Espaços urbanos

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Charqueada do Paredão - Foto Méia Albuquerque

quinta-feira, 20 de setembro de 2018

Prosit!


Os tempos que correm têm apresentado uma tendência: a da fabricação artesanal de cerveja. Apreciadores da bebida testam combinações, fazem harmonizações e provocam a criatividade de muitos cervejeiros.

Em Cachoeira também há os “paneleiros”, termo popularmente usado para os que se aventuram na fabricação artesanal da bebida. Mas os paneleiros provavelmente desconhecem uma tradição cervejeira que a cidade tem desde o século XIX, quando os primeiros fabricantes se atiraram à produção da bebida, trazendo ao mercado local diferentes tipos e marcas.

O primeiro deles, Rudolph Homrich, era dono da Deutsche Bier Breuerei, estabelecida na Rua Sete de Setembro, logo abaixo da Estação Ferroviária.

O jornal 15 de Novembro (Cachoeira), edição de 28 de maio de 1890, à página 3, traz a seguinte notícia:

“A Cervejaria. De Rudolf Homrich. Rua 7 de Setembro, próximo à estação da estrada de ferro. O proprietário desta fábrica, uma das mais acreditadas desta cidade, previne ao público e à rapaziada diletante da refrigerante cerveja Homrich, a mais própria para a estação, que teve a original ideia de fazer um poético bosque, sob o qual é agradabilíssimo tomar-se um espumante copo dessa bebida sem rival. Custa apenas a garrafa de cerveja preta ou branca, simples, 240; dúzia 1$920, garrafa de cerveja dupla, 350; dúzia, 2$880. Ao bosque, pois! Ao bosque do Homrich diletantes do bom gosto!”

Em 1912 a cervejaria foi modernizada, sendo acrescidas novas máquinas e ampliados os compartimentos. A maior novidade foi a instalação de uma fábrica de gelo. sendo o processo fabril da cerveja feito a partir de matérias primas importadas da Europa. As marcas produzidas então eram a Crystal, clara, Homrich, obscura, e Dragão, preta, especial para o inverno. Tais marcas, segundo o fabricante, não receavam confronto!

Instalações da cervejaria na Rua 7 de Setembro - Fototeca Museu Municipal


A cervejaria de Rudolph Homrich, surgida no século XIX, atravessou o primeiro quartel do século XX e, através da imprensa, em 1925, avisava aos consumidores de seus produtos que devido ao alto valor da matéria prima teria que elevar “na razão de 100 réis o preço por garrafa de todas as suas marcas de cerveja.”

O complexo cervejeiro da Rua 7 na década de 1920 - Fototeca Museu Municipal


Rótulo da cerveja Bock da Cervejaria Homrich, já associada
a Pedro Port - Gentileza Mico Vargas


Da próxima vez que mirarmos um copo de cerveja, olhemos para o líquido fazendo a reverência à história dos pioneiros da sua preparação por aqui. Prosit!


domingo, 2 de setembro de 2018

Série Prédios com Passado, Presente e Futuro: Armazém de Arlindo Leal


Um alteroso prédio na quadra em que a Júlio encontra a Saldanha chama a atenção pela arquitetura reveladora de um tempo em que técnica construtiva e arte davam as mãos com maior facilidade.

Prédio de 1918 - antigo Armazém de Arlindo Leal - COMPAHC

Trata-se do armazém e depósito de arroz mandado construir por Arlindo de Freitas Leal em 1918. O local, próximo da gare da Estação Ferroviária, favorecia tremendamente o negócio.

Armazém de Arlindo Leal - Publicação do Banco da Província - 1925-1927
- Acervo Arquivo Histórico

O projeto de construção do armazém foi entregue ao engenheiro holandês Chrétien Hoogenstraaten, sócio de Arlindo Leal em uma olaria aberta no ano de 1917 para o fabrico de telhas e tijolos. Este empreendimento foi vultoso e para levá-lo adiante os engenheiros e sócios arrendaram de Roberto Danzmann, pelo prazo de 10 anos, uma parte de campo situada na Várzea de Nossa Senhora, proximidades da cidade. Em meados daquele ano, trouxeram de Buenos Aires uma locomóvel Hornsby, da força de 30 cavalos, máquinas para fabricação de ladrilhos e telhas e amassadores com cortadores. Os equipamentos permitiram uma fabricação excepcional de telhas e tijolos por dia.

Arlindo Leal, que também era engenheiro civil, deve ter chegado a Cachoeira nos primeiros anos do século XX. Seu nome aparece na nominata do Conselho Municipal (corresponde hoje à Câmara de Vereadores) no período 1908-1912. Era membro do Partido Republicano Rio-Grandense e protagonizou brigas políticas acirradas com os Neves da Fontoura.  Foi também deputado estadual. Dono de grande fortuna, Arlindo Leal foi um dos maiores produtores de arroz daqueles tempos e grande criador de gado. Sua importância na cidade era tanta que foi um dos articuladores para criação da Praça do Comércio, de que foi o primeiro presidente em 1917.

