

(Rio Grande, p. 4, 20/9/1907, nomes próprios mantidos com a grafia original).

Em outro lugar da mesma página, a seguinte nota:

Passou ontem por esta cidade, com destino à fronteira, o Sr. Raphael Cabeda, um dos chefes agitacionistas da atualidade.
Seus correligionários foram com música e foguetes, cumprimentá-lo, na gare da Estação da Estrada de Ferro.

(Rio Grande, p. 4, 20/9/1907, nomes próprios mantidos com a grafia original).

As personalidades citadas pelo Rio Grande apenas pelo sobrenome devem ser os "republicanos democratas", dissidentes dos republicanos conservadores e referidos em matéria do jornal O Comércio, edição de 4 de setembro de 1907, na página 1, noticiando que uma circular dirigida aos republicanos democratas do município da Cachoeira era assinada por João Augusto Leitão, Virgilio Carvalho de Abreu, Henrique Möller Filho (proprietário do jornal), Felicianno Aniceto da Silva, Roberto Danzmann, Germano Treptow, Alberto Zimmer, Luiz Leão e Arthur Ferreira de Macedo. Eis alguns dos personagens referidos na recepção ao federalista Raphael Cabeda!

Mais do que desvendar os envolvimentos e os personagens de uma política violenta, o mais sensacional é trazer à luz e dar vida, ainda que de uma forma jocosa e satírica, a um personagem que, ao que tudo indica, deixou-se fotografar há mais de século para que um dia pudesse emergir da obscuridade e mostrar, ainda que incidentalmente, as rusgas políticas de seu tempo.

Ah, a história!

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Ofereço esta postagem ao pesquisador Coralio B. P. Cabeda, sempre pronto a me fornecer ótimas fontes.

quarta-feira, 20 de fevereiro de 2019

Série Histórias que Viraram Livros: Tragédia Passional

A Série Histórias que Viraram Livros pretende abordar momentos do passado histórico que adentraram pela literatura, tirando da realidade elementos capazes de compor cenários ficcionais.

A série se inaugura com um crime registrado na primeira página do jornal O Commercio, edição do dia 20 de fevereiro de 1929.  O trágico acontecimento comoveu a cidade de Cachoeira, enlutando duas famílias e despertando perplexidade. Tragédia passional foi o título dado à matéria, palavras que conferem a dimensão do infausto acontecimento e dão a medida da motivação.  

Um homem casado que se apaixona perdidamente pela jovem telefonista. Não correspondido, prefere o destino avassalador da morte para si e para a infeliz amada. 

Eis a notícia publicada n'O Commercio:

Tragédia passional
Pouco depois das 10 horas da noite de sexta-feira desenrolou-se, nesta cidade, uma tragédia que impressionou profundamente a nossa população.
O 2.º sargento Antonio Luiz Rodrigues Barcellos, do 3.º Grupo Independente de Artilharia Pesada, de 34 anos de idade, casado com a Exma. Sra. D. Dulcina Ribeiro Barcellos, foi, numa hora de infeliz desvairamento, o autor dessa tragédia.
Pelas 9h30 chegara o referido sargento ao Centro Telefônico local, onde costumava palestrar.
Depois de algum tempo, voltava de uma visita que fizera a senhorita Amelia Olga Aquino, de 23 anos de idade, filha da Exma. Sra. D. Catharina Prato de Aquino e funcionária da Cia. Telefônica Rio-Grandense.
O sargento Barcellos pediu à referida senhorita que lhe desse um copo d’água. Sendo atendido, pediu que queria falar-lhe, ao que a moça respondeu com palavras de recusa. Disse então que queria despedir-se dela, porque ia seguir para o Norte, para onde tinha sido removido.
Poucos minutos depois, pediu-lhe água novamente, o que causou estranheza a uma das moças presentes, que chegou a falar nessa insistência a respeito da água. Quando a moça vinha para atendê-lo, esperou-a dentro da cabine e puxando um revólver, descarregou-lhe três tiros à queima-roupa, produzindo-lhe ferimentos gravíssimos que a prostraram sem vida. A cena foi tão rápida que ninguém pode intervir. Em seguida, Barcellos apontou o revólver ao Sr. Paulo Pardelhas, atual gerente da Cia. Telefônica, que lhe pareceu querer intervir na cena e, volvendo a arma contra si, descarregou dois tiros em sua cabeça, provavelmente porque lhe parecesse que o primeiro não era eficientemente mortal e caiu, ato contínuo, sobre o assoalho.
A senhorita Olga Aquino faleceu imediatamente, em consequência da hemorragia interna que lhe produziram ferimentos por bala no hemitórax direito.
A pavorosa cena de sangue desenrolou-se às 10h15 e o sargento Barcellos, socorrido e conduzido para o Hospital de Caridade, veio a falecer às 11h50, curtindo atrozes padecimentos, em consequência de fratura da base do crânio por ferimento de bala.
O desventurado militar deixou várias cartas escritas, explicando os motivos de seu ato de desespero e fraqueza por uma profunda paixão que nutria pela infortunada moça.
A tragédia abalou profundamente a nossa população.
O sepultamento da senhorita Olga Aquino, que era muito relacionada e estimada em nossa sociedade, realizou-se às 4 horas da tarde de sábado, com grande acompanhamento de exmas. sras., senhoritas e cavalheiros.
À frente do cortejo seguiam, processionalmente, as senhoritas da Congregação Mariana, da qual fazia parte a extinta, indo também o estandarte do Apostolado da Oração, que a acompanharam até ao Cemitério das Irmandades.
Inúmeras coroas cobriam o ataúde (...).
O sepultamento do sargento Barcellos, cujo corpo, conforme desejo que deixou escrito, foi velado em casa de sua esposa, realizou-se às 5 horas da tarde de 16, com grande acompanhamento de camaradas de armas.
(...)
(O Commercio, Cachoeira, de 20/2/1929, p. 1., Acervo de Imprensa do Arquivo Histórico).
Pois esta tragédia passional ensejou a obra Cachoeira dos Ausentes, da jornalista e museóloga Teniza Spinelli, lançada em setembro de 2013. A história se passa na fictícia cidade de Cachoeira dos Ausentes e aborda o crime que se desenrolou na Cachoeira do começo do último ano da década de 1920.
Paixão, traição, ciúme são ingredientes que emergiram de uma trágica página da vida real para a ficção. O folhetim, ainda que tenha se servido de um fato do passado, aborda um tema que infelizmente não perde a atualidade. Mesmo que noventa anos tenham se passado, crimes desta natureza seguem a se repetir, demonstrando o quanto o ser humano não sabe lidar com frustrações e contrariedades.

Cachoeira dos Ausentes, de Teniza Spinelli
Edição ALF-Exclamação, 2013