Espaços urbanos

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Balsa atravessando o Jacuí - Foto Renato F. Thomsen

domingo, 15 de julho de 2018

O destino do Teatro Municipal


A inauguração do Teatro Municipal, no Natal de 1900, foi um acontecimento. A cidade celebrava a conquista de recuperar um espaço para as apresentações artísticas, já que a demolição do primitivo Teatro Cachoeirense tinha limitado – e muito – as atrações que necessitavam da infraestrutura de uma casa de espetáculos.

Teatro Municipal visto pela lateral - Fototeca Museu Municipal
Anúncio do extinto Teatro Cachoeirense - jornal O Clarim, 22/5/1887
- Acervo de Imprensa do Arquivo Histórico

Na virada dos anos 1800 para 1900, graças aos trens, várias companhias dos mais diversos tipos de arte e novidades percorriam o trajeto entre a região do Prata e Porto Alegre apresentando-se nas cidades que ficavam no caminho. Cachoeira era uma delas, mas a inexistência de um espaço apropriado muitas vezes desestimulava a estada dos artistas na cidade ou tirava o brilho das companhias que mesmo assim aqui se aventuravam.

Com a inauguração do imponente prédio do teatro, a imprensa da época registrava todo tipo de atrações que apareciam. Cinematógrafos, ventríloquos, clowns, coisas bizarras, máquinas de falar, concertos musicais, operetas, comédias, tragédias, conferências, declamações... Descrições das horas de arte ocupavam colunas dos jornais, bem como a desconfiança de muitos com a solidez do prédio recém-inaugurado...

Teatro Municipal - Fototeca Museu Municipal

Incomodado com o diz-que-diz-que que tomava conta de algumas rodas, o jornal O Commercio, edição do dia 5 de novembro de 1902, publicou o seguinte:

“Avessos a tudo que se propala sem espírito de moral e de razão, principalmente quando vimos que no boato há um mau velado intuito de ferir suscetibilidades, não podemos deixar de condenar acremente como diretores da opinião o que se tem dito e se diz com relação à solidez do Teatro Municipal. Os anônimos que por aí pululam e cujo único ofício é maldizer dos que trabalham e se interessam pelo progresso de sua terra estão, não resta dúvida, se fotografando como imbecis e ignorantes que são, pretendendo incutir no ânimo da população cachoeirense uma prevenção maligna, para assim afastá-la de comparecer às representações que ali se efetuam presentemente, prejudicando artistas e companhias dignos da proteção do público e os créditos incontestáveis do honrado e operoso intendente municipal que dirigiu a construção do elegante edifício, cuja solidez foi e é atestada por competentes. Por hoje ficamos aqui, lembrando ao digno Sr. Coronel Intendente uma vistoria no Teatro por profissionais, que aqui os há, a fim de que mais uma vez sejam confundidos os maldizentes.”

Intendente David Soares de Barcellos
- empreendeu a construção do Teatro Municipal

Como se vê, menos de dois anos depois da inauguração, o prédio provocava desconfianças...

O desfecho de tal história poderia ter sido trágico. Em 6 de janeiro de 1908, o teatro sediou uma festa infantil em benefício do altar do Sagrado Coração de Jesus, da Igreja Matriz, ocasião em que a grande assistência teria ouvido estalos suspeitos. Felizmente o espetáculo findou sem ocorrências.

Quando dias depois a cidade foi acordada com um grande estrondo, por volta das 11 horas da noite, muitas vozes concluíram: “Foi o Teatro que caiu!”

O administrador municipal mandou interditar o prédio e convidou o engenheiro civil Arlindo Leal a dar um laudo sobre o sinistro. Outros técnicos abalizados do estado, devidamente consultados, como o Dr. Ahrons, A. Legendre e Theodoro Tufwesson, apresentaram um relatório pormenorizado dos problemas constatados. Em síntese, constataram o desequilíbrio dos muros do corpo posterior do edifício, a ruptura completa da linha de atracar de uma das tesouras da armação e o escapamento da junta central (em dardo de Júpiter) da linha de outra tesoura.  Com o desequilíbrio das tesouras houve forte pressão sobre as paredes laterais do edifício, forçando-o a sair do prumo.

Soluções e orçamentos foram apresentados, mas a história documenta que não houve ações efetivas para recuperar aquele espaço de arte. Cinco anos depois, como a livrar-se de um elefante branco, a administração municipal repassou o prédio do Teatro Municipal para o governo do estado para que nele fossem instalados o Colégio Elementar e o Fórum.

