Espaços urbanos

Espaços urbanos
Cine Teatro Coliseu - Renato F. Thomsen

sexta-feira, 15 de novembro de 2019

Do Império para a República



As ideias republicanas em Cachoeira já andavam por algumas cabeças uns dez anos antes do ato do Marechal Deodoro no Rio de Janeiro. O primeiro jornal aqui editado, chamado O Cachoeirense, de 1879, já propugnava o republicanismo e, em 1882, foi fundado o Clube Republicano, presidido por João José Ferreira Leal e tendo como membros Cândido Pacheco de Castro, Isidoro Neves da Fontoura, Policarpo Álvares da Cruz, José Antônio da Cunha, Fontoura Xavier, João Alberto de Souza, Luiz Pacheco de Castro, Hipólito de Castro, Modesto Soares, Francisco Fontoura Nogueira da Gama e João Batista da Fontoura Xavier.

O dia 15 de dezembro de 1889 amanheceu em Cachoeira sem novidades. Ainda que no seu decurso o Imperador tenha sido deposto e uma nova forma de governo adotada na capital do Brasil... Os cachoeirenses, desconhecendo o ato, continuavam no Império sem suspeitar que o Brasil tornara-se republicano!

Proclamação da República - tela de Benedito Calixto

Só três dias depois a notícia chegou por meio de um telegrama remetido de Porto Alegre à Câmara pelo Visconde de Pelotas. Sob a presidência de Crescêncio da Silva Santos, a Câmara se reuniu, contando ainda com a presença de 70 pessoas, civis e militares. Comunicado o teor do telegrama, a Câmara aderiu ao novo regime de governo e o primeiro ato foi substituir, na sala das sessões, o retrato do Imperador Pedro II pelo do General José Gomes Portinho, “velho defensor da República”. O ato da Câmara foi comunicado por telegrama ao Visconde de Pelotas, louvando a "atitude calma e digna do Povo Brasileiro".

José Gomes Portinho - "velho defensor da República"
- Museu Municipal

Em 7 de janeiro de 1890, foi empossada pelo governo provisório uma junta governativa para reger os negócios do município. Compunham a junta os cidadãos João Ferreira Barbosa e Silva, Antônio Nelson da Cunha e Isidoro Neves da Fontoura, sob a presidência do primeiro, que era o mais velho dos três.

Assim foi a transição do Império para a República em Cachoeira: lenta para os tempos que correm, mas lépida para 1889!

sábado, 2 de novembro de 2019

Mortais, lembrai-vos que fomos o que sois e sereis o que somos


“Mortais, lembrai-vos que fomos o que sois e sereis o que somos”. Esta frase conduz à reflexão sobre a inexorabilidade da morte e faz adentrar pelos caminhos que conduzem aos sepulcros dos que repousam eternamente no cemitério mais antigo de Cachoeira do Sul.

Cemitério das Irmandades - Foto Ucha Mór

Era prática desde o Brasil Colônia o sepultamento dos fiéis dentro dos templos e em seu entorno. Em Cachoeira não era diferente. Desde a construção da capela na Aldeia que este era o procedimento. Com a inauguração da Igreja Matriz no local onde até hoje está, o vigário não perdeu o hábito. Os mortos eram enterrados nos fundos, na frente e dentro da igreja.

Igreja Matriz - Foto Museu Municipal

A necessidade de um cemitério para a Vila era entendimento de muitos, dentre eles, alguns membros das Irmandades da Igreja Matriz, especialmente a de Nossa Senhora da Conceição e do Santíssimo Sacramento. Um dos membros, de nome Bernardo Moreira Lírio, doou terreno nas proximidades da Aldeia para tal fim. Mas eram muitos os entraves e azedos alguns humores...

Até que em 1827 o cirurgião-mor Gaspar Francisco Gonçalves, impressionado pelo estado lastimável da Igreja Matriz em razão dos sepultamentos em seu recinto, chamou a atenção dos vereadores sobre os riscos que tal prática podia causar à saúde pública. Além do ar nauseabundo, as matérias emanadas das paredes ofereciam riscos.

O alerta foi feito, mas as ações ainda demorariam cinco anos. Somente em 1832 é que cessaram os enterros dentro da igreja.

No dia 16 de janeiro de 1833, uma ata de sessão de vereança, assinada pelos vereadores Manoel Álvares dos Santos Pessoa e José Pereira da Silva, registrou o recebimento do ofício nº 37, encaminhado pelo vigário da Freguesia, Padre Ignácio Francisco Xavier dos Santos, acusando ter recebido a chave do Cemitério da Aldeia, depois denominado Cemitério das Irmandades Conjuntas, como o é até nossos dias. 

Pórtico do Cemitério das Irmandades - COMPAHC

O Cemitério das Irmandades mudou muito de 1833 para cá e praticamente não guarda mais nenhum vestígio daqueles primeiros tempos, o que é de se lastimar. Mas ainda conserva em seu recinto uma riqueza imensa em arte tumular, eivada do simbolismo que nos remete à ideia de que a morte é só um caminho. Mas quem quer trilhá-lo?

quinta-feira, 17 de outubro de 2019

O chafariz abandonado

Quase no limite do muro do Cemitério das Irmandades e esquecido na área em que outrora se instalava a primeira hidráulica de Cachoeira, um lindo chafariz tenta trazer à lembrança de quem passa por ali a finalidade que há muito perdeu!

