Espaços urbanos

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Ninfas do Château d'Eau - Robispierre Giuliani

domingo, 3 de julho de 2022

Estatística demográfica da velha Cachoeira

Em 1910, desempenhava a função de secretário de Arquivo e Estatística da Intendência Municipal aquele que seria conhecido como o maior historiador de Cachoeira, atento que foi à documentação legada pelas administrações municipais desde a instalação da Vila Nova de São João da Cachoeira, em 5 de agosto de 1820. Seu nome: Afonso Aurélio Porto.

Aurélio Porto - Museu Municipal

Ao organizar a documentação existente na Intendência, Aurélio Porto foi coletando dados para a publicação do conteúdo histórico constante do Relatório de Estatística apresentado ao Coronel Isidoro Neves da Fontoura, intendente municipal, em setembro de 1910. Este relatório, precioso em suas informações, embasou em boa parte o Resumo Histórico que Aurélio Porto publicou, em 1922, no Grande Álbum de Cachoeira no Centenário da Independência do Brasil, editado por Benjamin Camozato.

Grande Álbum de Cachoeira, de Benjamin Camozato
- foto Renato F. Thomsen

Um dos dados mais interessantes do relatório, além da referência dos principais acontecimentos históricos, é o que se refere à população local desde o tempo da Freguesia de Nossa Senhora da Conceição da Cachoeira, criada em 10 de julho de 1779. Na realidade, os dados populacionais levantados por Aurélio Porto iniciam quatro anos depois, ou seja, em 1783. Segundo ele, as primeiras informações foram anotadas porque o governador José Marcelino de Figueiredo ordenou ao Capitão Antônio Gomes de Campos, comandante do distrito, que fosse feito um arrolamento de todas as estâncias sob sua jurisdição. O levantamento englobou 110 estabelecimentos de criação. A Aldeia, recém elevada à freguesia, era composta por cerca de 80 ranchos. Fazendo o cálculo de que havia em média seis almas por fogo, ou seja, seis pessoas por residência, mais o avultado número de escravos necessários para o atendimento do serviço na grande extensão territorial das estâncias e computando as famílias indígenas aldeadas, chegou Aurélio Porto ao número aproximado de 1.140 habitantes.

Em 1803, o número saltou para 3.283. Naquele ano, o governador Paulo José da Silva Gama fez o primeiro censo populacional da capitania. Em 1814, a população já era de 8.225 almas na freguesia que então englobava Cachoeira, Caçapava, Santa Maria e São Gabriel. A capela de Caçapava estava densamente povoada, tendo em vista o grande êxodo de famílias que para lá se dirigiam atraídas pelas minas de ouro. Santa Maria, por sua vez, estava deixando de ser o acampamento das tropas que se embrenhavam pelo interior.  A distribuição das almas (habitantes) era a seguinte em 1814:

Cachoeira - 3.850 almas

Caçapava - 2.044 almas

Santa Maria - 1.640 almas

São Gabriel - 691 almas

Total: 8.225 almas

O historiador alerta que os dados careciam de maior precisão, pois naquele início de século XIX, em razão das tantas vezes que os rio-grandenses tinham que pegar em armas, as populações flutuavam muito ao sabor das lutas.

No ano de 1817, graças a uma certidão do Padre Inácio Francisco Xavier dos Santos, vigário da freguesia, foi possível precisar que a população de Cachoeira e Santa Maria perfazia 5.289 almas discriminadas em 1.423 homens brancos, 71 homens pardos forros, 63 homens pretos forros, 250 índios homens, 120 homens pardos cativos e 972 homens pretos cativos; 1.426 mulheres brancas; 58 mulheres pardas forras, 52 mulheres pretas forras, 186 índias mulheres, 132 mulheres pardas cativas e 536 mulheres pretas cativas. O total de homens era de 2.898 e o total de mulheres, 2.390.

Assinatura do padre Ignacio Francisco Xavier dos Santos
- Arquivo Histórico

Em 1820, quando a freguesia foi elevada à condição de vila, a população era de 12.245 habitantes distribuídos em 1.653 fogos (casas). Compunham a vila de Cachoeira as freguesias de Santa Maria, Caçapava, Alegrete e São Gabriel, com uma média de 7,4 habitantes por fogo. Assim, Cachoeira tinha 657 fogos e uma população de 4.861 almas; Santa Maria contava com 366 fogos e 2.708 almas; Caçapava com 280 casas e 2.072 moradores; Alegrete, 250 fogos, 1.850 moradores; São Gabriel, 100 casas e 754 moradores.

