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domingo, 30 de junho de 2019

O primeiro jornal de Cachoeira


Por ocasião da chegada do Jornal do Povo ao seu 90.º ano de circulação, de imediato vem à memória o primeiro órgão de imprensa escrita surgido em Cachoeira.

O Cachoeirense era o nome desse jornal surgido em maio de 1879. A notícia de sua existência chegou até nós por meio do historiador Aurélio Porto, ele mesmo um entusiasta da imprensa e com passagens por vários jornais.  Era impresso duas vezes por semana e tinha caráter político. O fundador d’O Cachoeirense foi o tipógrafo Amaro José Lisboa, tendo como redator e diretor Bento Porto da Fontoura, um dos filhos de Antônio Vicente da Fontoura.

A época do surgimento do jornal coincidiu com um momento político especial vivido pelo Brasil, que era o da propaganda republicana e abolicionista. Certamente O Cachoeirense reproduziu em suas páginas, dentre anúncios comerciais, literários e do cotidiano da cidade, um pouco daquele cenário que antecedia a abolição da escravatura e logo depois a proclamação da República.

No entanto, nenhum exemplar d’O Cachoeirense era conhecido, ficando as informações sobre o seu formato, circulação e ideário a critério do que o nosso historiador-mor levantou. Até que uma espiada no conteúdo de um CD de inventários vindo do Arquivo Público do Estado do Rio Grande do Sul – APERS trouxe luz sobre o primeiro jornal de Cachoeira! Este grande achado, ainda que reduzido a uma foto de parte da primeira página do jornal, comprovou que O Cachoeirense era um periódico comercial, noticioso e literário, como também a maior parte dos jornais de seu tempo. A circulação se dava nas quintas-feiras e domingos, e o endereço do escritório e tipografia era a Rua do Imperador n.º 4, hoje a Rua 15 de Novembro.

O Cachoeirense, edição de 1/3/1882 - Acervo APERS

A circulação do nosso primeiro jornal não chegou a completar cinco anos, saindo a última edição em 31 de março de 1884, quando o seu fundador foi embora para Porto Alegre.

No acervo documental do Arquivo Histórico, é possível encontrar documentos que provam que logo depois de fundado, graças ao tino comercial de Amaro José Lisboa, um dos primeiros assinantes foi a Câmara Municipal. A Câmara, como hoje a Prefeitura, necessitava divulgar editais e tornar públicas outras informações de interesse da comunidade. Um bom negócio para ambos.

Recibo dado por Amaro José Lisboa - 18/7/1879 - CM/Po/RD/DD-035

Cachoeira teve muitos outros jornais a partir d’O Cachoeirense. Alguns circularam pouco tempo, outros foram mais persistentes. O mais duradouro de todos, o Jornal do Povo, teve como mais próximo em longevidade O Comércio, que circulou de janeiro de 1900 a fevereiro de 1966.

A imprensa, na história de Cachoeira, tem muito ainda a revelar, pois boa parte dos jornais que aqui circularam não deixaram exemplares disponíveis para uma análise dos conteúdos que produziram. Vive-se, então, a eterna espera de um dia topar com um recorte, uma folha, quem sabe uma edição inteira de um destes jornais para então entrever um retrato de seu tempo.

sábado, 15 de junho de 2019

Clube Comercial - 95 anos


O marco inicial da história do Clube Comercial Cachoeirense se perde no tempo. Antes da fundação da sociedade que se mantém até hoje, ocorrida em 15 de junho de 1924, outras agremiações, de nomes diversos, constituíram suas células fundadoras.

Símbolo do Clube Comercial Cachoeirense - Jornal do Povo

Existia na cidade, desde 1899, uma sociedade chamada Clube Cachoeirense e, em 7 de janeiro de 1900, alguns empregados do comércio fundaram o Clube Caixeiral, sociedade beneficente e recreativa, tendo o conhecido comerciante Pedro Stringuini como primeiro presidente. O número de sócios era de 173, sendo 85 efetivos e contribuintes, 30 fundadores, 56 honorários e dois beneméritos. O Caixeiral era um clube com inclinação a atividades culturais, como concertos musicais e peças teatrais, mantendo inclusive uma banda de música com 18 figuras e instrumental completo.

