Espaços urbanos

Espaços urbanos
Balsa atravessando o Jacuí - Foto Renato F. Thomsen

domingo, 15 de julho de 2018

O destino do Teatro Municipal


A inauguração do Teatro Municipal, no Natal de 1900, foi um acontecimento. A cidade celebrava a conquista de recuperar um espaço para as apresentações artísticas, já que a demolição do primitivo Teatro Cachoeirense tinha limitado – e muito – as atrações que necessitavam da infraestrutura de uma casa de espetáculos.

Teatro Municipal visto pela lateral - Fototeca Museu Municipal
Anúncio do extinto Teatro Cachoeirense - jornal O Clarim, 22/5/1887
- Acervo de Imprensa do Arquivo Histórico

Na virada dos anos 1800 para 1900, graças aos trens, várias companhias dos mais diversos tipos de arte e novidades percorriam o trajeto entre a região do Prata e Porto Alegre apresentando-se nas cidades que ficavam no caminho. Cachoeira era uma delas, mas a inexistência de um espaço apropriado muitas vezes desestimulava a estada dos artistas na cidade ou tirava o brilho das companhias que mesmo assim aqui se aventuravam.

Com a inauguração do imponente prédio do teatro, a imprensa da época registrava todo tipo de atrações que apareciam. Cinematógrafos, ventríloquos, clowns, coisas bizarras, máquinas de falar, concertos musicais, operetas, comédias, tragédias, conferências, declamações... Descrições das horas de arte ocupavam colunas dos jornais, bem como a desconfiança de muitos com a solidez do prédio recém-inaugurado...

Teatro Municipal - Fototeca Museu Municipal

Incomodado com o diz-que-diz-que que tomava conta de algumas rodas, o jornal O Commercio, edição do dia 5 de novembro de 1902, publicou o seguinte:

“Avessos a tudo que se propala sem espírito de moral e de razão, principalmente quando vimos que no boato há um mau velado intuito de ferir suscetibilidades, não podemos deixar de condenar acremente como diretores da opinião o que se tem dito e se diz com relação à solidez do Teatro Municipal. Os anônimos que por aí pululam e cujo único ofício é maldizer dos que trabalham e se interessam pelo progresso de sua terra estão, não resta dúvida, se fotografando como imbecis e ignorantes que são, pretendendo incutir no ânimo da população cachoeirense uma prevenção maligna, para assim afastá-la de comparecer às representações que ali se efetuam presentemente, prejudicando artistas e companhias dignos da proteção do público e os créditos incontestáveis do honrado e operoso intendente municipal que dirigiu a construção do elegante edifício, cuja solidez foi e é atestada por competentes. Por hoje ficamos aqui, lembrando ao digno Sr. Coronel Intendente uma vistoria no Teatro por profissionais, que aqui os há, a fim de que mais uma vez sejam confundidos os maldizentes.”

Intendente David Soares de Barcellos
- empreendeu a construção do Teatro Municipal

Como se vê, menos de dois anos depois da inauguração, o prédio provocava desconfianças...

O desfecho de tal história poderia ter sido trágico. Em 6 de janeiro de 1908, o teatro sediou uma festa infantil em benefício do altar do Sagrado Coração de Jesus, da Igreja Matriz, ocasião em que a grande assistência teria ouvido estalos suspeitos. Felizmente o espetáculo findou sem ocorrências.

Quando dias depois a cidade foi acordada com um grande estrondo, por volta das 11 horas da noite, muitas vozes concluíram: “Foi o Teatro que caiu!”

O administrador municipal mandou interditar o prédio e convidou o engenheiro civil Arlindo Leal a dar um laudo sobre o sinistro. Outros técnicos abalizados do estado, devidamente consultados, como o Dr. Ahrons, A. Legendre e Theodoro Tufwesson, apresentaram um relatório pormenorizado dos problemas constatados. Em síntese, constataram o desequilíbrio dos muros do corpo posterior do edifício, a ruptura completa da linha de atracar de uma das tesouras da armação e o escapamento da junta central (em dardo de Júpiter) da linha de outra tesoura.  Com o desequilíbrio das tesouras houve forte pressão sobre as paredes laterais do edifício, forçando-o a sair do prumo.

Soluções e orçamentos foram apresentados, mas a história documenta que não houve ações efetivas para recuperar aquele espaço de arte. Cinco anos depois, como a livrar-se de um elefante branco, a administração municipal repassou o prédio do Teatro Municipal para o governo do estado para que nele fossem instalados o Colégio Elementar e o Fórum.

 As obras de adaptação do edifício não foram céleres e, depois de idas e vindas, a imprensa noticiava que até o final de 1915, com a retirada do madeiramento e a demolição dos camarotes, paredes divisórias internas seriam levantadas para atendimento dos fins propostos.

