Espaços urbanos

Espaços urbanos
Igreja Santo Antônio - foto Mário H. Kämpf

domingo, 15 de outubro de 2017

80 anos da Igreja Santo Antônio

O arrabalde da cidade conhecido como potreiro Fialho nunca mais foi o mesmo desde que os padres redentoristas conquistaram um terreno para nele construírem uma igreja em louvor de Santo Antônio.

Santo Antônio - Foto Robispierre Giuliani

Convidados por D. Miguel de Lima Valverde, primeiro bispo de Santa Maria, alguns redentoristas chegaram em Cachoeira no dia 18 de novembro de 1921 para estudarem a possibilidade de fundar na cidade uma missão e, quem sabe, uma igreja. Foram recebidos e hospedados em uma pequena casa junto à Capela de São José, no Alto dos Loretos, onde ficaram por um tempo, transferindo-se depois para o prédio do Império, proximidades da Praça Almirante Tamandaré, hoje Dr. Balthazar de Bem.

Capela São José (demolida) - Alto dos Loretos
- Fototeca Museu Municipal
Império do Espírito Santo - Praça Almirante Tamandaré
(hoje Dr. Balthazar de Bem)- Fototeca Museu Municipal

Enquanto se movimentavam em seu afã de fixarem a congregação em Cachoeira, obtiveram junto aos descendentes de Antônia Carolina Fialho um terreno no recém-aberto Bairro Fialho para dar início à construção de um convento e futura igreja. O ano era 1927. Dois anos depois foi inaugurada a capela que se tornou pequena para o crescente número de fieis que frequentavam com assiduidade as celebrações religiosas.

D. Antônia Carolina Fialho - Antoninha
- Fototeca Museu Municipal

Em 6 de agosto de 1933 foi lançada a pedra fundamental da Igreja Santo Antônio, mesmo nome da capela junto ao convento. A construção seguiu projeto do arquiteto alemão José Lutzenberger, em estilo barroco bávaro, e foi executado pelo construtor José Stammel.

Projeto da Igreja Santo Antônio assinado por José Lutzenberger
- Acervo da Igreja
Construção da Igreja - Fototeca Museu Municipal

Ainda inconclusa em seu detalhamento arquitetônico, a Igreja Santo Antônio foi inaugurada em 31 de outubro de 1937, durante a festa dedicada a Cristo Rei.

Enquanto a igreja estava sendo construída, também o bairro passou por transformações. Com ruas abertas e macadamizadas, casas começaram a ser erguidas, fazendo companhia, ainda que esparsa, ao Colégio Imaculada Conceição, educandário estabelecido no local em 1927 pelas irmãs da Congregação de Santa Catarina, também originárias da Alemanha. A assistência espiritual ao colégio era prestada pelos padres redentoristas, cuja ação se estendia à Capela de São José, às colônias e ao Hospital de Caridade, local onde também as irmãs de Santa Catarina prestavam serviço.

Colégio Imaculada Conceição (atual Totem) - Acervo Ilsa Ribeiro


Hoje a Igreja Santo Antônio é a principal referência do bairro de mesmo nome. Os padres redentoristas não estão mais na cidade, mas seu legado religioso segue inesquecível, basta atentar para a joia arquitetônica que ergueram num local que, segundo relatos, era dominado apenas pelo coaxar dos sapos.

Igreja Santo Antônio - Foto Robispierre Giuliani

domingo, 1 de outubro de 2017

O irregular calçamento do Bairro Rio Branco

Seguidamente alguém questiona o porquê do calçamento de algumas ruas do Bairro Rio Branco ser feito com pedras irregulares e tão diferentes dos tradicionais paralelepípedos. Pois as pedras diferentes, em que pese serem alvos de críticas por sua irregularidade, são resultado de um momento histórico ímpar, quando empreendimento público, condições climáticas e solução caseira fizeram parte de uma importante decisão política.