Em 1908, diante da ameaça de desabamento do Teatro Municipal, ele foi um dos engenheiros a emitir laudo técnico recomendando o seu fechamento. Depois do sinistro, juntamente com abalizados engenheiros da capital, fez uma pormenorizada análise da situação do prédio que se localizava na Praça da Conceição (atual Dr. Balthazar de Bem).

Mas quem era o engenheiro holandês construtor do armazém de Arlindo Leal? Como veio parar em Cachoeira?

Dr. Chrétien Hoogenstraaten tinha um currículo extenso. Na Holanda, trabalhou numa companhia petrolífera que o enviou para as Índias Inglesas. Sua vinda para o sul do Brasil foi com a missão de fazer sondagens sobre a existência de poços de petróleo. Com este propósito a mais, Chrétien deve ter visto possibilidade em Cachoeira pela grande onda de progresso que se fazia sentir na cidade naquelas primeiras décadas dos anos 1900.  Em 1916, com o colega cachoeirense Jorge Hölzel, estabeleceu um escritório técnico de engenharia na Rua 7 de Setembro. Na propaganda de seus serviços diziam: “Aceita-se construção qualquer, adotando sistema e estilo moderno. Projetos, orçamentos e cálculos de arquitetura, agrimensura, cimento armado, exploração de minas, hidráulica.”

Em seu currículo consta que havia sido professor de Belas Artes da Universidade de São Paulo e de desenho no Colégio Júlio de Castilhos, de Porto Alegre. Em Cachoeira, além do armazém de Arlindo Leal, fez as plantas do chafariz da Hidráulica Municipal (1921) e da Igreja Metodista original. Em Porto Alegre, entre 1925 e 1928, construiu o Instituto Parobé e foi professor da Escola de Engenharia, tendo publicado na revista da instituição 24 trabalhos sobre projetos arquitetônicos e construções rurais, sendo considerado um desenhista refinado, segundo Günter Weimer.


20/9/1921 - inauguração da Hidráulica Municipal, vendo-se o chafariz projetado
por Chrétien Hoogenstraaten à direita. 
Abaixo a Igreja Metodista original - Fototeca Museu Municipal 



O alteroso prédio que foi depósito de arroz de Arlindo Leal é uma destas dignas edificações que contam a nossa história, portanto plenas de passado, presente e futuro. 

Observação: apesar da importância destes dois engenheiros, Arlindo Leal e Chrétien Hoogenstraaten, não há imagem disponível de ambos.

sábado, 11 de agosto de 2018

Um tapete de boas-vindas


Quem não está acostumado a observar os detalhes que se espalham pelas ruas da cidade, em esquinas, muros, fachadas, frontões, frestas entre casas, certamente nunca olhou para as pedras das calçadas e das ruas. Sequer se deu conta que os passeios públicos das principais ruas têm um padrão. Não sonha que este padrão, por se repetir por décadas, recebeu do fabricante o nome de padrão Cachoeira, e ainda que lembre as ondas de Copacabana, certamente reproduz as ondas das antigas cachoeiras do Jacuí – ou os movimentos dos fandangos...

Padrão Cachoeira nos passeios públicos - foto COMPAHC

Os mesmos desavisados que nunca perceberam os detalhes do tempo se surpreenderam com uma belíssima foto do Mico Vargas, tomada feita do alto sobre a “subida dos bancos” da Rua Sete de Setembro.  De efeito surpreendente, a foto revelou a simetria e a cuidadosa disposição das pedras no local que, por muitas décadas, foi entrada principal para o centro da cidade, a partir da Estação Ferroviária. Como um tapete de boas-vindas aos visitantes da Princesa do Jacuí.

Sete desenhada - Foto Mico Vargas


Detalhes do calçamento da Rua 7 de Setembro - COMPAHC

Quem realizou tal trabalho?

Quando João Neves da Fontoura assumiu a administração do município por impedimento do intendente Francisco Fontoura Nogueira da Gama, deu continuidade às obras de urbanização da cidade. Distribuição de água e rede de esgoto, construção de reservatórios, embelezamento de praças e calçamento de ruas eram as principais frentes de trabalho da Intendência. São desta época as inaugurações do Château d’Eau e do R2, na Praça Borges de Medeiros, e também os artísticos calçamentos da Rua Sete de Setembro e da Praça Dr. Balthazar de Bem.

Calçamento decorado defronte à Catedral - Foto César Roos

Estrela defronte ao Paço Municipal - Foto Rui Gonzaga Ortiz

Cachoeira se tornou um canteiro a céu aberto, atraindo profissionais para participarem de licitações e concorrências públicas com vistas a atacar tantas obras. E foi para aproveitar uma destas oportunidades que José Torrano, por volta de 1924-1926, veio de Porto Alegre com dois companheiros, um deles Manoel Medeiros Júnior, para calçar ruas da cidade.  Calçaram a Sete, no trecho fotografado por Mico Vargas, a Rua 15 de Novembro, em trecho fronteiro ao Paço Municipal, e a Moron, defronte à Catedral. Deixaram suas marcas empregando pedras de diferentes cores que, em colocação harmônica, formaram losangos na Sete e Moron e estrelas na 15.


