Espaços urbanos

Espaços urbanos
Igreja Santo Antônio - foto Mário H. Kämpf

domingo, 15 de outubro de 2017

80 anos da Igreja Santo Antônio

O arrabalde da cidade conhecido como potreiro Fialho nunca mais foi o mesmo desde que os padres redentoristas conquistaram um terreno para nele construírem uma igreja em louvor de Santo Antônio.

Santo Antônio - Foto Robispierre Giuliani

Convidados por D. Miguel de Lima Valverde, primeiro bispo de Santa Maria, alguns redentoristas chegaram em Cachoeira no dia 18 de novembro de 1921 para estudarem a possibilidade de fundar na cidade uma missão e, quem sabe, uma igreja. Foram recebidos e hospedados em uma pequena casa junto à Capela de São José, no Alto dos Loretos, onde ficaram por um tempo, transferindo-se depois para o prédio do Império, proximidades da Praça Almirante Tamandaré, hoje Dr. Balthazar de Bem.

Capela São José (demolida) - Alto dos Loretos
- Fototeca Museu Municipal
Império do Espírito Santo - Praça Almirante Tamandaré
(hoje Dr. Balthazar de Bem)- Fototeca Museu Municipal

Enquanto se movimentavam em seu afã de fixarem a congregação em Cachoeira, obtiveram junto aos descendentes de Antônia Carolina Fialho um terreno no recém-aberto Bairro Fialho para dar início à construção de um convento e futura igreja. O ano era 1927. Dois anos depois foi inaugurada a capela que se tornou pequena para o crescente número de fieis que frequentavam com assiduidade as celebrações religiosas.

D. Antônia Carolina Fialho - Antoninha
- Fototeca Museu Municipal

Em 6 de agosto de 1933 foi lançada a pedra fundamental da Igreja Santo Antônio, mesmo nome da capela junto ao convento. A construção seguiu projeto do arquiteto alemão José Lutzenberger, em estilo barroco bávaro, e foi executado pelo construtor José Stammel.

Projeto da Igreja Santo Antônio assinado por José Lutzenberger
- Acervo da Igreja
Construção da Igreja - Fototeca Museu Municipal

Ainda inconclusa em seu detalhamento arquitetônico, a Igreja Santo Antônio foi inaugurada em 31 de outubro de 1937, durante a festa dedicada a Cristo Rei.

Enquanto a igreja estava sendo construída, também o bairro passou por transformações. Com ruas abertas e macadamizadas, casas começaram a ser erguidas, fazendo companhia, ainda que esparsa, ao Colégio Imaculada Conceição, educandário estabelecido no local em 1927 pelas irmãs da Congregação de Santa Catarina, também originárias da Alemanha. A assistência espiritual ao colégio era prestada pelos padres redentoristas, cuja ação se estendia à Capela de São José, às colônias e ao Hospital de Caridade, local onde também as irmãs de Santa Catarina prestavam serviço.

Colégio Imaculada Conceição (atual Totem) - Acervo Ilsa Ribeiro


Hoje a Igreja Santo Antônio é a principal referência do bairro de mesmo nome. Os padres redentoristas não estão mais na cidade, mas seu legado religioso segue inesquecível, basta atentar para a joia arquitetônica que ergueram num local que, segundo relatos, era dominado apenas pelo coaxar dos sapos.

Igreja Santo Antônio - Foto Robispierre Giuliani

domingo, 1 de outubro de 2017

O irregular calçamento do Bairro Rio Branco

Seguidamente alguém questiona o porquê do calçamento de algumas ruas do Bairro Rio Branco ser feito com pedras irregulares e tão diferentes dos tradicionais paralelepípedos. Pois as pedras diferentes, em que pese serem alvos de críticas por sua irregularidade, são resultado de um momento histórico ímpar, quando empreendimento público, condições climáticas e solução caseira fizeram parte de uma importante decisão política.

Corria o ano de 1927. Cachoeira nunca havia vivenciado tamanha revolução urbana. As principais ruas e praças viraram verdadeiros canteiros de obras. O resultado da azáfama estava surgindo a olhos vistos. A Avenida das Paineiras não era mais dessas velhas árvores. Tipuanas jovens tomavam os canteiros da nova e belíssima Praça José Bonifácio. Cercadas por delicados anteparos de madeira, necessários para o seu crescimento seguro, as jovens árvores seriam a moldura de uma praça com balaústres, bancos, floreiras e luminárias de primeiro mundo. As calçadas estavam sendo cobertas com um mosaico de padrão especial, cujo nome adotado foi apropriadamente "Cachoeira", pois cobria grandes extensões de passeios na cidade que se renovava sob a batuta de João Neves da Fontoura. Os paralelepípedos cobriam a velha poeira da Sete e de outras ruas. As pedras, vindas de Porto Alegre, chegavam às toneladas no porto.

Novo aspecto da Rua Sete de Setembro com as obras de urbanização
- Fototeca Museu Municipal

Mas veio a estiagem. A seca se anunciava nas águas baixas do Jacuí. As grandes chatas carregadas de paralelepípedos pesados tiveram que interromper a viagem de Porto Alegre a Cachoeira, pois o risco de encalharem nas águas diminuídas era grande.

