Espaços urbanos

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Centro Histórico - foto Eduardo Schroeder

segunda-feira, 27 de outubro de 2014

Fotografia em 1913: arte ou esporte?


Cachoeira vivia, em 1913, a febre da fotografia. Eram tantos os praticantes desta “novidade” que pairava no ar uma dúvida: a fotografia, afinal, era arte ou esporte?

O jornal Rio Grande, em sua edição de 17 de julho de 1913, publicou a seguinte matéria:

"Com o desenvolvimento do esporte na nossa terra, ultimamente também a fotografia vai ganhando terreno. Em todas as festas, dias de domingo e comum, não é estranhável vermos muitos amadores com a sua caixinha preta procurando pôr em foco aqui um trecho da rua, ali um grupo de senhoritas, etc.

Máquina fotográfica 1913 - vivaradio.wordpress.com

E assim já temos um Calegari, um Ferrari, um Barbeitos, um Fontana* e vários outros, em miniatura. A concorrência é tanta que os retratos nada custam. Qualquer pessoa fará um grande favor se se deixar fotografar. Os afixados são gentis ao extremo. Invadem os quartos de dormir para apanhar instantâneos dos que dormem, suplicam transeuntes para as vistas das ruas. E vários apresentam magníficos retratos, alguns bem focados, nítidos, porém, outros precisam escrever os nomes para serem conhecidas as pessoas. 

Rua Saldanha Marinho - sem data e sem autor - fototeca Museu Municipal

Rua 7 de Setembro com transeunte - sem data e sem autor - fototeca Museu Municipal

Porto e engenho de arroz, vendo-se o leito seco do rio
- sem autor e sem data - acervo Ernesto Müller


Diante desta faina fotográfica, em breve abriremos um concurso com prêmios a fim de galardoarmos a estes infatigáveis sportsmen”.

Nas próximas edições do jornal há rápidas referências ao concurso, intenção de arrecadar os prêmios, mas... nenhuma notícia da realização!

Digno de nota é o fato de que por esta época o “nosso” Calegari já estava residindo em Cachoeira e, quem sabe, servindo de inspiração aos “desportistas” da fotografia: Dr. Benjamin Camozato!

*Calegari, Ferrari, Barbeitos, Fontana: fotógrafos famosos da época.

sexta-feira, 24 de outubro de 2014

Mais da história de 111 anos do Hospital de Caridade

O jornal Rio Grande, em sua edição do dia 21 de outubro de 1909, na primeira página, publicou os estatutos do HOSPITAL DE CARIDADE CACHOEIRENSE, que tinham sido aprovados em assembleia geral de sócios.

Os estatutos, em  nove artigos, eram os seguintes:
Art. 1.º O Hospital de Caridade Cachoeirense, como instituto beneficente que é, foi constituído de sócios sem distinção alguma e tem por fim proporcionar aos indigentes enfermos tratamento médico e cirúrgico.
Art. 2.º A sede do hospital será nesta cidade, no edifício próprio já construído à Praça Itororó.

Hospital de Caridade em foto de 1922 extraída da obra
O Rio Grande do Sul, de Alfredo R. da Costa
Art. 3.º O hospital será administrado por um Diretor, um Vice-Diretor, um Secretário e um Tesoureiro.
Art. 4.º A Diretoria será eleita por assembleia geral, constituída pelos sócios contribuintes, mediante sufrágio da maioria dos que a ela comparecerem.
Art. 5.º O hospital será representado em juízo, ou fora dele, pelo seu Diretor.
Art. 6.º Os membros da sociedade não responderão subsidiariamente pelas obrigações que os seus representantes contraírem em nome dela.
Art. 7.º O hospital será regido por um regulamento interno, devidamente organizado e aprovado pela assembleia geral.
Art. 8.º Os presentes estatutos poderão ser revistos quando as necessidades assim o determinarem.
Art. 9.º Estes estatutos serão registrados quando o seu Diretor assim o julgar oportuno, de acordo com o Decreto n.º 193 de 10 de setembro de 1893.

Como o registro acima confirma, o Hospital de Caridade nasceu preocupado com a sua própria gestão. Conceito moderno, aplicação antiga.

sábado, 11 de outubro de 2014

Santa Josefa - nascimento da lenda

SANTA JOSEFA
Num belo gesto de piedade, santificando o martírio, os nossos antepassados nos legaram, junto à sanga da Micaela, um pequeno túmulo encimado por uma cruz, onde repousam, diz a lenda, os restos da Santa Josefa.