Antigo chafariz da 1.ª hidráulica - COMPAHC

A primeira hidráulica foi uma das mais importantes obras de saneamento da nossa história. Depois de sua inauguração, ocorrida no dia 20 de setembro de 1921, o abastecimento de água, antes feito em pipas e por recolhimento em sangas e fontes, atingiu residências e estabelecimentos entre a Travessa da Luiza (atual Rua Tuiuti) até a Rua 7 de Abril (hoje Dr. Milan Kras), passando pelas Ruas Sete de Setembro, Moron, 15 de Novembro e Travessa Ferminiano (Rua Gabriel Leon).

Presenças na inauguração da hidráulica com o chafariz à direita - Museu Municipal

As obras da hidráulica trazem as assinaturas dos construtores José Mariné e Justo Martinez, dirigidos pelo Dr. João Protásio Pereira da Costa, engenheiro da Seção de Obras Públicas do município. Os trabalhos de embelezamento e jardins foram entregues ao engenheiro holandês Chrétien Hoogenstraaten, estabelecido com escritório de engenharia em Cachoeira.

O chafariz da hidráulica foi encomendado às oficinas de J. Vicente Friedrichs, em Porto Alegre, as mesmas que confeccionaram o conjunto de estátuas do Château d'Eau, composto por Netuno e as ninfas. Não é possível precisar se o desenho do chafariz foi de autoria do engenheiro, ou se a escolha recaiu sobre um dos modelos que a J. Vicente Friedrichs oferecia em seus catálogos. Habilidades artísticas não faltavam ao holandês, pois era considerado um refinado desenhista, tendo lecionado Belas Artes na Universidade de São Paulo.

A presença do engenheiro holandês em Cachoeira é uma das tantas e interessantes histórias que ensejam a compreensão do quão grandiosas foram as possibilidades oferecidas pelo município a uma plêiade de profissionais de renome que aqui se instalaram para trabalhar. E sua história é bastante curiosa.

Chrétien Hoogenstraaten chegou em Cachoeira por volta de 1916, quando aparecem anúncios de seu estabelecimento com escritório técnico na Rua Sete de Setembro, em sociedade com o engenheiro cachoeirense Jorge Hölzel, filho de um relojoeiro local. Na propaganda de seus serviços anunciavam: "Aceita-se construção qualquer, adotando sistema e estilo moderno. Projetos, orçamentos e cálculos de arquitetura, agrimensura, cimento armado, exploração de minas, hidráulica." (O Comércio, 30/8/1916, p. 3). O item "exploração de minas" chama a atenção.

Hoogenstraaten teria vindo para o Brasil a mando da companhia holandesa Konuckliche Nederlandesche Petroleum Comp. com o propósito de fazer sondagens no sul em busca de poços de petróleo. Daí talvez sua oferta de "exploração de minas". Trazia na sua bagagem de experiências o trabalho em poços de petróleo nas Índias Inglesas (O Comércio, 26/2/1919, p. 1).

Pelo correr de sua carreira, talvez tenha desistido do petróleo, pois em 1917 instalou, em sociedade com Arlindo Leal, em campo na Várzea de Nossa Senhora, uma olaria para o fabrico de telhas e tijolos. Em 1918, projetou o depósito de arroz do sócio Arlindo Leal, na Rua Saldanha Marinho, prédio até hoje existente.


Antigo depósito de arroz de Arlindo Leal - COMPAHC

Outra das obras que executou em Cachoeira foi a do Templo Metodista, cuja construção original foi totalmente descaracterizada em uma reforma posterior.

Igreja Metodista projetada por Hoogenstraaten - Fototeca Museu Municipal

Não há notícia da sua partida de Cachoeira, mas entre 1925 e 1928 estava residindo em Porto Alegre, onde construiu o Instituto Parobé e foi professor da Escola de Engenharia. Segundo Günter Weimer, o holandês publicou nesse período 24 trabalhos sobre projetos arquitetônicos e construções rurais na revista da Escola de Engenharia. É provável que tenha voltado à Europa antes da década de 1930.

O chafariz abandonado da antiga hidráulica, além da peça artística que é, tem a capacidade de evocar a figura do holandês que um dia soube emprestar a sua arte para embelezar a nossa velha Cachoeira. E, se acaso pudesse retomar o seu propósito, o chafariz traria vida à outrora elegante Praça Itororó.

segunda-feira, 30 de setembro de 2019

A Matriz de uma torre só

Em seus 220 anos de existência, completados em 30 de setembro de 2019, a Igreja Matriz foi, inicialmente, sendo construída em partes e modificada numerosas vezes. Certamente se nos fosse dada a possibilidade de voltar no tempo, com os olhos de hoje não reconheceríamos a sua estampa!

No ano da graça de 1854, a Igreja ostentava uma torre só. Apesar de ser considerada então uma das maiores e mais bem construídas igrejas da província, faltava-lhe uma torre, existindo só a que ficava do lado Norte. O padre e os fiéis ansiavam pelas duas torres e viviam em campanhas para arrecadar os recursos necessários. Muitas vezes também apelaram às autoridades, no sentido de obterem algum suporte para levar adiante a ideia de tão necessária obra.