Corria o ano de 1927. Cachoeira nunca havia vivenciado tamanha revolução urbana. As principais ruas e praças viraram verdadeiros canteiros de obras. O resultado da azáfama estava surgindo a olhos vistos. A Avenida das Paineiras não era mais dessas velhas árvores. Tipuanas jovens tomavam os canteiros da nova e belíssima Praça José Bonifácio. Cercadas por delicados anteparos de madeira, necessários para o seu crescimento seguro, as jovens árvores seriam a moldura de uma praça com balaústres, bancos, floreiras e luminárias de primeiro mundo. As calçadas estavam sendo cobertas com um mosaico de padrão especial, cujo nome adotado foi apropriadamente "Cachoeira", pois cobria grandes extensões de passeios na cidade que se renovava sob a batuta de João Neves da Fontoura. Os paralelepípedos cobriam a velha poeira da Sete e de outras ruas. As pedras, vindas de Porto Alegre, chegavam às toneladas no porto.

Novo aspecto da Rua Sete de Setembro com as obras de urbanização
- Fototeca Museu Municipal

Mas veio a estiagem. A seca se anunciava nas águas baixas do Jacuí. As grandes chatas carregadas de paralelepípedos pesados tiveram que interromper a viagem de Porto Alegre a Cachoeira, pois o risco de encalharem nas águas diminuídas era grande.

Chegada de paralelepípedos no porto - Acervo Joaquim Vidal

João Neves discutia com seus assessores diretos que não era possível interromper as obras. Tinha planos para encerrar o ano com todas as melhorias concluídas. 1928 seria ano de finalização de mandato e de outros voos. As grandiosas obras de urbanização que ele herdara – e tocara tão bem – do velho Chico Gama, tinham que ser concluídas! Não havia espaço para atrasos. Que maçada a dificuldade de trazer os paralelepípedos! Havia ainda muito trabalho de calçamento a ser feito, especialmente no ainda jovem Bairro Rio Branco. Eis que alguém anuncia duas pedreiras da cidade que poderiam fornecer o material necessário.

Santiago Borba, um construtor, e Dr. Paulo Felizardo, engenheiro, haviam iniciado a exploração de duas pedreiras, uma localizada próximo da Estação Ferreira e outra no lugar chamado Enforcados. Consultado o diretor das obras municipais, Dr. Acylino Carvalho, João Neves resolveu empregar a pedra destas pedreiras nos calçamentos por concluir.

Estação Ferreira - Acervo COMPAHC

No entanto, as pedreiras locais não tiveram capacidade de vencer a encomenda, de forma que algumas poucas ruas foram calçadas com o “meláfiro preto de grande dureza”, dentre elas algumas de pouco trânsito no Bairro Rio Branco, local quase que exclusivamente composto por casas residenciais. As obras de calçamento foram contratadas pela Intendência na forma de pequenas empreitadas e solucionaram momentaneamente a interrupção do fornecimento de material por via fluvial, garantindo que a grande obra de urbanização e modernização da cidade não fosse interrompida com prejuízo às finanças e aos anseios da municipalidade.

Uma das obras de calçamento no Bairro Rio Branco - Acervo Coralio Cabeda

Como se vê, as pedras irregulares e escuras do Bairro Rio Branco são, muito antes do que um incômodo ao trânsito – uma lição do passado. Traduzem em sua irregularidade o regular uso das finanças públicas, do potencial local e o cumprimento de promessa política. Algo raro e absolutamente irregular nos nossos tempos!

quarta-feira, 20 de setembro de 2017

Cachoeira às portas da Revolução Farroupilha

Corria o ano de 1835. A sede da Vila Nova de São João da Cachoeira experimentava seus primeiros quinze anos de emancipação da vizinha Rio Pardo. Tinha atravessado breves tempos pacatos, enfrentado as agitações do primeiro quartel do século XIX e vivia naquele ano os sinais de um tempo que anunciava dificuldades.

A dita área urbana, arremedo de cidade, vivia ao redor da Igreja Matriz, maior edificação da época e a mais importante. Próximo dela, na antiga Praça do Prestes, erguia-se a rivalizar com o templo religioso, o templo das artes: o audacioso Teatro Cachoeirense.  Iniciativa da classe caixeiral – como prova da força do comércio na economia de então - dispunha de incríveis 500 lugares! Na outra ponta da vila, estava demarcada a Praça do Pelourinho, ladeada por sangas. A Lava-pés, como bem diz o nome, oferecia suas águas para que os viajantes limpassem os pés antes de adentrar no recinto da vila, dirigindo-se pela Rua do Loreto ou pela Rua da Igreja, ou buscando as ruas do Paulista, de Santo Antônio, do Cardoso, chegando às travessas do Soeiro para, quem sabe, finalizar na dos Pecados...

