Espaços urbanos

Espaços urbanos
Catedral N. Sra. da Conceição - Méia Albuquerque - 19/2/2019

sábado, 16 de março de 2019

Helena Lauer - empreendedora do passado



Em Cachoeira do Sul, ao longo da história, muitas mulheres marcaram sua existência por ultrapassar os preceitos estabelecidos. Tentar listá-las seria correr o risco de omitir nomes significativos, tal o número de valorosas criaturas nos mais diferentes segmentos da vida da comunidade.

Helena Brendler Lauer. Este nome poderia estampar a Série Lojas do Passado, pelo seu ateliê de moda, ou encabeçar a lista de mulheres empreendedoras. Rememorá-la será forma de homenagear as mulheres em seu mês e trazer ao conhecimento sua trajetória de luta e superação.

As edições d’O Commercio dos primeiros anos de 1900 trazem propaganda de suas atividades comerciais, o que denota a percepção de Helena Lauer de que divulgá-las era fundamental para o sucesso dos negócios. Outro aspecto também fez dela uma mulher de avanços: a utilização de seu nome na atividade comercial, o que não era comum à época. Naqueles tempos, quando muito, a sociedade autorizava o uso do termo “viúva” nas razões sociais pelo falecimento do empreendedor. Casas existentes em Cachoeira, como Viúva Claussen (Charqueada do Paredão), Viúva José Müller e Viúva Oliveira ocultavam os nomes das responsáveis legais pelo negócio, pondo-as à sombra de um homem morto!

O Commercio, 4/12/1907, p. 4

Mas quem foi Helena B. Lauer? Uma modista, especializada em confecção de chapéus para senhoras e toucas para crianças, comercializando também itens utilizados para enfeitar estes acessórios de moda então obrigatórios. Florista, fazia também buquês para noivas, cestas de flores, cornucópias e coroas naturais e artificiais.

Seu empreendimento sobreviveu até a década de 1940, pelas notas na imprensa, tendo trocado diversas vezes de endereço. Em 1904, estava na Rua Saldanha Marinho, 62, quando além de chapéus e miudezas, também comercializava artigos de moda. Dois anos depois mudou o atelier para o prédio do antigo Hotel Central, na Rua Sete de Setembro. Em 1929, apareceu com “gabinete de manicure e corte de cabelo para senhoras anexo ao ateliê”, demonstrando que havia ampliado a oferta de serviços. Em 1941,  era proprietária da Casa de Modas.

O Commercio, 2/2/1916, p. 3

A vida de Helena Lauer foi marcada pela sua capacidade empreendedora, mas também por percalços familiares que muito devem tê-la angustiado. Em 30 de julho de 1916 ficou viúva de Guilherme Lauer que se suicidou com um tiro, na Praça José Bonifácio. Com problemas financeiros, Guilherme pôs fim à existência nas proximidades do Mercado Público.

Helena, então já estabelecida com seu ateliê, certamente vinha provendo a família com o fruto de seu trabalho. Tal situação, no começo do século XX, era motivo para o desgosto masculino, pois aos homens era destinado o papel de provedores da família. Falhar neste aspecto era motivo de constrangimento.

A necessidade de sobrevivência em um mundo masculino fez de Helena Lauer uma mulher de tino comercial. Não fossem estas características e a propaganda que mandou publicar no Grande Álbum de Cachoeira, de Benjamin Camozato, publicação de 1922, teria desaparecido da memória coletiva, diluída na vida comum das mulheres de seu tempo.

Helena Lauer em seu ateliê - Grande Álbum de Cachoeira, de Benjamin Camozato
(1922)

quarta-feira, 27 de fevereiro de 2019

Republicanos X Federalistas


Não importa a época. Política é sempre política. A um partido sempre se oporá outro. Ou outros, como hoje acontece, pela profusão de siglas...

Entre o final do século XIX e começo do século XX, o Rio Grande do Sul vivia uma acirrada disputa entre os republicanos, do PRR - Partido Republicano Rio-Grandense, chefiado por Júlio de Castilhos, e o Partido Federalista, com acendrada liderança de Silveira Martins. Marcados pela simbologia dos adereços que usavam, os republicanos, de lenços verdes e depois brancos, chamados de pica-paus, e os federalistas, ou maragatos, de lenços vermelhos, estampavam nas cores a ideologia e, com o seu uso, a consequente antipatia que uns nutriam pelos outros.