Chegada de paralelepípedos no porto - Acervo Joaquim Vidal

João Neves discutia com seus assessores diretos que não era possível interromper as obras. Tinha planos para encerrar o ano com todas as melhorias concluídas. 1928 seria ano de finalização de mandato e de outros voos. As grandiosas obras de urbanização que ele herdara – e tocara tão bem – do velho Chico Gama, tinham que ser concluídas! Não havia espaço para atrasos. Que maçada a dificuldade de trazer os paralelepípedos! Havia ainda muito trabalho de calçamento a ser feito, especialmente no ainda jovem Bairro Rio Branco. Eis que alguém anuncia duas pedreiras da cidade que poderiam fornecer o material necessário.

Santiago Borba, um construtor, e Dr. Paulo Felizardo, engenheiro, haviam iniciado a exploração de duas pedreiras, uma localizada próximo da Estação Ferreira e outra no lugar chamado Enforcados. Consultado o diretor das obras municipais, Dr. Acylino Carvalho, João Neves resolveu empregar a pedra destas pedreiras nos calçamentos por concluir.

Estação Ferreira - Acervo COMPAHC

No entanto, as pedreiras locais não tiveram capacidade de vencer a encomenda, de forma que algumas poucas ruas foram calçadas com o “meláfiro preto de grande dureza”, dentre elas algumas de pouco trânsito no Bairro Rio Branco, local quase que exclusivamente composto por casas residenciais. As obras de calçamento foram contratadas pela Intendência na forma de pequenas empreitadas e solucionaram momentaneamente a interrupção do fornecimento de material por via fluvial, garantindo que a grande obra de urbanização e modernização da cidade não fosse interrompida com prejuízo às finanças e aos anseios da municipalidade.

Uma das obras de calçamento no Bairro Rio Branco - Acervo Coralio Cabeda

Como se vê, as pedras irregulares e escuras do Bairro Rio Branco são, muito antes do que um incômodo ao trânsito – uma lição do passado. Traduzem em sua irregularidade o regular uso das finanças públicas, do potencial local e o cumprimento de promessa política. Algo raro e absolutamente irregular nos nossos tempos!

quarta-feira, 20 de setembro de 2017

Cachoeira às portas da Revolução Farroupilha

Corria o ano de 1835. A sede da Vila Nova de São João da Cachoeira experimentava seus primeiros quinze anos de emancipação da vizinha Rio Pardo. Tinha atravessado breves tempos pacatos, enfrentado as agitações do primeiro quartel do século XIX e vivia naquele ano os sinais de um tempo que anunciava dificuldades.

A dita área urbana, arremedo de cidade, vivia ao redor da Igreja Matriz, maior edificação da época e a mais importante. Próximo dela, na antiga Praça do Prestes, erguia-se a rivalizar com o templo religioso, o templo das artes: o audacioso Teatro Cachoeirense.  Iniciativa da classe caixeiral – como prova da força do comércio na economia de então - dispunha de incríveis 500 lugares! Na outra ponta da vila, estava demarcada a Praça do Pelourinho, ladeada por sangas. A Lava-pés, como bem diz o nome, oferecia suas águas para que os viajantes limpassem os pés antes de adentrar no recinto da vila, dirigindo-se pela Rua do Loreto ou pela Rua da Igreja, ou buscando as ruas do Paulista, de Santo Antônio, do Cardoso, chegando às travessas do Soeiro para, quem sabe, finalizar na dos Pecados...

Teatro Cachoeirense - foto do final do século XIX
- Fototeca Museu Municipal

A principal casa comercial pertencia a Antônio Vicente da Fontoura e um italiano de nome Estevão Lombardo, segundo a pesquisadora Ione M. Sanmartin Carlos, provavelmente o primeiro a aportar em Cachoeira, mantinha uma casa de fazendas e quinquilharias bem promissora. Como dizia Aurélio Porto, Cachoeira era “a cabeça de uma vasta região” e rota para atingir diferentes plagas, razão de ser um importante entreposto comercial e de atrair interessados em investimentos, como Joaquim Barcelos, Antônio Joaquim Barbosa e João Teixeira de Carvalho, que solicitaram à Câmara, naquele ano, licença para abertura de casas de negócio.

Outros profissionais vieram instalar-se em Cachoeira. Como era de praxe, precisavam apresentar seus diplomas, ou títulos, como então eram chamados, para serem autorizados a trabalhar. Juntaram-se a Gaspar Francisco Gonçalves, que era cirurgião-mor autorizado por D. João VI, o licenciado José Francisco Alves Malveiro, especializado em sangria e com título também concedido por D. João, e o boticário Joaquim dos Santos Falcão, que apresentou à Câmara titulação na arte da farmácia concedida por D. Pedro em 1825.