Edifício do Teatro adaptado para o Colégio Elementar e Fórum - 1922
- O Rio Grande do Sul, de Alfredo R. da Costa

Mais três décadas seriam necessárias para que a cidade novamente se reencontrasse com uma casa de espetáculos, em fevereiro de 1938, quando o Cine-Teatro Coliseu abriu suas portas. Mas esta já é outra história, cujo destino não foge muito do triste fim que teve o Teatro Municipal.

Cine-Teatro Coliseu - 1938
- Fototeca Museu Municipal

 

domingo, 24 de junho de 2018

Julius Rieth – obras esparsas na paisagem. Quem reconhece?


Uma cidade rica em história como é Cachoeira do Sul, que viveu diferentes momentos, guarda em suas esquinas ventos escondidos que por elas já circularam em diferentes tempos. Estes ventos, volta e meia, adejam sobre as ruas e em suas andanças destravam janelas que se abrem para o passado, revelando eventos e figuras que o tempo levou. Em lampejos, coincidências e assopros as janelas oferecem a oportunidade de relembrá-los...

Janelas da mansarda da Casa 500 - foto Renato F. Thomsen

A recente discussão sobre o destino da Casa 500 ofereceu-nos uma janela que remeteu ao tempo em que por aqui despontou a figura do arquiteto alemão Ernst Julius Rieth. A reforma promovida por Djalma Pereira da Silva na casa da Rua Sete que havia sido da família do Comendador Fontoura, iniciada em 1917, tudo indica promoveu o trabalho do profissional chegado a Cachoeira em 1914.

Júlio Rieth, como passou a ser chamado aqui, trazia na bagagem uma grande folha de obras construídas na Alemanha, especialmente em Stuttgart, cidade onde se formou em 1904. Naquela cidade alemã algumas das obras de Rieth compõem o centro histórico, sendo muitas delas tombadas como patrimônio histórico! Quando requereu no Brasil a licença para atuar em sua área, declarou ter construído diversos prédios de quatro e cinco andares na Alemanha, assim como pontes.

O fato é que se consagrou em Cachoeira, cidade que escolheu para residir a partir de 1914. Na conta de suas obras estão casas que até hoje figuram na nossa paisagem e outras projetadas e talvez nunca executadas – ou desaparecidas no processo natural de crescimento da cidade. Júlio Rieth também executou várias obras públicas, como construção e compostura de pontes no interior do município e obras hidrossanitárias. O maior prédio assinado por ele e que domina o cenário do Bairro Santo Antônio é o do Colégio Totem, antigo Colégio Imaculada Conceição, construído em 1927, quando Rieth era sócio de Roberto Jagnow, outro conhecido construtor local.

Projeto do Colégio Imaculada Conceição - Júlio Rieth (1927)

Mateus Rosada, arquiteto e professor do Curso de Arquitetura da UFSM/Cachoeira do Sul, identificou residências da cidade cujo estilo remetem à prancheta de Júlio Rieth pelas semelhanças construtivas que apresentam entre si. São elas a Casa 500, a casa construída por Frederico Richter, na Rua Dr. Sílvio Scopel, a residência do Dr. Lauderi Ladwig, na Rua Presidente Vargas, dentre outras. Antes dele, a então mestranda Vera Grieneisen, alemã de nascimento, visitou Cachoeira atrás das marcas deixadas por Rieth. Ela identificou várias edificações, dentre as quais o antigo Café Frísia, na Rua Sete de Setembro, esquina General Portinho, o Armazém Tischler, na Rua Júlio de Castilhos, esquina Juvêncio Soares, e as residências das famílias Dickow e Cunha, vizinhas na Rua Ernesto Alves, Bairro Rio Branco.


Casa construída por Frederico Richter - COMPAHC
Residência Dr. Lauderi Ladwig - COMPAHC

Residência Dickow - COMPAHC

Já era do conhecimento a autoria dos projetos da extinta Casa Alaggio, na Rua Sete de Setembro, construída logo depois do Colégio Imaculada Conceição, à época em que Rieth tinha sociedade com Roberto Jagnow. Antes disso, sócio do engenheiro Hans von Hof, construíram o Instituto Pré-Teológico da Comunidade Evangélica, hoje o tombado Jardim de Infância do Colégio Sinodal Barão do Rio Branco.

Jardim de Infância do Colégio Sinodal - COMPAHC
Casa Alaggio - Rua Sete de Setembro - Fototeca Museu Municipal

Júlio Rieth viveu em Cachoeira do Sul com sua família até sua morte súbita, em 31 de julho de 1945, enquanto trabalhava na construção da residência de Ervino Hamann, em Rincão da Porta. Seu falecimento foi muito sentido pela comunidade e o sepultamento se deu no Cemitério Municipal.

A casa de sua moradia ficava na Rua D. Pedro II e existe até hoje. Seu estilo refinado fez sucesso na Cachoeira progressista nas primeiras três décadas do século XX.

Júlio Rieth e família na residência da Rua D. Pedro II - acervo familiar

Benditas janelas do passado que se abrem, vez ou outra. Suas revelações são oportunas para nos darmos conta de que a riqueza que temos é muito maior do que suspeitamos!

