Espaços urbanos

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Centro Histórico - foto Eduardo Schroeder

domingo, 25 de dezembro de 2016

Série Prédios com passado, presente e futuro: Museu Municipal

Um casarão escondido no fim de uma rua guarda preciosas provas materiais da nossa história. E mais do que provas materiais, guarda e difunde traços da nossa identidade cultural, apresentando-se como vitrine de personagens e feitos históricos.

Que casarão é este? A sede do Museu Municipal de Cachoeira do Sul – Patrono Edyr Lima, no coração do Parque Municipal da Cultura desde dezembro de 1986, onde conjuga natureza e história com vários verbos, especialmente preservar, registrar e expor.

Sede do Museu Municipal de Cachoeira do Sul - Parque Municipal da Cultura
- fototeca Museu Municipal

Da história da casa há alguns registros que dão como seu construtor o alemão Engelberth Gottwald, empreendedor, amante da fotografia e das flores, especialmente dálias, que colecionava nos jardins da casa, fabricante de sabão, bebidas e velas e que oferecia banhos públicos nos fundos da sua fábrica, na Travessa 24 de Maio, hoje Rua Dr. Sílvio Scopel.

Engelberth Gottwald e seu amigo José Zell
- fototeca Museu Municipal

A fábrica de sabão e de gasosa de Gottwald produzia gasosa, limonada, água mineral e uma bebida sem álcool, chamada Diana.  A fábrica de sabão, fundada pelo seu sogro, Otto Büchler, em 1887, foi adquirida por Gottwald em 1902, ano que também pode ter sido o da construção da casa. No estabelecimento, Gottwald mantinha depósito de variados tipos de sabão. A fábrica de sabão foi depois vendida para Frederico Richter, proprietário da casa que existe até hoje, próxima ao Parque Municipal da Cultura.

Casa de Frederico Richter - acervo COMPAHC

Para o fabrico de velas, Gottwald recebeu uma máquina vinda da Europa, aumentando as dependências de seu estabelecimento. O passeio de tijolos que dá acesso ao vagão de trem que há na lateral do Museu seria parte do piso das instalações fabris.

Por volta de 1940, Engelberth Gottwald vendeu a propriedade do final da Travessa 24 de Maio para Aracy Machado Alves. O novo proprietário fez algumas melhorias na casa e passou a denominar o lugar, quase uma chácara, como Vila Maria. As iniciais VM podem ser vistas até hoje no portão de ferro que dá acesso ao Parque Municipal da Cultura.

Aracy Machado Alves - fototeca Museu Municipal

Outra testemunha da rica história desta casa e seus arredores é uma grande araucária que cresce junto ao lado direito do portão de ingresso do Parque, e que foi plantada pela família Alves depois que cumpriu a sua missão de pinheiro de Natal.

Como se vê, a casa que guarda a nossa história tem as suas próprias e peculiares histórias... E é um exemplar legítimo de casas que têm passado e presente... Mas um futuro incerto! Sem a manutenção necessária e sujeita às intempéries, a construção precisa de socorro urgente para que possa efetivamente ser um prédio com passado, presente e futuro! E garantir a perpetuação das nossas glórias históricas.

Imagem: fototeca Museu Municipal

sexta-feira, 9 de dezembro de 2016

Novos tempos para o tempo passado V: Paço Municipal

Uma casa que abrigasse espaço para as reuniões dos vereadores, que acomodasse suas alfaias* e ainda pudesse dispor de aposentos para a justiça e para a cadeia era uma das maiores demandas das autoridades desde a instalação da Vila Nova de São João da Cachoeira em 5 de agosto de 1820. Os pobres cofres municipais tinham que desembolsar aluguéis diferenciados para a casa das sessões e para a cadeia, situação que perdurou por mais de quatro décadas, sacrificando outros investimentos necessários.

Depois de vários anos de tentativas, de acertos e desacertos entre a municipalidade e a província, em 30 de outubro de 1860 a Câmara Municipal decidiu publicar edital para recebimento de propostas de empreiteiros que tivessem interesse em contratar a obra de construção da Casa de Câmara, Júri e Cadeia, projetada pelo Major de Engenharia José Maria Pereira de Campos.

Uma das mais antigas imagens do Paço Municipal - ao lado o primeiro teatro
- fototeca Museu Municipal

A única proposta recebida, mesmo que ferindo o regimento da Câmara, foi submetida ao governo da Província e aceita: a do vereador Ferminiano Pereira Soares, ao custo de quarenta e cinco contos, oitocentos e sessenta e três mil e oitocentos e sessenta réis. Vencida a burocracia da época, desapropriação dos terrenos e indenização dos proprietários, entre março e abril de 1861 tiveram início as obras.

Data da conclusão da obra no frontão - foto Renate S. Aguiar

A construção da Casa de Câmara, Júri e Cadeia levou quatro anos e consumiu certamente a saúde do empreiteiro Ferminiano. Sua morte, em meados de 1865, talvez tenha sido apressada pelos percalços do empreendimento, pelos investimentos feitos às suas expensas e pela espera de quitação do valor contratado, já que durante todo o tempo da construção ele recebeu apenas dezenove contos de réis do montante. A diferença foi recebida por sua viúva, D. Carlota Pereira de Lima, sendo integralizada somente em julho de 1868!

Estas são apenas algumas poucas páginas de uma história rica, cujo levantamento só foi possível graças à existência da documentação preservada pelo Arquivo Histórico do Município.

As paredes do velho prédio abrigaram por muito tempo os três poderes e a cadeia, acompanharam as mudanças das estruturas administrativas e das formas de governo e deram corpo às diferentes denominações que o sobrado teve: Casa de Câmara, Júri e Cadeia, Intendência e Prefeitura Municipal. Hoje, revigorado pela restauração, o prédio tem sido chamado Paço Municipal, forma que parece dar ao magnífico sobrado as dimensões histórica e simbólica que ele nunca deixará de ter.


O Paço Municipal em processo de pintura - fotos Renato F. Thomsen
www.pontedepedra.blogspot.com.br


*alfaia: qualquer móvel ou utensílio utilizado em uma casa; adorno; paramento.