As principais autoridades da vila e responsáveis pela administração municipal eram os vereadores. O presidente, José Pereira da Silva, no posto por ser o mais velho, dividia as responsabilidades com Tristão da Cunha e Souza, Manoel Álvares dos Santos Pessoa, Antônio Vicente da Fontoura, Joaquim Gomes Pereira, Joaquim Corrêa de Oliveira e Antônio Joaquim Barbosa, este também juiz ordinário. Os vereadores suplentes eram José Rodrigues de Moraes, Noé Antônio Ramos, João Antônio Galvão, Lucas José Duarte, Francisco de Barros Lima e Jacinto Lopes Falcão. José Pereira Fortes era outro juiz ordinário e Antônio Xavier da Silva, juiz de órfãos. Felisberto Machado de Carvalho Ourique era juiz municipal, Luiz Rodrigues de Castro e Silva e Manoel da Silva Ferraz eram promotores públicos, havendo ainda os inspetores de quarteirão, dentre os quais Joaquim Francisco Ilha e Antônio dos Santos Falcão.


Antônio Vicente da Fontoura
- Fototeca Museu Municipal

Em abril, no dia 22, foi instalado o primeiro júri, depois do desembaraço de problemas, dentre os quais o fato do juiz de direito residir em Rio Pardo, sede da comarca. Naqueles primeiros tempos, as disputas pelas funções da justiça eram bastante acirradas; portugueses e brasileiros, os primeiros ainda em grande número, digladiavam-se pela obtenção das nomeações para tais funções.

Senhores da política, os portugueses ou caramurus, do Partido Português, vinham dominando a vila desde 1831 e tinham nas figuras de Manoel Álvares dos Santos Pessoa e Francisco José da Silva Moura grande influência. Noé Antônio Ramos, Gaspar Francisco Gonçalves, Antônio Vicente da Fontoura e José Gomes Portinho despontavam como lideranças de oposição aos portugueses, agitando o cenário político da vila. E como nada é fruto do acaso, as disputas entre os portugueses, conservadores, e os brasileiros natos, liberais, indicavam o rumo que as coisas estavam tomando.

Em 13 de maio, numa sessão da Câmara, o vereador Joaquim Gomes Pereira comunicou ter ficado sabendo que estavam acontecendo reuniões em algumas casas para tratarem de assuntos de revoluções, para o que sugeriu alerta e atenção. 

Assinatura de Joaquim Gomes Pereira - Acervo documental Arquivo Histórico

A partir da instalação do júri, haviam sido presas 211 pessoas pelos crimes de morte, ferimentos e roubos, principalmente. Do total, a maior parte era da própria vila, sendo os demais infratores trazidos das capelas filiais ou distritos, dentre eles Santa Maria e Livramento. Os crimes cometidos incluíam também arrombamentos à cadeia, então uma casa alugada. Em maio, a Câmara lançou edital para construção da cadeia, conclamando “toda a pessoa a quem convenha deitar a pedra no lugar destinado para a cadeia haja de comparecer em sessões da Câmara nos dias 26 e 27 do corrente para se tratar do ajuste”. A obra não chegou a ser realizada e a cadeia “própria” só se concretizou com a conclusão da Casa de Câmara, Júri e Cadeia em 1864.

A Guarda Nacional, força militar composta por cidadãos, tinha um contingente de 194 homens, sendo 167 de serviço ordinário e 27 da reserva no 1º distrito da vila. No 2º distrito havia 87. Os esquadrões da Guarda Nacional tinham ordem de se organizar e, às vésperas da eclosão da revolução farroupilha, a sua reunião foi dificultada pelos rios caudalosos, o que foi certamente ocasionado pelas chuvas que são comuns no mês de setembro. Um desses esquadrões, de cavalaria, foi formado em junho de 1835, reunindo cidadãos residentes entre Jacuí, Botucaraí e Serra Geral, sob o comando de Antônio Vicente da Fontoura.

Questões envolvendo a escolha dos juízes de paz dos distritos e dificuldades para reunir guardas nacionais ou mesmo formar esquadrões começavam a preocupar as autoridades. As alegações eram de toda ordem e denotavam a cautela com o clima belicoso já então pressentido.

O 20 de setembro não produziu registro na documentação da Câmara, mas no dia seguinte, 21, um ofício do juiz de paz José Gomes Porto participava aos vereadores que havia fixado edital de convocação de voluntários para sentarem praça no corpo de polícia, mas que não aparecera nenhum candidato no prazo marcado de trinta dias. Era evidente o temor do povo. Os próprios vereadores começaram a apresentar justificativas para suas ausências às sessões. Calos, hemorroidas, pisaduras e toda sorte de problemas eram alegados para as faltas... O vereador Manoel Álvares dos Santos Pessoa, depois de ter se envolvido em uma questão em que fora alvejado no pé, comunicou a Câmara, em 13 de outubro de 1835, que estava de mudança para Porto Alegre.