Em 9 de agosto de 1854, um ofício remetido à Câmara pelo engenheiro civil da província, Frederico Heydtmann*, informava quais as etapas e os orçamentos para construção da torre Sul da Igreja Matriz. Tal documento, que integra o acervo do Arquivo Histórico, diz o seguinte:

CM/OM/Orçamentos - Caixa 11 - 9/8/1854
- Acervo documental do Arquivo Histórico

De posse do Offiçio de V.V. S.S.ª datado de 11 de Janeiro do corrente anno, no qual me pedem envie a Commissão dos melhoramentos da Igreja Matriz desta Villa, o Orçamento para levantar huma Torre na mesma Igreja. Tenho de participar-lhes que junto acharão o Orçamento da dita Obra e igualmente a planta da Torre que lhes restituo cujo Orçamento. Julguei assertado fazel-o em trez secções, pela rasão de que, quando a Ill.mª. Commissão achar mais conveniente não edificar a obra acima dita em huma só vez Mandal-a fazer  por partes como está designado no mesmo Orçamento
Deus Guarda a V.V.S.S.ª
Villa da Cachoeira 9 de Agosto de 1854
Illm.ºs Senres. Presidente  e mais Veriadores
da Camara Municipal da Villa da Cachoeira
Frederico Heydtmann
Engenheiro Civil da Prov.ª

(CM/OM/Orçamentos-Caixa 11)

Primeira parte do orçamento de Frederico Heydtmann
- CM/OM/Orçamentos - Caixa 11

Na primeira parte do orçamento, constam as despesas e os materiais necessários para a obra que devia principiar pela abóbada que havia por cima da pia do batismo. Percebe-se com clareza que parte era esta em razão de que até hoje a Catedral preserva o espaço do batistério, localizado abaixo da torre Sul. O engenheiro recomendava que fosse construído um telhado provisório de maneira que esgotasse as aguas das chuvas pelas janelinhas da torre. 

Para desmanchar o telhado existente à época, levantar andaimes e construir o telhado provisório seria necessária a contratação  de quatro carpinteiros, dois pedreiros e quatro serventes. A obra também exigiria colocar traves de ferro nas paredes existentes para a sua segurança e a construção de uma cúpula, cujo trabalho era de maior exigência. No cimo da torre, o projeto previa a colocação de huma cruz com bandeira e uma bola de folha de cobre com pintura e dorado.

Igreja Matriz com as duas torres - Fototeca Museu Municipal

Um detalhe que chama a atenção no orçamento do engenheiro era o cuidado com a confecção dos andaimes, com indicação do material adequado para impedir muitas desgraças, que podem acontecer caindo o andaime. Um destes cuidados era o emprego da verdadeira piasaba para amarrar os andaimes.

Torres da Igreja Matriz - Fototeca Museu Municipal

O orçamento total da obra importou em 10 contos novecentos e vinte e seis mil e duzentos e sessenta réis.

Última parte do orçamento - CM/OM/Orçamentos - Caixa 11
- Acervo documental do Arquivo Histórico

Sobre a planta que acompanhava a documentação do engenheiro não há notícia. Em algum momento do percurso temporal ela desapareceu. Também ainda não foi descoberto o ano em que a torre Sul foi construída. 

É importante ressaltar que a Igreja Matriz, hoje Catedral, apesar do tanto de interferências que sofreu, ainda consegue revelar em suas paredes mais do que bicentenárias alguns traços da sua originalidade. Quanto às histórias de fé que resguarda, são tantas quanto o número de fiéis que contou desde 30 de setembro de 1799.

* Friedrich Heydtmann: natural de Hamburgo (1802), Alemanha, ele deve ter vindo para o Brasil na companhia do irmão Karl Phillip e, na condição de colono, pois possuía lote de terras na estrada para Cima da Serra, região em que hoje está o município de Santa Cruz do Sul. Sua chegada em Porto Alegre deve ter se dado por volta de 1840. Dez anos depois participou de concorrência aberta pelo governo da província para modelos de projetos de cadeias, sendo contratado como engenheiro provincial. Dentre suas obras, em Cachoeira, constam as do porto da cidade e a construção da ponte sobre o arroio Santa Bárbara. (Günter Weimer, em Arquitetos e Construtores Rio-Grandenses na Colônia e no Império - Editora da UFSM, 2006). 

sábado, 7 de setembro de 2019

Uma casinha para nunca mais


A perda de um ícone da paisagem urbana é dolorosa. Mais dolorida é a constatação de que a insensibilidade do que tem valor intangível é ainda inatingível para muitos...

Casinha Scarparo - Foto Jornal do Povo

Apesar de não terem nenhuma proteção formal como patrimônio histórico, as Cinco Esquinas fazem parte da identidade visual da cidade e desenham um fluxo singular de construções e trânsito. E a marcar este quadrante estava a casinha em quinas ali plantada há, no mínimo, um século... Sua configuração arquitetônica, acompanhando os ângulos das esquinas, representava um traço cultural único e insubstituível.

