Espaços urbanos

Espaços urbanos
Château d'Eau ao amanhecer - Foto Méia Albuquerque

sábado, 11 de agosto de 2018

Um tapete de boas-vindas


Quem não está acostumado a observar os detalhes que se espalham pelas ruas da cidade, em esquinas, muros, fachadas, frontões, frestas entre casas, certamente nunca olhou para as pedras das calçadas e das ruas. Sequer se deu conta que os passeios públicos das principais ruas têm um padrão. Não sonha que este padrão, por se repetir por décadas, recebeu do fabricante o nome de padrão Cachoeira, e ainda que lembre as ondas de Copacabana, certamente reproduz as ondas das antigas cachoeiras do Jacuí – ou os movimentos dos fandangos...

Padrão Cachoeira nos passeios públicos - foto COMPAHC

Os mesmos desavisados que nunca perceberam os detalhes do tempo se surpreenderam com uma belíssima foto do Mico Vargas, tomada feita do alto sobre a “subida dos bancos” da Rua Sete de Setembro.  De efeito surpreendente, a foto revelou a simetria e a cuidadosa disposição das pedras no local que, por muitas décadas, foi entrada principal para o centro da cidade, a partir da Estação Ferroviária. Como um tapete de boas-vindas aos visitantes da Princesa do Jacuí.

Sete desenhada - Foto Mico Vargas


Detalhes do calçamento da Rua 7 de Setembro - COMPAHC

Quem realizou tal trabalho?

Quando João Neves da Fontoura assumiu a administração do município por impedimento do intendente Francisco Fontoura Nogueira da Gama, deu continuidade às obras de urbanização da cidade. Distribuição de água e rede de esgoto, construção de reservatórios, embelezamento de praças e calçamento de ruas eram as principais frentes de trabalho da Intendência. São desta época as inaugurações do Château d’Eau e do R2, na Praça Borges de Medeiros, e também os artísticos calçamentos da Rua Sete de Setembro e da Praça Dr. Balthazar de Bem.

Calçamento decorado defronte à Catedral - Foto César Roos

Estrela defronte ao Paço Municipal - Foto Rui Gonzaga Ortiz

Cachoeira se tornou um canteiro a céu aberto, atraindo profissionais para participarem de licitações e concorrências públicas com vistas a atacar tantas obras. E foi para aproveitar uma destas oportunidades que José Torrano, por volta de 1924-1926, veio de Porto Alegre com dois companheiros, um deles Manoel Medeiros Júnior, para calçar ruas da cidade.  Calçaram a Sete, no trecho fotografado por Mico Vargas, a Rua 15 de Novembro, em trecho fronteiro ao Paço Municipal, e a Moron, defronte à Catedral. Deixaram suas marcas empregando pedras de diferentes cores que, em colocação harmônica, formaram losangos na Sete e Moron e estrelas na 15.


Estrela no calçamento da Rua 15 de Novembro, trecho fronteiro ao Paço
- Foto de Mirian Ritzel

A obra de calçamento na Praça Dr. Balthazar de Bem, artística e minuciosa, foi finalizada com festa no local, conforme noticiou O Commercio de 7 de dezembro de 1927:

À tardinha do sábado último foi fechado o calçamento feito a paralelepípedos da Praça Dr. Balthazar de Bem. Por este motivo, o Sr. Manoel Medeiros Júnior, empreiteiro do calçamento, ofereceu aos seus operários e auxiliares churrasco regado a chopp, festa que se realizou depois das 4 horas da tarde, na referida praça, correndo muito animada (...)".

Andar pelas ruas da cidade pode ser um agradável exercício tanto para o corpo quanto para a mente. E gratas surpresas aguardam os olhares cuidadosos que se dispõem a observar os detalhes do tempo.

Esta postagem é dedicada a Mico Vargas, cujas lentes registraram o lindo calçamento da "subida dos bancos", revelando-o a muitos, relembrando-o para poucos que dele já haviam se dado conta.

domingo, 29 de julho de 2018

A importância da Ponte do Fandango

Desde 1961, quando foi oficialmente inaugurada a Barragem-Ponte do Fandango, que a cidade não se via totalmente privada de sua estrutura e do importante e inestimável serviço que ela presta. 

Os cachoeirenses do passado viveram as dificuldades da não existência da ponte e muito sonharam com as facilidades que ela ofereceria. A história mostra que em 1912 houve um movimento de lideranças comunitárias e autoridades em torno da construção de uma ponte que transpusesse o rio Jacuí nas proximidades da cidade, favorecendo o transporte e a ligação com outros municípios via estradas de rodagem. Logicamente este sonho era bem mais antigo, mas os jornais de 1912 chegaram aos nossos dias, revelando a iniciativa. 