Assinatura de Manoel Álvares dos Santos Pessoa - Acervo documental Arquivo Histórico

A vila envolveu-se de fato com o conflito no dia 23 de setembro, quando o juiz de paz Gaspar Francisco Gonçalves soube que em Rio Pardo um grupo contrário à causa liberal estava se negando a aceitar a autoridade do Dr. Marciano Pereira Ribeiro como presidente da província.  Em 26 de setembro Gaspar, juntamente com Antônio Vicente da Fontoura, comandante de um esquadrão e companhia da Guarda Nacional, acompanhados por Manduca Carvalho, dirigiu-se à cidade vizinha para socorrer os revolucionários, fazendo Rio Pardo aderir aos farroupilhas.

Assinatura de Gaspar Francisco Gonçalves
- Acervo documental Arquivo Histórico

No dia 24 de setembro, a Câmara divulgou um edital conclamando o povo a manter a tranquilidade e o respeito às autoridades constituídas. 

Entre celebrações religiosas, ataques ora de liberais, ora de legalistas, destruição de registros documentais da Câmara e fuga de autoridades, Cachoeira adentrou no decênio.

Finda a revolução farroupilha, ficaram adormecidos os ódios cultivados naqueles tempos – e antes mesmo deles – para desabrocharem novamente num frio dia do início de setembro de 1860, quando os conservadores Hilário Pereira Fortes, José Pereira da Silva Goulart e Felisberto Machado de Carvalho Ourique mandaram justiçar os liberais, perecendo Antônio Vicente da Fontoura depois do atentado sofrido na Igreja Matriz. O passado seguia muito presente...

Igreja Matriz - Fototeca Museu Municipal

segunda-feira, 28 de agosto de 2017

Desvendada a foto histórica

A foto descoberta por Eduardo Vieira da Cunha nos guardados do seu avô provocou um excelente exercício em busca da descoberta de que evento determinou o registro e quando ele foi feito. O interesse de muitas pessoas na bela foto é também um excelente indicativo do quanto os documentos do passado podem provocar positivas discussões, levando ao entendimento de momentos históricos que compõem a trajetória da comunidade.

Foto localizada por Eduardo Vieira da Cunha - acervo Achylles Figueiredo

Pois, ao que parece, o mistério foi solucionado e, para tal, foi fundamental e determinante a colaboração do pesquisador Coralio Bragança Pardo Cabeda, um especialista em história militar, e as excelentes informações que prestou. Anotadas as observações de Cabeda, o próximo passo foi servir-se do excepcional acervo de imprensa do Arquivo Histórico para buscar a comprovação dos dados.

Segundo ele,  a fotografia que ilustrou a última postagem  parece mostrar desfile do 3.º GIAP (3.º Grupo Independente de Artilharia Pesada) que foi transferido da Margem do Taquari (General Câmara) para Cachoeira por volta de 1928. E questiona: Por que desfile do 3.º GIAP e não do 3.º BE? Porque as viaturas da foto tracionam canhões, carros de munição e os serventes vão sentados nesses carros; a viatura seguinte, a partir da retaguarda, traciona uma peça de artilharia. A Engenharia dispunha de tração animal apenas para os carroções que transportavam os pontões e estes não aparecem na foto. 

Lançando mão das suposições do pesquisador, o volume de 1928 do jornal O Commercio foi fonte natural de consulta. Nele, edição do dia 12 de setembro de 1928, matéria de capa, foi encontrada a seguinte notícia:

Passou, sexta-feira última, mais um aniversário da independência do Brasil.

O comércio local não abriu as portas, sendo embandeiradas as repartições públicas, as casas bancárias e outros estabelecimentos, inclusive a redação desta folha.

Às 9 horas efetuou-se, na Igreja Matriz, uma solene missa pró-Pátria que teve numerosíssima assistência de povo, comparecendo  também os alunos e professores do Colégio Elementar e de outros institutos locais de ensino.

Em seguida, os alunos do Colégio Elementar efetuaram uma passeata pelos principais pontos da cidade, volvendo ao edifício respectivo, onde fez uso da palavra a professora Olympia de Paula e foram vocalizados hinos patrióticos pela meninada.

Às 10 horas realizou-se uma parada na Praça Balthazar de Bem, com a assistência de excelentíssimas famílias, cavalheiros e populares, formando o 3.º Batalhão de Engenharia, o Grupo Independente de Artilharia Pesada, o Tiro de Guerra 254 e o Destacamento da Brigada Militar do Estado.

O Sr. tenente-coronel Barbosa Lisboa, comandante geral das forças federais aqui aquarteladas, passou revista a esse contingente militar que, em seguida, dirigiu-se para a Rua 7 de Setembro, onde desfilou, à frente do Clube Comercial, perante o comando e a oficialidade da guarnição que se achavam na sacada daquele clube.

Continuando a marcha pela Rua 7 de Setembro, a rumo sul, o 3.º B. E. entrou, depois, para a Rua Saldanha Marinho e dali dirigiu-se aos seus quartéis enquanto o G.I.A.P. ficou na Praça Balthazar de Bem, onde deu, ao meio-dia, as 21 salvas de estilo.

Esse grupo deu as mesmas descargas às 6 horas da manhã, à frente dos seus quartéis e, igualmente às 6 horas da tarde.

