Espaços urbanos

Espaços urbanos
Estátuas no frontão da União de Moços - foto Antônio Sarasá

domingo, 29 de julho de 2018

A importância da Ponte do Fandango

Desde 1961, quando foi oficialmente inaugurada a Barragem-Ponte do Fandango, que a cidade não se via totalmente privada de sua estrutura e do importante e inestimável serviço que ela presta. 

Os cachoeirenses do passado viveram as dificuldades da não existência da ponte e muito sonharam com as facilidades que ela ofereceria. A história mostra que em 1912 houve um movimento de lideranças comunitárias e autoridades em torno da construção de uma ponte que transpusesse o rio Jacuí nas proximidades da cidade, favorecendo o transporte e a ligação com outros municípios via estradas de rodagem. Logicamente este sonho era bem mais antigo, mas os jornais de 1912 chegaram aos nossos dias, revelando a iniciativa. 

A construção da Ponte do Fandango, iniciada em meados da década de 1950, começou de fato a ser planejada em 1949, quando o então prefeito, Dr. Liberato Salzano Vieira da Cunha, viajou ao Rio de Janeiro para tratar de tão importante obra. Como resultado das tratativas levadas a efeito na Capital Federal, em 25 de abril daquele ano a cidade recepcionou o Ministro da Viação, Clóvis Pestana, que garantiu em um dos discursos proferidos: "A ponte será construída em época não muito remota, para isto já estão sendo feitos os estudos e serão iniciados os trabalhos preliminares de sondagem e construção de barragem." A cidade tomava conhecimento então que a estrutura a ser construída constaria de uma ponte com barragem e eclusa!

Jornal do Povo - 1/5/1949, p. 1 - Acervo de Imprensa do Arquivo Histórico
A Barragem-Ponte do Fandango foi a primeira do gênero a ser construída no Brasil e favoreceu a ligação de Cachoeira do Sul com a rodovia Porto Alegre - Uruguaiana, suspendendo a travessia do rio Jacuí pelas balsas.

2018. Desgastada pelo tempo, pelo tráfego pesado e volumoso e pela ineficiente manutenção, as obras há muito reclamadas finalmente estão acontecendo. O transtorno do fechamento da ponte dá uma ideia para os cachoeirenses de hoje do quanto a sua existência é importante e o quanto os cachoeirenses de ontem enfrentaram de obstáculos nas suas movimentações. 

Obras na Ponte do Fandango - Imagens de Renato F. Thomsen

A experiência re/vivida com a travessia do rio por balsas, embora carente de um planejamento mais eficiente, está a mostrar o quanto o Jacuí é soberano nas nossas vidas. Ainda que pouco olhemos para a sua importância e fundamental significação.

Balsa fazendo a travessia do rio Jacuí - Foto Robispierre Giuliani

Vide: https://youtu.be/YfG7bGJ9is0 - Renato F. Thomsen.

domingo, 22 de julho de 2018

E por falar em barcas e atracadouros...


Com a necessária reforma da Ponte do Fandango, a cidade passou a reviver tempos em que a travessia de veículos de uma margem a outra do rio Jacuí só podia ser realizada com a ajuda de barcas.

Reforma na Ponte do Fandango - Imagem Jornal do Povo

Questões de toda ordem parecem dominar operação que deveria ser despida de complicadores, afinal a relação de Cachoeira do Sul com o rio é intrínseca, as experiências com este convívio são incontáveis e, na maioria das vezes, recorrentes...

Barca no porto da Moron - Jornal O Correio

Antes da construção da Ponte do Fandango a navegação era ampla no Jacuí. O velho porto de embarque e desembarque, no baixo da Moron, atendia ao tráfego já com limitações quase um século depois da sua construção. Foi decidido então buscar um novo atracadouro, em local que oferecesse menos obstáculos ao vai-e-vem de embarcações.

O jornal O Comércio, edição do dia 9 de fevereiro de 1949, guardados fatores como tempo e motivação, bem mostra que a História guarda lições que volta e meia deveriam ser cantadas aos quatro ventos:

“Com as obras finais que o DAER vem executando no trecho da estrada de acesso, pela margem esquerda do rio, ao novo “Passo” situado logo após a “ponta da ilha”, é de se prever para muito breve a inauguração deste importante melhoramento no sistema de transporte entre a cidade e a zona Sul do município. Como na margem esquerda, que já está praticamente pronta há algum tempo, na margem direita, o acesso ao passo será feito sobre longo aterro com pontilhões, dada a existência de alagadiços no local.

Apesar desta mudança do nosso tradicional “Passo da Praia” vir afastá-lo da cidade, pois o trajeto a ser feito não será mais pela Rua Moron – Descida da Praia – e sim Rua Conde de Porto Alegre – Descida do Amorim -, entrando pela “Limpeza Pública” até o rio, a sua inauguração há muito vem sendo aguardada por todos aqueles que necessitam periodicamente usá-lo. Como é do conhecimento geral, a mudança em apreço fora resolvida em atenção às exigências técnicas, pois o local onde vem funcionando há dezenas de anos, dada a pouca profundidade das águas, não se presta satisfatoriamente para tais finalidades, muito principalmente quando o rio se acha com determinado volume de água. O novo local escolhido conta com água, quer com o rio cheio ou como em tempo de seca, perenemente profunda, o que possibilita franca manobra de barca automotora e de maior calado. Esta vantagem predispõe o emprego de barcas com capacidade para transportar elevado número de veículos em uma só viagem, o que virá solucionar as bichas que então por vezes se formam em ambas as margens do rio, principalmente por ocasião da safra do arroz." (O Comércio, 9/2/1949, p. 3).