Túmulo de Santa Josefa - fototeca Museu Municipal
Os restos da Santa Josefa
Era a santa dessa raça votada ao sofrimento e à miséria, que o grilhão da cor acorrentara ao cáucaso da ignomínia. Negra e escrava. Eram-lhe condições sobejas de martírio, se lhe não fora a vida perene dor.
Uma lenda, vagamente sabida, quase esbrumada nos tempos, destaca-a do fundo escuro do passado, com resplandores iriados de santidade. Sofreu muito e o povo canonizou-a. Não teve no cemitério santo um lugar, ou na obscuridade da vala comum um canto; mas ali, junto da cidade, quase dominando-a do alto, cercam-na todas as noites dezenas de velas, erguem-se, de redor de seu túmulo, as plangências litúrgicas das ladainhas na vocação religiosa daquela alma de santa que lá nos céus, piedosa e meiga, estende para Deus os braços impetrando graças divinas.
Santa Josefa é um símbolo. Entrou na crendice popular nessa época terrivelmente bárbara em que o azorrague* do feitor abria, na noite profunda da epiderme negra, relâmpagos faiscantes de sangue.
O martírio deu-lhe santidade. E através de quase um século de adoração, hoje como outrora, todas as noites, os terços intencionais, sob a pálida chama tremulante das velas, sobem de ao pé dela, nas litanias** sagradas de um fervor cultual.
Contam-se os milagres. O túmulo que cerca a nesga de terra em que seu corpo jaz, e o penhor de satisfeita promessa. Graça nenhuma se lhe pede que a santa piedosamente não venha socorrer. É perante Deus a intermediária do povo. Não só da massa alheia de crendices e superstições, mas até dos cultos, a quem não nega o cumprimento de votos impetrados. Pois há até quem, de longes léguas, mande buscar o sebo das velas que alumiam a Santa, o qual é infalível para reumatismos...
Quantas vezes na meninice não desfiei padres-nossos junto às gradezinhas do túmulo em que a Santa dorme?
Venerava-a, sem conhecê-la. Era uma negra que ficou santa, diziam. A lenda feita em torno de seu martírio e de sua morte era e é quase desconhecida.
Adoram-na pela simples razão de que três gerações já a cultuaram.
Sua história é simples.
Josefa era escrava de um tal Costa que morava à Rua Moron, onde reside a família do finado Júlio Rosa. Seu senhor, homem mau, de uma perversidade sem nome, levava dia e noite a maltratá-la.
Não satisfeito já com as contínuas vergalhadas que marcavam o corpo da infeliz, em uma sexta-feira de Senhor Morto, Costa mandou que ela fizesse uma tachada de sabão. Pronta, não ficando a tachada a seu gosto, atirou-a dentro, queimando-se Josefa horrivelmente. Salvou-se por milagre e quando se pode levantar, em uma das vigas do quarto em que dormia, enforcou-se. Os suicidas não podiam ser enterrados no campo santo e Josefa o foi no local onde hoje se acha o seu túmulo.
Passados anos um cão, cavando a terra em que ela fora sepultada, descobriu-lhe um braço. Estava mumificado. Corre a notícia célere. O povo acode. É o milagre. A terra não comera as carnes da infeliz: até a terra lhe negava o supremo consolo de consumir-lhe os ossos!
O povo santificou-a. E ela vem até nós, há quase um século, trazida pela crença onisciente do povo, o seu santificador. As gerações têm passado sobre ela, respeitando-a e venerando-a.
É para nós, que não temos a ventura de crer, uma tradição simbólica da terra. E amamo-la porque ela será, quando a cidade remodelada e modernizada arrasar os últimos vestígios do passado, o refúgio da tradição cachoeirense, a ara*** velha do templo em ruínas do passado em que iremos comungar com essa raça forte, afetiva e infeliz que terá naquele túmulo o pedestal de seu martírio.
O município acaba de comprar o terreno em que está o túmulo da “Santa Josefa”, a fim de abrir ali avenidas amplas e modernas. Façamos nós, o povo que zelamos tradições, que cremos na “Santa Josefa” uma subscrição popular para erigir-lhe uma modesta capela, de que seja a padroeira a verdadeira Santa Josefa (já que a Igreja não admite a nossa), conservando porém, no fundo dessa capela, aquele pequeno túmulo, com a sua doce simplicidade primitiva de santuário.

João da Ega
(Extraído do Jornal Rio Grande, Cachoeira, Ano VII, Nº 80, 16/11/1911, p. 1)

*açoite
**ladainhas
***altar; pedra sobre a qual o sacerdote põe o cálice e a hóstia

domingo, 5 de outubro de 2014

Velocidade dos automóveis em 1913

Rua 7 de Setembro - foto Jorge Ritter
Cachoeira vive hoje uma verdadeira “invasão” de automóveis em suas ruas. Faltam vagas para estacionamento, sobram reclamações de motoristas e pedestres com as questões de mobilidade urbana.

Rua David Barcelos - foto Dimi Machado
Mesmo acostumados aos automóveis e reconhecendo neles a utilidade que têm para a vida moderna, não nos furtamos a reações de estranheza com os problemas que surgem de sua utilização indiscriminada. Os moradores da Cachoeira do século passado, desacostumados à novidade, além de estranhar, temiam os primeiros automóveis que por aqui apareceram.

No jornal O Commercio (1900 – 1966), excelente fonte para vasculhar o passado da cidade, na edição do dia 1.º de agosto de 1913, há uma notícia que mostra o quanto os primeiros “bólidos” estavam causando preocupação:

“Nos últimos dias vários chauffeurs vêm cometendo o abuso de andar a toda velocidade pela Rua 7 de Setembro e por outros pontos movimentados da cidade. Aos domingos, em que muitas famílias passeiam de auto, certos chauffeurs dão-se ao luxo de efetuar corridas de velocidade no caminho do Amorim, felizmente pouco transitado, e pela Rua Júlio de Castilhos, uma das mais frequentadas da cidade. Ainda à tarde de domingo penúltimo tivemos ocasião de observar como dois chauffeurs tocaram os seus autos a sete pontos pela Rua Júlio de Castilhos, cada um na ânsia de tomar a dianteira. Para este fato chamamos a atenção do Sr. Capitão João Luiz Pinheiro, ativo subintendente da sede, esperando que S. S. dê um paradeiro a tal abuso antes que tenhamos a registrar alguma desgraça.”

Rua 7 de Setembro no primeiro quartel do século XX
- Fototeca Museu Municipal -
Rua Júlio de Castilhos em imagem posterior a 1913
- Fototeca Museu Municipal - 
Caso o jornalista que redigiu o texto acima entrasse na máquina do tempo, o que diria dos bólidos que paulatinamente foram tomando a cidade?

Rua 7 de Setembro - década de 1930
- Acervo Dr. Fritz Strohschoen -