Casinha em quinas - foto Renato F. Thomsen

Os tempos de hoje são urgentes. Os bólidos são mais importantes que as pessoas e suas tolas afetividades. E como eles, os bólidos, estamos sujeitos aos humores dos velozes e efêmeros tempos que vivemos. Nestes tempos não há espaço para saudosismos e memórias. Mas felizmente nem todos se quedam a estes tempos e lutam pelo que é permanente e imprescindível: a identidade cultural.

Demolição da casinha - 7/9/2019 - Facebook

Cinco esquinas 
encontraram-se hoje:
impotência, descalabro,
destruição, fatalidade
e a memória vilipendiada.

Poema do amigo Robson Alves Soares

quinta-feira, 29 de agosto de 2019

O dia que Cachoeira parou para festejar a vitória de Getúlio Vargas


Transcorridos 65 anos da morte de Getúlio Vargas, ainda despertam grande interesse a personalidade e os feitos deste homem que dominou o cenário político brasileiro da segunda metade da década de 1930 até 24 de agosto de 1954, quando cometeu suicídio.

Em Cachoeira, no ano de 1951, como de resto em todo o país, a posse de Getúlio na presidência da República foi de aclamação popular. Eleito em 3 de outubro de 1950 com 48% do total de votos, o líder gaúcho consolidou uma ascensão dita pelas vias democráticas, cuja costura vinha fazendo habilmente com as composições partidárias. Por ocasião da sua posse como presidente, em 31 de janeiro de 1951, os cachoeirenses, liderados por Gustavo Peixoto Vieira da Cunha, organizaram a Festa da Vitória que, segundo o Jornal do Povo, “decorreu com brilhantismo”.

No Rio, então capital federal, as cerimônias da posse de Getúlio nos palácios Tiradentes e do Catete foram de vívido entusiasmo. As agências de notícias informaram a imprensa de todo o país que nunca antes na história política brasileira o povo havia enchido tanto as ruas da cidade, fazendo feriado espontaneamente. Todo o trajeto feito pelo presidente naquele dia foi acompanhado por uma multidão que se postava nas ruas.

Em Cachoeira não foi diferente. Segundo o Jornal do Povo do dia 4 de fevereiro de 1951, em sua primeira página, “Com uma alvorada de clarins pela banda da Guarnição Militar local, tiveram início, quarta-feira última, as solenidades da Festa da Vitória (...). Às 8 horas, na Igreja Matriz, foi celebrada, pelo reverendo Monsenhor Armando Teixeira, solene missa em Ação de Graças que contou com a presença de grande massa popular e altas autoridades locais, entre as quais o Cel. Aurélio Lira, comandante da Guarnição, o Dr. Eduardo Ruiz Caravantes, juiz de direito e diretor do Fórum, o Dr. Homero Schneider, delegado de polícia, o Sr. Emílio Freitag, pretor suplente em exercício, o Dr. Romeu Simões Pires, 2º promotor público, o Sr. Gustavo Peixoto, presidente do diretório do PTB e muitos outros. Durante todo o dia os trabalhistas deram demonstrações do intenso júbilo que os invadia, com o espocar contínuo de foguetes, não só à frente da sede do partido como vários pontos da cidade. À noite realizou-se o desfile de carros alegóricos, que contou com a participação de representações de todos os comitês e subdiretórios do interior e da zona suburbana da cidade, bem como de várias firmas e de estabelecimentos orizícolas do município. Vários carros alegóricos davam ao corso trabalhista um aspecto de atração popular, observando-se ainda os dísticos que faziam parte da ornamentação de cada um dos veículos da passeata da vitória. (...) A todo o instante a massa popular vivava entusiástica e freneticamente o seu líder, presidente Getúlio Vargas, e os demais trabalhistas que naquele dia, sob os aplausos do povo, assumiam postos chaves, tanto na esfera estadual como na federal. Na ornamentação de seus veículos destacaram-se o Comitê Assunção Viana, do Amorim; o Comitê do Alto dos Loretos e o Comitê Floriano Neves da Fontoura, da Vila Soares.”

A comemoração também era pela indicação de dois cachoeirenses para comporem o ministério do governo Getúlio Vargas: Nero Moura para o Ministério da Aeronáutica e João Neves da Fontoura para o Ministério das Relações Exteriores.

Graças a instituições de memória e ao salutar hábito de muitas pessoas de guardarem jornais, fotografias, objetos e documentos, momentos históricos como este podem ser revelados e compreendidos muito tempo depois de terem ocorrido.

A foto de um dos caminhões decorados que participou da passeata da vitória em Cachoeira chegou até nós graças ao zelo de Telmo Bauer Barbosa. Segundo ele, o veículo foi decorado por Inês Dickin e dirigido pelo seu pai, Cândido Eloy Barbosa.

Caminhão decorado para a Festa da Vitória - Acervo Telmo Bauer Barbosa

Guardar vestígios do passado é como fornecer peças capazes de completarem um grande quebra-cabeças. A notícia do Jornal do Povo, bastante clara em sua descrição, pela fotografia cedida por Telmo Bauer Barbosa ganha outra dimensão, porque materializa e ilustra um fato até então registrado apenas pelas palavras de um redator.