Esta postagem homenageia o trabalho da Vera Grieneisen, a perseverança da Elizabeth Thomsen e os bons parceiros da Arquitetura - UFSM/Cachoeira do Sul. 

quinta-feira, 31 de maio de 2018

Série Lojas do Passado: Casa Augusto Wilhelm


As primeiras referências ao comerciante Augusto Wilhelm já aparecem no início do século XX, quando na imprensa (jornal Rio Grande, 7/1/1909, p. 4) ele oferecia ao público um “elegante carro de praça com excelente parelha de cavalos”. A tabela de preços do serviço de transporte podia ser encontrada no carro e as corridas eram tabeladas com tempo estabelecido em trajetos que abrangiam os limites da cidade, alto do cemitério, porto da Aldeia, charqueada, volta da charqueada, da estação ferroviária ao centro da cidade, entre outros.

Augusto Wilhelm - Fototeca Museu Municipal
Carro de praça com parelha de cavalos - Fototeca Museu Municipal


Antes de abrir a casa comercial que levaria seu nome, Augusto era proprietário de uma marcenaria e depósito de móveis onde fabricava também caixões fúnebres de variados tamanhos, preços e adereços. O mais rico ataúde custava 175$000 réis e o mais simples 25$000 réis. Dos pobres e sem recursos, Augusto não cobrava nada além do material dos ataúdes. (O Comércio, 24/8/1910, p. 4).

Depois de estar residindo há 28 anos em Cachoeira e ter trabalhado 20 anos com marcenaria e oito com cultura do arroz, Augusto Wilhelm decidiu dedicar-se ao comércio estabelecendo uma casa para ferragens, vidraçaria e materiais de construção. Para isto, mandou construir um prédio à Rua 7 de Setembro n.º 148, cuja planta foi confeccionada pelo engenheiro-arquiteto Frederico Gelbert, de Porto Alegre.

Casa Augusto Wilhelm - 1922
- Grande Álbum de Cachoeira, Benjamin Camozato

A casa térrea com galerias, de 11 metros por 18, tem, internamente, mais de seis metros de altura, conforme descreveu o jornal O Commercio , na edição de 9 de julho de 1919, à página 1.

No dia 17 de janeiro de 1921, às 16h, com a presença de representantes das casas bancárias locais, do comércio, das indústrias e da imprensa foi solenemente inaugurada a casa de ferragens, louças e miudezas estabelecida num dos pontos mais centrais da cidade.

Augusto Wilhelm ficou à frente dos negócios pouco mais de seis anos. Em 1927, com seu falecimento, o negócio passou para as mãos do primogênito Erwino Wilhelm.

Foto Robispierre Giuliani

A Casa Augusto Wilhelm fez história no comércio cachoeirense. Famoso era seu slogan – “Insista, periga ter!”, tal era a variedade e quantidade do estoque de ferragens, louças, brinquedos e outras mercadorias que o cliente tinha à sua disposição. Na época das festas natalinas, um Papai Noel ofertava balas e doces às crianças que, empoleiradas nos ombros dos pais, aglomeravam-se defronte ao casarão fartamente iluminado à espera de seu quinhão de gostosuras.

O tempo e as conjunturas econômicas selaram as portas da tradicional Casa Augusto Wilhelm no princípio da década de 1980. Outras casas comerciais ocuparam o seu nobre espaço. Hoje, quando apesar das portas cerradas ainda tem força suficiente para seguir denominando aquele trecho como a “quadra da Augusto Wilhelm”, vale invocar o seu velho slogan para que o futuro lhe sorria.

Detalhe arquitetônico da Casa Augusto Wilhelm - Nelda Scheidt

domingo, 6 de maio de 2018

A casa 500



O destino da casa 500 parece estar selado. Mas antes de virar escombros ela quer contar a sua história. Quando talvez dela não haja mais nada além de fotografias esmaecidas, saibam os habitantes do futuro que um dia a cidade descartou de sua paisagem um legítimo documento histórico.


Casa 500 - Foto João Carlos Alves Mór


15 de abril de 1847: Antônio Vicente da Fontoura, liderança no desfecho da Revolução Farroupilha, de volta a Cachoeira e disposto a refazer a vida depois do longo envolvimento com a Revolução Farroupilha, pediu licença à Câmara Municipal para construir uma casa no terreno de sua propriedade, havido por doação de Manoel José Pereira da Silva, na Travessa de São José, hoje Rua Conde de Porto Alegre.

Antônio Vicente da Fontoura
- Fototeca Museu Municipal

13 de abril de 1849: a Câmara convocou o arruador para verificar a correção do alinhamento da casa que Antônio Vicente estava construindo na Rua do Loreto, tomando como parâmetro a casa de Miguel Pereira Simões, situada na mesma quadra, na Travessa de São José.

