Espaços urbanos

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Estátuas no frontão da União de Moços - foto Antônio Sarasá

sábado, 20 de outubro de 2018

Belezas da política


A política, seja em que tempo for, atribui aos indivíduos que se confrontam em ideias e atos, todo tipo de “qualidades”, sendo este termo genérico empregado tanto para “qualidades de fato” como para defeitos. Nas disputas por cargos eletivos, os políticos costumam explorar os “calcanhares de Aquiles” de seus adversários. Esta prática, ainda que velha, segue aplicada plenamente.

No ano de 1913, duas grandes e eminentes personalidades da política local, ainda que oriundas das mesmas fileiras partidárias, por desavenças pessoais e disputas de poder, passaram a se atacar mutuamente, utilizando-se dos dois principais jornais que circulavam na época.

O mais antigo deles e de ampla circulação, o jornal O Commercio (1900-1966), traz em sucessivas edições uma seção livre intitulada Bellezas do Isidorismo, assinada por Arlindo Leal. De uma forma satírica e ácida, o autor faz uma análise das ações e obras do Coronel Isidoro Neves da Fontoura, então chefe político do Partido Republicano Rio-Grandense em Cachoeira e intendente municipal até o ano anterior.

Cel Isidoro Neves da Fontoura 
- Fototeca Museu Municipal

Jornal O Commercio, Cachoeira, 12/2/1913, p. 1
- Acervo de Imprensa do Arquivo Histórico

Uma das grandes e polêmicas iniciativas do intendente Isidoro foi a aquisição da área em que seria implantado o Bairro Rio Branco, referido no texto de Arlindo Leal como “A Cidade Nova”:

Despertou um dia El-Supremo com ideias de fundar uma cidade nova. Imediatamente foi adquirida uma grande chácara* nas proximidades da via férrea. O engenheiro da Intendência traçou sobre o terreno os alinhamentos da nova cidade e grandes escavações já foram feitas. Uma casa já foi construída e talvez outras o sejam. Porém, o filho de El-Supremo, o príncipe do automóvel negro, o aiglon**, devia ser o principal proprietário do bairro novo.
A banca de advogado do Príncipe, florescendo em dezenas de causas gordas, era rendosa. Estava o aiglon em condições de edificar palácios e casas de aluguel. Foram-lhe, pois, adjudicados os terrenos melhor situados e que menos escavações exigiam.
O secretário do aiglon, o Sr. Odon*** também foi contemplado com dois bons terrenos apesar... de ter sido cadete. Tudo se arranja numa administração modelar.
Apenas nos acessos de enxaqueca d’El-Supremo, a moral republicana, sonhada por Ferreira Leal****, por Policarpo*****, por ele e tantos outros, nos conciliábulos do primeiro clube republicano, prescrevia a livre concorrência pública!
O velho republicano entrouxava as ideias do passado para ver seu filho feliz, endinheirado, de automóvel. E o filho lhe prescrevia Pyramidon****** para a enxaqueca. Essa persiste, porém, porque essa droga não cura de abatimento moral; persiste e persistirá ainda enquanto houver a luta entre a pureza do passado remoto e a ganância do presente. O mal emana do moral e não do físico; a consciência vibra sempre.
Nenhuma conta apresentarei à S. Excia. por este receituário.

(O Comércio, 12/2/1913, p. 1)

Pyramidon - gettyimages

*Chácara pertencente a Maria Egypcia da Fontoura, filha do Comendador Antônio Vicente da Fontoura.
**aiglon: filhote de águia em francês.
***Odon Cavalcanti Carneiro Monteiro, advogado e colega de banca de João Neves da Fontoura; ocupou vários cargos públicos, inclusive o de secretário da Intendência entre 1910 e 1914.
****João José Ferreira Leal, fundador e primeiro presidente do Clube Republicano de Cachoeira (1882).
*****Polycarpo Alvares da Cruz, fundador do Clube Republicano.
******Pyramidon: remédio para enxaqueca

Por sua vez, o jornal do Partido Republicano, o Rio Grande, em sua edição de 23 de fevereiro de 1913, rebate as acusações de Arlindo Leal com o seguinte título: “Desmentido formal”.


Jornal Rio Grande, Cachoeira, 23/2/1913, p. 1
- Acervo de Imprensa do Arquivo Histórico

Ao deputado Dr. Arlindo Leal nos aleives que em estilo mazorro* e arreeiro** tem assacado contra a respeitável personalidade do coronel Isidoro Neves da Fontoura e contra a sua administração – houve por bem envolver o meu obscuro nome, dizendo que fora eu contemplado com dois bons terrenos na larga faixa de terra adquirida por aquele ex-intendente para o patrimônio do município.
Para que fique evidenciado até onde vai o cinismo estanhado do ofensor, dirigi ao Dr. Balthazar de Bem, atual intendente, o seguinte requerimento:

