Espaços urbanos

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Pôr-do-sol e a Ponte do Fandango - Foto Robispierre Giuliani

sábado, 15 de junho de 2019

Clube Comercial - 95 anos


O marco inicial da história do Clube Comercial Cachoeirense se perde no tempo. Antes da fundação da sociedade que se mantém até hoje, ocorrida em 15 de junho de 1924, outras agremiações, de nomes diversos, constituíram suas células fundadoras.

Símbolo do Clube Comercial Cachoeirense - Jornal do Povo

Existia na cidade, desde 1899, uma sociedade chamada Clube Cachoeirense e, em 7 de janeiro de 1900, alguns empregados do comércio fundaram o Clube Caixeiral, sociedade beneficente e recreativa, tendo o conhecido comerciante Pedro Stringuini como primeiro presidente. O número de sócios era de 173, sendo 85 efetivos e contribuintes, 30 fundadores, 56 honorários e dois beneméritos. O Caixeiral era um clube com inclinação a atividades culturais, como concertos musicais e peças teatrais, mantendo inclusive uma banda de música com 18 figuras e instrumental completo.

Em 19 de julho de 1902, o Clube Caixeiral inaugurou sua sede e o jornal O Commercio de 23 de julho deu destaque ao fato, descrevendo-a assim: Lembrava a fachada do alteroso sobrado – uma das mais risonhas vivendas dos contos orientais. Bandeiras, galhardetes, pavilhões e outros adornos naturais chamavam a atenção daquela quadra da nossa bela Rua Sete de Setembro. Um bonito coreto ali construído despertava também a admiração de quantos o avistavam.

Em 1902, tanto o Clube Caixeiral como o Clube Cachoeirense tinham existência própria e independente, com a imprensa local noticiando atividades de ambos. Mas não demorou muito para as duas sociedades se fundirem, por iniciativa da Associação dos Empregados no Comércio de Cachoeira, nascendo o Clube Comercial em 5 de novembro daquele ano.

Mas esse primeiro Clube Comercial não durou muito, sendo extinto em 27 de março de 1910, ocasião em que foi criado o Cassino Clube, agremiação que assumiu o passivo e o ativo da anterior. Foi aclamado primeiro presidente do Cassino Clube o farmacêutico Augusto Cezar Castilho, tendo como vice o Dr. Balthazar de Bem, secretários José Carlos Barbosa e Raul de Freitas Boccanera, com Paulino Breton como tesoureiro.

Em 15 de junho de 1924, no salão do Clube Renascença, foi fundado um novo Clube Comercial, que agregou ao nome a alcunha "Cachoeirense", e em 6 de julho se instalou na casa que pertencia ao Dr. Balthazar de Bem, localizada na Rua Sete de Setembro, onde hoje está sediada a Casa de Cultura Paulo Salzano Vieira da Cunha.

Residência do Dr. Balthazar de Bem - sede do Clube Comercial a partir de 1924
- Acervo COMPAHC

A casa do Dr. Balthazar de Bem, apesar de confortável e ampla, não oferecia as acomodações necessárias para a prática de esportes ao ar livre, uma das atrações preferidas dos que procuravam associar-se a entidades do gênero naquela época. Portanto, os primeiros tempos de funcionamento do Clube Comercial na casa foram essencialmente de realização de bailes e de outras atividades, como competições de xadrez e horas de arte.

Festa no Clube Comercial - Acervo Terezinha Mainieri V. da Cunha

Em junho de 1949, foi lançada a pedra fundamental da nova sede que o Clube Comercial Cachoeirense construiria na Rua Sete de Setembro, esquina com a Rua General Portinho. O edifício foi inaugurado em 5 de setembro de 1957, tendo como grandes impulsionadores da obra Theobaldo C. Burmeister e Edwino Schneider. A obra foi executada pela empresa construtora de Roberto Jagnow & Cia. Ltda., dirigida pelo engenheiro Hugo Schreiner.

Projeto da fachada do Clube Comercial - Acervo do Arquivo Histórico

O tradicional e aristocrático Clube Comercial Cachoeirense foi por muitos anos um dos mais destacados e atuantes clubes da cidade. Reunia a sociedade cachoeirense em eventos de glamour e encantamento. Adquiriu, ao longo de sua história, uma sede campestre, equipando-a com piscina e área de camping que atraiu gerações de cachoeirenses.