Jornal do Povo - 4/2/1951 - Coleção de Imprensa do Arquivo Histórico

Agradecimento especial a Telmo Bauer Barbosa pela cessão da fotografia. 

Veja cenas da posse de Getúlio Vargas  https://www.youtube.com/watch?v=Zwuztecdp70

sábado, 17 de agosto de 2019

Patrimônio cachoeirense em pauta


Há 25 anos o Conselho Municipal do Patrimônio Histórico-Cultural – COMPAHC conquistou o maior prêmio nacional na área da preservação da memória: o Prêmio Rodrigo Melo Franco de Andrade. A premiação ocorreu no Rio de Janeiro, para onde se dirigiu a presidente do COMPAHC à época, Ione Maria Sanmartin Carlos.

Troféu Prêmio Rodrigo M. F. de Andrade - Acervo COMPAHC

Diploma do Prêmio Rodrigo M. F. de Andrade - Acervo COMPAHC

Ione no Rio de Janeiro recebendo a premiação em nome do COMPAHC
- Acervo COMPAHC

Rodrigo Melo Franco de Andrade foi uma das lideranças culturais do Brasil a partir do movimento modernista, tornando-se um dos responsáveis pela legislação que rege o patrimônio cultural desde a década de 1930. Rodrigo esteve à frente das ações relacionadas ao patrimônio histórico-cultural por 30 anos, devendo o Brasil a ele a proteção de bens em que se incluem alguns de interesse mundial. O dia de seu nascimento, 17 de agosto (1898), foi escolhido para a comemoração do patrimônio histórico nacional.

Rodrigo Melo Franco de Andrade - Wikipédia

Criado em 1981, o COMPAHC tinha em sua bagagem, no ano de 1994, o primeiro inventário de bens culturais feito no interior do Rio Grande do Sul (1989), vários tombamentos de bens patrimoniais de relevante valor histórico-cultural (1985 e 1986) e atividades de fomento à ideia da preservação. Com este conjunto de ações se credenciou ao prêmio e o conquistou.

Relembrar este feito é oportuno neste dia 17 de agosto de 2019, quando em comemoração ao Dia Nacional do Patrimônio o governo do Estado do Rio Grande do Sul resolveu também instituir a data como Dia Estadual do Patrimônio Histórico. Para marcar a importância deste dia, o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico do Estado – IPHAE promoveu o tombamento dos prédios que foram construídos para agências do extinto Banco Pelotense, dentre eles o de Cachoeira, atualmente ocupado pelo BANRISUL.

Banco Pelotense (1922) - Fototeca Museu Municipal

Verdadeira joia da paisagem urbana, o prédio do antigo Banco Pelotense foi inaugurado em 1922. O projeto do edifício era do arquiteto Manoel Itaqui, tendo sido construído por Santiago Borba.

A sua arquitetura, alterosa, tem como destaque a cúpula e um conjunto escultórico composto por três figuras representativas das atividades comerciais e industriais. Além da riqueza arquitetônica, é importante destacar a sua localização, tendo ele inaugurado a quadra que depois seria conhecida como “dos bancos”.

Conjunto escultórico do frontão do BANRISUL - Foto Renato F. Thomsen

Cachoeira do Sul, rumo aos seus duzentos anos de instalação como município, tem motivos de sobra para se orgulhar do patrimônio que tem conservado. Muito se perdeu, é verdade, mas o que já cativou o coração dos cachoeirenses ganha, dia a dia, o respeito e a estima de quem tem apreço pelas marcas da história. São 15 bens tombados pelo município, através do premiado COMPAHC, e quatro pelo Estado, através do IPHAE. Mas há muito ainda a ser descoberto pelos cachoeirenses. Mais de 80 edificações, consideradas em sua importância histórica ou arquitetônica, aguardam a oportunidade de também se tornarem de fato bens que habitam a estima da cidade que teve capacidade de erguê-los ao longo de sua rica e diferenciada trajetória histórica.

domingo, 14 de julho de 2019

Um certo A. Saidenberg


Nos tempos que correm, a fotografia tornou-se uma atividade para lá de corriqueira, pois todo mundo, a qualquer hora do dia, está com a câmera de seu celular a postos para o próximo clique!

Mas houve tempos em que ela era para raros praticantes e poucos fotografados. Até a forma de referir o sujeito que praticava a fotografia tinha uma acepção mais artística: fotógrafo era retratista.

Em Cachoeira, os jornais mais antigos, como O Commercio (1900-1966), trazem notícias daqueles que se ofereciam para retratar pessoas e ambientes por temporadas. Estes profissionais, vindos de centros maiores, geralmente se hospedavam em lugar central para favorecer a atração da clientela. Esta prática provavelmente vinha desde meados do século XIX, quando as primeiras experiências com fotografia começaram a ter lugar por aqui.

Certamente a mais antiga fotografia existente em Cachoeira de que se tem conhecimento é a que registrou o Comendador Antônio Vicente da Fontoura e sua mulher Clarinda por volta de 1856, ou seja, quatro anos antes da morte do comendador. A fotografia é atribuída ao fotógrafo italiano radicado em Porto Alegre Luigi Terragno. Na bagagem deste conhecido profissional, que se deslocava pelo estado para executar sua arte, estão registros da cidade de Porto Alegre e do próprio Imperador Pedro II.

