Espaços urbanos

Espaços urbanos
Estátuas no frontão da União de Moços - foto Antônio Sarasá

sábado, 20 de outubro de 2018

Belezas da política


A política, seja em que tempo for, atribui aos indivíduos que se confrontam em ideias e atos, todo tipo de “qualidades”, sendo este termo genérico empregado tanto para “qualidades de fato” como para defeitos. Nas disputas por cargos eletivos, os políticos costumam explorar os “calcanhares de Aquiles” de seus adversários. Esta prática, ainda que velha, segue aplicada plenamente.

No ano de 1913, duas grandes e eminentes personalidades da política local, ainda que oriundas das mesmas fileiras partidárias, por desavenças pessoais e disputas de poder, passaram a se atacar mutuamente, utilizando-se dos dois principais jornais que circulavam na época.

O mais antigo deles e de ampla circulação, o jornal O Commercio (1900-1966), traz em sucessivas edições uma seção livre intitulada Bellezas do Isidorismo, assinada por Arlindo Leal. De uma forma satírica e ácida, o autor faz uma análise das ações e obras do Coronel Isidoro Neves da Fontoura, então chefe político do Partido Republicano Rio-Grandense em Cachoeira e intendente municipal até o ano anterior.

Cel Isidoro Neves da Fontoura 
- Fototeca Museu Municipal

Jornal O Commercio, Cachoeira, 12/2/1913, p. 1
- Acervo de Imprensa do Arquivo Histórico

Uma das grandes e polêmicas iniciativas do intendente Isidoro foi a aquisição da área em que seria implantado o Bairro Rio Branco, referido no texto de Arlindo Leal como “A Cidade Nova”:

Despertou um dia El-Supremo com ideias de fundar uma cidade nova. Imediatamente foi adquirida uma grande chácara* nas proximidades da via férrea. O engenheiro da Intendência traçou sobre o terreno os alinhamentos da nova cidade e grandes escavações já foram feitas. Uma casa já foi construída e talvez outras o sejam. Porém, o filho de El-Supremo, o príncipe do automóvel negro, o aiglon**, devia ser o principal proprietário do bairro novo.
A banca de advogado do Príncipe, florescendo em dezenas de causas gordas, era rendosa. Estava o aiglon em condições de edificar palácios e casas de aluguel. Foram-lhe, pois, adjudicados os terrenos melhor situados e que menos escavações exigiam.
O secretário do aiglon, o Sr. Odon*** também foi contemplado com dois bons terrenos apesar... de ter sido cadete. Tudo se arranja numa administração modelar.
Apenas nos acessos de enxaqueca d’El-Supremo, a moral republicana, sonhada por Ferreira Leal****, por Policarpo*****, por ele e tantos outros, nos conciliábulos do primeiro clube republicano, prescrevia a livre concorrência pública!
O velho republicano entrouxava as ideias do passado para ver seu filho feliz, endinheirado, de automóvel. E o filho lhe prescrevia Pyramidon****** para a enxaqueca. Essa persiste, porém, porque essa droga não cura de abatimento moral; persiste e persistirá ainda enquanto houver a luta entre a pureza do passado remoto e a ganância do presente. O mal emana do moral e não do físico; a consciência vibra sempre.
Nenhuma conta apresentarei à S. Excia. por este receituário.

(O Comércio, 12/2/1913, p. 1)

Pyramidon - gettyimages

*Chácara pertencente a Maria Egypcia da Fontoura, filha do Comendador Antônio Vicente da Fontoura.
**aiglon: filhote de águia em francês.
***Odon Cavalcanti Carneiro Monteiro, advogado e colega de banca de João Neves da Fontoura; ocupou vários cargos públicos, inclusive o de secretário da Intendência entre 1910 e 1914.
****João José Ferreira Leal, fundador e primeiro presidente do Clube Republicano de Cachoeira (1882).
*****Polycarpo Alvares da Cruz, fundador do Clube Republicano.
******Pyramidon: remédio para enxaqueca

Por sua vez, o jornal do Partido Republicano, o Rio Grande, em sua edição de 23 de fevereiro de 1913, rebate as acusações de Arlindo Leal com o seguinte título: “Desmentido formal”.


