Novamente se bebe da fonte inesgotável das páginas do jornal O Commercio, conhecido ao seu tempo como Comercinho, para trazer as informações que compõem a série "Antigas Fazendas de Cachoeira". Na edição do dia 8 de março de 1916, à primeira página deste importante jornal que contou o cotidiano de Cachoeira ao longo de mais de seis décadas e meia, se encontra a notícia "Excursão a S. Nicolau".
Depois do redator, novamente anônimo, dar início ao texto com explicações de que não trataria de assuntos relacionados ao santo, tampouco ao arroio que toma o seu nome, certamente assim denominado por habitar suas imediações algum morador cuja alcunha homenageava São Nicolau, é que dá início à descrição da visita feita à fazenda homônima.
Segundo a crônica que ficou preservada na coleção de O Commercio, no acervo de imprensa do Arquivo Histórico, a saída de Cachoeira em direção à propriedade deu-se nos "primeiros albores do domingo último", ou seja, no dia 5 de março de 1916, quando "a cidade ainda permanecia imersa nas profundezas do sono" e a pequena comitiva que faria a visita partiu da Avenida das Paineiras em direção à margem do Jacuí. Ora, a Avenida das Paineiras era a quadra da Rua 7 de Setembro fronteira à Praça José Bonifácio, na época arborizada por grande número de paineiras. Hoje, tal trecho corresponde à quadra em que a Rua 7 desdobra-se em duas pistas marcadas por um canteiro central. Dito isto, a comitiva tomou uma "barca" no antigo porto, "veículo previamente destinado a conduzi-la à estância de São Nicolau", então propriedade de Júlio Medeiros de Albuquerque. Chegados à outra margem do Jacuí por volta das 7 horas, logo tomaram assento no carro puxado por bons cavalos que os aguardava.
A viagem correu tranquila pela "linda várzea do Barbosa", até que ao chegarem próximo ao arroio que leva o nome de São Nicolau o carro em que estavam "ficou algum tempo com as rodas encravadas nos barrancos de um pequeno banhado". Como a distância daquele local até a fazenda não era grande, terminaram o trajeto a pé. A caminhada serviu para lhes abrir o apetite e degustarem com prazer a "mesa do excelente café" com que foram recebidos pela família proprietária.
"A Fazenda de São Nicolau, pertencente outrora ao Sr. José Marques da Silveira [...] fica ao Sul da cidade da Cachoeira, a légua e meia de distância." Na época, já estava "acrescentada com campos contíguos comprados a herdeiros de José Custódio Coelho Leal, tendo 38 quadras de sesmarias". O campo era "dos da de melhor qualidade" que existiam no 2.º distrito: "todo limpo, macio e fartamente empastado", [...] literalmente povoado de excelente rebanho bovino". Possuía ainda criação de animais cavalares e um bom rebanho de ovelhas. A fazenda estava "muito bem tapada e dividida em invernadas, tendo, junto à mangueira, bretes muito aperfeiçoados para facilitar o serviço de marcação e beneficiamento."
Segundo ia descrevendo o redator, "o estabelecimento de moradia assumiu, graças às reformas feitas na antiga casa e construções novas, uma feição mais confortável e moderna." O serviço de abastecimento de água retirada de uma vertente era feito através de bomba acionada por moinho de vento. Levada por pressão à caixa do depósito, a água era distribuída por encanamentos a "todos os departamentos da fazenda: cozinha, casa de banhos, tanques de lavar roupa, de irrigação do jardim e de bebedouro aos animais domésticos, etc." O poço e o moinho estavam a 300 metros da sede, sendo "a água levada a uma altura de 15 metros."
Na sequência da descrição, surge a informação de que o serviço de instalação da água foi feito pelo Dr. João Minssen, "a cuja reconhecida competência e idoneidade hão sido confiadas outras instalações do gênero neste município, sempre com bom êxito." Ora, o Dr. João Minssen, hoje patrono da Biblioteca Pública Municipal, de que foi o primeiro diretor, era agrônomo de profissão e deixou um legado de avanços não só na sua área, como em empreendimentos variados a que se dedicou no município.
Outra benfeitoria importante foi a implantação de diversos açudes, "distribuídos pelos locais necessários" da propriedade, o que remediou o inconveniente da "falta de aguadas".
Nas imediações da casa que servia de sede à fazenda, descrita como uma "vivenda confortável, ampla, bem arejada e dotada dos cômodos indispensáveis", havia um grande açude que seria destinado à "alimentação de um tanque carrapaticida", a ser construído na próxima primavera.
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| Sede da Fazenda São Nicolau - Acervo familiar - gentileza Méia Albuquerque |
A propriedade também dispunha de "uma boa quinta e extensas lavouras" que produziam para o seu consumo. Foi notada uma grande criação de galinhas das melhores raças, além de uma "pequena criação de porcos ingleses em dependências apropriadas a esse fim."
Ao fim da visita, a família proprietária serviu um "lauto almoço" à comitiva de O Commercio, cuja "bela e brusca ofensiva foi comandada pelo general von Möller", aqui se referindo o redator ao proprietário do jornal, Henrique Möller Filho.
Quanto ao dono e anfitrião da Fazenda São Nicolau, deixaram registrado na matéria que "além de fazendeiro", era também "um hábil agrimensor e, de par com a cultura dos campos", cultivava "também sonetos". Era "poeta e trabalhou, noutros tempos, na imprensa diária da culta cidade de Pelotas, exercendo a sua atividade na redação do Diário Popular. Com o mesmo compasso que mede os campos, mede os versos", observou o redator, arrematando: "Mas já se vê que não é nenhum boêmio que ande a desperdiçar o tempo à cata de rimas."
Em 2026, a Fazenda São Nicolau segue escrevendo a sua história com os descendentes de Júlio Medeiros de Albuquerque. Na sede, conserva o velho casarão modificado em sua arquitetura, porém cheio de memórias de uma tradição familiar forjada nos campos dedicados a São Nicolau.
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| Suely Soares, Sarita Soares, Sylvia e Isidoro Albuquerque (sentados). Em pé, Célia Dutra Soares Acervo familiar - gentileza Méia Albuquerque |
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| Vista atual, vendo-se o "moinho de vento" - foto Méia Albuquerque |
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| Vista atual da sede da Fazenda São Nicolau - foto Méia Albuquerque |