O republicano Júlio de Castilhos - Wikipédia

O federalista Gaspar Silveira Martins - Wikipédia

Na Cachoeira de 1907, a grande liderança republicana era o Coronel Isidoro Neves da Fontoura e os federalistas, ainda que sufocados pela hegemonia dos republicanos, contavam com o apoio incondicional - e não local - de Raphael Cabeda, conhecido como o "generalito de Gaspar". Por sua conta, Cabeda percorreu o estado difundindo as ideias federalistas. Amealhou e congregou seguidores, contrabandeou armas, investiu e arrecadou recursos para a causa, conquistando, logicamente, amigos e inimigos. Em Cachoeira também.

Raphael Cabeda - Wikipédia

Na época, dois jornais de Cachoeira noticiavam a política, sendo o Rio Grande órgão ferrenho do Partido Republicano e O Comércio, embora não oficialmente de caráter político, acolhia outras bandeiras, aninhando dissidentes. Os embates entre ambos às vezes se tornavam virulentos.

Em setembro de 1907, Raphael Cabeda passou por Cachoeira. O Rio Grande, de forma satírica e debochada, relatou a vinda usando como personagem uma figura popular da época, Jacintho Urso, negro que ficou registrado para a posteridade em uma fotografia de autor anônimo, cuja identificação se deve à memória do Dr. Fritz Strohschoen.

Jacintho Urso - Coleção Martinho Schünemann - Museu Municipal
A matéria do Rio Grande se intitula:

Manifestadela

Passou o condutor do Urso, isto é, o Cabeda.
Música, foguetes. O Jacyntho, homônimo doutro, foi ouvir o discurso do Macedo. Vivas, palmas. Foi notada a falta do Virgilio. O Feliciano ontem tinha prevenido o Macedo, pelo telefone. E saiu a manifestadela. O Macedinho falou baixinho que quase nem se ouvia. De vez em quando o Felicianno o cutucava: - Fala mais alto! O Cabeda não ouve! Viva! Viva! Mas, o Virgilio? Onde está o Virgilio?
O Jacyntho Urso ria, o Cabeda abraçou-o. Viva a democracia!
E o homem do Accacio ergueu-se. Choveram palmas! Viva o Dr. Fernandes! Um cão uivou, profundo, nostálgico, triste. Subiram no ar três foguetes pchiiii... pom... bom!
O Macedo tomou fôlego. Um dos da manifestação encatarroado tossiu, cuspiu. O Macedo continuou... As moscas zumbiam... O Felicianno, por praxe, pôs a taça na boca...
Irra! Este cão maldito a uivar... Alguns populares se afastaram. O tempo anda de cães danados! Podia esse ser um. Viva! Viva! Viva!
Eis as notas tomadas por um repórter da manifestação ao Cabeda.

(Rio Grande, p. 4, 20/9/1907, nomes próprios mantidos com a grafia original).

Em outro lugar da mesma página, a seguinte nota:

Passou ontem por esta cidade, com destino à fronteira, o Sr. Raphael Cabeda, um dos chefes agitacionistas da atualidade.
Seus correligionários foram com música e foguetes, cumprimentá-lo, na gare da Estação da Estrada de Ferro.

(Rio Grande, p. 4, 20/9/1907, nomes próprios mantidos com a grafia original).

As personalidades citadas pelo Rio Grande apenas pelo sobrenome devem ser os "republicanos democratas", dissidentes dos republicanos conservadores e referidos em matéria do jornal O Comércio, edição de 4 de setembro de 1907, na página 1, noticiando que uma circular dirigida aos republicanos democratas do município da Cachoeira era assinada por João Augusto Leitão, Virgilio Carvalho de Abreu, Henrique Möller Filho (proprietário do jornal), Felicianno Aniceto da Silva, Roberto Danzmann, Germano Treptow, Alberto Zimmer, Luiz Leão e Arthur Ferreira de Macedo. Eis alguns dos personagens referidos na recepção ao federalista Raphael Cabeda!

Mais do que desvendar os envolvimentos e os personagens de uma política violenta, o mais sensacional é trazer à luz e dar vida, ainda que de uma forma jocosa e satírica, a um personagem que, ao que tudo indica, deixou-se fotografar há mais de século para que um dia pudesse emergir da obscuridade e mostrar, ainda que incidentalmente, as rusgas políticas de seu tempo.

Ah, a história!

---------------------
Ofereço esta postagem ao pesquisador Coralio B. P. Cabeda, sempre pronto a me fornecer ótimas fontes.

quarta-feira, 20 de fevereiro de 2019

Série Histórias que Viraram Livros: Tragédia Passional

A Série Histórias que Viraram Livros pretende abordar momentos do passado histórico que adentraram pela literatura, tirando da realidade elementos capazes de compor cenários ficcionais.