CM/OF/A-004, fl. 159 - Arquivo Histórico


14 de abril de 1849: o arruador comunicou á Câmara que a casa de Miguel Pereira Simões estava fora do alinhamento em relação à casa de “canto” (esquina) que Antônio Vicente estava construindo na Rua do Loreto (hoje Sete de Setembro).  

1850: o cadastro dos terrenos de Cachoeira, que ensejou a confecção do primeiro mapa, elaborado por João Martinho Buff, traz o registro do terreno n.º 153, pertencente a Antônio Vicente da Fontoura, situado na Rua do Loreto (atual Sete de Setembro), esquina Travessa de São José (atual Conde de Porto Alegre), com 95 palmos de frente por meia quadra de frente ao fundo. Confrontações: ao Sul, a Travessa de São José; a Oeste, a Rua do Loreto, e a Leste, o terreno n.º 221, dos herdeiros de Miguel Pereira Simões.

CM/S/SE/RCT-005 - Arquivo Histórico

Localização do terreno n.º 153 no mapa de J. Martinho Buff - 1850

O proprietário. Antônio Vicente da Fontoura é sabidamente um dos mais importantes vultos da história de Cachoeira e do Rio Grande do Sul. Seu papel na pacificação da província selou o fim da Revolução Farroupilha, não sem o protesto de muitos e a aclamação de outros, rendendo-lhe uma divisão na opinião dos historiadores.

Nascido em Rio Pardo a 8 de junho de 1807, era filho do português Eusébio Manuel Antônio, relojoeiro da Comissão de Demarcação de Limites subordinado ao Cel Francisco João Róscio, autor do projeto da Igreja Matriz em Cachoeira. Estabeleceu-se Eusébio, depois da demarcação, com relojoaria em Rio Pardo, onde casou em 2 de junho de 1798 com Vicênia Cândida da Fontoura. Foram os seguintes os filhos do casal: João (1805), Antônio Vicente (1807), Maria Egípcia (1810), Pedro Antônio (1811), Benta e José Antônio.

Quase menino, Antônio Vicente começou a trabalhar como caixeiro em um armazém de Rio Pardo e, aos 19 anos, veio para Cachoeira, empregando-se também como caixeiro.

Em 16 de janeiro de 1828, casou-se com Clarinda Francisca Porto, irmã de José Gomes Portinho. Desta união nasceram 15 filhos: Antônio (faleceu bebê - 1829), Clarinda Amália (1831), Josefa Leopoldina (1833), Gabriela Benta, Antônia Francisca, Antônio Eusébio (1836), José Propício (1837), Afonso Borges, Bento (1842), Maria Egípcia (1848), Vicência Cândida (1850), João Propício (1851), Francisco de Paula (1853), Luzia Sofia (1854, morreu com 7 anos) e Tito Castilhos (1856).


Clarinda e Antônio Vicente - provável foto de Luigi Terragno
- 1856 - Fototeca Museu Municipal


Em sociedade com um amigo, Fontoura adquiriu seu próprio armazém que logo se transformou no mais próspero da Vila Nova de São João da Cachoeira. Líder de sua classe, teve ativa participação política como vereador em mais de uma legislatura, procurador fiscal da Câmara (1831), juiz de paz e juiz ordinário, chefe de polícia (1837), entre outros. Apesar de filho de português, suas ideias eram liberais, fato que o levou à intensa e representativa participação na Revolução Farroupilha (1835-1845), despontando já no início da contenda, juntamente com Manduca Carvalho e Gaspar Francisco Gonçalves, em missão de pacificação na vizinha vila de Rio Pardo, quando lá não queriam reconhecer a autoridade instituída pelo governo republicano. Foi major da Guarda Nacional e, implantada a República Rio-Grandense, tornou-se ministro da fazenda; deputado à Constituinte de Alegrete, superando em votos a Bento Gonçalves da Silva, Domingos José de Almeida e Antônio de Souza Neto, indiscutíveis líderes da revolução. No final, vendo derrotada a república, começou a costurar o acordo de paz com o império, voltando da corte com as condições de paz que precisou apresentar às lideranças em seus acampamentos. Finda a revolução, integrou a comissão para liquidar as indenizações devidas e pagar as dívidas públicas. Por estas atuações tornou-se o Embaixador da Paz. Foi condecorado, por sua participação e esforço, como Comendador da Imperial Ordem de Cristo, por decreto de 18 de outubro de 1855.

A atuação política forte de Antônio Vicente da Fontoura rendeu-lhe inimizades. O falecimento, ocorrido em 20 de outubro de 1860, se deu em decorrência do atentado que sofreu dentro da Igreja Matriz, no início de setembro, quando lá se realizavam eleições. Os mandantes do crime foram Hilário Pereira Fortes, Felisberto Machado de Carvalho Ourique e Dr. José Pereira da Silva Goulart, seus antigos opositores políticos. O infausto acontecimento desencadeou um longo inquérito policial com repercussão estadual e nacional, considerando a importância das pessoas envolvidas e as implicações políticas.