Os tempos de hoje são de novos modelos de convívio. As sociedades tradicionais têm encontrado dificuldades em manter seus patrimônios e atraírem os associados para eventos em suas sedes. Mas estas novas características não invalidam a importância que entidades como o Clube Comercial Cachoeirense tiveram e têm para a história associativa da cidade. Alternativas de uso e fruição de seu patrimônio são desafios para as diretorias e os sócios que se mantêm fieis a uma história que chega às portas de um século. Importante demais para ser esquecida.

Entrada do Clube Comercial - Foto Jornal do Povo

domingo, 26 de maio de 2019

O senhor da Tafona


Quem tem a possibilidade de conhecer a sede da antiga Fazenda São José, mais conhecida como Fazenda da Tafona, na localidade de Porteira Sete, interior de Cachoeira do Sul, fica intrigado com um retrato a óleo que domina a sala principal da casa.

Sede da Fazenda da Tafona - foto Renato F. Thomsen

O senhor de olhar plácido, porém decidido, domina o ambiente e parece hipnotizar quem circula pelo local. Como os bons retratos do passado, de dentro da moldura, a figura parece acompanhar os passos de quem ocupa a sala de seu domínio...

Retrato de José Sebastião Vieira da Cunha - obra do Atelier Calegari
- Foto Renato F. Thomsen

O senhor da Tafona é José Sebastião Vieira da Cunha, nascido a 20 de janeiro de 1846, filho de Pamphilo Vieira da Cunha e de Clara Vieira da Cruz Brilhante. Ele não foi o primeiro morador do local. A propriedade remonta ao grande sesmeiro açoriano João Pereira Fortes, bisavô de José Sebastião.

A sorte parece ter sido a sua sina, materializada em proteção e fortuna. Com vinte anos, em 18 de junho de 1866, José Sebastião, certamente movido pelos arroubos da juventude, foi para o Rio de Janeiro oferecer-se para servir ao Brasil na Guerra do Paraguai. Acontece que José Sebastião era o sobrinho preferido e protegido da solteira e rica Anna da Cruz Brilhante que, no desespero de ver o risco que o rapaz corria, conseguiu, certamente com um bom pagamento, que outro moço tomasse o seu lugar. José Sebastião, no entanto, não desperdiçou a oportunidade de ficar na capital do Império e lá se empregou no comércio.

Em 1868, Pamphilo Vieira da Cunha, pai de José Sebastião, morreu. O rapaz teve que voltar para Cachoeira a fim de assumir os negócios da fazenda de criação da tia, de que já era herdeiro universal, e cuja administração até então havia ficado sob os encargos de seu pai.

Readaptado às suas novas funções, em 23 de abril de 1870, José Sebastião casou-se com a prima Maria Manoela Pereira, filha de rico fazendeiro, na Fazenda do Capané. Como era comum aos bem aquinhoados da época, o enxoval da noiva foi encomendado em Portugal, sendo embarcado para o Brasil em uma arca (baú), até hoje conservada no acervo da Tafona.

Arca do enxoval de Maria Manoela Pereira da Cunha - 1870
- Foto Renato F. Thomsen

José Sebastião e Maria Manoela tiveram 13 filhos: Pamphilo, Emília, Afonso, Eduardo, Hermínia, Maria, Manoel, Hugo, Jorge, Edmundo, Julieta, Marieta e Carlos.

José Sebastião (1.º à esquerda) e família - Acervo Fazenda da Tafona

A morte de José Sebastião se deu em 19 de maio de 1916. Por essa época, a Fazenda da Tafona era constituída por uma légua de campos na margem esquerda do rio Piquiri, ocupados pela criação de gado. Outras atividades tinham sido experimentadas, uma delas a da extração de cal, e naquele ano um dos filhos de José Sebastião, Hugo Vieira da Cunha, era sócio de Mostardeiro & Cia., empresa arrendatária de parte das terras para produção de arroz.

A sucessão dos tempos fez da Tafona um repositório de lembranças de diferentes personalidades e épocas. Outros personagens da história de Cachoeira habitaram o lugar, nele interferindo e agregando memórias. Um dos mais célebres foi o médico José Pereira da Silva Goulart, figura proeminente da política cachoeirense e um dos mandatários do atentado contra Antônio Vicente da Fontoura.