Jornal Rio Grande, Cachoeira, 23/2/1913, p. 1
- Acervo de Imprensa do Arquivo Histórico

Ao deputado Dr. Arlindo Leal nos aleives que em estilo mazorro* e arreeiro** tem assacado contra a respeitável personalidade do coronel Isidoro Neves da Fontoura e contra a sua administração – houve por bem envolver o meu obscuro nome, dizendo que fora eu contemplado com dois bons terrenos na larga faixa de terra adquirida por aquele ex-intendente para o patrimônio do município.
Para que fique evidenciado até onde vai o cinismo estanhado do ofensor, dirigi ao Dr. Balthazar de Bem, atual intendente, o seguinte requerimento:

Sr. Dr. Balthazar de Bem

Peço-lhe a fineza de dizer ao pé deste: 
a) se não é verdade ter o infraescrito comprado terrenos à Intendência Municipal, situados no bairro Rio Branco, ao preço de 10$000 o plano;
  b) se em idênticas donições foram comprados terrenos no mesmo bairro pelos Srs. José Fernandes, Dr. João Neves, Cacílio Menezes, Antonio Lara, Germano Hoffmann e outros;
  c) se na sua própria administração não foi por mim comprado um outro terreno pelo mesmo preço, sendo que este mesmo terreno esteve até então à venda, sem aparecer comprador;
  d) se, finalmente, convizinhando aos terrenos por mim comprados, outros existem por preço igual aos que têm sido estipulados até hoje por esta Intendência aos adquirentes.
Subscrevo-me amº e ad.
Odon Cavalcanti

Odon Cavalcanti 

O Dr. Balthazar de Bem mandou que o Secretário da Fazenda informasse. A informação foi do seguinte teor:
Cumprindo vosso despacho supra, tenho a informar que revendo o talão dos recebimentos das importâncias provenientes das vendas de terrenos municipais, verifiquei serem verdadeiros os itens formulados pelo requerente.

Secretaria da Fazenda Municipal, 21 de fevereiro de 1913.

Hermilo Pohlmann

Aí está a que se reduz a acusação de Arlindo Leal atinente à defraudação que fez do patrimônio do município, o benemérito Coronel Isidoro Neves... Certamente todas as demais afinam pelo mesmo timbre.
Aproveito a boa oportunidade para apresentar ao ex-chefe político e ex-intendente os meus extremados protestos de solidariedade, hoje que ele não tem a mínima parcela de mando em política ou administração, e que está sendo vilmente atacado pelo mesmo homem que lhe tecia exaltados elogios em discursos retumbantes, ao tempo em que era chefe político e intendente municipal, como é público e notório nesta cidade.
Já era um vezo*** dos incas atirar pedras ao sol que se ocultava e que lhes dera luz e calor.

Odon Cavalcanti

(Rio Grande, 23/2/1913, p. 1)

*mazorro: grosseiro
**arreeiro: condutor de bestas, tropeiro
***vezo: mau hábito

Como se vê, natural seria que os republicanos se defendessem das acusações de Arlindo de Freitas Leal, outro republicano combativo, cuja experiência política passava pela Assembleia, como deputado estadual, e conselheiro do município entre 1908 e 1912. O engenheiro Arlindo Leal também era um dos mais bem sucedidos produtores de arroz do município, com grande prestígio e fortuna. Nos dias de hoje, a disputa acirrada facilmente seria classificada como “briga de cachorro grande”. Au au!

quinta-feira, 20 de setembro de 2018

Prosit!


Os tempos que correm têm apresentado uma tendência: a da fabricação artesanal de cerveja. Apreciadores da bebida testam combinações, fazem harmonizações e provocam a criatividade de muitos cervejeiros.

Em Cachoeira também há os “paneleiros”, termo popularmente usado para os que se aventuram na fabricação artesanal da bebida. Mas os paneleiros provavelmente desconhecem uma tradição cervejeira que a cidade tem desde o século XIX, quando os primeiros fabricantes se atiraram à produção da bebida, trazendo ao mercado local diferentes tipos e marcas.

O primeiro deles, Rudolph Homrich, era dono da Deutsche Bier Breuerei, estabelecida na Rua Sete de Setembro, logo abaixo da Estação Ferroviária.