26         de fevereiro de 1861: abertura do inventário de Antônio Vicente da Fontoura pela viúva Clarinda Francisca Porto da Fontoura. Os bens de raiz, ou seja, os imóveis herdados foram: uma morada de casas sita na Rua Sete de Setembro (...) fazendo esquina com a Rua de São José (...); um armazém em frente às casas e rua acima referida; um armazém na Rua de São José contíguo às mesmas casas.


Capa do inventário de Antônio Vicente
- Arquivo Público do RS


14 de abril de 1877: falecimento da viúva Clarinda Francisca Porto da Fontoura. Foi nomeado inventariante o genro José Antônio Machado de Araújo, comerciante, casado com Vicência Cândida da Fontoura. Em 1882, Vicência Cândida morreu. Um ano depois, cumprindo o protocolo de luto, José Antônio casou com Benta Portinho, prima de Vicência e filha do General Portinho. Em 1908, José Antônio morreu, herdando a casa sua viúva, Benta Portinho de Araújo.

1917: Benta Portinho de Araújo vendeu a casa para Djalma Pereira da Silva. Esta transação encerrou o ciclo de utilização da casa pela família de Antônio Vicente da Fontoura.

Jornal O Commercio, 20/6/1917, p. 1 - Arquivo Histórico

4/10/1917: Djalma Pereira da Silva solicitou licença à Intendência para "reformar" a casa da Rua Sete de Setembro. A licença foi concedida dois dias depois.


Requerimento para reformar a casa - IM/OPV/AOP/Req. Cx. 21
- Acervo documental Arquivo Histórico
Apesar da vida construída em Cachoeira e da relevância de sua atuação como cidadão e homem público além fronteiras do município, poucos resquícios materiais da figura Antônio Vicente da Fontoura ainda existem. A casa, embora as mudanças determinadas pelo tempo, pelas modificações exigidas por lei e as sucessivas adaptações a que deve ter sido submetida ao longo de mais de 170 anos de história, paira sobre ela o espectro de Antônio Vicente da Fontoura e a vida familiar que suas paredes encerraram. 

Por fim, fugindo da personagem histórica que lançou as fundações da casa 500, resta ainda a sua condição de edificação encravada no centro histórico, compondo a paisagem de casarões que se localizavam em torno do polo exercido pela Igreja Matriz, por muito tempo a maior e mais importante edificação urbana.

Lutemos pela preservação da casa 500 e do tanto que ela é capaz de nos contar. Seja sobre os seres que a habitaram, seja sobre os fatores que nela interferiram ao longo do tempo. Que logo ali adiante, quando o discernimento e o progresso material e intelectual nos mostrarem que o passado é o alicerce do futuro, não sejamos tomados pelo arrependimento que volta e meia nos assalta em cobranças. 

domingo, 29 de abril de 2018

Um prédio enigmático


Quem se aproximar da margem esquerda do rio Jacuí, chegando perto da plataforma do pretenso segundo porto de Cachoeira do Sul, irá divisar um pavilhão portentoso. Quase alheio a algumas ruínas que a ele se ligam e ignorando o ar de decadência, o pavilhão domina o paredão do rio. Paineiras centenárias lhe servem de moldura, marcando as estações de um tempo de convivência que eles, pavilhão e paineiras, não sabem mais contar em anos... 

Charqueada e plataforma do porto - Fototeca Museu Municipal

Paineira na Charqueada - Foto Defender

O cenário é o da extinta Charqueada e Estabelecimento Paredão, a primeira grande indústria da cidade, fundada em 1877. 
   
O portentoso pavilhão aparece em registro fotográfico de 1910, cercado de outras construções que dão a ideia do quanto grandioso era o complexo industrial da Charqueada.

Charqueada do Paredão - 1910 - Fototeca Museu Municipal


Por esses tempos a Charqueada se apresentava com a razão social de Brazilian Extract of Meat & Hide Factory Ltd., companhia inglesa que introduziu uma série de melhoramentos materiais no complexo. Anos mais tarde, em 1909, ainda sob administração inglesa, o pavilhão que domina até hoje o alto do paredão passou por uma expressiva obra, sendo melhorado em sua estrutura e nas condições higiênicas. O projeto, de engenheiros ingleses, mostrou-se sólido o suficiente para estar ainda hoje, mesmo que abandonado, ostentando sua condição de portentoso.