Estrela no calçamento da Rua 15 de Novembro, trecho fronteiro ao Paço
- Foto de Mirian Ritzel

A obra de calçamento na Praça Dr. Balthazar de Bem, artística e minuciosa, foi finalizada com festa no local, conforme noticiou O Commercio de 7 de dezembro de 1927:

À tardinha do sábado último foi fechado o calçamento feito a paralelepípedos da Praça Dr. Balthazar de Bem. Por este motivo, o Sr. Manoel Medeiros Júnior, empreiteiro do calçamento, ofereceu aos seus operários e auxiliares churrasco regado a chopp, festa que se realizou depois das 4 horas da tarde, na referida praça, correndo muito animada (...)".

Andar pelas ruas da cidade pode ser um agradável exercício tanto para o corpo quanto para a mente. E gratas surpresas aguardam os olhares cuidadosos que se dispõem a observar os detalhes do tempo.

Esta postagem é dedicada a Mico Vargas, cujas lentes registraram o lindo calçamento da "subida dos bancos", revelando-o a muitos, relembrando-o para poucos que dele já haviam se dado conta.

domingo, 29 de julho de 2018

A importância da Ponte do Fandango

Desde 1961, quando foi oficialmente inaugurada a Barragem-Ponte do Fandango, que a cidade não se via totalmente privada de sua estrutura e do importante e inestimável serviço que ela presta. 

Os cachoeirenses do passado viveram as dificuldades da não existência da ponte e muito sonharam com as facilidades que ela ofereceria. A história mostra que em 1912 houve um movimento de lideranças comunitárias e autoridades em torno da construção de uma ponte que transpusesse o rio Jacuí nas proximidades da cidade, favorecendo o transporte e a ligação com outros municípios via estradas de rodagem. Logicamente este sonho era bem mais antigo, mas os jornais de 1912 chegaram aos nossos dias, revelando a iniciativa. 

A construção da Ponte do Fandango, iniciada em meados da década de 1950, começou de fato a ser planejada em 1949, quando o então prefeito, Dr. Liberato Salzano Vieira da Cunha, viajou ao Rio de Janeiro para tratar de tão importante obra. Como resultado das tratativas levadas a efeito na Capital Federal, em 25 de abril daquele ano a cidade recepcionou o Ministro da Viação, Clóvis Pestana, que garantiu em um dos discursos proferidos: "A ponte será construída em época não muito remota, para isto já estão sendo feitos os estudos e serão iniciados os trabalhos preliminares de sondagem e construção de barragem." A cidade tomava conhecimento então que a estrutura a ser construída constaria de uma ponte com barragem e eclusa!

Jornal do Povo - 1/5/1949, p. 1 - Acervo de Imprensa do Arquivo Histórico
A Barragem-Ponte do Fandango foi a primeira do gênero a ser construída no Brasil e favoreceu a ligação de Cachoeira do Sul com a rodovia Porto Alegre - Uruguaiana, suspendendo a travessia do rio Jacuí pelas balsas.

2018. Desgastada pelo tempo, pelo tráfego pesado e volumoso e pela ineficiente manutenção, as obras há muito reclamadas finalmente estão acontecendo. O transtorno do fechamento da ponte dá uma ideia para os cachoeirenses de hoje do quanto a sua existência é importante e o quanto os cachoeirenses de ontem enfrentaram de obstáculos nas suas movimentações. 

Obras na Ponte do Fandango - Imagens de Renato F. Thomsen

A experiência re/vivida com a travessia do rio por balsas, embora carente de um planejamento mais eficiente, está a mostrar o quanto o Jacuí é soberano nas nossas vidas. Ainda que pouco olhemos para a sua importância e fundamental significação.

Balsa fazendo a travessia do rio Jacuí - Foto Robispierre Giuliani

Vide: https://youtu.be/YfG7bGJ9is0 - Renato F. Thomsen.

domingo, 22 de julho de 2018

E por falar em barcas e atracadouros...


Com a necessária reforma da Ponte do Fandango, a cidade passou a reviver tempos em que a travessia de veículos de uma margem a outra do rio Jacuí só podia ser realizada com a ajuda de barcas.

Reforma na Ponte do Fandango - Imagem Jornal do Povo

Questões de toda ordem parecem dominar operação que deveria ser despida de complicadores, afinal a relação de Cachoeira do Sul com o rio é intrínseca, as experiências com este convívio são incontáveis e, na maioria das vezes, recorrentes...