A construção da Ponte do Fandango, iniciada em meados da década de 1950, começou de fato a ser planejada em 1949, quando o então prefeito, Dr. Liberato Salzano Vieira da Cunha, viajou ao Rio de Janeiro para tratar de tão importante obra. Como resultado das tratativas levadas a efeito na Capital Federal, em 25 de abril daquele ano a cidade recepcionou o Ministro da Viação, Clóvis Pestana, que garantiu em um dos discursos proferidos: "A ponte será construída em época não muito remota, para isto já estão sendo feitos os estudos e serão iniciados os trabalhos preliminares de sondagem e construção de barragem." A cidade tomava conhecimento então que a estrutura a ser construída constaria de uma ponte com barragem e eclusa!

Jornal do Povo - 1/5/1949, p. 1 - Acervo de Imprensa do Arquivo Histórico
A Barragem-Ponte do Fandango foi a primeira do gênero a ser construída no Brasil e favoreceu a ligação de Cachoeira do Sul com a rodovia Porto Alegre - Uruguaiana, suspendendo a travessia do rio Jacuí pelas balsas.

2018. Desgastada pelo tempo, pelo tráfego pesado e volumoso e pela ineficiente manutenção, as obras há muito reclamadas finalmente estão acontecendo. O transtorno do fechamento da ponte dá uma ideia para os cachoeirenses de hoje do quanto a sua existência é importante e o quanto os cachoeirenses de ontem enfrentaram de obstáculos nas suas movimentações. 

Obras na Ponte do Fandango - Imagens de Renato F. Thomsen

A experiência re/vivida com a travessia do rio por balsas, embora carente de um planejamento mais eficiente, está a mostrar o quanto o Jacuí é soberano nas nossas vidas. Ainda que pouco olhemos para a sua importância e fundamental significação.

Balsa fazendo a travessia do rio Jacuí - Foto Robispierre Giuliani

Vide: https://youtu.be/YfG7bGJ9is0 - Renato F. Thomsen.

domingo, 22 de julho de 2018

E por falar em barcas e atracadouros...


Com a necessária reforma da Ponte do Fandango, a cidade passou a reviver tempos em que a travessia de veículos de uma margem a outra do rio Jacuí só podia ser realizada com a ajuda de barcas.

Reforma na Ponte do Fandango - Imagem Jornal do Povo

Questões de toda ordem parecem dominar operação que deveria ser despida de complicadores, afinal a relação de Cachoeira do Sul com o rio é intrínseca, as experiências com este convívio são incontáveis e, na maioria das vezes, recorrentes...

Barca no porto da Moron - Jornal O Correio

Antes da construção da Ponte do Fandango a navegação era ampla no Jacuí. O velho porto de embarque e desembarque, no baixo da Moron, atendia ao tráfego já com limitações quase um século depois da sua construção. Foi decidido então buscar um novo atracadouro, em local que oferecesse menos obstáculos ao vai-e-vem de embarcações.

O jornal O Comércio, edição do dia 9 de fevereiro de 1949, guardados fatores como tempo e motivação, bem mostra que a História guarda lições que volta e meia deveriam ser cantadas aos quatro ventos:

“Com as obras finais que o DAER vem executando no trecho da estrada de acesso, pela margem esquerda do rio, ao novo “Passo” situado logo após a “ponta da ilha”, é de se prever para muito breve a inauguração deste importante melhoramento no sistema de transporte entre a cidade e a zona Sul do município. Como na margem esquerda, que já está praticamente pronta há algum tempo, na margem direita, o acesso ao passo será feito sobre longo aterro com pontilhões, dada a existência de alagadiços no local.

Apesar desta mudança do nosso tradicional “Passo da Praia” vir afastá-lo da cidade, pois o trajeto a ser feito não será mais pela Rua Moron – Descida da Praia – e sim Rua Conde de Porto Alegre – Descida do Amorim -, entrando pela “Limpeza Pública” até o rio, a sua inauguração há muito vem sendo aguardada por todos aqueles que necessitam periodicamente usá-lo. Como é do conhecimento geral, a mudança em apreço fora resolvida em atenção às exigências técnicas, pois o local onde vem funcionando há dezenas de anos, dada a pouca profundidade das águas, não se presta satisfatoriamente para tais finalidades, muito principalmente quando o rio se acha com determinado volume de água. O novo local escolhido conta com água, quer com o rio cheio ou como em tempo de seca, perenemente profunda, o que possibilita franca manobra de barca automotora e de maior calado. Esta vantagem predispõe o emprego de barcas com capacidade para transportar elevado número de veículos em uma só viagem, o que virá solucionar as bichas que então por vezes se formam em ambas as margens do rio, principalmente por ocasião da safra do arroz." (O Comércio, 9/2/1949, p. 3).

Quase setenta anos depois, a similaridade de situação poderia ser pautada pela semelhança de atitude.