Placa indicativa da indústria - Fototeca Museu Municipal

As obras são referidas com detalhes pelo jornal Rio Grande, edição do dia 23 de dezembro de 1909, à página 2:

Fábrica Modelo
Estabelecimento do Paredão
A convite de seu operoso gerente, nosso amigo Sr. Henrique Pearson, tivemos o prazer de domingo último, assistir, às últimas demãos da nova fábrica de conservas alimentícias ali reconstruída.
A impressão que dela nos ficou é que não existe em todo o Rio Grande um estabelecimento que a este se avantaje, podendo nós sem temor de erro classificá-lo de fábrica modelar. É com desvanecimento, pois, que iniciamos a notícia desse novo edifício, acrescido aos que já existem naquele estabelecimento, que vem trazer à nossa terra pela sua terminação farta messe de benefícios, que atestam exuberantemente o engrandecimento material da conhecida fábrica.
Não há quem vindo a Cachoeira, embora passageiramente, e visitando o Paredão, não afirme ser este um modelo entre seus congêneres, máxime agora, com os melhoramentos que ali foram introduzidos e a reedificação da fábrica de conservas.
Esta que mede 58 metros de comprimento por 16 metros de largura, é um edifício de uma solidez inigualável, tendo a planta sido traçada por engenheiros ingleses que há pouco tempo visitaram a Charqueada. Dada a planta, feito o orçamento respectivo, começaram as obras sob a imediata fiscalização do digno gerente daquele próspero estabelecimento, nosso amigo Sr. Henrique Pearson.
Aproveitando o local onde se erguia a antiga fábrica, que apresentava base não muito sólida, houve necessidade de nele se fazer obras d’arte de valor, sendo as construções de uma solidez a toda prova.
Encarregou-se da parte relativa à construção de alvenaria o conhecido mestre Antonelli Oreste que mais uma vez mostrou a sua competência de profissional, sendo diretor da parte concernente à carpintaria Carlos Böer.
Uma das coisas que mais nos impressionou nessa construção foram as condições higiênicas que ela apresenta. Como de fato, em uma fábrica onde promiscuamente trabalham centenares de empregados em misteres pesados é condição primordial a capacidade cúbica de ar que cada um ali absorve, bem como a luz proveniente das aberturas existentes.
Na nova fábrica que o Estabelecimento do Paredão acaba de concluir, além de dezenas de janelas, a cada qual corresponde outras pequenas, tem o cimo da cumeeira aberturas laterais, de ponta a ponta, trazendo ao vasto salão muito ar facilmente renovado.
Todo o vigamento do edifício é de aço de primeira qualidade, vindo diretamente da Inglaterra, sendo as madeiras empregadas cabriúva, louro e pinho de riga. O piso da fábrica será de lajes, achando-se já ali 1.700. O custo total não excederá de 54 contos de réis, sendo que a inauguração será feita em janeiro.
Assistimos, porém, à terminação da cumeeira. Ao ser pelo chefe dos carpinteiros pregado o último prego, foram hasteadas sobre ela, desfraldando-se ao vento, as bandeiras brasileira e inglesa, ao espocar de dezenas de foguetes, sob a chuva de aplausos dos operários em festa.
Descobertos, ante o imponente ato, elevamos também os nossos vivas entusiásticos à digna companhia inglesa, cujo capital vem trazer à nossa terra e aos nossos operários a honrada contribuição de seu labor, na pessoa do cavalheiro Henrique Pearson, que sabe perfeitamente cumprir o seu dever na gerência que lhe foi em boa hora confiada. A fábrica que vimos de falar é uma das grandes iniciativas que a companhia e a nossa terra lhe devem; é um atestado de que o progresso em que marchamos é uma realidade. Não conhecemos, desde a fronteira, onde tivemos a ventura de visitar estabelecimentos saladeris de primeiro plano, outro que leve vantagens ao do Paredão com os melhoramentos por que passou. São dignos de nota, ficando em destaque, e ainda uma vez seja acentuado ser um estabelecimento modelo.
Terminada a cerimônia da conclusão da cumeeira foi aos operários, no grande salão que se acabava de inaugurar, servido um churrasco, sendo os convidados e representantes da imprensa levados para a sala de refeições do estabelecimento, onde lhes foi oferecido lauto almoço.
(...)
Mais uma vez seja-nos dado prantear, com efusão, os nossos agradecimentos ao Sr. Henrique Pearson pelo modo gentil e cavalheiresco com que fomos acolhidos, saudando pela consecução do seu desideratum em dotar a nossa terra com um estabelecimento superior aos seus similares no Estado.

Esta postagem é dedicada aos calouros (2018) da Faculdade de Arquitetura – UFSM/Cachoeira do Sul e aos professores Samuel Silva de Brito e Minéia Johann Scherer.

domingo, 15 de abril de 2018

As pedras do antigo porto

Muitas vezes o silêncio protege a história. Ou a ignorância da sua concretude. Tem sido assim com as velhas pedras que calçam o início da Moron, quando ela nasce lá no Jacuí, ainda mergulhada nas águas.


As grandes e irregulares pedras estão ali desde o início da década de 1850, quando Fidêncio Pereira Fortes empreitou a obra de construção da rampa de embarque e desembarque do porto da Vila Nova de São João da Cachoeira.