 As obras de adaptação do edifício não foram céleres e, depois de idas e vindas, a imprensa noticiava que até o final de 1915, com a retirada do madeiramento e a demolição dos camarotes, paredes divisórias internas seriam levantadas para atendimento dos fins propostos.

Edifício do Teatro adaptado para o Colégio Elementar e Fórum - 1922
- O Rio Grande do Sul, de Alfredo R. da Costa

Mais três décadas seriam necessárias para que a cidade novamente se reencontrasse com uma casa de espetáculos, em fevereiro de 1938, quando o Cine-Teatro Coliseu abriu suas portas. Mas esta já é outra história, cujo destino não foge muito do triste fim que teve o Teatro Municipal.

Cine-Teatro Coliseu - 1938
- Fototeca Museu Municipal

 

domingo, 24 de junho de 2018

Julius Rieth – obras esparsas na paisagem. Quem reconhece?


Uma cidade rica em história como é Cachoeira do Sul, que viveu diferentes momentos, guarda em suas esquinas ventos escondidos que por elas já circularam em diferentes tempos. Estes ventos, volta e meia, adejam sobre as ruas e em suas andanças destravam janelas que se abrem para o passado, revelando eventos e figuras que o tempo levou. Em lampejos, coincidências e assopros as janelas oferecem a oportunidade de relembrá-los...

Janelas da mansarda da Casa 500 - foto Renato F. Thomsen

A recente discussão sobre o destino da Casa 500 ofereceu-nos uma janela que remeteu ao tempo em que por aqui despontou a figura do arquiteto alemão Ernst Julius Rieth. A reforma promovida por Djalma Pereira da Silva na casa da Rua Sete que havia sido da família do Comendador Fontoura, iniciada em 1917, tudo indica promoveu o trabalho do profissional chegado a Cachoeira em 1914.

Júlio Rieth, como passou a ser chamado aqui, trazia na bagagem uma grande folha de obras construídas na Alemanha, especialmente em Stuttgart, cidade onde se formou em 1904. Naquela cidade alemã algumas das obras de Rieth compõem o centro histórico, sendo muitas delas tombadas como patrimônio histórico! Quando requereu no Brasil a licença para atuar em sua área, declarou ter construído diversos prédios de quatro e cinco andares na Alemanha, assim como pontes.

O fato é que se consagrou em Cachoeira, cidade que escolheu para residir a partir de 1914. Na conta de suas obras estão casas que até hoje figuram na nossa paisagem e outras projetadas e talvez nunca executadas – ou desaparecidas no processo natural de crescimento da cidade. Júlio Rieth também executou várias obras públicas, como construção e compostura de pontes no interior do município e obras hidrossanitárias. O maior prédio assinado por ele e que domina o cenário do Bairro Santo Antônio é o do Colégio Totem, antigo Colégio Imaculada Conceição, construído em 1927, quando Rieth era sócio de Roberto Jagnow, outro conhecido construtor local.

Projeto do Colégio Imaculada Conceição - Júlio Rieth (1927)

Mateus Rosada, arquiteto e professor do Curso de Arquitetura da UFSM/Cachoeira do Sul, identificou residências da cidade cujo estilo remetem à prancheta de Júlio Rieth pelas semelhanças construtivas que apresentam entre si. São elas a Casa 500, a casa construída por Frederico Richter, na Rua Dr. Sílvio Scopel, a residência do Dr. Lauderi Ladwig, na Rua Presidente Vargas, dentre outras. Antes dele, a então mestranda Vera Grieneisen, alemã de nascimento, visitou Cachoeira atrás das marcas deixadas por Rieth. Ela identificou várias edificações, dentre as quais o antigo Café Frísia, na Rua Sete de Setembro, esquina General Portinho, o Armazém Tischler, na Rua Júlio de Castilhos, esquina Juvêncio Soares, e as residências das famílias Dickow e Cunha, vizinhas na Rua Ernesto Alves, Bairro Rio Branco.


Casa construída por Frederico Richter - COMPAHC
Residência Dr. Lauderi Ladwig - COMPAHC

Residência Dickow - COMPAHC

Já era do conhecimento a autoria dos projetos da extinta Casa Alaggio, na Rua Sete de Setembro, construída logo depois do Colégio Imaculada Conceição, à época em que Rieth tinha sociedade com Roberto Jagnow. Antes disso, sócio do engenheiro Hans von Hof, construíram o Instituto Pré-Teológico da Comunidade Evangélica, hoje o tombado Jardim de Infância do Colégio Sinodal Barão do Rio Branco.