A série se inaugura com um crime registrado na primeira página do jornal O Commercio, edição do dia 20 de fevereiro de 1929.  O trágico acontecimento comoveu a cidade de Cachoeira, enlutando duas famílias e despertando perplexidade. Tragédia passional foi o título dado à matéria, palavras que conferem a dimensão do infausto acontecimento e dão a medida da motivação.  

Um homem casado que se apaixona perdidamente pela jovem telefonista. Não correspondido, prefere o destino avassalador da morte para si e para a infeliz amada. 

Eis a notícia publicada n'O Commercio:

Tragédia passional
Pouco depois das 10 horas da noite de sexta-feira desenrolou-se, nesta cidade, uma tragédia que impressionou profundamente a nossa população.
O 2.º sargento Antonio Luiz Rodrigues Barcellos, do 3.º Grupo Independente de Artilharia Pesada, de 34 anos de idade, casado com a Exma. Sra. D. Dulcina Ribeiro Barcellos, foi, numa hora de infeliz desvairamento, o autor dessa tragédia.
Pelas 9h30 chegara o referido sargento ao Centro Telefônico local, onde costumava palestrar.
Depois de algum tempo, voltava de uma visita que fizera a senhorita Amelia Olga Aquino, de 23 anos de idade, filha da Exma. Sra. D. Catharina Prato de Aquino e funcionária da Cia. Telefônica Rio-Grandense.
O sargento Barcellos pediu à referida senhorita que lhe desse um copo d’água. Sendo atendido, pediu que queria falar-lhe, ao que a moça respondeu com palavras de recusa. Disse então que queria despedir-se dela, porque ia seguir para o Norte, para onde tinha sido removido.
Poucos minutos depois, pediu-lhe água novamente, o que causou estranheza a uma das moças presentes, que chegou a falar nessa insistência a respeito da água. Quando a moça vinha para atendê-lo, esperou-a dentro da cabine e puxando um revólver, descarregou-lhe três tiros à queima-roupa, produzindo-lhe ferimentos gravíssimos que a prostraram sem vida. A cena foi tão rápida que ninguém pode intervir. Em seguida, Barcellos apontou o revólver ao Sr. Paulo Pardelhas, atual gerente da Cia. Telefônica, que lhe pareceu querer intervir na cena e, volvendo a arma contra si, descarregou dois tiros em sua cabeça, provavelmente porque lhe parecesse que o primeiro não era eficientemente mortal e caiu, ato contínuo, sobre o assoalho.
A senhorita Olga Aquino faleceu imediatamente, em consequência da hemorragia interna que lhe produziram ferimentos por bala no hemitórax direito.
A pavorosa cena de sangue desenrolou-se às 10h15 e o sargento Barcellos, socorrido e conduzido para o Hospital de Caridade, veio a falecer às 11h50, curtindo atrozes padecimentos, em consequência de fratura da base do crânio por ferimento de bala.
O desventurado militar deixou várias cartas escritas, explicando os motivos de seu ato de desespero e fraqueza por uma profunda paixão que nutria pela infortunada moça.
A tragédia abalou profundamente a nossa população.
O sepultamento da senhorita Olga Aquino, que era muito relacionada e estimada em nossa sociedade, realizou-se às 4 horas da tarde de sábado, com grande acompanhamento de exmas. sras., senhoritas e cavalheiros.
À frente do cortejo seguiam, processionalmente, as senhoritas da Congregação Mariana, da qual fazia parte a extinta, indo também o estandarte do Apostolado da Oração, que a acompanharam até ao Cemitério das Irmandades.
Inúmeras coroas cobriam o ataúde (...).
O sepultamento do sargento Barcellos, cujo corpo, conforme desejo que deixou escrito, foi velado em casa de sua esposa, realizou-se às 5 horas da tarde de 16, com grande acompanhamento de camaradas de armas.
(...)
(O Commercio, Cachoeira, de 20/2/1929, p. 1., Acervo de Imprensa do Arquivo Histórico).
Pois esta tragédia passional ensejou a obra Cachoeira dos Ausentes, da jornalista e museóloga Teniza Spinelli, lançada em setembro de 2013. A história se passa na fictícia cidade de Cachoeira dos Ausentes e aborda o crime que se desenrolou na Cachoeira do começo do último ano da década de 1920.
Paixão, traição, ciúme são ingredientes que emergiram de uma trágica página da vida real para a ficção. O folhetim, ainda que tenha se servido de um fato do passado, aborda um tema que infelizmente não perde a atualidade. Mesmo que noventa anos tenham se passado, crimes desta natureza seguem a se repetir, demonstrando o quanto o ser humano não sabe lidar com frustrações e contrariedades.

Cachoeira dos Ausentes, de Teniza Spinelli
Edição ALF-Exclamação, 2013