Espaços urbanos

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Paço Municipal - foto Mirian Ritzel

terça-feira, 17 de janeiro de 2017

Sinta-se feliz na Capital do Arroz!

Para quem entra na cidade ligeiramente, talvez aquele painel colocado à direita da Avenida João Neves da Fontoura, já no cruzamento com a Rua Virgílio de Abreu, não chame muito a atenção. Mesmo para aqueles que têm tempo para a leitura da mensagem “Sinta-se feliz na Capital do Arroz”, o monumento não consegue por si revelar, além do simpático gesto de boas vindas, a rica e quase desconhecida trajetória que o forjou. Pois agora, graças às memórias reveladas pela autora do projeto, Mafalda Roso, aquele monumento entrega publicamente a sua história desde a concepção até a execução.




1968: alunas da Escola Superior de Artes Santa Cecília – ESASC, centro de formação para professores de artes plásticas e música que deu profissionais do mais alto gabarito ao Rio Grande do Sul e ao Brasil, sob a provocação e orientação do professor Cláudio Afonso Martins Costa, que vinha semanalmente de Porto Alegre para lecionar na escola, foram desafiadas a idealizar um monumento que desse as boas vindas aos visitantes de Cachoeira.

Antiga ESASC - atual Casa de Cultura Paulo S. V. da Cunha
- acervo COMPAHC

Segundo Mafalda Roso, Cláudio Martins Costa, com uma voz grossa e uma inflexão sonhadora, propôs a elas, no porão da ESASC (hoje Casa de Cultura Paulo Salzano Vieira da Cunha), em suas aulas aos sábados, um concurso para elaboração de um painel de boas vindas à cidade. Desafio aceito, as alunas debruçaram-se sobre a tarefa que constaria de um projeto desenhado em papel, depois transposto para a argila e finalmente para o cimento. A ideia deveria ser inspirada no tema “Nossa Cidade” e contemplar uma dimensão de sete metros de largura por três de altura. O prazo para apresentação do trabalho: um mês. A vencedora, além de prêmio da Casa Augusto Wilhelm, perpetuaria seu trabalho em um monumento para a cidade.

Depois de muito trabalho e da natural expectativa, quando as alunas se jogaram nas pranchetas de 0,70 X 0,30 cm mandadas fazer especialmente para projetarem em desenho o painel, finalmente chegou o dia do julgamento, sendo considerado vencedor o projeto de Mafalda Pedroso de Moraes (Roso), ficando em segundo lugar o de Maria Lúcia da Gama Mór (Castagnino).

Projeto classificado em segundo lugar - autora: Maria Lúcia Mór

Os elementos utilizados por Mafalda para compor o projeto vencedor foram, conforme suas palavras: "Primeiro: o Homem como centro e domínio da cena. A figura humana me fascina sempre! E este homem era o povo da minha cidade. Depois surgiu a ideia da indústria, Mernak, e que se tornou a roda da engrenagem. E juntei homem e roda. O homem tocando a roda do progresso. Os outros elementos vieram: o gado, a pecuária, no simbolismo da cabeça de um boi; o arroz, éramos a capital do arroz e o cereal não poderia deixar de ser um dos elementos presente ao projeto. Trigo, produzimos trigo. Duas carreiras de arroz e duas carreiras de trigo. A cidade em si: casas e telhados. E os engenhos? Suas chaminés! Como formas geométricas que sempre acompanham meus trabalhos. E não poderia faltar a frase: Sinta-se feliz na Capital do Arroz! Esta frase, escrita assim, só surgiu quando os projetos já estavam prontos. No meio do processo visitamos uma fazenda produtora de arroz para ter ideias e finalizar os trabalhos.”