Barca no porto da Moron - Jornal O Correio

Antes da construção da Ponte do Fandango a navegação era ampla no Jacuí. O velho porto de embarque e desembarque, no baixo da Moron, atendia ao tráfego já com limitações quase um século depois da sua construção. Foi decidido então buscar um novo atracadouro, em local que oferecesse menos obstáculos ao vai-e-vem de embarcações.

O jornal O Comércio, edição do dia 9 de fevereiro de 1949, guardados fatores como tempo e motivação, bem mostra que a História guarda lições que volta e meia deveriam ser cantadas aos quatro ventos:

“Com as obras finais que o DAER vem executando no trecho da estrada de acesso, pela margem esquerda do rio, ao novo “Passo” situado logo após a “ponta da ilha”, é de se prever para muito breve a inauguração deste importante melhoramento no sistema de transporte entre a cidade e a zona Sul do município. Como na margem esquerda, que já está praticamente pronta há algum tempo, na margem direita, o acesso ao passo será feito sobre longo aterro com pontilhões, dada a existência de alagadiços no local.

Apesar desta mudança do nosso tradicional “Passo da Praia” vir afastá-lo da cidade, pois o trajeto a ser feito não será mais pela Rua Moron – Descida da Praia – e sim Rua Conde de Porto Alegre – Descida do Amorim -, entrando pela “Limpeza Pública” até o rio, a sua inauguração há muito vem sendo aguardada por todos aqueles que necessitam periodicamente usá-lo. Como é do conhecimento geral, a mudança em apreço fora resolvida em atenção às exigências técnicas, pois o local onde vem funcionando há dezenas de anos, dada a pouca profundidade das águas, não se presta satisfatoriamente para tais finalidades, muito principalmente quando o rio se acha com determinado volume de água. O novo local escolhido conta com água, quer com o rio cheio ou como em tempo de seca, perenemente profunda, o que possibilita franca manobra de barca automotora e de maior calado. Esta vantagem predispõe o emprego de barcas com capacidade para transportar elevado número de veículos em uma só viagem, o que virá solucionar as bichas que então por vezes se formam em ambas as margens do rio, principalmente por ocasião da safra do arroz." (O Comércio, 9/2/1949, p. 3).

Quase setenta anos depois, a similaridade de situação poderia ser pautada pela semelhança de atitude.

domingo, 15 de julho de 2018

O destino do Teatro Municipal


A inauguração do Teatro Municipal, no Natal de 1900, foi um acontecimento. A cidade celebrava a conquista de recuperar um espaço para as apresentações artísticas, já que a demolição do primitivo Teatro Cachoeirense tinha limitado – e muito – as atrações que necessitavam da infraestrutura de uma casa de espetáculos.

Teatro Municipal visto pela lateral - Fototeca Museu Municipal
Anúncio do extinto Teatro Cachoeirense - jornal O Clarim, 22/5/1887
- Acervo de Imprensa do Arquivo Histórico

Na virada dos anos 1800 para 1900, graças aos trens, várias companhias dos mais diversos tipos de arte e novidades percorriam o trajeto entre a região do Prata e Porto Alegre apresentando-se nas cidades que ficavam no caminho. Cachoeira era uma delas, mas a inexistência de um espaço apropriado muitas vezes desestimulava a estada dos artistas na cidade ou tirava o brilho das companhias que mesmo assim aqui se aventuravam.

Com a inauguração do imponente prédio do teatro, a imprensa da época registrava todo tipo de atrações que apareciam. Cinematógrafos, ventríloquos, clowns, coisas bizarras, máquinas de falar, concertos musicais, operetas, comédias, tragédias, conferências, declamações... Descrições das horas de arte ocupavam colunas dos jornais, bem como a desconfiança de muitos com a solidez do prédio recém-inaugurado...

Teatro Municipal - Fototeca Museu Municipal

Incomodado com o diz-que-diz-que que tomava conta de algumas rodas, o jornal O Commercio, edição do dia 5 de novembro de 1902, publicou o seguinte:

“Avessos a tudo que se propala sem espírito de moral e de razão, principalmente quando vimos que no boato há um mau velado intuito de ferir suscetibilidades, não podemos deixar de condenar acremente como diretores da opinião o que se tem dito e se diz com relação à solidez do Teatro Municipal. Os anônimos que por aí pululam e cujo único ofício é maldizer dos que trabalham e se interessam pelo progresso de sua terra estão, não resta dúvida, se fotografando como imbecis e ignorantes que são, pretendendo incutir no ânimo da população cachoeirense uma prevenção maligna, para assim afastá-la de comparecer às representações que ali se efetuam presentemente, prejudicando artistas e companhias dignos da proteção do público e os créditos incontestáveis do honrado e operoso intendente municipal que dirigiu a construção do elegante edifício, cuja solidez foi e é atestada por competentes. Por hoje ficamos aqui, lembrando ao digno Sr. Coronel Intendente uma vistoria no Teatro por profissionais, que aqui os há, a fim de que mais uma vez sejam confundidos os maldizentes.”