O jornal 15 de Novembro (Cachoeira), edição de 28 de maio de 1890, à página 3, traz a seguinte notícia:

“A Cervejaria. De Rudolf Homrich. Rua 7 de Setembro, próximo à estação da estrada de ferro. O proprietário desta fábrica, uma das mais acreditadas desta cidade, previne ao público e à rapaziada diletante da refrigerante cerveja Homrich, a mais própria para a estação, que teve a original ideia de fazer um poético bosque, sob o qual é agradabilíssimo tomar-se um espumante copo dessa bebida sem rival. Custa apenas a garrafa de cerveja preta ou branca, simples, 240; dúzia 1$920, garrafa de cerveja dupla, 350; dúzia, 2$880. Ao bosque, pois! Ao bosque do Homrich diletantes do bom gosto!”

Em 1912 a cervejaria foi modernizada, sendo acrescidas novas máquinas e ampliados os compartimentos. A maior novidade foi a instalação de uma fábrica de gelo. sendo o processo fabril da cerveja feito a partir de matérias primas importadas da Europa. As marcas produzidas então eram a Crystal, clara, Homrich, obscura, e Dragão, preta, especial para o inverno. Tais marcas, segundo o fabricante, não receavam confronto!

Instalações da cervejaria na Rua 7 de Setembro - Fototeca Museu Municipal


A cervejaria de Rudolph Homrich, surgida no século XIX, atravessou o primeiro quartel do século XX e, através da imprensa, em 1925, avisava aos consumidores de seus produtos que devido ao alto valor da matéria prima teria que elevar “na razão de 100 réis o preço por garrafa de todas as suas marcas de cerveja.”

O complexo cervejeiro da Rua 7 na década de 1920 - Fototeca Museu Municipal


Rótulo da cerveja Bock da Cervejaria Homrich, já associada
a Pedro Port - Gentileza Mico Vargas


Da próxima vez que mirarmos um copo de cerveja, olhemos para o líquido fazendo a reverência à história dos pioneiros da sua preparação por aqui. Prosit!


domingo, 2 de setembro de 2018

Série Prédios com Passado, Presente e Futuro: Armazém de Arlindo Leal


Um alteroso prédio na quadra em que a Júlio encontra a Saldanha chama a atenção pela arquitetura reveladora de um tempo em que técnica construtiva e arte davam as mãos com maior facilidade.

Prédio de 1918 - antigo Armazém de Arlindo Leal - COMPAHC

Trata-se do armazém e depósito de arroz mandado construir por Arlindo de Freitas Leal em 1918. O local, próximo da gare da Estação Ferroviária, favorecia tremendamente o negócio.

Armazém de Arlindo Leal - Publicação do Banco da Província - 1925-1927
- Acervo Arquivo Histórico

O projeto de construção do armazém foi entregue ao engenheiro holandês Chrétien Hoogenstraaten, sócio de Arlindo Leal em uma olaria aberta no ano de 1917 para o fabrico de telhas e tijolos. Este empreendimento foi vultoso e para levá-lo adiante os engenheiros e sócios arrendaram de Roberto Danzmann, pelo prazo de 10 anos, uma parte de campo situada na Várzea de Nossa Senhora, proximidades da cidade. Em meados daquele ano, trouxeram de Buenos Aires uma locomóvel Hornsby, da força de 30 cavalos, máquinas para fabricação de ladrilhos e telhas e amassadores com cortadores. Os equipamentos permitiram uma fabricação excepcional de telhas e tijolos por dia.

Arlindo Leal, que também era engenheiro civil, deve ter chegado a Cachoeira nos primeiros anos do século XX. Seu nome aparece na nominata do Conselho Municipal (corresponde hoje à Câmara de Vereadores) no período 1908-1912. Era membro do Partido Republicano Rio-Grandense e protagonizou brigas políticas acirradas com os Neves da Fontoura.  Foi também deputado estadual. Dono de grande fortuna, Arlindo Leal foi um dos maiores produtores de arroz daqueles tempos e grande criador de gado. Sua importância na cidade era tanta que foi um dos articuladores para criação da Praça do Comércio, de que foi o primeiro presidente em 1917.

Em 1908, diante da ameaça de desabamento do Teatro Municipal, ele foi um dos engenheiros a emitir laudo técnico recomendando o seu fechamento. Depois do sinistro, juntamente com abalizados engenheiros da capital, fez uma pormenorizada análise da situação do prédio que se localizava na Praça da Conceição (atual Dr. Balthazar de Bem).