Teatro Cachoeirense - foto do final do século XIX
- Fototeca Museu Municipal

A principal casa comercial pertencia a Antônio Vicente da Fontoura e um italiano de nome Estevão Lombardo, segundo a pesquisadora Ione M. Sanmartin Carlos, provavelmente o primeiro a aportar em Cachoeira, mantinha uma casa de fazendas e quinquilharias bem promissora. Como dizia Aurélio Porto, Cachoeira era “a cabeça de uma vasta região” e rota para atingir diferentes plagas, razão de ser um importante entreposto comercial e de atrair interessados em investimentos, como Joaquim Barcelos, Antônio Joaquim Barbosa e João Teixeira de Carvalho, que solicitaram à Câmara, naquele ano, licença para abertura de casas de negócio.

Outros profissionais vieram instalar-se em Cachoeira. Como era de praxe, precisavam apresentar seus diplomas, ou títulos, como então eram chamados, para serem autorizados a trabalhar. Juntaram-se a Gaspar Francisco Gonçalves, que era cirurgião-mor autorizado por D. João VI, o licenciado José Francisco Alves Malveiro, especializado em sangria e com título também concedido por D. João, e o boticário Joaquim dos Santos Falcão, que apresentou à Câmara titulação na arte da farmácia concedida por D. Pedro em 1825.

As principais autoridades da vila e responsáveis pela administração municipal eram os vereadores. O presidente, José Pereira da Silva, no posto por ser o mais velho, dividia as responsabilidades com Tristão da Cunha e Souza, Manoel Álvares dos Santos Pessoa, Antônio Vicente da Fontoura, Joaquim Gomes Pereira, Joaquim Corrêa de Oliveira e Antônio Joaquim Barbosa, este também juiz ordinário. Os vereadores suplentes eram José Rodrigues de Moraes, Noé Antônio Ramos, João Antônio Galvão, Lucas José Duarte, Francisco de Barros Lima e Jacinto Lopes Falcão. José Pereira Fortes era outro juiz ordinário e Antônio Xavier da Silva, juiz de órfãos. Felisberto Machado de Carvalho Ourique era juiz municipal, Luiz Rodrigues de Castro e Silva e Manoel da Silva Ferraz eram promotores públicos, havendo ainda os inspetores de quarteirão, dentre os quais Joaquim Francisco Ilha e Antônio dos Santos Falcão.


Antônio Vicente da Fontoura
- Fototeca Museu Municipal

Em abril, no dia 22, foi instalado o primeiro júri, depois do desembaraço de problemas, dentre os quais o fato do juiz de direito residir em Rio Pardo, sede da comarca. Naqueles primeiros tempos, as disputas pelas funções da justiça eram bastante acirradas; portugueses e brasileiros, os primeiros ainda em grande número, digladiavam-se pela obtenção das nomeações para tais funções.

Senhores da política, os portugueses ou caramurus, do Partido Português, vinham dominando a vila desde 1831 e tinham nas figuras de Manoel Álvares dos Santos Pessoa e Francisco José da Silva Moura grande influência. Noé Antônio Ramos, Gaspar Francisco Gonçalves, Antônio Vicente da Fontoura e José Gomes Portinho despontavam como lideranças de oposição aos portugueses, agitando o cenário político da vila. E como nada é fruto do acaso, as disputas entre os portugueses, conservadores, e os brasileiros natos, liberais, indicavam o rumo que as coisas estavam tomando.

Em 13 de maio, numa sessão da Câmara, o vereador Joaquim Gomes Pereira comunicou ter ficado sabendo que estavam acontecendo reuniões em algumas casas para tratarem de assuntos de revoluções, para o que sugeriu alerta e atenção. 

