Espaços urbanos

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Igreja Santo Antônio - foto Mário H. Kämpf

sábado, 9 de janeiro de 2016

A Lenda das Sangas da Inês e da Micaela

Quando as sangas da Inês e da Micaela se encontrarem, diz a lenda, a cidade desaparecerá! 

Nunca antes esta antiga lenda foi tão lembrada... e temido seu vaticínio! Cachoeira do Sul tem sido assolada por eventos naturais de grandeza poucas vezes experimentada e em tão repetidos eventos! Será que as crendices do passado e o folclore surgido em torno delas têm lugar em pleno século XXI? 

Pelo sim, pelo não, eis a lenda extraída da edição de número 976 do jornal O Commercio, datado de 14 de agosto de 1918:

Não é nenhuma novidade dizer-se que cada cidade, cada lugarejo, cada sítio tem suas lendas: umas verdadeiramente interessantes e poéticas outras despidas destes requisitos, revelando crendices mais ou menos bárbaras dos primitivos povoadores desses lugares.

Esta que vamos contar, ou melhor, dizer como no-la contaram, está muito longe de pertencer à classe da lenda de Psiquê e de tantas outras que fazem “o encanto de quem as lê”, ou dos que as ouvem da voz da tradição. Esta, dizemos, é uma lenda essencialmente rústica, que nada mais pode despertar senão o sabor de ouvir o relato das coisas passadas.

O nosso interlocutor – não importa saber-lhe o nome – é naturalmente uma pessoa antiga, amante de coisas antigas. E vem daí o reter ele (ou ela) na memória o que dizem, desde os tempos idos, dessas duas sangas que, lançando-se no Jacuí, limitam, pelos lados Leste e Oeste, a colina em que atualmente se estende a cidade da Cachoeira.

Ouçamos a narração:
“Ali entre a Bica e o rancho onde residiu e morreu o velhinho João Rabequista que, quando não pôde mais pescar saía a tocar uma velha rabeca para ganhar a vida, era o ranchinho da Inês, viúva, segundo dizem, de um português em cuja companhia viveu por dilatado tempo numa constante e bem compreendida harmonia, descontados apenas alguns bate-bocas terminados em pontapés. Mas como tudo neste mundo tem um fim, mais hoje, mais amanhã, o seu velho, homem mais robusto e ativo agenciador da vida, apareceu um belo dia atacado de uma doença esquisita, a modos que enfeitiçado; e não houve remédios caseiros nem benzeduras que impedissem o seu Manoel entrar a definhar a olhos vistos, até que uma noite quatro velinhas bruxuleantes iluminaram-lhe o caminho da posteridade.

Ninguém pôde explicar, senão pelo feitiço, a natureza da moléstia que o matara, ainda os mais entendidos na arte de curar daquele tempo.

De sua junção com a preta Inês não ficou prole; e isto acrescentou sobremodo a desolação da pobre que, só e abandonada, deixou-se tomar de grande acabrunhamento; e então, às horas sombrias carpia suas mágoas, divagando pelas margens da sanga que, a esse tempo, eram revestidas de árvores, não contando algumas clareiras resultantes dos caminhos abertos pelos moradores do sítio e das devastações dos lenhadores.

Um dia, já ao escurecer, Inês sentara-se ao portal de seu velho rancho, e, pensando no passado, recordava-se que antes do seu homem enfermar e bater asas para o outro mundo notara, diversas vezes que, no silêncio da noite, uma coruja muito grande, muito grande, pousava sobre tocos carcomidos em derredor do rancho e soltava pios agourentos e lúgubres.

E assim absorta e passando em revista na mente doentia todos os fatos que pudessem explicar a causa do desandar de sua sorte, ouviu uma voz saída das sombras, que assim dizia:
- Não se apoquente, siá Inês; nesta vida não valem tristezas; o que vale é a gente saber d’onde veio o mal e tratar de dar-lhe remédio. Olhe, o seu homem não era nenhum santo, e foi por isso mesmo que a sirigaita da Micaela deu-lhe as coisas ruins para beber de que veio a enfermar e morrer.

E uma sombra passou-lhe diante dos olhos, sumindo-se na treva.

A pobre criatura tomou-se de tal pavor que nada mais fez que recolher-se para o interior do casebre, passando, porém, a noite em claro, atormentada pela revelação misteriosa da qual resultava uma amarga desilusão e uma funda irritação contra Micaela.