Antônio Vicente da Fontoura e Clarinda em foto atribuída a Luigi Terragno
- cerca de 1856 - Fototeca Museu Municipal
Muitas são as fotografias da Cachoeira antiga que suscitam curiosidade sobre quem teriam sido seus autores, uma vez que nem todos identificavam os seus ateliês. Portanto, associar fotógrafo ao trabalho é tarefa desafiadora e extremamente recompensadora quando se torna possível.

Notas fiscais do Photo-Atelier de A. Saidenberg, preservadas no acervo documental do Arquivo Histórico, referem séries fotográficas feitas pelo profissional na Praça José Bonifácio, quando de sua reestruturação e embelezamento, e das obras de saneamento, todas em meados da década de 1920, numa rara oportunidade de associação do "criador" à "criatura".

Nota do Photo-Atelier de A. Saidenberg - 14/4/1926
- Acervo documental do Arquivo Histórico - IM/RP/SF/D-Caixa 9

Uma das notas, emitida em 14 de abril de 1926, é sobre o serviço de 6 retratos da Praça José Bonifacio, ao custo de 30 mil réis. Das imagens produzidas por A. Saidenberg, salvo outra prova documental que surja, provavelmente uma delas pode ter sido esta:


Vista de uma das quinas da Praça José Bonifácio já remodelada - 1926

A outra nota, desta vez emitida por A. Saidenberg para a Intendência em 4 de novembro daquele mesmo ano, discrimina o serviço de 32 retratos das Obras de Saneamento em construcção, ao custo de 3.500 réis cada. Esta série de fotos está reproduzida na íntegra em um álbum do arquivo particular de Joaquim Vidal, existente no acervo do Arquivo Histórico.

Eis algumas das fotografias e a nota fiscal em questão:


Nota fiscal emitida em 4/11/1926
Acervo documental do Arquivo Histórico - IM/RP/SF/D-Caixa 13

Depósito do material das obras de saneamento

Construção da casa dos filtros - 2.ª Hidráulica



Tanque alemão

Poço de captação

Construção do R2 - na atual Praça Borges de Medeiros
As fotos foram feitas durante e ao término das obras da segunda hidráulica, onde estavam incluídos o Château d'Eau e o R2 da atual Praça Borges de Medeiros.

As fotos produzidas por A. Saidenberg muito mais do que retratos, são verdadeiros documentos de uma das mais efervescentes e progressistas eras da história de Cachoeira do Sul. Atribuir autoria a elas confere-lhes ainda um maior valor histórico.

Observe a animação produzida pelo fotógrafo Renato F. Thomsen em foto atribuída a A. Saidenberg feita na Rua Sete de Setembro, 1926 (programa Pixaloop).



Nota: ofereço esta postagem à colega Neiva Köhler que coloca na minha mão estes preciosos documentos.

domingo, 30 de junho de 2019

O primeiro jornal de Cachoeira


Por ocasião da chegada do Jornal do Povo ao seu 90.º ano de circulação, de imediato vem à memória o primeiro órgão de imprensa escrita surgido em Cachoeira.

O Cachoeirense era o nome desse jornal surgido em maio de 1879. A notícia de sua existência chegou até nós por meio do historiador Aurélio Porto, ele mesmo um entusiasta da imprensa e com passagens por vários jornais.  Era impresso duas vezes por semana e tinha caráter político. O fundador d’O Cachoeirense foi o tipógrafo Amaro José Lisboa, tendo como redator e diretor Bento Porto da Fontoura, um dos filhos de Antônio Vicente da Fontoura.

A época do surgimento do jornal coincidiu com um momento político especial vivido pelo Brasil, que era o da propaganda republicana e abolicionista. Certamente O Cachoeirense reproduziu em suas páginas, dentre anúncios comerciais, literários e do cotidiano da cidade, um pouco daquele cenário que antecedia a abolição da escravatura e logo depois a proclamação da República.

No entanto, nenhum exemplar d’O Cachoeirense era conhecido, ficando as informações sobre o seu formato, circulação e ideário a critério do que o nosso historiador-mor levantou. Até que uma espiada no conteúdo de um CD de inventários vindo do Arquivo Público do Estado do Rio Grande do Sul – APERS trouxe luz sobre o primeiro jornal de Cachoeira! Este grande achado, ainda que reduzido a uma foto de parte da primeira página do jornal, comprovou que O Cachoeirense era um periódico comercial, noticioso e literário, como também a maior parte dos jornais de seu tempo. A circulação se dava nas quintas-feiras e domingos, e o endereço do escritório e tipografia era a Rua do Imperador n.º 4, hoje a Rua 15 de Novembro.

O Cachoeirense, edição de 1/3/1882 - Acervo APERS

A circulação do nosso primeiro jornal não chegou a completar cinco anos, saindo a última edição em 31 de março de 1884, quando o seu fundador foi embora para Porto Alegre.

No acervo documental do Arquivo Histórico, é possível encontrar documentos que provam que logo depois de fundado, graças ao tino comercial de Amaro José Lisboa, um dos primeiros assinantes foi a Câmara Municipal. A Câmara, como hoje a Prefeitura, necessitava divulgar editais e tornar públicas outras informações de interesse da comunidade. Um bom negócio para ambos.