Mas quem era o engenheiro holandês construtor do armazém de Arlindo Leal? Como veio parar em Cachoeira?

Dr. Chrétien Hoogenstraaten tinha um currículo extenso. Na Holanda, trabalhou numa companhia petrolífera que o enviou para as Índias Inglesas. Sua vinda para o sul do Brasil foi com a missão de fazer sondagens sobre a existência de poços de petróleo. Com este propósito a mais, Chrétien deve ter visto possibilidade em Cachoeira pela grande onda de progresso que se fazia sentir na cidade naquelas primeiras décadas dos anos 1900.  Em 1916, com o colega cachoeirense Jorge Hölzel, estabeleceu um escritório técnico de engenharia na Rua 7 de Setembro. Na propaganda de seus serviços diziam: “Aceita-se construção qualquer, adotando sistema e estilo moderno. Projetos, orçamentos e cálculos de arquitetura, agrimensura, cimento armado, exploração de minas, hidráulica.”

Em seu currículo consta que havia sido professor de Belas Artes da Universidade de São Paulo e de desenho no Colégio Júlio de Castilhos, de Porto Alegre. Em Cachoeira, além do armazém de Arlindo Leal, fez as plantas do chafariz da Hidráulica Municipal (1921) e da Igreja Metodista original. Em Porto Alegre, entre 1925 e 1928, construiu o Instituto Parobé e foi professor da Escola de Engenharia, tendo publicado na revista da instituição 24 trabalhos sobre projetos arquitetônicos e construções rurais, sendo considerado um desenhista refinado, segundo Günter Weimer.


20/9/1921 - inauguração da Hidráulica Municipal, vendo-se o chafariz projetado
por Chrétien Hoogenstraaten à direita. 
Abaixo a Igreja Metodista original - Fototeca Museu Municipal 



O alteroso prédio que foi depósito de arroz de Arlindo Leal é uma destas dignas edificações que contam a nossa história, portanto plenas de passado, presente e futuro. 

Observação: apesar da importância destes dois engenheiros, Arlindo Leal e Chrétien Hoogenstraaten, não há imagem disponível de ambos.

sábado, 11 de agosto de 2018

Um tapete de boas-vindas


Quem não está acostumado a observar os detalhes que se espalham pelas ruas da cidade, em esquinas, muros, fachadas, frontões, frestas entre casas, certamente nunca olhou para as pedras das calçadas e das ruas. Sequer se deu conta que os passeios públicos das principais ruas têm um padrão. Não sonha que este padrão, por se repetir por décadas, recebeu do fabricante o nome de padrão Cachoeira, e ainda que lembre as ondas de Copacabana, certamente reproduz as ondas das antigas cachoeiras do Jacuí – ou os movimentos dos fandangos...

Padrão Cachoeira nos passeios públicos - foto COMPAHC

Os mesmos desavisados que nunca perceberam os detalhes do tempo se surpreenderam com uma belíssima foto do Mico Vargas, tomada feita do alto sobre a “subida dos bancos” da Rua Sete de Setembro.  De efeito surpreendente, a foto revelou a simetria e a cuidadosa disposição das pedras no local que, por muitas décadas, foi entrada principal para o centro da cidade, a partir da Estação Ferroviária. Como um tapete de boas-vindas aos visitantes da Princesa do Jacuí.

Sete desenhada - Foto Mico Vargas


Detalhes do calçamento da Rua 7 de Setembro - COMPAHC

Quem realizou tal trabalho?

Quando João Neves da Fontoura assumiu a administração do município por impedimento do intendente Francisco Fontoura Nogueira da Gama, deu continuidade às obras de urbanização da cidade. Distribuição de água e rede de esgoto, construção de reservatórios, embelezamento de praças e calçamento de ruas eram as principais frentes de trabalho da Intendência. São desta época as inaugurações do Château d’Eau e do R2, na Praça Borges de Medeiros, e também os artísticos calçamentos da Rua Sete de Setembro e da Praça Dr. Balthazar de Bem.