- Mas, quem era essa Micaela?

- Pouco abaixo do lugar que se conhece por Santa Josefa – continuou a narração – existiu antigamente um casinha à margem esquerda da sanga situada ao lado Leste da cidade, que muita gente conheceu habitada por uma cabocla, - dizem que de muita figura, a quem davam o nome de Micaela, cuja vida era cercada de certo mistério e cheia de acidentes. Daí é que vem o nome de Sanga da Micaela, da mesma forma que Inês deu o nome à outra.

Mas como ia dizendo, Inês, extremamente abalada por aquela noite mal passada, resolveu, logo ao amanhecer, ir à Aldeia, onde decerto colheria explicações sobre o que lhe acontecera; e sucedeu que ali chegando não faltou quem não estranhasse a sua cegueira em relação aos fatos ocorridos entre Micaela e seu finado companheiro, os quais ao princípio muito amigos, como todo o povo sabia, tornaram-se depois inimigos por causa de umas coisas que se meteram na cabeça da cabocla que, por sinal, era bem boa bisca.

Desde essa manhã a boca da Inês incendiou-se contra Micaela, da qual, daí em diante pôs todos os podres na rua, os que tinha e mais ainda os que não tinha.

Sabedora disso, a cabocla pagou-se na mesma moeda. Finalmente, sempre que se avistavam era um bate-boca interminável! Certo dia, pegaram-se à unha com tanto encarniçamento que, se não apartassem, estrangular-se-iam uma à outra.

Passaram os tempos; mas como ódio velho não cansa, à medida que o tempo corria mais se azedavam aquelas rivalidades.

Assim passaram os anos até que Inês, muito velhinha e já quase em estado de fantasma, veio uma noite a falecer perto da Bica, praguejando até ao seu último alento contra sua odienta inimiga. Pouco lhe sobreviveu a cabocla, morrendo também em estado de extrema pobreza e abandono.

Toda esta história vem para dizer, meu senhor, que após o desaparecimento dessas duas mulheres, entraram a aparecer as almas delas quase todas as noites nas respectivas sangas, viradas em fantasmas, empenhadas ambas no trabalho de, com as unhas, solaparem as terras das margens – cujas terras as enxurradas andam levando para o rio desde aquele tempo até agora.

Parece que com isto as sangas querem se encontrar para se devorarem mutuamente, continuando a vontade dos seres extintos.

Como se vê, a sanga da Inês, que começava da Bica e era muito estreita, está num socavão imenso e já está no ponto de tragar a volta da estrada do Seringa, ao mesmo tempo que vai avançando para o dorso da colina onde, daí a pouco, as casas da cidade se precipitarão ao abismo que a alma da Inês está cavando a seus pés.

Pelo outro lado, a da Micaela vai fazendo a sua tarefa, talvez com maior empenho. Haja vista o que ela tem feito pela altura do Lava-pés. Não há paredões de pedra que bastem a obstar as deslocações das terras corroídas pelas unhas da Bruxa.

Se a engenharia se descuidar, a cidade será igualmente arrastada ao abismo também por esse lado.

Por isso é que o povo diz que quando as sangas se encontrarem, a Cachoeira se acabará.

“Das Crônicas”

Sobre a Inês não há referências à sua existência. Mas Micaela existiu de fato e era moradora das proximidades da sanga que leva seu nome, mais precisamente na área que hoje se constitui o Parque Municipal da Cultura, onde estão o Museu, o Jardim Botânico e o Zoológico Municipal. 

Parque Municipal da Cultura - foto Jorge Ritter
A documentação primitiva das terras, encontrada no Cadastro de Terrenos da Vila Nova de São João da Cachoeira, complemento da planta de João Martinho Buff, de 1850, diz o seguinte:
- número do terreno: 281
- localização: frente - Rua Santa Helena (hoje Rua Dr. Liberato S. Vieira da Cunha), fundos - junção das duas sangas (hoje denominadas Lava-pés e Micaela)
- dimensões: 320 palmos de frente
- proprietários: sucessores da falecida Michaella
- autoridade concessora do título: José Carvalho Bernardes, Comandante da Vila
- época de demarcação: 1820 aproximadamente.

As lendas, histórias nascidas no seio da população e difundidas geração a geração, mesclam com maestria verdade e ficção...

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