Espaços urbanos

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BANRISUL, antigo Banco Pelotense (1922) - Foto Renato F. Thomsen

sábado, 17 de agosto de 2019

Patrimônio cachoeirense em pauta


Há 25 anos o Conselho Municipal do Patrimônio Histórico-Cultural – COMPAHC conquistou o maior prêmio nacional na área da preservação da memória: o Prêmio Rodrigo Melo Franco de Andrade. A premiação ocorreu no Rio de Janeiro, para onde se dirigiu a presidente do COMPAHC à época, Ione Maria Sanmartin Carlos.

Troféu Prêmio Rodrigo M. F. de Andrade - Acervo COMPAHC

Diploma do Prêmio Rodrigo M. F. de Andrade - Acervo COMPAHC

Ione no Rio de Janeiro recebendo a premiação em nome do COMPAHC
- Acervo COMPAHC

Rodrigo Melo Franco de Andrade foi uma das lideranças culturais do Brasil a partir do movimento modernista, tornando-se um dos responsáveis pela legislação que rege o patrimônio cultural desde a década de 1930. Rodrigo esteve à frente das ações relacionadas ao patrimônio histórico-cultural por 30 anos, devendo o Brasil a ele a proteção de bens em que se incluem alguns de interesse mundial. O dia de seu nascimento, 17 de agosto (1898), foi escolhido para a comemoração do patrimônio histórico nacional.

Rodrigo Melo Franco de Andrade - Wikipédia

Criado em 1981, o COMPAHC tinha em sua bagagem, no ano de 1994, o primeiro inventário de bens culturais feito no interior do Rio Grande do Sul (1989), vários tombamentos de bens patrimoniais de relevante valor histórico-cultural (1985 e 1986) e atividades de fomento à ideia da preservação. Com este conjunto de ações se credenciou ao prêmio e o conquistou.

Relembrar este feito é oportuno neste dia 17 de agosto de 2019, quando em comemoração ao Dia Nacional do Patrimônio o governo do Estado do Rio Grande do Sul resolveu também instituir a data como Dia Estadual do Patrimônio Histórico. Para marcar a importância deste dia, o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico do Estado – IPHAE promoveu o tombamento dos prédios que foram construídos para agências do extinto Banco Pelotense, dentre eles o de Cachoeira, atualmente ocupado pelo BANRISUL.

Banco Pelotense (1922) - Fototeca Museu Municipal

Verdadeira joia da paisagem urbana, o prédio do antigo Banco Pelotense foi inaugurado em 1922. O projeto do edifício era do arquiteto Manoel Itaqui, tendo sido construído por Santiago Borba.

A sua arquitetura, alterosa, tem como destaque a cúpula e um conjunto escultórico composto por três figuras representativas das atividades comerciais e industriais. Além da riqueza arquitetônica, é importante destacar a sua localização, tendo ele inaugurado a quadra que depois seria conhecida como “dos bancos”.

Conjunto escultórico do frontão do BANRISUL - Foto Renato F. Thomsen

Cachoeira do Sul, rumo aos seus duzentos anos de instalação como município, tem motivos de sobra para se orgulhar do patrimônio que tem conservado. Muito se perdeu, é verdade, mas o que já cativou o coração dos cachoeirenses ganha, dia a dia, o respeito e a estima de quem tem apreço pelas marcas da história. São 15 bens tombados pelo município, através do premiado COMPAHC, e quatro pelo Estado, através do IPHAE. Mas há muito ainda a ser descoberto pelos cachoeirenses. Mais de 80 edificações, consideradas em sua importância histórica ou arquitetônica, aguardam a oportunidade de também se tornarem de fato bens que habitam a estima da cidade que teve capacidade de erguê-los ao longo de sua rica e diferenciada trajetória histórica.

domingo, 14 de julho de 2019

Um certo A. Saidenberg


Nos tempos que correm, a fotografia tornou-se uma atividade para lá de corriqueira, pois todo mundo, a qualquer hora do dia, está com a câmera de seu celular a postos para o próximo clique!

Mas houve tempos em que ela era para raros praticantes e poucos fotografados. Até a forma de referir o sujeito que praticava a fotografia tinha uma acepção mais artística: fotógrafo era retratista.

Em Cachoeira, os jornais mais antigos, como O Commercio (1900-1966), trazem notícias daqueles que se ofereciam para retratar pessoas e ambientes por temporadas. Estes profissionais, vindos de centros maiores, geralmente se hospedavam em lugar central para favorecer a atração da clientela. Esta prática provavelmente vinha desde meados do século XIX, quando as primeiras experiências com fotografia começaram a ter lugar por aqui.

Certamente a mais antiga fotografia existente em Cachoeira de que se tem conhecimento é a que registrou o Comendador Antônio Vicente da Fontoura e sua mulher Clarinda por volta de 1856, ou seja, quatro anos antes da morte do comendador. A fotografia é atribuída ao fotógrafo italiano radicado em Porto Alegre Luigi Terragno. Na bagagem deste conhecido profissional, que se deslocava pelo estado para executar sua arte, estão registros da cidade de Porto Alegre e do próprio Imperador Pedro II.

Antônio Vicente da Fontoura e Clarinda em foto atribuída a Luigi Terragno
- cerca de 1856 - Fototeca Museu Municipal
Muitas são as fotografias da Cachoeira antiga que suscitam curiosidade sobre quem teriam sido seus autores, uma vez que nem todos identificavam os seus ateliês. Portanto, associar fotógrafo ao trabalho é tarefa desafiadora e extremamente recompensadora quando se torna possível.