Assinatura de Joaquim Gomes Pereira - Acervo documental Arquivo Histórico

A partir da instalação do júri, haviam sido presas 211 pessoas pelos crimes de morte, ferimentos e roubos, principalmente. Do total, a maior parte era da própria vila, sendo os demais infratores trazidos das capelas filiais ou distritos, dentre eles Santa Maria e Livramento. Os crimes cometidos incluíam também arrombamentos à cadeia, então uma casa alugada. Em maio, a Câmara lançou edital para construção da cadeia, conclamando “toda a pessoa a quem convenha deitar a pedra no lugar destinado para a cadeia haja de comparecer em sessões da Câmara nos dias 26 e 27 do corrente para se tratar do ajuste”. A obra não chegou a ser realizada e a cadeia “própria” só se concretizou com a conclusão da Casa de Câmara, Júri e Cadeia em 1864.

A Guarda Nacional, força militar composta por cidadãos, tinha um contingente de 194 homens, sendo 167 de serviço ordinário e 27 da reserva no 1º distrito da vila. No 2º distrito havia 87. Os esquadrões da Guarda Nacional tinham ordem de se organizar e, às vésperas da eclosão da revolução farroupilha, a sua reunião foi dificultada pelos rios caudalosos, o que foi certamente ocasionado pelas chuvas que são comuns no mês de setembro. Um desses esquadrões, de cavalaria, foi formado em junho de 1835, reunindo cidadãos residentes entre Jacuí, Botucaraí e Serra Geral, sob o comando de Antônio Vicente da Fontoura.

Questões envolvendo a escolha dos juízes de paz dos distritos e dificuldades para reunir guardas nacionais ou mesmo formar esquadrões começavam a preocupar as autoridades. As alegações eram de toda ordem e denotavam a cautela com o clima belicoso já então pressentido.

O 20 de setembro não produziu registro na documentação da Câmara, mas no dia seguinte, 21, um ofício do juiz de paz José Gomes Porto participava aos vereadores que havia fixado edital de convocação de voluntários para sentarem praça no corpo de polícia, mas que não aparecera nenhum candidato no prazo marcado de trinta dias. Era evidente o temor do povo. Os próprios vereadores começaram a apresentar justificativas para suas ausências às sessões. Calos, hemorroidas, pisaduras e toda sorte de problemas eram alegados para as faltas... O vereador Manoel Álvares dos Santos Pessoa, depois de ter se envolvido em uma questão em que fora alvejado no pé, comunicou a Câmara, em 13 de outubro de 1835, que estava de mudança para Porto Alegre.

Assinatura de Manoel Álvares dos Santos Pessoa - Acervo documental Arquivo Histórico

A vila envolveu-se de fato com o conflito no dia 23 de setembro, quando o juiz de paz Gaspar Francisco Gonçalves soube que em Rio Pardo um grupo contrário à causa liberal estava se negando a aceitar a autoridade do Dr. Marciano Pereira Ribeiro como presidente da província.  Em 26 de setembro Gaspar, juntamente com Antônio Vicente da Fontoura, comandante de um esquadrão e companhia da Guarda Nacional, acompanhados por Manduca Carvalho, dirigiu-se à cidade vizinha para socorrer os revolucionários, fazendo Rio Pardo aderir aos farroupilhas.

Assinatura de Gaspar Francisco Gonçalves
- Acervo documental Arquivo Histórico

No dia 24 de setembro, a Câmara divulgou um edital conclamando o povo a manter a tranquilidade e o respeito às autoridades constituídas. 

Entre celebrações religiosas, ataques ora de liberais, ora de legalistas, destruição de registros documentais da Câmara e fuga de autoridades, Cachoeira adentrou no decênio.

Finda a revolução farroupilha, ficaram adormecidos os ódios cultivados naqueles tempos – e antes mesmo deles – para desabrocharem novamente num frio dia do início de setembro de 1860, quando os conservadores Hilário Pereira Fortes, José Pereira da Silva Goulart e Felisberto Machado de Carvalho Ourique mandaram justiçar os liberais, perecendo Antônio Vicente da Fontoura depois do atentado sofrido na Igreja Matriz. O passado seguia muito presente...

Igreja Matriz - Fototeca Museu Municipal