Também na Praça José Bonifácio, defronte à Avenida, por ocasião do desfile da tropa, foi numerosa a aglomeração de povo, dirigindo-se uma grande parte ainda à Praça Balthazar de Bem, onde o G.I.A.P. permaneceu durante uma hora com os seus carros, guarnecidos e tirados por belos animais.

Ao meio-dia terminaram as comemorações públicas que foram protegidas por bom tempo.

A tarde caiu chuva, porém em quantidade menor que a observada na tarde de 7 de setembro do ano passado.

Uma nota publicada em 11 de abril de 1928 confirma que o GIAP estava aquartelado em Cachoeira. Primeira confirmação. Passada a informação para o pesquisador Cabeda, eis a sua resposta: o texto parece coincidir com o desfile militar fixado na foto. O 3.º GIAP aderiu à Revolução de 1930. Era unidade importante da 3.ª Região Militar, porque penso fosse a única unidade de artilharia pesada do Rio Grande do Sul à época, o que a tornava desejável. As mudanças de denominação dessa unidade acompanharam a evolução do Exército Brasileiro, passando de unidade hipomóvel a motorizada.

Desvendada a foto histórica! Que venham outras para desafiar memórias, associar conhecimentos e disseminar a importância da valorização da nossa história.

Agradecimentos especiais à colaboração valiosa de Coralio Cabeda! 

sábado, 26 de agosto de 2017

Desvendando uma foto histórica

O porto-alegrense de origem cachoeirense Eduardo Vieira da Cunha localizou entre os guardados de seu avô, Achylles Figueiredo, uma raríssima foto que registra uma movimentação de tropas na Rua Sete de Setembro. A partir das evidências da imagem teve início um exercício de tentativa de desvendamento do momento histórico que suscitou o registro.

Foto a ser desvendada - acervo particular Eduardo Vieira da Cunha


Eduardo observou que não há nenhum veículo automotivo na foto; os soldados que aparecem são, em parte, conduzidos por carroções. Há uma grande concentração de pessoas que parecem acompanhar o cortejo militar pela rua principal. A conformação urbana e os trajes remetem ao final da década de 1920, início de 1930.

A via é a Rua Sete de Setembro. No canto esquerdo da foto, em primeiro plano, o perfil de um prédio imponente que tudo indica seja o do Banco da Província, obra inaugurada em setembro de 1927 e que hoje abriga a Câmara de Vereadores, na esquina com a Rua Andrade Neves. No lado oposto ao do Banco da Província, vê-se a placa do Café Paulista.


O Café Paulista, de Manoel Costa Júnior, foi inaugurado em 14 de junho de 1920, no prédio onde funcionava a Mensageria Chic. A pintura interna foi feita por Alcides Ávila e o nome do estabelecimento foi escolhido por concurso público. O Café Paulista abrigava três bilhares e servia bebidas e café, além de doces e cigarros. Para a distração dos seus frequentadores, possuía um grupo musical dirigido pelo pianista Álvaro Gusmão. Em 1924, Manoel Costa Júnior admitiu Luiz Teixeira como sócio e em março do ano seguinte o Café Paulista foi vendido para Angelo Costa, passando à denominação de Café e Bilhar Paulista.



Adiante do Café Paulista vê-se uma placa indicativa de confeitaria, porém o nome do estabelecimento está ilegível. Seria a Confeitaria Avenida, comprada por Felipe Moser a Carlos Wolf em agosto de 1916? Ou a Confeitaria de Olívio H. Costa, adquirida em 1921 de Luiz Ruschel?


Infelizmente a resolução da foto não permite a leitura das placas subsequentes. A primeira depois da confeitaria parece dizer Casa de Meias. A única loja do gênero até a presente data levantada na Rua Sete de Setembro, pertencente a Paulo Boaz e localizada no número 219, teria se mudado para a Rua Conde de Porto Alegre, esquina 1.º de Março, em abril de 1927.

Com relação ao aspecto da Rua Sete, nota-se que parece já estar calçada com paralelepípedos, obra mandada executar pelo vice-intendente (em exercício do cargo de intendente) Dr. João Neves da Fontoura em 1926/1927. Também é possível verificar a existência de postes “Nova Lux”, inovação também introduzida durante a administração do Dr. João Neves. Esses postes, importados dos Estados Unidos, foram inaugurados na Rua Sete em 14 de julho de 1927.


E para finalizar: que evento militar foi este? Um desfile de tropas militares da guarnição local em data cívica? Estavam os militares se dirigindo à Intendência Municipal, local de comemorações festivas e cívicas? Procediam da estação ferroviária? Tais perguntas, ainda sem resposta, poderão ser brevemente respondidas... Ou ainda povoarão nosso imaginário por mais um tanto de tempo?


sábado, 5 de agosto de 2017

Nomes, atos e registros

Há 197 anos, quando o Ouvidor Geral e Corregedor Joaquim Bernardino de Sena Ribeiro da Costa mandou reunir o povo e os “homens de bem” da freguesia no local de levantamento do pelourinho, aqueles que tiveram o privilégio de deixar suas assinaturas no primeiro livro da nossa história deviam estar cheios de expectativas. Finalmente a povoação, ainda acanhada em suas instalações e dependente de Rio Pardo, poderia andar com suas próprias pernas e gerenciar seus negócios. A caminhada foi longa, grandes os desafios e dificuldades que se verificaram naqueles primeiros tempos da Vila Nova de São João da Cachoeira.