Em 19 de julho de 1902, o Clube Caixeiral inaugurou sua sede e o jornal O Commercio de 23 de julho deu destaque ao fato, descrevendo-a assim: Lembrava a fachada do alteroso sobrado – uma das mais risonhas vivendas dos contos orientais. Bandeiras, galhardetes, pavilhões e outros adornos naturais chamavam a atenção daquela quadra da nossa bela Rua Sete de Setembro. Um bonito coreto ali construído despertava também a admiração de quantos o avistavam.

Em 1902, tanto o Clube Caixeiral como o Clube Cachoeirense tinham existência própria e independente, com a imprensa local noticiando atividades de ambos. Mas não demorou muito para as duas sociedades se fundirem, por iniciativa da Associação dos Empregados no Comércio de Cachoeira, nascendo o Clube Comercial em 5 de novembro daquele ano.

Mas esse primeiro Clube Comercial não durou muito, sendo extinto em 27 de março de 1910, ocasião em que foi criado o Cassino Clube, agremiação que assumiu o passivo e o ativo da anterior. Foi aclamado primeiro presidente do Cassino Clube o farmacêutico Augusto Cezar Castilho, tendo como vice o Dr. Balthazar de Bem, secretários José Carlos Barbosa e Raul de Freitas Boccanera, com Paulino Breton como tesoureiro.

Em 15 de junho de 1924, no salão do Clube Renascença, foi fundado um novo Clube Comercial, que agregou ao nome a alcunha "Cachoeirense", e em 6 de julho se instalou na casa que pertencia ao Dr. Balthazar de Bem, localizada na Rua Sete de Setembro, onde hoje está sediada a Casa de Cultura Paulo Salzano Vieira da Cunha.

Residência do Dr. Balthazar de Bem - sede do Clube Comercial a partir de 1924
- Acervo COMPAHC

A casa do Dr. Balthazar de Bem, apesar de confortável e ampla, não oferecia as acomodações necessárias para a prática de esportes ao ar livre, uma das atrações preferidas dos que procuravam associar-se a entidades do gênero naquela época. Portanto, os primeiros tempos de funcionamento do Clube Comercial na casa foram essencialmente de realização de bailes e de outras atividades, como competições de xadrez e horas de arte.

Festa no Clube Comercial - Acervo Terezinha Mainieri V. da Cunha

Em junho de 1949, foi lançada a pedra fundamental da nova sede que o Clube Comercial Cachoeirense construiria na Rua Sete de Setembro, esquina com a Rua General Portinho. O edifício foi inaugurado em 5 de setembro de 1957, tendo como grandes impulsionadores da obra Theobaldo C. Burmeister e Edwino Schneider. A obra foi executada pela empresa construtora de Roberto Jagnow & Cia. Ltda., dirigida pelo engenheiro Hugo Schreiner.

Projeto da fachada do Clube Comercial - Acervo do Arquivo Histórico

O tradicional e aristocrático Clube Comercial Cachoeirense foi por muitos anos um dos mais destacados e atuantes clubes da cidade. Reunia a sociedade cachoeirense em eventos de glamour e encantamento. Adquiriu, ao longo de sua história, uma sede campestre, equipando-a com piscina e área de camping que atraiu gerações de cachoeirenses.

Os tempos de hoje são de novos modelos de convívio. As sociedades tradicionais têm encontrado dificuldades em manter seus patrimônios e atraírem os associados para eventos em suas sedes. Mas estas novas características não invalidam a importância que entidades como o Clube Comercial Cachoeirense tiveram e têm para a história associativa da cidade. Alternativas de uso e fruição de seu patrimônio são desafios para as diretorias e os sócios que se mantêm fieis a uma história que chega às portas de um século. Importante demais para ser esquecida.

Entrada do Clube Comercial - Foto Jornal do Povo