Intendente David Soares de Barcellos
- empreendeu a construção do Teatro Municipal

Como se vê, menos de dois anos depois da inauguração, o prédio provocava desconfianças...

O desfecho de tal história poderia ter sido trágico. Em 6 de janeiro de 1908, o teatro sediou uma festa infantil em benefício do altar do Sagrado Coração de Jesus, da Igreja Matriz, ocasião em que a grande assistência teria ouvido estalos suspeitos. Felizmente o espetáculo findou sem ocorrências.

Quando dias depois a cidade foi acordada com um grande estrondo, por volta das 11 horas da noite, muitas vozes concluíram: “Foi o Teatro que caiu!”

O administrador municipal mandou interditar o prédio e convidou o engenheiro civil Arlindo Leal a dar um laudo sobre o sinistro. Outros técnicos abalizados do estado, devidamente consultados, como o Dr. Ahrons, A. Legendre e Theodoro Tufwesson, apresentaram um relatório pormenorizado dos problemas constatados. Em síntese, constataram o desequilíbrio dos muros do corpo posterior do edifício, a ruptura completa da linha de atracar de uma das tesouras da armação e o escapamento da junta central (em dardo de Júpiter) da linha de outra tesoura.  Com o desequilíbrio das tesouras houve forte pressão sobre as paredes laterais do edifício, forçando-o a sair do prumo.

Soluções e orçamentos foram apresentados, mas a história documenta que não houve ações efetivas para recuperar aquele espaço de arte. Cinco anos depois, como a livrar-se de um elefante branco, a administração municipal repassou o prédio do Teatro Municipal para o governo do estado para que nele fossem instalados o Colégio Elementar e o Fórum.

 As obras de adaptação do edifício não foram céleres e, depois de idas e vindas, a imprensa noticiava que até o final de 1915, com a retirada do madeiramento e a demolição dos camarotes, paredes divisórias internas seriam levantadas para atendimento dos fins propostos.

Edifício do Teatro adaptado para o Colégio Elementar e Fórum - 1922
- O Rio Grande do Sul, de Alfredo R. da Costa

Mais três décadas seriam necessárias para que a cidade novamente se reencontrasse com uma casa de espetáculos, em fevereiro de 1938, quando o Cine-Teatro Coliseu abriu suas portas. Mas esta já é outra história, cujo destino não foge muito do triste fim que teve o Teatro Municipal.

Cine-Teatro Coliseu - 1938
- Fototeca Museu Municipal

 

domingo, 24 de junho de 2018

Julius Rieth – obras esparsas na paisagem. Quem reconhece?


Uma cidade rica em história como é Cachoeira do Sul, que viveu diferentes momentos, guarda em suas esquinas ventos escondidos que por elas já circularam em diferentes tempos. Estes ventos, volta e meia, adejam sobre as ruas e em suas andanças destravam janelas que se abrem para o passado, revelando eventos e figuras que o tempo levou. Em lampejos, coincidências e assopros as janelas oferecem a oportunidade de relembrá-los...

Janelas da mansarda da Casa 500 - foto Renato F. Thomsen

A recente discussão sobre o destino da Casa 500 ofereceu-nos uma janela que remeteu ao tempo em que por aqui despontou a figura do arquiteto alemão Ernst Julius Rieth. A reforma promovida por Djalma Pereira da Silva na casa da Rua Sete que havia sido da família do Comendador Fontoura, iniciada em 1917, tudo indica promoveu o trabalho do profissional chegado a Cachoeira em 1914.

Júlio Rieth, como passou a ser chamado aqui, trazia na bagagem uma grande folha de obras construídas na Alemanha, especialmente em Stuttgart, cidade onde se formou em 1904. Naquela cidade alemã algumas das obras de Rieth compõem o centro histórico, sendo muitas delas tombadas como patrimônio histórico! Quando requereu no Brasil a licença para atuar em sua área, declarou ter construído diversos prédios de quatro e cinco andares na Alemanha, assim como pontes.

O fato é que se consagrou em Cachoeira, cidade que escolheu para residir a partir de 1914. Na conta de suas obras estão casas que até hoje figuram na nossa paisagem e outras projetadas e talvez nunca executadas – ou desaparecidas no processo natural de crescimento da cidade. Júlio Rieth também executou várias obras públicas, como construção e compostura de pontes no interior do município e obras hidrossanitárias. O maior prédio assinado por ele e que domina o cenário do Bairro Santo Antônio é o do Colégio Totem, antigo Colégio Imaculada Conceição, construído em 1927, quando Rieth era sócio de Roberto Jagnow, outro conhecido construtor local.