Assinatura de Joaquim Bernardino de Senna Ribeiro da Costa - 1820
- Acervo documental Arquivo Histórico do Município

O tempo cumpriu sua marcha, como tem que ser. A distância temporal entre 1820 e 2017 dilui-se graças à história e aos documentos produzidos nesse longo período. Não estivessem eles preservados, o abismo entre os dois períodos jogaria todos num vazio histórico desprovido de nomes, atos e registros.

Neste 5 de agosto de 2017, Cachoeira do Sul pode-se orgulhar de recontar aquele 5 de agosto de 1820 e buscar nos nomes e atos daquele dia o registro da história político-administrativa graças a importantes instituições municipais de cultura: o Arquivo Histórico e o Museu Municipal.

Criado justa e propositalmente num dia 5 de agosto, no ano de 1987, o Arquivo Histórico é depositário da documentação histórica conservada desde então. Referência não só para Cachoeira do Sul, mas para todos os municípios que se emanciparam do imenso território dos domínios iniciais, o Arquivo guarda com zelo e disponibiliza com critério e responsabilidade os registros que remetem aos homens e atos que tiveram o compromisso de levar a Vila até que se tornasse Cidade e assim por diante, construindo o caminho que desembocou neste dia 5 de agosto de 2017.

Logo criado por Giancarlo Borges - 2008

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O Museu Municipal de Cachoeira do Sul – Patrono Edyr Lima, vitrine dos nomes, atos e registros da nossa história, instalado no recém-restaurado prédio do Paço Municipal, ressaltará e valorizará a capacidade de materialização do imenso conteúdo histórico que o passado nos legou.

Logo criado por Cristianno Caetano




Mas a história vive de nomes, atos e registros. Se o correr do tempo encaminha-nos brevemente para o bicentenário desta terra, necessário e justo é que se registre que adentramos definitivamente numa nova era de valorização e difusão de nossa memória graças à ação voluntária e visionária de um grupo de cidadãos que emprestam seus nomes para grandes atos, sensibilizando a comunidade e o poder público municipal. Que fique o justo registro: Movimento pela Restauração do Paço Municipal e Museu no Paço já! 









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domingo, 16 de julho de 2017

Um gênio chamado José Albino Pohlmann

Um nome – para o qual ainda não foi localizado o rosto – é recorrente quando o assunto é inventividade, genialidade e protagonismo: o de José Albino Pohlmann.

Chegado a Cachoeira aos três anos de idade, oriundo de Santa Clara, interior do atual município de Taquara, onde nasceu em 18 de junho de 1868, José Albino, ou somente Albino, como ficou mais conhecido, veio com os pais e irmãos para Cachoeira. Era filho de João Frederico Pohlmann e de Emilia Ritter Pohlmann. O pai, que foi dono do primeiro engenho de descascar arroz, localizado na Rua Sete de Setembro, onde também funcionava uma oficina mecânica, foi seu instrutor. Os conhecimentos que adquiriu e que lhe propiciaram o pioneirismo em engenhocas e técnicas foram frutos do grande interesse e curiosidade que tinha. Um autodidata, em 1922 foi diplomado como engenheiro mecânico eletricista pela Congregação de Escolas Livres de Engenharia do Rio de Janeiro, depois de ter defendido tese. Que tese teria sido esta?  Certamente discorria sobre suas bem sucedidas experiências com motores ou energia elétrica.

Em 1892, “com apenas parcas ferramentas, suas mãos e um cérebro privilegiado”, como discorreu O Commercio em sua necrologia, Albino construiu integralmente a primeira máquina a vapor no município – e talvez no Sul do Brasil! Esta máquina, um pequeno motor, foi envolto por “um casco metálico e singrou garbosamente as águas do Jacuí.” Este pioneiro motor, uma raridade, foi doado anos atrás ao Museu Municipal. Depois da experiência exitosa com o barquinho movido a motor, a que ele deu o nome de “Caçador”, Albino projetou outros maiores, com capacidade para transportar entre 15 e 20 pessoas, destinados a realizar passeios aos pontos próximos à cidade, como o Capão Grande, Capané, Charqueada e Irapuá. Foram de sua fabricação o vapor “Recreio” e as lanchas “Primavera”, “Audaz” e “Salácia”.

Em 1898, quando a eletricidade no Brasil era uma experiência quase desconhecida, Albino Pohlmann já havia construído em Cachoeira um dínamo. Em 1901, com um dínamo um pouco maior, iluminou o adro da Matriz para uma festa do Divino Espírito Santo, da qual era festeiro João Jorge Krieger. Depois desta primeira experiência, todas as festas religiosas e cívicas, se realizadas à noite, contavam com a habilidade e presteza de Albino.