Cartão-postal em que se vê claramente as pedras da rampa da Moron
- Fototeca Museu Municipal

A navegação era, naqueles meados do século XIX, importante modal de transporte. O Jacuí, em sua magnitude de águas, permitia o trânsito de embarcações até 58 toneladas já no início da década de 1840, quando Antonio Kussmann e Nicolau Faller começaram a navegação comercial entre Rio Pardo e Cachoeira. Mas faltava um porto organizado, com uma rampa que garantisse comodidade ao trânsito no embarque e desembarque.

Em outubro de 1852, a Câmara de Cachoeira solicitou ao engenheiro Frederico Heydtmann uma planta e orçamento da rampa que chegou à cifra de 9:524$200 réis, considerada vultosa. Em janeiro de 1853, Fidêncio Pereira Fortes conseguiu arrematar a obra por 3:169$200 réis a menos. Como era praxe naquela época, apresentou como fiador Antônio Pereira Fortes e teve que aguardar que a presidência da Província aprovasse a arrematação, o que se deu em 4 de maio de 1853.

 Dentre as cláusulas do contrato de arrematação, estava prevista a entrega da obra para vistoria em dois anos, não sem antes comunicar, com a antecedência de dois meses, a conclusão de cada uma das etapas, como construção de alicerces, desaterro e empedramento, para que fossem examinadas por comissão designada pelas autoridades. O pagamento do valor contratado seria feito em três parcelas, sendo a mais alta, no valor de 3:177$500, no ato da portaria de arrematação, e as outras duas, no valor de 1:588$750 cada, quando a obra estivesse na metade e, por último, na conclusão.

O início das obras apresentou uma dificuldade imprevista ao arrematante. Um grande banco de pedra vermelha encontrado no local causou sobrecarga de trabalho para escavação, obrigando Fidêncio a solicitar indenização e apresentar orçamento suplementar. Aprovado o aumento no valor, o arrematante precisou solicitar adição no tempo de entrega em mais um ano.

Após todos os percalços surgidos, Fidêncio Pereira Fortes finalmente entregou a primeira parte da rampa e calçada do porto em 1.º de dezembro de 1856, não deixando de alertar que deveriam ser tocadas as obras de construção dos paredões, calçada e empedramento até o banco de pedra vermelha. Em 7 de abril de 1857 a Câmara abriu concorrência para o restante das obras, sendo vencedor José Ferreira Neves, tendo como fiador Antônio Vicente da Fontoura.

Há mais de 160 anos as pedras assentadas por Fidêncio Pereira Fortes estão no nascedouro da Moron. Submetem-se, desde 1856, ao vai e vem das águas do Jacuí. Agora, como que tomadas de vida, andam assoprando nos ouvidos dos pescadores que por ali deixam suas canoas que têm medo do asfalto. Não são contra o progresso, como alguns insistem em afirmar. Elas querem mesmo é preservar sua história.


           
Fotos: Cristina da Gama Mór
Fonte: Cachoeira do Sul em busca de sua história, de Angela S. Schuh e Ione M. Sanmartin Carlos. Martins-Livreiro Editor, Porto Alegre, 1991.

domingo, 1 de abril de 2018

O Roberto da Música


Existem pessoas que apesar de terem desaparecido há dezenas de anos, vez ou outra têm seus nomes trazidos à tona, ora por um fato resgatado em algum documento, ora pela marca que imprimiram em seu distanciado tempo de vida. Uma destas figuras é o “Roberto da Música”, que emerge dos tempos idos, regendo bandas e dando tom aos sonhos coletivos de operários na velha Cachoeira do final do século XIX.

Roberto Francisco Silva, filho de José Francisco da Silva, nasceu em 7 de junho de 1860. Duraria apenas 49 anos, falecendo em 10 de novembro de 1909. Detalhes de sua curta vida são praticamente desconhecidos, talvez pelo seu caráter reservado e extremamente discreto. Não fosse por um artigo publicado no Jornal do Povo de 30 de junho de 1947, autoria de Gustavo Peixoto, ainda menos seria possível saber desta interessante personagem histórica.

Disse Gustavo, por ocasião da inauguração do retrato de Roberto Silva na Liga Operária Cachoeirense:

 “O Roberto da Música. (...) Assim o conheci, quando da minha infância. Admirava-o em sua boa vontade e maestria na banda de música na qual era estimado por seus companheiros, discípulos e toda a Cachoeira. Era de ver e admirar a banda de música por ele regida! ORDEM! RESPEITO! HARMONIA! AFINAÇÃO E ASSEIO.
Nos bailes, quando o terno era regido por ele, maior tornava-se o número de famílias. (...)
Ainda bem me lembro da banda de música do Clube Caixeiral, composta e formada pelos rapazes de nossa sociedade e que escolheram Roberto para organizar tão saudoso conjunto musical. E me vem à lembrança ainda (...) de uma retreta à frente da sede do clube, o sobrado dos Barcellos, em que a rapaziada toda fardada, com instrumentos novos e reluzindo, executava admiráveis peças de seu repertório e eu, guri, apaixonado por tudo aquilo, segurava o papel da música para um dos integrantes fazer a execução. E a banda era regida ali por David Soares Barcellos Filho, o nosso coletor federal, que na clarineta fazia o canto; também ali estavam Lúcio Gauss, filho do saudoso professor Gauss, no bombardão; Luiz Leão, o inesquecível cachoeirense, no bombo e pratos; o não menos saudoso Ceciliano Teixeira, fiscal federal, no piston, e tantos outros. Mas, de um lado, modesto, recolhido a um canto estava o maestro de fato, aquele que tudo organizara e para quem os olhares e atenção de todos estavam voltados: O ROBERTO DA MÚSICA.