Projeto do Colégio Imaculada Conceição - Júlio Rieth (1927)

Mateus Rosada, arquiteto e professor do Curso de Arquitetura da UFSM/Cachoeira do Sul, identificou residências da cidade cujo estilo remetem à prancheta de Júlio Rieth pelas semelhanças construtivas que apresentam entre si. São elas a Casa 500, a casa construída por Frederico Richter, na Rua Dr. Sílvio Scopel, a residência do Dr. Lauderi Ladwig, na Rua Presidente Vargas, dentre outras. Antes dele, a então mestranda Vera Grieneisen, alemã de nascimento, visitou Cachoeira atrás das marcas deixadas por Rieth. Ela identificou várias edificações, dentre as quais o antigo Café Frísia, na Rua Sete de Setembro, esquina General Portinho, o Armazém Tischler, na Rua Júlio de Castilhos, esquina Juvêncio Soares, e as residências das famílias Dickow e Cunha, vizinhas na Rua Ernesto Alves, Bairro Rio Branco.


Casa construída por Frederico Richter - COMPAHC
Residência Dr. Lauderi Ladwig - COMPAHC

Residência Dickow - COMPAHC

Já era do conhecimento a autoria dos projetos da extinta Casa Alaggio, na Rua Sete de Setembro, construída logo depois do Colégio Imaculada Conceição, à época em que Rieth tinha sociedade com Roberto Jagnow. Antes disso, sócio do engenheiro Hans von Hof, construíram o Instituto Pré-Teológico da Comunidade Evangélica, hoje o tombado Jardim de Infância do Colégio Sinodal Barão do Rio Branco.

Jardim de Infância do Colégio Sinodal - COMPAHC
Casa Alaggio - Rua Sete de Setembro - Fototeca Museu Municipal

Júlio Rieth viveu em Cachoeira do Sul com sua família até sua morte súbita, em 31 de julho de 1945, enquanto trabalhava na construção da residência de Ervino Hamann, em Rincão da Porta. Seu falecimento foi muito sentido pela comunidade e o sepultamento se deu no Cemitério Municipal.

A casa de sua moradia ficava na Rua D. Pedro II e existe até hoje. Seu estilo refinado fez sucesso na Cachoeira progressista nas primeiras três décadas do século XX.

Júlio Rieth e família na residência da Rua D. Pedro II - acervo familiar

Benditas janelas do passado que se abrem, vez ou outra. Suas revelações são oportunas para nos darmos conta de que a riqueza que temos é muito maior do que suspeitamos!

Esta postagem homenageia o trabalho da Vera Grieneisen, a perseverança da Elizabeth Thomsen e os bons parceiros da Arquitetura - UFSM/Cachoeira do Sul. 

quinta-feira, 31 de maio de 2018

Série Lojas do Passado: Casa Augusto Wilhelm


As primeiras referências ao comerciante Augusto Wilhelm já aparecem no início do século XX, quando na imprensa (jornal Rio Grande, 7/1/1909, p. 4) ele oferecia ao público um “elegante carro de praça com excelente parelha de cavalos”. A tabela de preços do serviço de transporte podia ser encontrada no carro e as corridas eram tabeladas com tempo estabelecido em trajetos que abrangiam os limites da cidade, alto do cemitério, porto da Aldeia, charqueada, volta da charqueada, da estação ferroviária ao centro da cidade, entre outros.

Augusto Wilhelm - Fototeca Museu Municipal
Carro de praça com parelha de cavalos - Fototeca Museu Municipal


Antes de abrir a casa comercial que levaria seu nome, Augusto era proprietário de uma marcenaria e depósito de móveis onde fabricava também caixões fúnebres de variados tamanhos, preços e adereços. O mais rico ataúde custava 175$000 réis e o mais simples 25$000 réis. Dos pobres e sem recursos, Augusto não cobrava nada além do material dos ataúdes. (O Comércio, 24/8/1910, p. 4).

Depois de estar residindo há 28 anos em Cachoeira e ter trabalhado 20 anos com marcenaria e oito com cultura do arroz, Augusto Wilhelm decidiu dedicar-se ao comércio estabelecendo uma casa para ferragens, vidraçaria e materiais de construção. Para isto, mandou construir um prédio à Rua 7 de Setembro n.º 148, cuja planta foi confeccionada pelo engenheiro-arquiteto Frederico Gelbert, de Porto Alegre.

Casa Augusto Wilhelm - 1922
- Grande Álbum de Cachoeira, Benjamin Camozato

A casa térrea com galerias, de 11 metros por 18, tem, internamente, mais de seis metros de altura, conforme descreveu o jornal O Commercio , na edição de 9 de julho de 1919, à página 1.

No dia 17 de janeiro de 1921, às 16h, com a presença de representantes das casas bancárias locais, do comércio, das indústrias e da imprensa foi solenemente inaugurada a casa de ferragens, louças e miudezas estabelecida num dos pontos mais centrais da cidade.

Augusto Wilhelm ficou à frente dos negócios pouco mais de seis anos. Em 1927, com seu falecimento, o negócio passou para as mãos do primogênito Erwino Wilhelm.