Igreja Matriz - Fototeca Museu Municipal

Em 1900, unicamente por sua engenhosidade e interesse, fabricou seu primeiro motor com explosão interna. Naquele mesmo ano montou as máquinas do jornal O Commercio. Por ocasião da notícia de sua morte, dada em edição daquele jornal de 23 de julho de 1947, a redação assim referiu:

Albino Pohlmann também montou as máquinas deste jornal, das quais muitas peças foram por ele fabricadas. Estas linhas foram impressas na máquina que montou há 48 anos e que ainda existe como consequência da sua dedicação. Sempre tratou-a como se fosse a menina de seus olhos.

Tipografia d'O Commercio, Rua Sete de Setembro - Coleção Claiton Nazar

Em 1901, um dos seus dínamos iluminou o Teatro Municipal para que ali passasse o primeiro filme.     E depois disso, organizou uma empresa cinematográfica em Rio Grande e abriu em Cachoeira, em sociedade com o irmão Renoardo, o Cinema Familiar, na Praça das Paineiras (José Bonifácio). Renoardo, que era fotógrafo, utilizava aparelhos fotográficos construídos por Albino.

Cinema Familiar - Fototeca Museu Municipal

Contam-se em muitas as invenções e novidades apresentadas por Albino Pohlmann. No ano de 1898, acompanhado por Jorge Franke, Hugo e Walter Gerdau (os fabricantes dos famosos móveis Gerdau), fez a introdução da bicicleta em Cachoeira, o que ensejou, por eles, a fundação do Clube de Ciclistas.  O primeiro automóvel chegado em Cachoeira, de Eurípedes Mostardeiro, foi “guiado” por ele e pelo irmão Waldemar.

Primeiro automóvel, de Eurípides Mostardeiro
- no verso da foto consta o nome de Waldemar Pohlmann, irmão de Albino
- Acervo Família Vieira da Cunha

Mas sua entrada na história se deu através das lavouras de arroz, para as quais empregou 32 anos de sua vida. O início foi em 1888, quando auxiliou o pai na montagem do primeiro engenho de arroz da cidade. Naquela ocasião, teria inventado um separador de arroz largamente empregado depois em outros estabelecimentos do gênero. Nunca tirou patente deste invento e, pelo contrário, ensinava os interessados a fabricá-lo. 
Em 1906, levou a mecanização a várias lavouras, garantindo o pioneirismo de Cachoeira na irrigação.

Por ocasião das obras de distribuição de água da segunda hidráulica, José Albino Pohlmann foi guindado à chefia dos serviços de águas e esgotos da Intendência, nela atuando até 1937.

Sua morte, em 19 de julho de 1947, ensejou uma bela reconstituição de seus feitos, porém o seu rosto ainda segue desconhecido...

domingo, 2 de julho de 2017

Série História do Cinema em Cachoeira: o CINEMA FAMILIAR

A história do cinema em Cachoeira é muito rica. Desde 1909, quando a primeira casa do gênero – ou próxima do que viria a ser o cinema – abriu as portas com o nome de Cinema Parque, vários empreendimentos envolvendo a exibição de imagens ditas cinematográficas começaram a surgir.

Se o primeiro cinema de Cachoeira foi o Cinema Parque (1909), que depois mudou o nome para Cinema Recreio Cachoeirense, o segundo a abrir as portas ao público surgiu de um investimento dos gênios da mecânica, irmãos Albino e Renoardo Pohlmann, que batizaram o novo ponto de diversão como Cinema Familiar, talvez aludindo à característica de sociedade familiar. A primeira sessão ocorreu em outubro de 1910.

Localizado na Praça José Bonifácio, em terreno que fazia canto com a Rua Andrade Neves e fronteiro à movimentada Avenida das Paineiras (Rua Sete de Setembro), deve ter chamado a atenção da florescente Cachoeira daquele início do século XX. Oferecia 360 cadeiras numeradas, seis camarotes, bancadas e palco, tudo iluminado à luz elétrica. Aliás, recurso que os irmãos Pohlmann dominavam como poucos, afinal as primeiras experiências com este tipo de energia tinham sido protagonizadas por eles em 1901, na Praça da Conceição, em um festejo religioso. A luz elétrica só seria instalada na cidade – e provisoriamente – em janeiro de 1912! Então, era uma atração a mais!

Em setembro daquele ano de 1910, a cidade já se mostrava curiosa com a novidade que os irmãos Pohlmann preparavam, e o jornal O Commercio, em sua edição do dia 21, comentava:

Sob a direção do engenheiro da Intendência, Dr. Hans von Hof, está sendo ajardinada a Praça José Bonifácio, em cujos lados Sul e Leste já existem canteiros de vários feitios, ornados de pés de flores e arbustos. No ângulo Sul, defrontando com a Rua Sete de Setembro, nessa quadra bastante movimentada, eleva-se um elegante pavilhão destinado a exibições cinematográficas e ali mandado construir pelos operosos irmãos Pohlmann. Logo que esteja funcionando essa casa de diversões, que será inaugurada sábado ou domingo próximos, e cuja moderna fachada merece foros de cidade por sua aprimorada arquitetura, maior animação se produzirá ainda no aformoseado sítio já de muito preferido pelo povo para seu recreio. Ao ângulo Sul, bem no vértice, divisa-se, como uma espécie de gruta, um gracioso quiosque a vitalizar também com o seu leve comércio de teteias e guloseimas essa pequena zona do cruzamento da Rua Sete com a travessa Andrade Neves.