Dr. José Pereira da Silva Goulart - Acervo familiar

José Sebastião Vieira da Cunha, cujo desaparecimento “da vida objetiva” já bate em 113 anos, afixou sua figura ao lugar de forma irrefutável. O retrato, obra do famoso Atelier Calegari, não é um simples objeto da história. Ele reflete o “Senhor da Tafona”, solenizado na grande sala da velha casa construída no início do século XIX. Reverência da sua filha Emília, herdeira do quinhão que restara das inúmeras sucessões familiares.

Em 1963, Emília Vieira da Cunha vendeu a propriedade para a sobrinha e afilhada Gemina Vieira da Cunha Silva e seu marido Sylvio Martins da Silva. Hoje a filha do casal, Marô Vieira da Cunha Silva e o marido Marco Schntz conservam aquele patrimônio histórico-cultural.

O retrato nunca saiu de lá. E os olhos de José Sebastião seguem a mirar o tempo. Já viram o passado, observam o presente e perscrutam o futuro.

quarta-feira, 1 de maio de 2019

Sem fugir do trabalho


O trabalho dignifica o homem e pode jogar o seu exemplo para o futuro. Existem personagens da história de Cachoeira do Sul que imediatamente remetem à memória do tanto que a sua força de trabalho representou para modificar e melhorar o seu tempo.

Dentre estas personagens, homens e mulheres. Ainda que alguns exemplos venham do século XIX, quando o protagonismo só era permitido aos homens, também aparecem mulheres que empreenderam, fizeram a diferença e deixaram sua marca.

Escolhemos apenas três e começamos por Albino Pohlmann. Este foi certamente um dos mais notáveis trabalhadores da nossa história. Criativo, engenhoso, inovador e com uma capacidade de produção incrível. De seu gênio inquieto, surgiram inovações que guindaram a economia local a outros patamares. Caso das primeiras experiências com a irrigação artificial das lavouras de arroz, no longínquo ano de 1906. Suas técnicas logo se difundiram, permitindo um incremento na produção arrozeira e no lugar que Cachoeira ocupava na economia do estado. Muito do título de Capital Nacional do Arroz devemos à genialidade de José Albino Pohlmann, para citar apenas uma de suas facetas.

José Albino Pohlmann - Acervo Tânia M. Möller Pohlmann

Antes dele, no século XIX, uma mulher teve que ser protagonista de uma obra e da vida de sua família. Seu nome: Castorina Ignacia Soares. O marido de Castorina, João Antônio de Barcellos, assumiu com a Câmara Municipal a obra de abertura da estrada Cachoeira – Cruz Alta (não é o município homônimo; tratava-se de um distrito de Rio Pardo, proximidades da serra do Botucaraí). No decorrer da obra, João Antônio foi vitimado, em 31 de março de 1853, pela queda de uma árvore. Sem alternativa e tendo que dar cumprimento ao contrato assinado pelo falecido marido, Castorina tocou a abertura da estrada. Em 28 de março de 1854, ou seja, antes de completar um ano da fatídica morte, Castorina cumpriu com o contrato, entregando a obra concluída à Câmara!

Pedro Fortunato Baptista, conhecido por “Pedro Faz Tudo”. Sua alcunha já diz muito! Italiano de nascimento – e bem nascido por lá – foi um dos mais inquietos cidadãos da Cachoeira entre o final do século XIX e o início do século XX. A primeira bicicleta, ou velocípede, aparecida na cidade foi através dele, isto em 1896! Um dos primeiros cinemas também foi sua iniciativa, assim como uma fábrica de licores e outra de sacos de aniagem e algodão. Dotado de boa verve, encantava com seus discursos. Foi um dos entusiastas fundadores da Sociedade Italiana Príncipe Umberto e agente consular da Itália em Cachoeira. As iniciativas que teve não lhe granjearam sucesso. Morreu pobre e solteiro, sob a proteção de um amigo de raízes italianas como ele...

José Albino Pohlmann, Castorina Ignacia Soares e Pedro Fortunato Baptista têm em comum a característica da força do trabalho. José Albino viveu uma vida altamente produtiva até o fim. Castorina recolheu-se ao lugar subalterno que caracterizava as mulheres de seu tempo, e Pedro Faz Tudo se aventurou em atividades que não compensaram seu esforço criativo. Cada um com sua história e todos tendo o trabalho como ponto comum. Viveram suas vidas sem fugir do trabalho.

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