Em 1830, a situação populacional era a seguinte:

Cachoeira: 794 fogos com 5.458 almas

Caçapava: 298 fogos, 2.952 almas, sendo 1.828 livres e 1.124 escravos

Santa Maria: 443 fogos, 2.188 almas, das quais 1.351 livres e 837 escravos

Alegrete: 270 fogos, 1.944 almas, sendo 1.200 livres e 744 escravos

São Gabriel: 150 fogos, com 1.050 almas

Livramento: 120 fogos, com 840 almas

Os dados levantados por Aurélio Porto concluíram que no ano de 1910, quando ele elaborou o relatório por determinação do intendente Isidoro Neves da Fontoura, a população total de Cachoeira, então contando com a sede e mais sete distritos, era de 44.993 habitantes. 

Pelos dados de 2020, o município de Cachoeira do Sul registra 81.860 habitantes e também dispõe de sete distritos: cidade (sede), Ferreira, Bosque, Três Vendas, Barro Vermelho, Capané e Cordilheira.

Nos 112 anos que nos separam do relatório de Aurélio Porto o município foi desmembrado por muitas emancipações, o que reduziu não só a área territorial como também o contingente populacional. Mas diferentemente do que se observava no passado mais distante, quando o Rio Grande vivia envolvido com disputas de território, hoje o que determina a oscilação de dados populacionais é o êxodo advindo da busca de oportunidades e crescimento.

sexta-feira, 22 de abril de 2022

Pedra fundamental do Quartel de Engenharia de Cachoeira

Há 100 anos, no dia 2 de abril de 1922, Cachoeira recebeu autoridades para o lançamento da pedra fundamental dos quartéis do 3.º Batalhão de Engenharia, obra ansiada pela comunidade e que, efetivada, tornou a cidade polo reconhecido pela excelência das instalações e serviços militares.

3.º BE - Batalhão Conrado Bittencourt - Robispierre Giuliani


Conforme a imprensa noticiou, às 17 horas daquele 2 de abril, chegaram em trem especial o Ministro da Guerra, Dr. João Pandiá Calógeras, os generais Cândido Rondon, Abílio Noronha e outros oficiais do Exército, além de executivos da Companhia Construtora de Santos, empresa responsável pela construção de vários quartéis no Rio Grande do Sul, São Paulo, Santa Catarina e Mato Grosso. Foram todos recepcionados na Estação Ferroviária por autoridades locais e muitas pessoas da comunidade, sendo saudados, em nome da cidade, pelo intendente municipal Dr. Aníbal Lopes Loureiro.

Dr. João Pandiá Calógeras - Wikipédia

Depois das saudações e cumprimentos de praxe, o Ministro da Guerra e o intendente municipal, acompanhados das demais autoridades visitantes, seguiram em vários automóveis em rápido passeio pela cidade, dirigindo-se ao terreno escolhido para a construção dos quartéis do 3.º Batalhão de Engenharia. Adquirido pela municipalidade, o terreno foi cedido ao governo federal, tendo sido todo esquadrinhado pelo Ministro da Guerra, que aprovando-o, autorizou o início das obras.

Todos os passos das autoridades visitantes foram registrados em ata especial, lavrada em pergaminho por Emiliano Carpes, nomeado secretário da solenidade. Após a assinatura do Dr. Pandiá Calógeras e demais autoridades, o Dr. Roberto Simonsen, em nome da Companhia Construtora de Santos, ofereceu uma taça de champanha aos presentes, saudando o Ministro da Guerra por suas iniciativas à frente do ministério. Todos então levantaram suas taças em saudação à grande iniciativa, sendo logo chamados a ouvirem o pronunciamento do intendente. Aníbal Loureiro, em sua alocução, afirmou que a cidade estava engalanada e feliz pela visita do Sr. Calógeras e extremamente satisfeita em oferecer ao governo federal área necessária para tão importante e significativa obra. Fez referências à importância do Exército, suas instalações e tropas na garantia da integridade e soberania da pátria, escudado na experiência recente da guerra (I Grande Guerra) ocorrida na Europa. Ao terminar, levantou sua taça ao Ministro da Guerra e à grandeza e prosperidade do Brasil, sendo muito aplaudido.