Recibo dado por Amaro José Lisboa - 18/7/1879 - CM/Po/RD/DD-035

Cachoeira teve muitos outros jornais a partir d’O Cachoeirense. Alguns circularam pouco tempo, outros foram mais persistentes. O mais duradouro de todos, o Jornal do Povo, teve como mais próximo em longevidade O Comércio, que circulou de janeiro de 1900 a fevereiro de 1966.

A imprensa, na história de Cachoeira, tem muito ainda a revelar, pois boa parte dos jornais que aqui circularam não deixaram exemplares disponíveis para uma análise dos conteúdos que produziram. Vive-se, então, a eterna espera de um dia topar com um recorte, uma folha, quem sabe uma edição inteira de um destes jornais para então entrever um retrato de seu tempo.

sábado, 15 de junho de 2019

Clube Comercial - 95 anos


O marco inicial da história do Clube Comercial Cachoeirense se perde no tempo. Antes da fundação da sociedade que se mantém até hoje, ocorrida em 15 de junho de 1924, outras agremiações, de nomes diversos, constituíram suas células fundadoras.

Símbolo do Clube Comercial Cachoeirense - Jornal do Povo

Existia na cidade, desde 1899, uma sociedade chamada Clube Cachoeirense e, em 7 de janeiro de 1900, alguns empregados do comércio fundaram o Clube Caixeiral, sociedade beneficente e recreativa, tendo o conhecido comerciante Pedro Stringuini como primeiro presidente. O número de sócios era de 173, sendo 85 efetivos e contribuintes, 30 fundadores, 56 honorários e dois beneméritos. O Caixeiral era um clube com inclinação a atividades culturais, como concertos musicais e peças teatrais, mantendo inclusive uma banda de música com 18 figuras e instrumental completo.

Em 19 de julho de 1902, o Clube Caixeiral inaugurou sua sede e o jornal O Commercio de 23 de julho deu destaque ao fato, descrevendo-a assim: Lembrava a fachada do alteroso sobrado – uma das mais risonhas vivendas dos contos orientais. Bandeiras, galhardetes, pavilhões e outros adornos naturais chamavam a atenção daquela quadra da nossa bela Rua Sete de Setembro. Um bonito coreto ali construído despertava também a admiração de quantos o avistavam.

Em 1902, tanto o Clube Caixeiral como o Clube Cachoeirense tinham existência própria e independente, com a imprensa local noticiando atividades de ambos. Mas não demorou muito para as duas sociedades se fundirem, por iniciativa da Associação dos Empregados no Comércio de Cachoeira, nascendo o Clube Comercial em 5 de novembro daquele ano.

Mas esse primeiro Clube Comercial não durou muito, sendo extinto em 27 de março de 1910, ocasião em que foi criado o Cassino Clube, agremiação que assumiu o passivo e o ativo da anterior. Foi aclamado primeiro presidente do Cassino Clube o farmacêutico Augusto Cezar Castilho, tendo como vice o Dr. Balthazar de Bem, secretários José Carlos Barbosa e Raul de Freitas Boccanera, com Paulino Breton como tesoureiro.

Em 15 de junho de 1924, no salão do Clube Renascença, foi fundado um novo Clube Comercial, que agregou ao nome a alcunha "Cachoeirense", e em 6 de julho se instalou na casa que pertencia ao Dr. Balthazar de Bem, localizada na Rua Sete de Setembro, onde hoje está sediada a Casa de Cultura Paulo Salzano Vieira da Cunha.

Residência do Dr. Balthazar de Bem - sede do Clube Comercial a partir de 1924
- Acervo COMPAHC

A casa do Dr. Balthazar de Bem, apesar de confortável e ampla, não oferecia as acomodações necessárias para a prática de esportes ao ar livre, uma das atrações preferidas dos que procuravam associar-se a entidades do gênero naquela época. Portanto, os primeiros tempos de funcionamento do Clube Comercial na casa foram essencialmente de realização de bailes e de outras atividades, como competições de xadrez e horas de arte.

Festa no Clube Comercial - Acervo Terezinha Mainieri V. da Cunha

Em junho de 1949, foi lançada a pedra fundamental da nova sede que o Clube Comercial Cachoeirense construiria na Rua Sete de Setembro, esquina com a Rua General Portinho. O edifício foi inaugurado em 5 de setembro de 1957, tendo como grandes impulsionadores da obra Theobaldo C. Burmeister e Edwino Schneider. A obra foi executada pela empresa construtora de Roberto Jagnow & Cia. Ltda., dirigida pelo engenheiro Hugo Schreiner.

Projeto da fachada do Clube Comercial - Acervo do Arquivo Histórico

O tradicional e aristocrático Clube Comercial Cachoeirense foi por muitos anos um dos mais destacados e atuantes clubes da cidade. Reunia a sociedade cachoeirense em eventos de glamour e encantamento. Adquiriu, ao longo de sua história, uma sede campestre, equipando-a com piscina e área de camping que atraiu gerações de cachoeirenses.