Calçamento decorado defronte à Catedral - Foto César Roos

Estrela defronte ao Paço Municipal - Foto Rui Gonzaga Ortiz

Cachoeira se tornou um canteiro a céu aberto, atraindo profissionais para participarem de licitações e concorrências públicas com vistas a atacar tantas obras. E foi para aproveitar uma destas oportunidades que José Torrano, por volta de 1924-1926, veio de Porto Alegre com dois companheiros, um deles Manoel Medeiros Júnior, para calçar ruas da cidade.  Calçaram a Sete, no trecho fotografado por Mico Vargas, a Rua 15 de Novembro, em trecho fronteiro ao Paço Municipal, e a Moron, defronte à Catedral. Deixaram suas marcas empregando pedras de diferentes cores que, em colocação harmônica, formaram losangos na Sete e Moron e estrelas na 15.


Estrela no calçamento da Rua 15 de Novembro, trecho fronteiro ao Paço
- Foto de Mirian Ritzel

A obra de calçamento na Praça Dr. Balthazar de Bem, artística e minuciosa, foi finalizada com festa no local, conforme noticiou O Commercio de 7 de dezembro de 1927:

À tardinha do sábado último foi fechado o calçamento feito a paralelepípedos da Praça Dr. Balthazar de Bem. Por este motivo, o Sr. Manoel Medeiros Júnior, empreiteiro do calçamento, ofereceu aos seus operários e auxiliares churrasco regado a chopp, festa que se realizou depois das 4 horas da tarde, na referida praça, correndo muito animada (...)".

Andar pelas ruas da cidade pode ser um agradável exercício tanto para o corpo quanto para a mente. E gratas surpresas aguardam os olhares cuidadosos que se dispõem a observar os detalhes do tempo.

Esta postagem é dedicada a Mico Vargas, cujas lentes registraram o lindo calçamento da "subida dos bancos", revelando-o a muitos, relembrando-o para poucos que dele já haviam se dado conta.

domingo, 29 de julho de 2018

A importância da Ponte do Fandango

Desde 1961, quando foi oficialmente inaugurada a Barragem-Ponte do Fandango, que a cidade não se via totalmente privada de sua estrutura e do importante e inestimável serviço que ela presta. 

Os cachoeirenses do passado viveram as dificuldades da não existência da ponte e muito sonharam com as facilidades que ela ofereceria. A história mostra que em 1912 houve um movimento de lideranças comunitárias e autoridades em torno da construção de uma ponte que transpusesse o rio Jacuí nas proximidades da cidade, favorecendo o transporte e a ligação com outros municípios via estradas de rodagem. Logicamente este sonho era bem mais antigo, mas os jornais de 1912 chegaram aos nossos dias, revelando a iniciativa. 

A construção da Ponte do Fandango, iniciada em meados da década de 1950, começou de fato a ser planejada em 1949, quando o então prefeito, Dr. Liberato Salzano Vieira da Cunha, viajou ao Rio de Janeiro para tratar de tão importante obra. Como resultado das tratativas levadas a efeito na Capital Federal, em 25 de abril daquele ano a cidade recepcionou o Ministro da Viação, Clóvis Pestana, que garantiu em um dos discursos proferidos: "A ponte será construída em época não muito remota, para isto já estão sendo feitos os estudos e serão iniciados os trabalhos preliminares de sondagem e construção de barragem." A cidade tomava conhecimento então que a estrutura a ser construída constaria de uma ponte com barragem e eclusa!

Jornal do Povo - 1/5/1949, p. 1 - Acervo de Imprensa do Arquivo Histórico
A Barragem-Ponte do Fandango foi a primeira do gênero a ser construída no Brasil e favoreceu a ligação de Cachoeira do Sul com a rodovia Porto Alegre - Uruguaiana, suspendendo a travessia do rio Jacuí pelas balsas.

2018. Desgastada pelo tempo, pelo tráfego pesado e volumoso e pela ineficiente manutenção, as obras há muito reclamadas finalmente estão acontecendo. O transtorno do fechamento da ponte dá uma ideia para os cachoeirenses de hoje do quanto a sua existência é importante e o quanto os cachoeirenses de ontem enfrentaram de obstáculos nas suas movimentações. 

Obras na Ponte do Fandango - Imagens de Renato F. Thomsen

A experiência re/vivida com a travessia do rio por balsas, embora carente de um planejamento mais eficiente, está a mostrar o quanto o Jacuí é soberano nas nossas vidas. Ainda que pouco olhemos para a sua importância e fundamental significação.

Balsa fazendo a travessia do rio Jacuí - Foto Robispierre Giuliani

Vide: https://youtu.be/YfG7bGJ9is0 - Renato F. Thomsen.

domingo, 22 de julho de 2018

E por falar em barcas e atracadouros...