A próxima etapa foi a difícil execução do painel. Todas as alunas participaram da empreitada: executar o projeto de Mafalda sobre uma “prancheta” gigante inclinada, com as medidas reais do monumento em uma sala exígua... Sobravam apenas 60 centímetros para o trânsito na sala de aula, sendo que do teto a “prancheta” guardava uma distância de apenas 40 centímetros! Cerca de 6.000 a 7.000 quilos de barro, fornecido pela Olaria Kipper, foram utilizados para materializar o projeto. "(...) e foi nesta placa de barro que elaboramos o desenho. (...) Fizemos isso até nas férias de nosso professor e nas nossas também! A partir de então, foram todos os dias até o final de fevereiro. Não arredamos pé, todas nós ficávamos trabalhando até praticamente terminarmos o painel em barro.”

O modelo para a escultura do corpo da figura humana que domina o painel foi Itamar Saraiva, namorado da aluna Giceli Ribeiro e funcionário da Casa Augusto Wilhelm. Seu nome foi indicação de Erwino Wilhelm, proprietário da loja e parceiro do projeto de execução do monumento. E foi nesta ocasião que veio de Porto Alegre, a convite do amigo Cláudio Martins Costa, o renomado artista plástico espanhol Fernando Corona. Sobre ele Mafalda Roso conta: "Corona sempre foi um nome forte como escultor, arquiteto, ensaísta, ornatista, crítico de arte e professor no Belas Artes em Porto Alegre! Aquele velhinho de cabeça branca foi um exemplo de tenacidade e determinação! Lembro que olhou muito meu projeto, fez algumas observações quanto ao meu trabalho e subiu na escada. Deitado sobre uma delas ele esculpiu a cabeça da figura humana. Começou pela manhã, paramos ao meio dia de um quente e abafado sábado para o almoço. Professor Corona lavou o rosto no tanque da sala de escultura, pois estava muito suado e saiu para almoçar com Dona Vera Beatriz Machado de Freitas e professor Cláudio. Voltaram duas horas depois e Corona retomou seu posto. Por várias vezes, Cláudio pediu para que ele parasse, pois era quase insuportável o calor naquele porão. Mas Corona não parava. Trabalhou até o final da tarde e ainda continuou no domingo pela manhã, quando deu por terminada esta participação inesquecível e que minha memória ainda não apagou. A imagem de Corona ficou em mim. Corpo pequeno e uma cabeça um pouco maior que a proporção que ele buscava para esculpir no painel, sobrancelhas e voz marcante, sério, intempestivo e ciente de sua posição como escultor." 

Vencida esta etapa, a "prancheta" transformou-se num verdadeiro quebra-cabeças composto de peças em gesso e cimento. "Nesse primeiro momento participei muito", diz Mafalda. A divisão do painel teve que ser feita em peças que não ultrapassassem 70 centímetros para que o peso não fosse demasiado e facilitasse o manuseio. "Fomos cortando o painel com tiras de alumínio e formando blocos para a posterior colocação do gesso. Eram separadas e com um espaço de borda para manter a parte da base com a mesma espessura. Dessa maneira, seria possível o encontro de uma peça com a outra. Não lembro o número exato, mas sei que ficaram entre 93 a 96 peças! Aos poucos, o gesso foi colocado sobre as peças e, quando estava endurecido, a parte em barro era retirada para que a prancheta pudesse sustentar o peso. Neste momento verificávamos se a peça tinha conseguido reproduzir fielmente a escultura do barro! Cada fôrma em gesso tinha um número que havia sido determinado no meu desenho para que não perdêssemos o quebra-cabeças gigante que se formou no conjunto de todas elas. Meu desenho do painel foi levado junto até a sua colocação no muro e eu nunca mais o vi."