Foto Robispierre Giuliani

A Casa Augusto Wilhelm fez história no comércio cachoeirense. Famoso era seu slogan – “Insista, periga ter!”, tal era a variedade e quantidade do estoque de ferragens, louças, brinquedos e outras mercadorias que o cliente tinha à sua disposição. Na época das festas natalinas, um Papai Noel ofertava balas e doces às crianças que, empoleiradas nos ombros dos pais, aglomeravam-se defronte ao casarão fartamente iluminado à espera de seu quinhão de gostosuras.

O tempo e as conjunturas econômicas selaram as portas da tradicional Casa Augusto Wilhelm no princípio da década de 1980. Outras casas comerciais ocuparam o seu nobre espaço. Hoje, quando apesar das portas cerradas ainda tem força suficiente para seguir denominando aquele trecho como a “quadra da Augusto Wilhelm”, vale invocar o seu velho slogan para que o futuro lhe sorria.

Detalhe arquitetônico da Casa Augusto Wilhelm - Nelda Scheidt

domingo, 6 de maio de 2018

A casa 500



O destino da casa 500 parece estar selado. Mas antes de virar escombros ela quer contar a sua história. Quando talvez dela não haja mais nada além de fotografias esmaecidas, saibam os habitantes do futuro que um dia a cidade descartou de sua paisagem um legítimo documento histórico.


Casa 500 - Foto João Carlos Alves Mór


15 de abril de 1847: Antônio Vicente da Fontoura, liderança no desfecho da Revolução Farroupilha, de volta a Cachoeira e disposto a refazer a vida depois do longo envolvimento com a Revolução Farroupilha, pediu licença à Câmara Municipal para construir uma casa no terreno de sua propriedade, havido por doação de Manoel José Pereira da Silva, na Travessa de São José, hoje Rua Conde de Porto Alegre.

Antônio Vicente da Fontoura
- Fototeca Museu Municipal

13 de abril de 1849: a Câmara convocou o arruador para verificar a correção do alinhamento da casa que Antônio Vicente estava construindo na Rua do Loreto, tomando como parâmetro a casa de Miguel Pereira Simões, situada na mesma quadra, na Travessa de São José.

CM/OF/A-004, fl. 159 - Arquivo Histórico


14 de abril de 1849: o arruador comunicou á Câmara que a casa de Miguel Pereira Simões estava fora do alinhamento em relação à casa de “canto” (esquina) que Antônio Vicente estava construindo na Rua do Loreto (hoje Sete de Setembro).  

1850: o cadastro dos terrenos de Cachoeira, que ensejou a confecção do primeiro mapa, elaborado por João Martinho Buff, traz o registro do terreno n.º 153, pertencente a Antônio Vicente da Fontoura, situado na Rua do Loreto (atual Sete de Setembro), esquina Travessa de São José (atual Conde de Porto Alegre), com 95 palmos de frente por meia quadra de frente ao fundo. Confrontações: ao Sul, a Travessa de São José; a Oeste, a Rua do Loreto, e a Leste, o terreno n.º 221, dos herdeiros de Miguel Pereira Simões.

CM/S/SE/RCT-005 - Arquivo Histórico

Localização do terreno n.º 153 no mapa de J. Martinho Buff - 1850

O proprietário. Antônio Vicente da Fontoura é sabidamente um dos mais importantes vultos da história de Cachoeira e do Rio Grande do Sul. Seu papel na pacificação da província selou o fim da Revolução Farroupilha, não sem o protesto de muitos e a aclamação de outros, rendendo-lhe uma divisão na opinião dos historiadores.

Nascido em Rio Pardo a 8 de junho de 1807, era filho do português Eusébio Manuel Antônio, relojoeiro da Comissão de Demarcação de Limites subordinado ao Cel Francisco João Róscio, autor do projeto da Igreja Matriz em Cachoeira. Estabeleceu-se Eusébio, depois da demarcação, com relojoaria em Rio Pardo, onde casou em 2 de junho de 1798 com Vicênia Cândida da Fontoura. Foram os seguintes os filhos do casal: João (1805), Antônio Vicente (1807), Maria Egípcia (1810), Pedro Antônio (1811), Benta e José Antônio.

Quase menino, Antônio Vicente começou a trabalhar como caixeiro em um armazém de Rio Pardo e, aos 19 anos, veio para Cachoeira, empregando-se também como caixeiro.

Em 16 de janeiro de 1828, casou-se com Clarinda Francisca Porto, irmã de José Gomes Portinho. Desta união nasceram 15 filhos: Antônio (faleceu bebê - 1829), Clarinda Amália (1831), Josefa Leopoldina (1833), Gabriela Benta, Antônia Francisca, Antônio Eusébio (1836), José Propício (1837), Afonso Borges, Bento (1842), Maria Egípcia (1848), Vicência Cândida (1850), João Propício (1851), Francisco de Paula (1853), Luzia Sofia (1854, morreu com 7 anos) e Tito Castilhos (1856).