Na sequência, manifestou-se o Dr. Pandiá Calógeras, agradecendo, em nome do governo federal, a doação de terrenos feita pelo município, ressaltando a cooperação patriótica que tinha, a exemplo de Cachoeira, encontrado em todo o Rio Grande do Sul. Finalizando a fala, entregou as obras aos responsáveis da companhia construtora, à competência da diretoria de engenharia do Exército, representada pelo General Cândido Rondon, e ao carinho do povo cachoeirense, conforme relatou o jornal O Commercio, em sua edição do dia 5 de abril de 1922.

Depois do discurso, deslocaram-se todos para lançarem a pedra fundamental das obras, tendo Calógeras disposto no local a primeira pá de cimento.

Lançamento da pedra fundamental, vendo-se, em primeiro plano,
ao centro, Pandiá Calógeras, ladeado, à esquerda, por Emiliano Carpes e, 
à direita, pelo Marechal Rondon - Grande Álbum de Cachoeira, de Benjamin Camozato

O 3.º Batalhão de Engenharia foi criado em São Gabriel, pelo Decreto n.º 12.739, em 26 de dezembro de 1917. Com a construção do quartel em Cachoeira, foi o 3.º BE transferido para a cidade, após a conclusão das obras em outubro de 1923.

sexta-feira, 15 de abril de 2022

Judas na Praça José Bonifácio

Nossos antepassados jamais imaginariam a interação virtual que temos hoje, nem as múltiplas possibilidades de comunicação. Todo esse aparato tem transformado as relações, e as redes sociais ditam hoje, para o bem e para o mal, os rumos da humanidade.

Sejam quais forem os mecanismos de comunicação, desde os mais toscos até os mais sofisticados, o homem sempre soube servir-se deles para expressar-se direta ou indiretamente.

Na Semana Santa de 1908, inusitadas aparições estavam colocando as autoridades em alerta, assim como despertando curiosidade nas pessoas... 

Em sua rotineira patrulha pelas ruas da cidade, a Guarda Municipal encontrou, na madrugada do sábado de aleluia, um "judas" comodamente instalado em um dos bancos da Praça do Mercado, hoje José Bonifácio, defronte ao armazém de Feliciano da Silva. O "judas" tinha duas caras, trajava fraque curto, botas, chapéu de aba larga e pincenê*. O jornal Rio Grande, deu a notícia destacando que pelo local e outros detalhes era "fácil supor a quem se referia a alegoria, cujo efeito foi frustrado pela polícia". E mais, "na mesma praça, defronte à agência do Correio, apareceu de manhã outro judas que escapou à vigilância policial", chamando a atenção de todos que passavam e que, em discussões, julgavam ser um dos carteiros da cidade...

A exposição de bonecos no sábado de aleluia é uma tradição bem antiga, mas que desapareceu entre nós. Sua prática era uma forma de criticar pessoas, normalmente políticos ou figuras polêmicas, dando-lhes o tratamento punitivo como o fariam com Judas Iscariotes por ter entregue Jesus Cristo aos seus algozes. A tradição, chamada por uns de "Queima de Judas" ou "Malhação de Judas", foi introduzida no Brasil pelos portugueses. Na maioria das vezes, o "judas" era surrado até se desmanchar ou então ateavam fogo sobre o seu corpo, normalmente montado com serragem, palha ou trapos velhos e vestido de forma a identificar o alvo da crítica.

Bancos da Praça José Bonifácio - Museu Municipal

Quem seria o "judas" sentado num dos bancos da praça? Certamente uma figura de relevo na Cachoeira daqueles tempos... O distanciamento temporal torna difícil decifrar o recado, mas que ele foi dado, e muito bem dado para os cachoeirenses daquele tempo, ah, certamente foi! 

Imaginem se esta tradição voltasse!!!

*pincenê: óculos sem haste.


terça-feira, 22 de março de 2022

Série: Registros fotográficos incríveis - IV - Engenhos de arroz - Engenho Brasil

Dando sequência à Série: Registros fotográficos incríveis IV, sobre engenhos de arroz, iniciada com o Grande Engenho Central, vamos agora descobrir outras imagens de outro importante estabelecimento do gênero, o Engenho Brasil, que em seu tempo chegou a ser o maior da América Latina. Os engenhos de arroz foram responsáveis durante décadas pela injeção de recursos que fizeram com que Cachoeira, ao longo do século XX, experimentasse muitos avanços nos mais diversos campos da vida da comunidade, havendo registros fotográficos de boa parte deles, dentre os quais muitos garimpados por Claiton Nazar, colaborador da série.