Mafalda, em um exercício de memória que ela associou a uma esponja espremida em que sempre sobra uma gota d'água, retoma os intensos trabalhos daqueles dias: "Demorou um tempo de mais ou menos 20 dias para que esta fase fosse concluída. Começaria então o trabalho mais pesado que alguém possa imaginar. Cada fôrma em gesso era calçada com tijolos e pedras e novamente com tiras de alumínio para que o preenchimento das peças com o cimento não escorresse e desnivelasse o painel! Trabalho duro e grotesco, pois qualquer descuido com as peças poderia pôr a perder a forma escultórica do conjunto. O professor Cláudio comandou todas estas etapas e em vários momentos fui chamada para olhar e revisar cada uma das peças. Passaram-se meses e finalmente o painel foi montado pela primeira vez para o 1.º Festival de Artes de Cachoeira do Sul, no prédio em construção da Galeria Honorato de Souza Santos. Ele foi levado na própria prancheta na qual havia sido esculpido. Na inauguração deste festival foi registrada a presença do governador Walter Peracchi Barcelos e esposa. Recebi, ao final do festival, o Troféu Assembleia Legislativa do Estado do Rio Grande do Sul, pelo trabalho do painel, troféu este que me foi entregue pelo Presidente da Assembleia Legislativa, na época, deputado Otávio Germano. Pelo fato de ter sido trabalhado por mim e minhas colegas de faculdade, o troféu foi deixado no gabinete da direção da Escola de Artes Santa Cecília. Depois, foi contratada uma empresa de Porto Alegre para a colocação definitiva do painel no muro, no qual se encontra até os dias de hoje."


Mafalda com o troféu entregue pelo deputado Otávio Germano - acervo pessoal
O governador Walter P. Barcelos e esposa na exposição do painel
- acervo pessoal Mafalda Roso

As alunas executoras do painel em sua formatura - acervo pessoal

A história da colocação do painel “Sinta-se feliz na Capital do Arroz” ainda precisa ser levantada, assim como precisa ser avaliada a sua manutenção e a proteção que necessita como patrimônio cultural legítimo, fruto de um trabalho que só foi possível graças à instituição de ensino/vivência das artes que era a ESASC. E como falar da ESASC sem citar sua grande mentora, a professora e pianista Rita de Cássia Fernandes Barbosa?

As memórias de Mafalda Roso são como uma lufada de vento que sacudiu as folhas amareladas pelo tempo, revelando as letras de um texto esquecido nos porões da velha escola...


Agradecimentos especiais a Mafalda Roso e Marô Silva.


domingo, 25 de dezembro de 2016

Série Prédios com passado, presente e futuro: Museu Municipal

Um casarão escondido no fim de uma rua guarda preciosas provas materiais da nossa história. E mais do que provas materiais, guarda e difunde traços da nossa identidade cultural, apresentando-se como vitrine de personagens e feitos históricos.

Que casarão é este? A sede do Museu Municipal de Cachoeira do Sul – Patrono Edyr Lima, no coração do Parque Municipal da Cultura desde dezembro de 1986, onde conjuga natureza e história com vários verbos, especialmente preservar, registrar e expor.

Sede do Museu Municipal de Cachoeira do Sul - Parque Municipal da Cultura
- fototeca Museu Municipal

Da história da casa há alguns registros que dão como seu construtor o alemão Engelberth Gottwald, empreendedor, amante da fotografia e das flores, especialmente dálias, que colecionava nos jardins da casa, fabricante de sabão, bebidas e velas e que oferecia banhos públicos nos fundos da sua fábrica, na Travessa 24 de Maio, hoje Rua Dr. Sílvio Scopel.

Engelberth Gottwald e seu amigo José Zell
- fototeca Museu Municipal

A fábrica de sabão e de gasosa de Gottwald produzia gasosa, limonada, água mineral e uma bebida sem álcool, chamada Diana.  A fábrica de sabão, fundada pelo seu sogro, Otto Büchler, em 1887, foi adquirida por Gottwald em 1902, ano que também pode ter sido o da construção da casa. No estabelecimento, Gottwald mantinha depósito de variados tipos de sabão. A fábrica de sabão foi depois vendida para Frederico Richter, proprietário da casa que existe até hoje, próxima ao Parque Municipal da Cultura.

Casa de Frederico Richter - acervo COMPAHC

Para o fabrico de velas, Gottwald recebeu uma máquina vinda da Europa, aumentando as dependências de seu estabelecimento. O passeio de tijolos que dá acesso ao vagão de trem que há na lateral do Museu seria parte do piso das instalações fabris.