Como se vê, a movimentação em torno do empreendimento estava a causar boas impressões e a atiçar a curiosidade de todos, demonstrando o acertado investimento dos “operosos” irmãos Pohlmann. A escolha do ponto da nova casa de cinema, pelo conjunto de atrações que continha, foi um acertado negócio.

O Cinema Familiar ainda trazia outra novidade: era coberto por pano que media 29,70 metros por 16,20, contrastando com o seu antecessor, que funcionava ao ar livre e dependia do tempo bom para poder funcionar. O certo é que os irmãos Pohlmann inauguraram um ponto que por mais de vinte anos seria tradicionalmente de cinema.

O Cinema Familiar e sua "moderna fachada", conforme noticiava O Commercio
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Fototeca Museu Municipal

Em 1912, a sociedade administradora do cinema passou para Pohlmann & Moser, sem troca do nome fantasia. Segundo publicação do jornal Rio Grande, de 7 de março, o Cinema Familiar, sob a nova administração, iria passar por uma reforma radical, com cobertura, alargamento de palco para acomodação de cenários, aumento do número de camarotes e da plateia. O teatro seria fechado no inverno, podendo ser aberto no verão, e ventiladores seriam instalados.

Pohlmann & Moser tinham planos de investir mais em teatro, razão das reformas que visavam atender companhias líricas e dramáticas. Enquanto aconteciam as reformas, as sessões cinematográficas não ficaram interrompidas.

Todas as melhorias no Cinema Familiar não garantiram a permanência de Renoardo Pohlmann e Felippe Moser no negócio. Em outubro de 1912 eles venderam a existência do cinema para a Empresa Figueiró, nascendo então o Cinema Coliseu Cachoeirense. Mas esta já é outra história!

sábado, 24 de junho de 2017

Ossada humana pelas ruas

Há 50 anos, quando a Igreja Matriz passava por uma de suas mais radicais reformas, com grande retirada de material do templo, a Prefeitura Municipal resolveu aproveitar parte do entulho para encascalhar algumas das ruas sem calçamento. A questão é que o entulho estava cheio de um elemento para lá de bizarro: ossos humanos!

Ao terem início os trabalhos de encascalhamento, logo os moradores das ruas em obras se deram conta dos funestos resíduos e começaram as reclamações. O Jornal do Povo estampou, na primeira página de sua edição do dia 24 de setembro de 1967, a seguinte manchete: PREFEITURA ESTÁ DISTRIBUINDO OSSADA HUMANA PELAS RUAS. 

Eis o conteúdo da notícia:

A afirmação é verdadeira e tem gerado  inúmeras reclamações. Ocorre que a Prefeitura vem aproveitando o entulho retirado da Igreja Matriz, para encascalhar algumas ruas da cidade. E, como no local de nosso tradicional templo religioso já existiu um cemitério é natural a presença de ossos humanos entre o entulho que dali vem sendo retirado pelos caminhões da Prefeitura.
O que não é natural é que a ossatura humana venha sendo espalhada pelas ruas, ferindo a sensibilidade cristã do povo cachoeirense. O fato se torna tanto mais inconcebível num país como o nosso, de arraigados sentimentos religiosos, a ponto de se opor à política da cremação de cadáveres.
Enquanto os nossos clero, governo e legisladores se opõem obstinadamente à cremação, a Prefeitura, calcando sobre os pés toda uma gama de arraigados preconceitos, se encarrega de espalhar ossos humanos pelas ruas da cidade. (Coleção do Jornal do Povo – Acervo de Imprensa do Arquivo Histórico).

Praça Dr. Balthazar de Bem - década 1960 - Fototeca Museu Municipal

A notícia segue citando o caso de um açougueiro que morava a uma quadra da Avenida Brasil que, em razão da existência de ossos humanos nas proximidades de seu açougue, vinha perdendo a freguesia, que se recusava a adquirir carne em seu estabelecimento. Também um morador da Vila De Franceschi estava revoltado com o grande número de ossos humanos depositados em frente à sua residência.

A situação vivida em 1967 não foi a primeira do gênero. Em 1890, obra feita pela comissão administrativa do município, na Praça da Conceição (atual Praça Dr. Balthazar de Bem), causou inquietação nos moradores das redondezas, de forma que os membros da dita comissão solicitaram ao delegado de polícia, Olympio Coelho Leal, que ordenasse o emprego dos presos da cadeia na remoção da ossamenta. A grande quantidade de ossos que surgiu com as obras se devia ao fato de ter sido aquela praça, em tempos passados, parte do grande cemitério que rodeava a Igreja Matriz.


Olympio Coelho Leal - delegado de polícia

Antiga Igreja Matriz - Fototeca Museu Municipal

Como se vê, nossa história também oferece páginas bizarras!