Jardim de Infância do Colégio Sinodal - COMPAHC
Casa Alaggio - Rua Sete de Setembro - Fototeca Museu Municipal

Júlio Rieth viveu em Cachoeira do Sul com sua família até sua morte súbita, em 31 de julho de 1945, enquanto trabalhava na construção da residência de Ervino Hamann, em Rincão da Porta. Seu falecimento foi muito sentido pela comunidade e o sepultamento se deu no Cemitério Municipal.

A casa de sua moradia ficava na Rua D. Pedro II e existe até hoje. Seu estilo refinado fez sucesso na Cachoeira progressista nas primeiras três décadas do século XX.

Júlio Rieth e família na residência da Rua D. Pedro II - acervo familiar

Benditas janelas do passado que se abrem, vez ou outra. Suas revelações são oportunas para nos darmos conta de que a riqueza que temos é muito maior do que suspeitamos!

Esta postagem homenageia o trabalho da Vera Grieneisen, a perseverança da Elizabeth Thomsen e os bons parceiros da Arquitetura - UFSM/Cachoeira do Sul. 

quinta-feira, 31 de maio de 2018

Série Lojas do Passado: Casa Augusto Wilhelm


As primeiras referências ao comerciante Augusto Wilhelm já aparecem no início do século XX, quando na imprensa (jornal Rio Grande, 7/1/1909, p. 4) ele oferecia ao público um “elegante carro de praça com excelente parelha de cavalos”. A tabela de preços do serviço de transporte podia ser encontrada no carro e as corridas eram tabeladas com tempo estabelecido em trajetos que abrangiam os limites da cidade, alto do cemitério, porto da Aldeia, charqueada, volta da charqueada, da estação ferroviária ao centro da cidade, entre outros.

Augusto Wilhelm - Fototeca Museu Municipal
Carro de praça com parelha de cavalos - Fototeca Museu Municipal


Antes de abrir a casa comercial que levaria seu nome, Augusto era proprietário de uma marcenaria e depósito de móveis onde fabricava também caixões fúnebres de variados tamanhos, preços e adereços. O mais rico ataúde custava 175$000 réis e o mais simples 25$000 réis. Dos pobres e sem recursos, Augusto não cobrava nada além do material dos ataúdes. (O Comércio, 24/8/1910, p. 4).

Depois de estar residindo há 28 anos em Cachoeira e ter trabalhado 20 anos com marcenaria e oito com cultura do arroz, Augusto Wilhelm decidiu dedicar-se ao comércio estabelecendo uma casa para ferragens, vidraçaria e materiais de construção. Para isto, mandou construir um prédio à Rua 7 de Setembro n.º 148, cuja planta foi confeccionada pelo engenheiro-arquiteto Frederico Gelbert, de Porto Alegre.

Casa Augusto Wilhelm - 1922
- Grande Álbum de Cachoeira, Benjamin Camozato

A casa térrea com galerias, de 11 metros por 18, tem, internamente, mais de seis metros de altura, conforme descreveu o jornal O Commercio , na edição de 9 de julho de 1919, à página 1.

No dia 17 de janeiro de 1921, às 16h, com a presença de representantes das casas bancárias locais, do comércio, das indústrias e da imprensa foi solenemente inaugurada a casa de ferragens, louças e miudezas estabelecida num dos pontos mais centrais da cidade.

Augusto Wilhelm ficou à frente dos negócios pouco mais de seis anos. Em 1927, com seu falecimento, o negócio passou para as mãos do primogênito Erwino Wilhelm.

Foto Robispierre Giuliani

A Casa Augusto Wilhelm fez história no comércio cachoeirense. Famoso era seu slogan – “Insista, periga ter!”, tal era a variedade e quantidade do estoque de ferragens, louças, brinquedos e outras mercadorias que o cliente tinha à sua disposição. Na época das festas natalinas, um Papai Noel ofertava balas e doces às crianças que, empoleiradas nos ombros dos pais, aglomeravam-se defronte ao casarão fartamente iluminado à espera de seu quinhão de gostosuras.

O tempo e as conjunturas econômicas selaram as portas da tradicional Casa Augusto Wilhelm no princípio da década de 1980. Outras casas comerciais ocuparam o seu nobre espaço. Hoje, quando apesar das portas cerradas ainda tem força suficiente para seguir denominando aquele trecho como a “quadra da Augusto Wilhelm”, vale invocar o seu velho slogan para que o futuro lhe sorria.

Detalhe arquitetônico da Casa Augusto Wilhelm - Nelda Scheidt