Espaços urbanos

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Museu Municipal iluminado pelo sol que se filtra do Château d'Eau no equinócio da primavera - 22/9/2018, 18 horas - foto Mirian Ritzel

domingo, 24 de junho de 2018

Julius Rieth – obras esparsas na paisagem. Quem reconhece?


Uma cidade rica em história como é Cachoeira do Sul, que viveu diferentes momentos, guarda em suas esquinas ventos escondidos que por elas já circularam em diferentes tempos. Estes ventos, volta e meia, adejam sobre as ruas e em suas andanças destravam janelas que se abrem para o passado, revelando eventos e figuras que o tempo levou. Em lampejos, coincidências e assopros as janelas oferecem a oportunidade de relembrá-los...

Janelas da mansarda da Casa 500 - foto Renato F. Thomsen

A recente discussão sobre o destino da Casa 500 ofereceu-nos uma janela que remeteu ao tempo em que por aqui despontou a figura do arquiteto alemão Ernst Julius Rieth. A reforma promovida por Djalma Pereira da Silva na casa da Rua Sete que havia sido da família do Comendador Fontoura, iniciada em 1917, tudo indica promoveu o trabalho do profissional chegado a Cachoeira em 1914.

Júlio Rieth, como passou a ser chamado aqui, trazia na bagagem uma grande folha de obras construídas na Alemanha, especialmente em Stuttgart, cidade onde se formou em 1904. Naquela cidade alemã algumas das obras de Rieth compõem o centro histórico, sendo muitas delas tombadas como patrimônio histórico! Quando requereu no Brasil a licença para atuar em sua área, declarou ter construído diversos prédios de quatro e cinco andares na Alemanha, assim como pontes.

O fato é que se consagrou em Cachoeira, cidade que escolheu para residir a partir de 1914. Na conta de suas obras estão casas que até hoje figuram na nossa paisagem e outras projetadas e talvez nunca executadas – ou desaparecidas no processo natural de crescimento da cidade. Júlio Rieth também executou várias obras públicas, como construção e compostura de pontes no interior do município e obras hidrossanitárias. O maior prédio assinado por ele e que domina o cenário do Bairro Santo Antônio é o do Colégio Totem, antigo Colégio Imaculada Conceição, construído em 1927, quando Rieth era sócio de Roberto Jagnow, outro conhecido construtor local.

Projeto do Colégio Imaculada Conceição - Júlio Rieth (1927)

Mateus Rosada, arquiteto e professor do Curso de Arquitetura da UFSM/Cachoeira do Sul, identificou residências da cidade cujo estilo remetem à prancheta de Júlio Rieth pelas semelhanças construtivas que apresentam entre si. São elas a Casa 500, a casa construída por Frederico Richter, na Rua Dr. Sílvio Scopel, a residência do Dr. Lauderi Ladwig, na Rua Presidente Vargas, dentre outras. Antes dele, a então mestranda Vera Grieneisen, alemã de nascimento, visitou Cachoeira atrás das marcas deixadas por Rieth. Ela identificou várias edificações, dentre as quais o antigo Café Frísia, na Rua Sete de Setembro, esquina General Portinho, o Armazém Tischler, na Rua Júlio de Castilhos, esquina Juvêncio Soares, e as residências das famílias Dickow e Cunha, vizinhas na Rua Ernesto Alves, Bairro Rio Branco.


Casa construída por Frederico Richter - COMPAHC
Residência Dr. Lauderi Ladwig - COMPAHC

Residência Dickow - COMPAHC

Já era do conhecimento a autoria dos projetos da extinta Casa Alaggio, na Rua Sete de Setembro, construída logo depois do Colégio Imaculada Conceição, à época em que Rieth tinha sociedade com Roberto Jagnow. Antes disso, sócio do engenheiro Hans von Hof, construíram o Instituto Pré-Teológico da Comunidade Evangélica, hoje o tombado Jardim de Infância do Colégio Sinodal Barão do Rio Branco.

Jardim de Infância do Colégio Sinodal - COMPAHC
Casa Alaggio - Rua Sete de Setembro - Fototeca Museu Municipal

Júlio Rieth viveu em Cachoeira do Sul com sua família até sua morte súbita, em 31 de julho de 1945, enquanto trabalhava na construção da residência de Ervino Hamann, em Rincão da Porta. Seu falecimento foi muito sentido pela comunidade e o sepultamento se deu no Cemitério Municipal.

A casa de sua moradia ficava na Rua D. Pedro II e existe até hoje. Seu estilo refinado fez sucesso na Cachoeira progressista nas primeiras três décadas do século XX.

Júlio Rieth e família na residência da Rua D. Pedro II - acervo familiar

Benditas janelas do passado que se abrem, vez ou outra. Suas revelações são oportunas para nos darmos conta de que a riqueza que temos é muito maior do que suspeitamos!

Esta postagem homenageia o trabalho da Vera Grieneisen, a perseverança da Elizabeth Thomsen e os bons parceiros da Arquitetura - UFSM/Cachoeira do Sul. 

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