Clarinda e Antônio Vicente - provável foto de Luigi Terragno
- 1856 - Fototeca Museu Municipal


Em sociedade com um amigo, Fontoura adquiriu seu próprio armazém que logo se transformou no mais próspero da Vila Nova de São João da Cachoeira. Líder de sua classe, teve ativa participação política como vereador em mais de uma legislatura, procurador fiscal da Câmara (1831), juiz de paz e juiz ordinário, chefe de polícia (1837), entre outros. Apesar de filho de português, suas ideias eram liberais, fato que o levou à intensa e representativa participação na Revolução Farroupilha (1835-1845), despontando já no início da contenda, juntamente com Manduca Carvalho e Gaspar Francisco Gonçalves, em missão de pacificação na vizinha vila de Rio Pardo, quando lá não queriam reconhecer a autoridade instituída pelo governo republicano. Foi major da Guarda Nacional e, implantada a República Rio-Grandense, tornou-se ministro da fazenda; deputado à Constituinte de Alegrete, superando em votos a Bento Gonçalves da Silva, Domingos José de Almeida e Antônio de Souza Neto, indiscutíveis líderes da revolução. No final, vendo derrotada a república, começou a costurar o acordo de paz com o império, voltando da corte com as condições de paz que precisou apresentar às lideranças em seus acampamentos. Finda a revolução, integrou a comissão para liquidar as indenizações devidas e pagar as dívidas públicas. Por estas atuações tornou-se o Embaixador da Paz. Foi condecorado, por sua participação e esforço, como Comendador da Imperial Ordem de Cristo, por decreto de 18 de outubro de 1855.

A atuação política forte de Antônio Vicente da Fontoura rendeu-lhe inimizades. O falecimento, ocorrido em 20 de outubro de 1860, se deu em decorrência do atentado que sofreu dentro da Igreja Matriz, no início de setembro, quando lá se realizavam eleições. Os mandantes do crime foram Hilário Pereira Fortes, Felisberto Machado de Carvalho Ourique e Dr. José Pereira da Silva Goulart, seus antigos opositores políticos. O infausto acontecimento desencadeou um longo inquérito policial com repercussão estadual e nacional, considerando a importância das pessoas envolvidas e as implicações políticas.

26         de fevereiro de 1861: abertura do inventário de Antônio Vicente da Fontoura pela viúva Clarinda Francisca Porto da Fontoura. Os bens de raiz, ou seja, os imóveis herdados foram: uma morada de casas sita na Rua Sete de Setembro (...) fazendo esquina com a Rua de São José (...); um armazém em frente às casas e rua acima referida; um armazém na Rua de São José contíguo às mesmas casas.


Capa do inventário de Antônio Vicente
- Arquivo Público do RS


14 de abril de 1877: falecimento da viúva Clarinda Francisca Porto da Fontoura. Foi nomeado inventariante o genro José Antônio Machado de Araújo, comerciante, casado com Vicência Cândida da Fontoura. Em 1882, Vicência Cândida morreu. Um ano depois, cumprindo o protocolo de luto, José Antônio casou com Benta Portinho, prima de Vicência e filha do General Portinho. Em 1908, José Antônio morreu, herdando a casa sua viúva, Benta Portinho de Araújo.

1917: Benta Portinho de Araújo vendeu a casa para Djalma Pereira da Silva. Esta transação encerrou o ciclo de utilização da casa pela família de Antônio Vicente da Fontoura.

Jornal O Commercio, 20/6/1917, p. 1 - Arquivo Histórico

4/10/1917: Djalma Pereira da Silva solicitou licença à Intendência para "reformar" a casa da Rua Sete de Setembro. A licença foi concedida dois dias depois.


Requerimento para reformar a casa - IM/OPV/AOP/Req. Cx. 21
- Acervo documental Arquivo Histórico
Apesar da vida construída em Cachoeira e da relevância de sua atuação como cidadão e homem público além fronteiras do município, poucos resquícios materiais da figura Antônio Vicente da Fontoura ainda existem. A casa, embora as mudanças determinadas pelo tempo, pelas modificações exigidas por lei e as sucessivas adaptações a que deve ter sido submetida ao longo de mais de 170 anos de história, paira sobre ela o espectro de Antônio Vicente da Fontoura e a vida familiar que suas paredes encerraram. 

Por fim, fugindo da personagem histórica que lançou as fundações da casa 500, resta ainda a sua condição de edificação encravada no centro histórico, compondo a paisagem de casarões que se localizavam em torno do polo exercido pela Igreja Matriz, por muito tempo a maior e mais importante edificação urbana.

Lutemos pela preservação da casa 500 e do tanto que ela é capaz de nos contar. Seja sobre os seres que a habitaram, seja sobre os fatores que nela interferiram ao longo do tempo. Que logo ali adiante, quando o discernimento e o progresso material e intelectual nos mostrarem que o passado é o alicerce do futuro, não sejamos tomados pelo arrependimento que volta e meia nos assalta em cobranças.