O sobrado dos Barcellos - Rua 7 de Setembro - Fototeca do Museu Municipal

Os anos passaram... Entrei, por uma destas coisas da vida, para a Liga Operária Cachoeirense e me fui à papelada e livros de sua biblioteca e, com imensa satisfação e alegria, me encontrei de novo com o Roberto da Música e fiquei mais satisfeito por saber de uma outra qualidade sua – fundador e primeiro presidente da Liga! Cresceu o conceito do Roberto em mim. Compreendi e avaliei os trabalhos por que passara para chegar à fundação da sociedade que, hoje, sem medo de errar, é a mais antiga de minha terra. Os que sucederam a Roberto souberam conservar o que ele com enormes sacrifícios fizera. – Sim – enormes sacrifícios – hoje para o operário tudo é fácil, tem leis que o amparam (...), mas, naqueles tempos, o operário nada tinha e nem podia ter e que se quisesse ter era tido como anarquista e logo preso e mal visto. – Por isto tudo, calculo o quanto trabalhou Roberto, ao lado de seus companheiros e outros, para conseguir fundar a Liga! (...)

Roberto era tido como cidadão respeitado e de todo acatamento – estes predicados fizeram ser escolhido pela comissão que veio de Porto Alegre para fundar uma sociedade de operários, e a polícia, que não consentia reuniões dos operários, teve que ceder, teve que se submeter e acatar o homem que tão benquisto era em Cachoeira. (...)

Como ia dizendo, entrei na Liga e vi mais a qualidade de quanto era estimado e querido por todos o nosso Roberto da Música. E nunca pensei que os de hoje, os que aqui vêm e gozam seus benefícios, que gozam seu edifício, não têm olhos para verem no REGISTRO DA SAUDADE o fundador de tão grande entidade de classe! – O RETRATO DE ROBERTO – POR ISSO FALEI – RECLAMEI (...) – e vi com satisfação que todos se prontificaram a colaborar no resgate de tão importante débito – a inauguração na sala principal da figura do maior entre os maiores sócios desta benemérita instituição e hoje aí está, simples, modesta como ele era, mas GRANDE EM SUA BONDADE, EM SEU ESPÍRITO DE ORGANIZAÇÃO, RETO EM SEUS DEVERES E ESPOSO E PAI AMANTÍSSIMO. – Aí está para os olhos de todos o 1.º presidente da Liga Operária Cachoeirense! Meus respeitos. (...)

Roberto Silva - 1.º presidente da Liga Operária

De fato a Liga Beneficente Operário Internacional Cachoeirense, hoje Liga Beneficente Operária Cachoeirense, foi fundada por Roberto Silva e outros em 1.º de novembro de 1897. Foi ele escolhido o seu primeiro presidente.

Segundo Ícaro Bittencourt, em O Mutualismo Operário em Cachoeira (1897-1923): o Caso das Sociedades Beneficentes Liga Operária Internacional Cachoeirense e União Operária 1.º de Maio, UFSM, 2008, a Liga oferecia aos seus sócios ajuda médica, auxílio farmácia, auxílio judiciário, enterro, escola, biblioteca e lazer. Um ano depois da fundação, há o registro do estabelecimento de uma aula em sua sede, recebendo o professor os proventos de 15.000 réis por três aulas semanais.

E justamente por este caráter assistencial da Liga que Gustavo Peixoto escreveu seu artigo, encerrado com o apelo de que os sócios destinassem um auxílio pecuniário a Clarice Silva, viúva de Roberto, anciã que se via desprovida de amparo, a despeito do muito que seu marido representara para aquela instituição. E encerrou seu apelo dizendo:

Embora pequena esta pensão, para nós é grande, porque todos os meses temos na presença o nosso saudoso fundador e maior esta pensão é para vós, respeitável senhora, porque vereis nela que não somos ingratos, que temos na lembrança a figura sempre alegre e modesta do nosso Roberto. (...) Tenho dito!

Independente de ter sido o intento de Gustavo Peixoto atendido ou não, o fato é que as palavras que empregou em seu artigo ofereceram um facho de luz sobre a figura do Roberto da Música, já desbotada pelo tempo, o Roberto Silva que hoje dá nome a uma das ruas da cidade, pálida homenagem ao grande e discreto homem que foi.