Sr. Dr. Balthazar de Bem

Peço-lhe a fineza de dizer ao pé deste: 
a) se não é verdade ter o infraescrito comprado terrenos à Intendência Municipal, situados no bairro Rio Branco, ao preço de 10$000 o plano;
  b) se em idênticas donições foram comprados terrenos no mesmo bairro pelos Srs. José Fernandes, Dr. João Neves, Cacílio Menezes, Antonio Lara, Germano Hoffmann e outros;
  c) se na sua própria administração não foi por mim comprado um outro terreno pelo mesmo preço, sendo que este mesmo terreno esteve até então à venda, sem aparecer comprador;
  d) se, finalmente, convizinhando aos terrenos por mim comprados, outros existem por preço igual aos que têm sido estipulados até hoje por esta Intendência aos adquirentes.
Subscrevo-me amº e ad.
Odon Cavalcanti

Odon Cavalcanti 

O Dr. Balthazar de Bem mandou que o Secretário da Fazenda informasse. A informação foi do seguinte teor:
Cumprindo vosso despacho supra, tenho a informar que revendo o talão dos recebimentos das importâncias provenientes das vendas de terrenos municipais, verifiquei serem verdadeiros os itens formulados pelo requerente.

Secretaria da Fazenda Municipal, 21 de fevereiro de 1913.

Hermilo Pohlmann

Aí está a que se reduz a acusação de Arlindo Leal atinente à defraudação que fez do patrimônio do município, o benemérito Coronel Isidoro Neves... Certamente todas as demais afinam pelo mesmo timbre.
Aproveito a boa oportunidade para apresentar ao ex-chefe político e ex-intendente os meus extremados protestos de solidariedade, hoje que ele não tem a mínima parcela de mando em política ou administração, e que está sendo vilmente atacado pelo mesmo homem que lhe tecia exaltados elogios em discursos retumbantes, ao tempo em que era chefe político e intendente municipal, como é público e notório nesta cidade.
Já era um vezo*** dos incas atirar pedras ao sol que se ocultava e que lhes dera luz e calor.

Odon Cavalcanti

(Rio Grande, 23/2/1913, p. 1)

*mazorro: grosseiro
**arreeiro: condutor de bestas, tropeiro
***vezo: mau hábito

Como se vê, natural seria que os republicanos se defendessem das acusações de Arlindo de Freitas Leal, outro republicano combativo, cuja experiência política passava pela Assembleia, como deputado estadual, e conselheiro do município entre 1908 e 1912. O engenheiro Arlindo Leal também era um dos mais bem sucedidos produtores de arroz do município, com grande prestígio e fortuna. Nos dias de hoje, a disputa acirrada facilmente seria classificada como “briga de cachorro grande”. Au au!

quinta-feira, 20 de setembro de 2018

Prosit!


Os tempos que correm têm apresentado uma tendência: a da fabricação artesanal de cerveja. Apreciadores da bebida testam combinações, fazem harmonizações e provocam a criatividade de muitos cervejeiros.

Em Cachoeira também há os “paneleiros”, termo popularmente usado para os que se aventuram na fabricação artesanal da bebida. Mas os paneleiros provavelmente desconhecem uma tradição cervejeira que a cidade tem desde o século XIX, quando os primeiros fabricantes se atiraram à produção da bebida, trazendo ao mercado local diferentes tipos e marcas.

O primeiro deles, Rudolph Homrich, era dono da Deutsche Bier Breuerei, estabelecida na Rua Sete de Setembro, logo abaixo da Estação Ferroviária.

O jornal 15 de Novembro (Cachoeira), edição de 28 de maio de 1890, à página 3, traz a seguinte notícia:

“A Cervejaria. De Rudolf Homrich. Rua 7 de Setembro, próximo à estação da estrada de ferro. O proprietário desta fábrica, uma das mais acreditadas desta cidade, previne ao público e à rapaziada diletante da refrigerante cerveja Homrich, a mais própria para a estação, que teve a original ideia de fazer um poético bosque, sob o qual é agradabilíssimo tomar-se um espumante copo dessa bebida sem rival. Custa apenas a garrafa de cerveja preta ou branca, simples, 240; dúzia 1$920, garrafa de cerveja dupla, 350; dúzia, 2$880. Ao bosque, pois! Ao bosque do Homrich diletantes do bom gosto!”

Em 1912 a cervejaria foi modernizada, sendo acrescidas novas máquinas e ampliados os compartimentos. A maior novidade foi a instalação de uma fábrica de gelo. sendo o processo fabril da cerveja feito a partir de matérias primas importadas da Europa. As marcas produzidas então eram a Crystal, clara, Homrich, obscura, e Dragão, preta, especial para o inverno. Tais marcas, segundo o fabricante, não receavam confronto!

Instalações da cervejaria na Rua 7 de Setembro - Fototeca Museu Municipal


A cervejaria de Rudolph Homrich, surgida no século XIX, atravessou o primeiro quartel do século XX e, através da imprensa, em 1925, avisava aos consumidores de seus produtos que devido ao alto valor da matéria prima teria que elevar “na razão de 100 réis o preço por garrafa de todas as suas marcas de cerveja.”