Com a necessária reforma da Ponte do Fandango, a cidade passou a reviver tempos em que a travessia de veículos de uma margem a outra do rio Jacuí só podia ser realizada com a ajuda de barcas.

Reforma na Ponte do Fandango - Imagem Jornal do Povo

Questões de toda ordem parecem dominar operação que deveria ser despida de complicadores, afinal a relação de Cachoeira do Sul com o rio é intrínseca, as experiências com este convívio são incontáveis e, na maioria das vezes, recorrentes...

Barca no porto da Moron - Jornal O Correio

Antes da construção da Ponte do Fandango a navegação era ampla no Jacuí. O velho porto de embarque e desembarque, no baixo da Moron, atendia ao tráfego já com limitações quase um século depois da sua construção. Foi decidido então buscar um novo atracadouro, em local que oferecesse menos obstáculos ao vai-e-vem de embarcações.

O jornal O Comércio, edição do dia 9 de fevereiro de 1949, guardados fatores como tempo e motivação, bem mostra que a História guarda lições que volta e meia deveriam ser cantadas aos quatro ventos:

“Com as obras finais que o DAER vem executando no trecho da estrada de acesso, pela margem esquerda do rio, ao novo “Passo” situado logo após a “ponta da ilha”, é de se prever para muito breve a inauguração deste importante melhoramento no sistema de transporte entre a cidade e a zona Sul do município. Como na margem esquerda, que já está praticamente pronta há algum tempo, na margem direita, o acesso ao passo será feito sobre longo aterro com pontilhões, dada a existência de alagadiços no local.

Apesar desta mudança do nosso tradicional “Passo da Praia” vir afastá-lo da cidade, pois o trajeto a ser feito não será mais pela Rua Moron – Descida da Praia – e sim Rua Conde de Porto Alegre – Descida do Amorim -, entrando pela “Limpeza Pública” até o rio, a sua inauguração há muito vem sendo aguardada por todos aqueles que necessitam periodicamente usá-lo. Como é do conhecimento geral, a mudança em apreço fora resolvida em atenção às exigências técnicas, pois o local onde vem funcionando há dezenas de anos, dada a pouca profundidade das águas, não se presta satisfatoriamente para tais finalidades, muito principalmente quando o rio se acha com determinado volume de água. O novo local escolhido conta com água, quer com o rio cheio ou como em tempo de seca, perenemente profunda, o que possibilita franca manobra de barca automotora e de maior calado. Esta vantagem predispõe o emprego de barcas com capacidade para transportar elevado número de veículos em uma só viagem, o que virá solucionar as bichas que então por vezes se formam em ambas as margens do rio, principalmente por ocasião da safra do arroz." (O Comércio, 9/2/1949, p. 3).

Quase setenta anos depois, a similaridade de situação poderia ser pautada pela semelhança de atitude.

domingo, 15 de julho de 2018

O destino do Teatro Municipal


A inauguração do Teatro Municipal, no Natal de 1900, foi um acontecimento. A cidade celebrava a conquista de recuperar um espaço para as apresentações artísticas, já que a demolição do primitivo Teatro Cachoeirense tinha limitado – e muito – as atrações que necessitavam da infraestrutura de uma casa de espetáculos.

Teatro Municipal visto pela lateral - Fototeca Museu Municipal
Anúncio do extinto Teatro Cachoeirense - jornal O Clarim, 22/5/1887
- Acervo de Imprensa do Arquivo Histórico

Na virada dos anos 1800 para 1900, graças aos trens, várias companhias dos mais diversos tipos de arte e novidades percorriam o trajeto entre a região do Prata e Porto Alegre apresentando-se nas cidades que ficavam no caminho. Cachoeira era uma delas, mas a inexistência de um espaço apropriado muitas vezes desestimulava a estada dos artistas na cidade ou tirava o brilho das companhias que mesmo assim aqui se aventuravam.

Com a inauguração do imponente prédio do teatro, a imprensa da época registrava todo tipo de atrações que apareciam. Cinematógrafos, ventríloquos, clowns, coisas bizarras, máquinas de falar, concertos musicais, operetas, comédias, tragédias, conferências, declamações... Descrições das horas de arte ocupavam colunas dos jornais, bem como a desconfiança de muitos com a solidez do prédio recém-inaugurado...