Notas fiscais do Photo-Atelier de A. Saidenberg, preservadas no acervo documental do Arquivo Histórico, referem séries fotográficas feitas pelo profissional na Praça José Bonifácio, quando de sua reestruturação e embelezamento, e das obras de saneamento, todas em meados da década de 1920, numa rara oportunidade de associação do "criador" à "criatura".

Nota do Photo-Atelier de A. Saidenberg - 14/4/1926
- Acervo documental do Arquivo Histórico - IM/RP/SF/D-Caixa 9

Uma das notas, emitida em 14 de abril de 1926, é sobre o serviço de 6 retratos da Praça José Bonifacio, ao custo de 30 mil réis. Das imagens produzidas por A. Saidenberg, salvo outra prova documental que surja, provavelmente uma delas pode ter sido esta:


Vista de uma das quinas da Praça José Bonifácio já remodelada - 1926

A outra nota, desta vez emitida por A. Saidenberg para a Intendência em 4 de novembro daquele mesmo ano, discrimina o serviço de 32 retratos das Obras de Saneamento em construcção, ao custo de 3.500 réis cada. Esta série de fotos está reproduzida na íntegra em um álbum do arquivo particular de Joaquim Vidal, existente no acervo do Arquivo Histórico.

Eis algumas das fotografias e a nota fiscal em questão:


Nota fiscal emitida em 4/11/1926
Acervo documental do Arquivo Histórico - IM/RP/SF/D-Caixa 13

Depósito do material das obras de saneamento

Construção da casa dos filtros - 2.ª Hidráulica



Tanque alemão

Poço de captação

Construção do R2 - na atual Praça Borges de Medeiros
As fotos foram feitas durante e ao término das obras da segunda hidráulica, onde estavam incluídos o Château d'Eau e o R2 da atual Praça Borges de Medeiros.

As fotos produzidas por A. Saidenberg muito mais do que retratos, são verdadeiros documentos de uma das mais efervescentes e progressistas eras da história de Cachoeira do Sul. Atribuir autoria a elas confere-lhes ainda um maior valor histórico.

Observe a animação produzida pelo fotógrafo Renato F. Thomsen em foto atribuída a A. Saidenberg feita na Rua Sete de Setembro, 1926 (programa Pixaloop).



Nota: ofereço esta postagem à colega Neiva Köhler que coloca na minha mão estes preciosos documentos.

domingo, 30 de junho de 2019

O primeiro jornal de Cachoeira


Por ocasião da chegada do Jornal do Povo ao seu 90.º ano de circulação, de imediato vem à memória o primeiro órgão de imprensa escrita surgido em Cachoeira.

O Cachoeirense era o nome desse jornal surgido em maio de 1879. A notícia de sua existência chegou até nós por meio do historiador Aurélio Porto, ele mesmo um entusiasta da imprensa e com passagens por vários jornais.  Era impresso duas vezes por semana e tinha caráter político. O fundador d’O Cachoeirense foi o tipógrafo Amaro José Lisboa, tendo como redator e diretor Bento Porto da Fontoura, um dos filhos de Antônio Vicente da Fontoura.

A época do surgimento do jornal coincidiu com um momento político especial vivido pelo Brasil, que era o da propaganda republicana e abolicionista. Certamente O Cachoeirense reproduziu em suas páginas, dentre anúncios comerciais, literários e do cotidiano da cidade, um pouco daquele cenário que antecedia a abolição da escravatura e logo depois a proclamação da República.

No entanto, nenhum exemplar d’O Cachoeirense era conhecido, ficando as informações sobre o seu formato, circulação e ideário a critério do que o nosso historiador-mor levantou. Até que uma espiada no conteúdo de um CD de inventários vindo do Arquivo Público do Estado do Rio Grande do Sul – APERS trouxe luz sobre o primeiro jornal de Cachoeira! Este grande achado, ainda que reduzido a uma foto de parte da primeira página do jornal, comprovou que O Cachoeirense era um periódico comercial, noticioso e literário, como também a maior parte dos jornais de seu tempo. A circulação se dava nas quintas-feiras e domingos, e o endereço do escritório e tipografia era a Rua do Imperador n.º 4, hoje a Rua 15 de Novembro.

O Cachoeirense, edição de 1/3/1882 - Acervo APERS

A circulação do nosso primeiro jornal não chegou a completar cinco anos, saindo a última edição em 31 de março de 1884, quando o seu fundador foi embora para Porto Alegre.

No acervo documental do Arquivo Histórico, é possível encontrar documentos que provam que logo depois de fundado, graças ao tino comercial de Amaro José Lisboa, um dos primeiros assinantes foi a Câmara Municipal. A Câmara, como hoje a Prefeitura, necessitava divulgar editais e tornar públicas outras informações de interesse da comunidade. Um bom negócio para ambos.

Recibo dado por Amaro José Lisboa - 18/7/1879 - CM/Po/RD/DD-035

Cachoeira teve muitos outros jornais a partir d’O Cachoeirense. Alguns circularam pouco tempo, outros foram mais persistentes. O mais duradouro de todos, o Jornal do Povo, teve como mais próximo em longevidade O Comércio, que circulou de janeiro de 1900 a fevereiro de 1966.

A imprensa, na história de Cachoeira, tem muito ainda a revelar, pois boa parte dos jornais que aqui circularam não deixaram exemplares disponíveis para uma análise dos conteúdos que produziram. Vive-se, então, a eterna espera de um dia topar com um recorte, uma folha, quem sabe uma edição inteira de um destes jornais para então entrever um retrato de seu tempo.