O complexo cervejeiro da Rua 7 na década de 1920 - Fototeca Museu Municipal


Rótulo da cerveja Bock da Cervejaria Homrich, já associada
a Pedro Port - Gentileza Mico Vargas


Da próxima vez que mirarmos um copo de cerveja, olhemos para o líquido fazendo a reverência à história dos pioneiros da sua preparação por aqui. Prosit!


domingo, 2 de setembro de 2018

Série Prédios com Passado, Presente e Futuro: Armazém de Arlindo Leal


Um alteroso prédio na quadra em que a Júlio encontra a Saldanha chama a atenção pela arquitetura reveladora de um tempo em que técnica construtiva e arte davam as mãos com maior facilidade.

Prédio de 1918 - antigo Armazém de Arlindo Leal - COMPAHC

Trata-se do armazém e depósito de arroz mandado construir por Arlindo de Freitas Leal em 1918. O local, próximo da gare da Estação Ferroviária, favorecia tremendamente o negócio.

Armazém de Arlindo Leal - Publicação do Banco da Província - 1925-1927
- Acervo Arquivo Histórico

O projeto de construção do armazém foi entregue ao engenheiro holandês Chrétien Hoogenstraaten, sócio de Arlindo Leal em uma olaria aberta no ano de 1917 para o fabrico de telhas e tijolos. Este empreendimento foi vultoso e para levá-lo adiante os engenheiros e sócios arrendaram de Roberto Danzmann, pelo prazo de 10 anos, uma parte de campo situada na Várzea de Nossa Senhora, proximidades da cidade. Em meados daquele ano, trouxeram de Buenos Aires uma locomóvel Hornsby, da força de 30 cavalos, máquinas para fabricação de ladrilhos e telhas e amassadores com cortadores. Os equipamentos permitiram uma fabricação excepcional de telhas e tijolos por dia.

Arlindo Leal, que também era engenheiro civil, deve ter chegado a Cachoeira nos primeiros anos do século XX. Seu nome aparece na nominata do Conselho Municipal (corresponde hoje à Câmara de Vereadores) no período 1908-1912. Era membro do Partido Republicano Rio-Grandense e protagonizou brigas políticas acirradas com os Neves da Fontoura.  Foi também deputado estadual. Dono de grande fortuna, Arlindo Leal foi um dos maiores produtores de arroz daqueles tempos e grande criador de gado. Sua importância na cidade era tanta que foi um dos articuladores para criação da Praça do Comércio, de que foi o primeiro presidente em 1917.

Em 1908, diante da ameaça de desabamento do Teatro Municipal, ele foi um dos engenheiros a emitir laudo técnico recomendando o seu fechamento. Depois do sinistro, juntamente com abalizados engenheiros da capital, fez uma pormenorizada análise da situação do prédio que se localizava na Praça da Conceição (atual Dr. Balthazar de Bem).

Mas quem era o engenheiro holandês construtor do armazém de Arlindo Leal? Como veio parar em Cachoeira?

Dr. Chrétien Hoogenstraaten tinha um currículo extenso. Na Holanda, trabalhou numa companhia petrolífera que o enviou para as Índias Inglesas. Sua vinda para o sul do Brasil foi com a missão de fazer sondagens sobre a existência de poços de petróleo. Com este propósito a mais, Chrétien deve ter visto possibilidade em Cachoeira pela grande onda de progresso que se fazia sentir na cidade naquelas primeiras décadas dos anos 1900.  Em 1916, com o colega cachoeirense Jorge Hölzel, estabeleceu um escritório técnico de engenharia na Rua 7 de Setembro. Na propaganda de seus serviços diziam: “Aceita-se construção qualquer, adotando sistema e estilo moderno. Projetos, orçamentos e cálculos de arquitetura, agrimensura, cimento armado, exploração de minas, hidráulica.”

Em seu currículo consta que havia sido professor de Belas Artes da Universidade de São Paulo e de desenho no Colégio Júlio de Castilhos, de Porto Alegre. Em Cachoeira, além do armazém de Arlindo Leal, fez as plantas do chafariz da Hidráulica Municipal (1921) e da Igreja Metodista original. Em Porto Alegre, entre 1925 e 1928, construiu o Instituto Parobé e foi professor da Escola de Engenharia, tendo publicado na revista da instituição 24 trabalhos sobre projetos arquitetônicos e construções rurais, sendo considerado um desenhista refinado, segundo Günter Weimer.


20/9/1921 - inauguração da Hidráulica Municipal, vendo-se o chafariz projetado
por Chrétien Hoogenstraaten à direita. 
Abaixo a Igreja Metodista original - Fototeca Museu Municipal 



O alteroso prédio que foi depósito de arroz de Arlindo Leal é uma destas dignas edificações que contam a nossa história, portanto plenas de passado, presente e futuro. 

Observação: apesar da importância destes dois engenheiros, Arlindo Leal e Chrétien Hoogenstraaten, não há imagem disponível de ambos.