Teatro Municipal - Fototeca Museu Municipal

Incomodado com o diz-que-diz-que que tomava conta de algumas rodas, o jornal O Commercio, edição do dia 5 de novembro de 1902, publicou o seguinte:

“Avessos a tudo que se propala sem espírito de moral e de razão, principalmente quando vimos que no boato há um mau velado intuito de ferir suscetibilidades, não podemos deixar de condenar acremente como diretores da opinião o que se tem dito e se diz com relação à solidez do Teatro Municipal. Os anônimos que por aí pululam e cujo único ofício é maldizer dos que trabalham e se interessam pelo progresso de sua terra estão, não resta dúvida, se fotografando como imbecis e ignorantes que são, pretendendo incutir no ânimo da população cachoeirense uma prevenção maligna, para assim afastá-la de comparecer às representações que ali se efetuam presentemente, prejudicando artistas e companhias dignos da proteção do público e os créditos incontestáveis do honrado e operoso intendente municipal que dirigiu a construção do elegante edifício, cuja solidez foi e é atestada por competentes. Por hoje ficamos aqui, lembrando ao digno Sr. Coronel Intendente uma vistoria no Teatro por profissionais, que aqui os há, a fim de que mais uma vez sejam confundidos os maldizentes.”

Intendente David Soares de Barcellos
- empreendeu a construção do Teatro Municipal

Como se vê, menos de dois anos depois da inauguração, o prédio provocava desconfianças...

O desfecho de tal história poderia ter sido trágico. Em 6 de janeiro de 1908, o teatro sediou uma festa infantil em benefício do altar do Sagrado Coração de Jesus, da Igreja Matriz, ocasião em que a grande assistência teria ouvido estalos suspeitos. Felizmente o espetáculo findou sem ocorrências.

Quando dias depois a cidade foi acordada com um grande estrondo, por volta das 11 horas da noite, muitas vozes concluíram: “Foi o Teatro que caiu!”

O administrador municipal mandou interditar o prédio e convidou o engenheiro civil Arlindo Leal a dar um laudo sobre o sinistro. Outros técnicos abalizados do estado, devidamente consultados, como o Dr. Ahrons, A. Legendre e Theodoro Tufwesson, apresentaram um relatório pormenorizado dos problemas constatados. Em síntese, constataram o desequilíbrio dos muros do corpo posterior do edifício, a ruptura completa da linha de atracar de uma das tesouras da armação e o escapamento da junta central (em dardo de Júpiter) da linha de outra tesoura.  Com o desequilíbrio das tesouras houve forte pressão sobre as paredes laterais do edifício, forçando-o a sair do prumo.

Soluções e orçamentos foram apresentados, mas a história documenta que não houve ações efetivas para recuperar aquele espaço de arte. Cinco anos depois, como a livrar-se de um elefante branco, a administração municipal repassou o prédio do Teatro Municipal para o governo do estado para que nele fossem instalados o Colégio Elementar e o Fórum.

 As obras de adaptação do edifício não foram céleres e, depois de idas e vindas, a imprensa noticiava que até o final de 1915, com a retirada do madeiramento e a demolição dos camarotes, paredes divisórias internas seriam levantadas para atendimento dos fins propostos.

Edifício do Teatro adaptado para o Colégio Elementar e Fórum - 1922
- O Rio Grande do Sul, de Alfredo R. da Costa

Mais três décadas seriam necessárias para que a cidade novamente se reencontrasse com uma casa de espetáculos, em fevereiro de 1938, quando o Cine-Teatro Coliseu abriu suas portas. Mas esta já é outra história, cujo destino não foge muito do triste fim que teve o Teatro Municipal.

Cine-Teatro Coliseu - 1938
- Fototeca Museu Municipal

 

domingo, 24 de junho de 2018

Julius Rieth – obras esparsas na paisagem. Quem reconhece?


Uma cidade rica em história como é Cachoeira do Sul, que viveu diferentes momentos, guarda em suas esquinas ventos escondidos que por elas já circularam em diferentes tempos. Estes ventos, volta e meia, adejam sobre as ruas e em suas andanças destravam janelas que se abrem para o passado, revelando eventos e figuras que o tempo levou. Em lampejos, coincidências e assopros as janelas oferecem a oportunidade de relembrá-los...