Assim como para o Grande Engenho Central a publicação O Estado do Rio Grande do Sul, editada por Monte Domecq em 1916, foi importante para a propagação e manutenção da sua história, o Grande Álbum de Cachoeira no Centenário da Independência, de Benjamin Camozato, que no corrente ano completa seu centenário, fez importantes registros fotográficos sobre diversos engenhos daquele tempo. Nessa publicação há referências fotográficas ao Engenho Brasil, assim como outros que em Cachoeira, naquele ano de 1922, existiam "em grande número, com capacidade diária, para o beneficiamento de cerca de 4.000 sacos", segundo palavras de Camozato. Dos engenhos apresentados no Grande Álbum, o primeiro foi justamente o Engenho Brasil, de Reinaldo Roesch & Cia., que produzia diariamente 800 sacos das marcas "Micado" e "Oriente", esta última produzida até o encerramento das suas atividades comerciais, além de "Zênite" e "Gaivota". A capacidade de armazenamento do Brasil era de 40.000 sacos. Acompanhavam Reinaldo Roesch no empreendimento, que foi inaugurado em 26 de maio de 1921, os sócios Dr. Alfredo Papay, Reinaldo Treptow e Edwino Schneider. Na ocasião, os convidados ao ato puderam conferir as instalações e os maquinismos adquiridos para o beneficiamento do arroz, sendo obsequiados com churrasco regado a chope.


Engenho Brasil no Grande Álbum de Cachoeira (1922),
de Benjamin Camozato


Engenho Brasil - foto de Benjamin Camozato - Coleção Claiton Nazar


Complexo do Engenho Brasil - reprodução Robispierre Giuliani


Complexo anterior a 1961 - Coleção Rodrigo Carvalho


Uma das seções do Engenho Brasil - Coleção Wilto Schultz



Seção de embalagem do arroz para comercialização - 
reprodução Robispierre Giuliani



Carregamento para transporte - reprodução Robispierre Giuliani


Locomóvel - Robispierre Giuliani


Em 1928, para atender ao crescimento dos negócios, Reinaldo Roesch e seus sócios mandaram construir um grande depósito fronteiro ao prédio da antiga Fundição Treptow, onde estavam instalados, junto aos trilhos da viação férrea. O depósito tinha capacidade para armazenar 50.000 sacos de arroz e foi construído por Sebastião Moser. 

Um grande incêndio, ocorrido em 24 de fevereiro de 1961, quase liquidou com o complexo do engenho. Mas a capacidade do negócio era tanta que logo teve início a reconstrução, ficando o grande Engenho Brasil com a conformação que ainda hoje pode ser conferida naquela que se tornou, por força de sua presença, conhecida como "área dos engenhos", um verdadeiro patrimônio histórico industrial de Cachoeira do Sul.

As lentes do fotógrafo Robispierre Giuliani registraram as manchetes dos jornais da época, referindo o grande incêndio:

Folha da Tarde, de Porto Alegre (capa - 25/2/1961)


Cobertura da Folha da Tarde



Jornal do Povo (capa - 26/2/1961) - Acervo de Imprensa do Arquivo Histórico



O Comércio (capa - 1.º/3/1961) - Acervo de Imprensa do Arquivo Histórico

Com o passar do tempo, o Engenho Brasil, já então propriedade apenas dos sócios Reinaldo Roesch e Edwino Schneider, mantinha investimentos não só na  produção, aquisição e beneficiamento do arroz, como também na pecuária. A capacidade produtiva diária era de 3.000 sacos de arroz com casca, depósito com capacidade para 500.000 sacos, secadores, moega, silos, instalações para parboilização do arroz e posto de gasolina próprio. Em 26 de julho de 1947, os sócios Reinaldo Roesch e Edwino Schneider deliberaram transformar seu negócio em uma sociedade anônima. No começo da década de 1980, a Reinaldo Roesch S.A. era a principal acionista do Engenho de Arroz Ipiranga, de Cacequi. 

Em 1989, o Engenho Brasil encerrou definitivamente suas atividades, tendo atualmente parte de suas instalações locadas para outros empreendimentos.

Chaminé do Engenho Brasil - Jorge Ritter


Robispierre Giuliani



Em qualquer lugar do mundo a área dos engenhos seria tratada como joia!!! Pensemos nisto.


Vista aérea do extinto Engenho Brasil - Renato Thomsen

 Robispierre Giuliani