Por volta de 1940, Engelberth Gottwald vendeu a propriedade do final da Travessa 24 de Maio para Aracy Machado Alves. O novo proprietário fez algumas melhorias na casa e passou a denominar o lugar, quase uma chácara, como Vila Maria. As iniciais VM podem ser vistas até hoje no portão de ferro que dá acesso ao Parque Municipal da Cultura.

Aracy Machado Alves - fototeca Museu Municipal

Outra testemunha da rica história desta casa e seus arredores é uma grande araucária que cresce junto ao lado direito do portão de ingresso do Parque, e que foi plantada pela família Alves depois que cumpriu a sua missão de pinheiro de Natal.

Como se vê, a casa que guarda a nossa história tem as suas próprias e peculiares histórias... E é um exemplar legítimo de casas que têm passado e presente... Mas um futuro incerto! Sem a manutenção necessária e sujeita às intempéries, a construção precisa de socorro urgente para que possa efetivamente ser um prédio com passado, presente e futuro! E garantir a perpetuação das nossas glórias históricas.

Imagem: fototeca Museu Municipal

sexta-feira, 9 de dezembro de 2016

Novos tempos para o tempo passado V: Paço Municipal

Uma casa que abrigasse espaço para as reuniões dos vereadores, que acomodasse suas alfaias* e ainda pudesse dispor de aposentos para a justiça e para a cadeia era uma das maiores demandas das autoridades desde a instalação da Vila Nova de São João da Cachoeira em 5 de agosto de 1820. Os pobres cofres municipais tinham que desembolsar aluguéis diferenciados para a casa das sessões e para a cadeia, situação que perdurou por mais de quatro décadas, sacrificando outros investimentos necessários.

Depois de vários anos de tentativas, de acertos e desacertos entre a municipalidade e a província, em 30 de outubro de 1860 a Câmara Municipal decidiu publicar edital para recebimento de propostas de empreiteiros que tivessem interesse em contratar a obra de construção da Casa de Câmara, Júri e Cadeia, projetada pelo Major de Engenharia José Maria Pereira de Campos.

Uma das mais antigas imagens do Paço Municipal - ao lado o primeiro teatro
- fototeca Museu Municipal

A única proposta recebida, mesmo que ferindo o regimento da Câmara, foi submetida ao governo da Província e aceita: a do vereador Ferminiano Pereira Soares, ao custo de quarenta e cinco contos, oitocentos e sessenta e três mil e oitocentos e sessenta réis. Vencida a burocracia da época, desapropriação dos terrenos e indenização dos proprietários, entre março e abril de 1861 tiveram início as obras.

Data da conclusão da obra no frontão - foto Renate S. Aguiar

A construção da Casa de Câmara, Júri e Cadeia levou quatro anos e consumiu certamente a saúde do empreiteiro Ferminiano. Sua morte, em meados de 1865, talvez tenha sido apressada pelos percalços do empreendimento, pelos investimentos feitos às suas expensas e pela espera de quitação do valor contratado, já que durante todo o tempo da construção ele recebeu apenas dezenove contos de réis do montante. A diferença foi recebida por sua viúva, D. Carlota Pereira de Lima, sendo integralizada somente em julho de 1868!

Estas são apenas algumas poucas páginas de uma história rica, cujo levantamento só foi possível graças à existência da documentação preservada pelo Arquivo Histórico do Município.

As paredes do velho prédio abrigaram por muito tempo os três poderes e a cadeia, acompanharam as mudanças das estruturas administrativas e das formas de governo e deram corpo às diferentes denominações que o sobrado teve: Casa de Câmara, Júri e Cadeia, Intendência e Prefeitura Municipal. Hoje, revigorado pela restauração, o prédio tem sido chamado Paço Municipal, forma que parece dar ao magnífico sobrado as dimensões histórica e simbólica que ele nunca deixará de ter.


O Paço Municipal em processo de pintura - fotos Renato F. Thomsen
www.pontedepedra.blogspot.com.br


*alfaia: qualquer móvel ou utensílio utilizado em uma casa; adorno; paramento.