Janelas da mansarda da Casa 500 - foto Renato F. Thomsen

A recente discussão sobre o destino da Casa 500 ofereceu-nos uma janela que remeteu ao tempo em que por aqui despontou a figura do arquiteto alemão Ernst Julius Rieth. A reforma promovida por Djalma Pereira da Silva na casa da Rua Sete que havia sido da família do Comendador Fontoura, iniciada em 1917, tudo indica promoveu o trabalho do profissional chegado a Cachoeira em 1914.

Júlio Rieth, como passou a ser chamado aqui, trazia na bagagem uma grande folha de obras construídas na Alemanha, especialmente em Stuttgart, cidade onde se formou em 1904. Naquela cidade alemã algumas das obras de Rieth compõem o centro histórico, sendo muitas delas tombadas como patrimônio histórico! Quando requereu no Brasil a licença para atuar em sua área, declarou ter construído diversos prédios de quatro e cinco andares na Alemanha, assim como pontes.

O fato é que se consagrou em Cachoeira, cidade que escolheu para residir a partir de 1914. Na conta de suas obras estão casas que até hoje figuram na nossa paisagem e outras projetadas e talvez nunca executadas – ou desaparecidas no processo natural de crescimento da cidade. Júlio Rieth também executou várias obras públicas, como construção e compostura de pontes no interior do município e obras hidrossanitárias. O maior prédio assinado por ele e que domina o cenário do Bairro Santo Antônio é o do Colégio Totem, antigo Colégio Imaculada Conceição, construído em 1927, quando Rieth era sócio de Roberto Jagnow, outro conhecido construtor local.

Projeto do Colégio Imaculada Conceição - Júlio Rieth (1927)

Mateus Rosada, arquiteto e professor do Curso de Arquitetura da UFSM/Cachoeira do Sul, identificou residências da cidade cujo estilo remetem à prancheta de Júlio Rieth pelas semelhanças construtivas que apresentam entre si. São elas a Casa 500, a casa construída por Frederico Richter, na Rua Dr. Sílvio Scopel, a residência do Dr. Lauderi Ladwig, na Rua Presidente Vargas, dentre outras. Antes dele, a então mestranda Vera Grieneisen, alemã de nascimento, visitou Cachoeira atrás das marcas deixadas por Rieth. Ela identificou várias edificações, dentre as quais o antigo Café Frísia, na Rua Sete de Setembro, esquina General Portinho, o Armazém Tischler, na Rua Júlio de Castilhos, esquina Juvêncio Soares, e as residências das famílias Dickow e Cunha, vizinhas na Rua Ernesto Alves, Bairro Rio Branco.


Casa construída por Frederico Richter - COMPAHC
Residência Dr. Lauderi Ladwig - COMPAHC

Residência Dickow - COMPAHC

Já era do conhecimento a autoria dos projetos da extinta Casa Alaggio, na Rua Sete de Setembro, construída logo depois do Colégio Imaculada Conceição, à época em que Rieth tinha sociedade com Roberto Jagnow. Antes disso, sócio do engenheiro Hans von Hof, construíram o Instituto Pré-Teológico da Comunidade Evangélica, hoje o tombado Jardim de Infância do Colégio Sinodal Barão do Rio Branco.

Jardim de Infância do Colégio Sinodal - COMPAHC
Casa Alaggio - Rua Sete de Setembro - Fototeca Museu Municipal

Júlio Rieth viveu em Cachoeira do Sul com sua família até sua morte súbita, em 31 de julho de 1945, enquanto trabalhava na construção da residência de Ervino Hamann, em Rincão da Porta. Seu falecimento foi muito sentido pela comunidade e o sepultamento se deu no Cemitério Municipal.

A casa de sua moradia ficava na Rua D. Pedro II e existe até hoje. Seu estilo refinado fez sucesso na Cachoeira progressista nas primeiras três décadas do século XX.

Júlio Rieth e família na residência da Rua D. Pedro II - acervo familiar

Benditas janelas do passado que se abrem, vez ou outra. Suas revelações são oportunas para nos darmos conta de que a riqueza que temos é muito maior do que suspeitamos!

Esta postagem homenageia o trabalho da Vera Grieneisen, a perseverança da Elizabeth Thomsen e os bons parceiros da Arquitetura - UFSM/Cachoeira do Sul.