Quase setenta anos depois, a similaridade de situação poderia ser pautada pela semelhança de atitude.

domingo, 15 de julho de 2018

O destino do Teatro Municipal


A inauguração do Teatro Municipal, no Natal de 1900, foi um acontecimento. A cidade celebrava a conquista de recuperar um espaço para as apresentações artísticas, já que a demolição do primitivo Teatro Cachoeirense tinha limitado – e muito – as atrações que necessitavam da infraestrutura de uma casa de espetáculos.

Teatro Municipal visto pela lateral - Fototeca Museu Municipal
Anúncio do extinto Teatro Cachoeirense - jornal O Clarim, 22/5/1887
- Acervo de Imprensa do Arquivo Histórico

Na virada dos anos 1800 para 1900, graças aos trens, várias companhias dos mais diversos tipos de arte e novidades percorriam o trajeto entre a região do Prata e Porto Alegre apresentando-se nas cidades que ficavam no caminho. Cachoeira era uma delas, mas a inexistência de um espaço apropriado muitas vezes desestimulava a estada dos artistas na cidade ou tirava o brilho das companhias que mesmo assim aqui se aventuravam.

Com a inauguração do imponente prédio do teatro, a imprensa da época registrava todo tipo de atrações que apareciam. Cinematógrafos, ventríloquos, clowns, coisas bizarras, máquinas de falar, concertos musicais, operetas, comédias, tragédias, conferências, declamações... Descrições das horas de arte ocupavam colunas dos jornais, bem como a desconfiança de muitos com a solidez do prédio recém-inaugurado...

Teatro Municipal - Fototeca Museu Municipal

Incomodado com o diz-que-diz-que que tomava conta de algumas rodas, o jornal O Commercio, edição do dia 5 de novembro de 1902, publicou o seguinte:

“Avessos a tudo que se propala sem espírito de moral e de razão, principalmente quando vimos que no boato há um mau velado intuito de ferir suscetibilidades, não podemos deixar de condenar acremente como diretores da opinião o que se tem dito e se diz com relação à solidez do Teatro Municipal. Os anônimos que por aí pululam e cujo único ofício é maldizer dos que trabalham e se interessam pelo progresso de sua terra estão, não resta dúvida, se fotografando como imbecis e ignorantes que são, pretendendo incutir no ânimo da população cachoeirense uma prevenção maligna, para assim afastá-la de comparecer às representações que ali se efetuam presentemente, prejudicando artistas e companhias dignos da proteção do público e os créditos incontestáveis do honrado e operoso intendente municipal que dirigiu a construção do elegante edifício, cuja solidez foi e é atestada por competentes. Por hoje ficamos aqui, lembrando ao digno Sr. Coronel Intendente uma vistoria no Teatro por profissionais, que aqui os há, a fim de que mais uma vez sejam confundidos os maldizentes.”

Intendente David Soares de Barcellos
- empreendeu a construção do Teatro Municipal

Como se vê, menos de dois anos depois da inauguração, o prédio provocava desconfianças...

O desfecho de tal história poderia ter sido trágico. Em 6 de janeiro de 1908, o teatro sediou uma festa infantil em benefício do altar do Sagrado Coração de Jesus, da Igreja Matriz, ocasião em que a grande assistência teria ouvido estalos suspeitos. Felizmente o espetáculo findou sem ocorrências.

Quando dias depois a cidade foi acordada com um grande estrondo, por volta das 11 horas da noite, muitas vozes concluíram: “Foi o Teatro que caiu!”

O administrador municipal mandou interditar o prédio e convidou o engenheiro civil Arlindo Leal a dar um laudo sobre o sinistro. Outros técnicos abalizados do estado, devidamente consultados, como o Dr. Ahrons, A. Legendre e Theodoro Tufwesson, apresentaram um relatório pormenorizado dos problemas constatados. Em síntese, constataram o desequilíbrio dos muros do corpo posterior do edifício, a ruptura completa da linha de atracar de uma das tesouras da armação e o escapamento da junta central (em dardo de Júpiter) da linha de outra tesoura.  Com o desequilíbrio das tesouras houve forte pressão sobre as paredes laterais do edifício, forçando-o a sair do prumo.

Soluções e orçamentos foram apresentados, mas a história documenta que não houve ações efetivas para recuperar aquele espaço de arte. Cinco anos depois, como a livrar-se de um elefante branco, a administração municipal repassou o prédio do Teatro Municipal para o governo do estado para que nele fossem instalados o Colégio Elementar e o Fórum.

 As obras de adaptação do edifício não foram céleres e, depois de idas e vindas, a imprensa noticiava que até o final de 1915, com a retirada do madeiramento e a demolição dos camarotes, paredes divisórias internas seriam levantadas para atendimento dos fins propostos.

Edifício do Teatro adaptado para o Colégio Elementar e Fórum - 1922
- O Rio Grande do Sul, de Alfredo R. da Costa

Mais três décadas seriam necessárias para que a cidade novamente se reencontrasse com uma casa de espetáculos, em fevereiro de 1938, quando o Cine-Teatro Coliseu abriu suas portas. Mas esta já é outra história, cujo destino não foge muito do triste fim que teve o Teatro Municipal.

Cine-Teatro Coliseu - 1938
- Fototeca Museu Municipal