Os tempos de hoje são de novos modelos de convívio. As sociedades tradicionais têm encontrado dificuldades em manter seus patrimônios e atraírem os associados para eventos em suas sedes. Mas estas novas características não invalidam a importância que entidades como o Clube Comercial Cachoeirense tiveram e têm para a história associativa da cidade. Alternativas de uso e fruição de seu patrimônio são desafios para as diretorias e os sócios que se mantêm fieis a uma história que chega às portas de um século. Importante demais para ser esquecida.

Entrada do Clube Comercial - Foto Jornal do Povo

domingo, 26 de maio de 2019

O senhor da Tafona


Quem tem a possibilidade de conhecer a sede da antiga Fazenda São José, mais conhecida como Fazenda da Tafona, na localidade de Porteira Sete, interior de Cachoeira do Sul, fica intrigado com um retrato a óleo que domina a sala principal da casa.

Sede da Fazenda da Tafona - foto Renato F. Thomsen

O senhor de olhar plácido, porém decidido, domina o ambiente e parece hipnotizar quem circula pelo local. Como os bons retratos do passado, de dentro da moldura, a figura parece acompanhar os passos de quem ocupa a sala de seu domínio...

Retrato de José Sebastião Vieira da Cunha - obra do Atelier Calegari
- Foto Renato F. Thomsen

O senhor da Tafona é José Sebastião Vieira da Cunha, nascido a 20 de janeiro de 1846, filho de Pamphilo Vieira da Cunha e de Clara Vieira da Cruz Brilhante. Ele não foi o primeiro morador do local. A propriedade remonta ao grande sesmeiro açoriano João Pereira Fortes, bisavô de José Sebastião.

A sorte parece ter sido a sua sina, materializada em proteção e fortuna. Com vinte anos, em 18 de junho de 1866, José Sebastião, certamente movido pelos arroubos da juventude, foi para o Rio de Janeiro oferecer-se para servir ao Brasil na Guerra do Paraguai. Acontece que José Sebastião era o sobrinho preferido e protegido da solteira e rica Anna da Cruz Brilhante que, no desespero de ver o risco que o rapaz corria, conseguiu, certamente com um bom pagamento, que outro moço tomasse o seu lugar. José Sebastião, no entanto, não desperdiçou a oportunidade de ficar na capital do Império e lá se empregou no comércio.

Em 1868, Pamphilo Vieira da Cunha, pai de José Sebastião, morreu. O rapaz teve que voltar para Cachoeira a fim de assumir os negócios da fazenda de criação da tia, de que já era herdeiro universal, e cuja administração até então havia ficado sob os encargos de seu pai.

Readaptado às suas novas funções, em 23 de abril de 1870, José Sebastião casou-se com a prima Maria Manoela Pereira, filha de rico fazendeiro, na Fazenda do Capané. Como era comum aos bem aquinhoados da época, o enxoval da noiva foi encomendado em Portugal, sendo embarcado para o Brasil em uma arca (baú), até hoje conservada no acervo da Tafona.

Arca do enxoval de Maria Manoela Pereira da Cunha - 1870
- Foto Renato F. Thomsen

José Sebastião e Maria Manoela tiveram 13 filhos: Pamphilo, Emília, Afonso, Eduardo, Hermínia, Maria, Manoel, Hugo, Jorge, Edmundo, Julieta, Marieta e Carlos.

José Sebastião (1.º à esquerda) e família - Acervo Fazenda da Tafona

A morte de José Sebastião se deu em 19 de maio de 1916. Por essa época, a Fazenda da Tafona era constituída por uma légua de campos na margem esquerda do rio Piquiri, ocupados pela criação de gado. Outras atividades tinham sido experimentadas, uma delas a da extração de cal, e naquele ano um dos filhos de José Sebastião, Hugo Vieira da Cunha, era sócio de Mostardeiro & Cia., empresa arrendatária de parte das terras para produção de arroz.

A sucessão dos tempos fez da Tafona um repositório de lembranças de diferentes personalidades e épocas. Outros personagens da história de Cachoeira habitaram o lugar, nele interferindo e agregando memórias. Um dos mais célebres foi o médico José Pereira da Silva Goulart, figura proeminente da política cachoeirense e um dos mandatários do atentado contra Antônio Vicente da Fontoura.

Dr. José Pereira da Silva Goulart - Acervo familiar

José Sebastião Vieira da Cunha, cujo desaparecimento “da vida objetiva” já bate em 113 anos, afixou sua figura ao lugar de forma irrefutável. O retrato, obra do famoso Atelier Calegari, não é um simples objeto da história. Ele reflete o “Senhor da Tafona”, solenizado na grande sala da velha casa construída no início do século XIX. Reverência da sua filha Emília, herdeira do quinhão que restara das inúmeras sucessões familiares.

Em 1963, Emília Vieira da Cunha vendeu a propriedade para a sobrinha e afilhada Gemina Vieira da Cunha Silva e seu marido Sylvio Martins da Silva. Hoje a filha do casal, Marô Vieira da Cunha Silva e o marido Marco Schntz conservam aquele patrimônio histórico-cultural.

O retrato nunca saiu de lá. E os olhos de José Sebastião seguem a mirar o tempo. Já viram o passado, observam o presente e perscrutam o futuro.