Espaços urbanos

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Catedral em festa - foto Renato F. Thomsen

sábado, 21 de junho de 2014

Ainda a Bandeira Branca

O sírio-libanês Haguel Botomé era definitivamente um homem de marketing. Pelo menos assim o definiríamos no século XXI. Mas ele comerciava no início do século XX! E isto certamente o põe na vanguarda em iniciativas de propaganda de negócios.

Haguel Botomé com a esposa Haifa e a filha Jofreta
- Grande Álbum de Cachoeira (1922) - Benjamin Camozato -

Em julho de 1925, por exemplo, mandou arrancar todas as lajes e tijolos dos passeios de sua loja, na Rua 15 de Novembro, esquina General Osório, e substituí-los por mosaicos. Sob a supervisão pessoal de Fernando Rodrigues, o fabricante de mosaicos da cidade, acrescentou na calçada o letreiro que recentemente foi destruído. Mesmo que as pessoas que cruzavam suas calçadas não entrassem na loja, ou observassem com o canto dos olhos o estoque exposto em seu interior, saíam certamente com o nome da casa na ponta da língua ao lerem os mosaicos brancos com letras vermelhas: CASA DA BANDEIRA BRANCA. A propaganda já era a alma do negócio!
Em outra jogada interessantíssima de divulgação do comércio que praticava, no mês de novembro daquele mesmo ano, Botomé resolveu vender todo o estoque da loja e mandou publicar no jornal O Commercio (Cachoeira, 1900-1966), em várias edições, uma sugestiva quadrinha:

Aproveitem a torração!

Se quereis ótimas compras,
 Fazer pechincha de arranca,
Visitai agora mesmo
A Casa da Bandeira Branca.

Nessa loja preferida
E barateira de fato,
Vende-se muito, por pouco,
Pois só se vende barato.

Para o gosto delicado
Do freguês mais exigente,
Tem artigos escolhidos
De qualidade excelente.

Perfumaria estrangeira
Magníficos bordados,
Fazendas de toda a espécie,
Cortinas e cortinados.

Para homens, só se vendo,
Sortimento que é um primor:
Chapéus, cuecas, camisas.
Gravatas de qualquer cor.

Para noivas, nem se fala,
O que há de fino e de chique,
Véus, grinaldas, confecções,
E meias de seda BIC.

Enfim, como todos sabem,
Essa loja da Bandeira,
É a preferida do povo
Por ser a mais barateira.

E agora, ainda por cima,
Pra provar que não me engano,
Só vai vender pelo custo
Todo o resto deste ano.

Vede, pois, ó freguesia,
Comprar barato é que é,
Pechinchas e mais pechinchas
Na loja do Botomé.


Não há registro de que Haguel Botomé tenha conseguido vender todo o seu estoque depois dessa campanha. Mas uma coisa é certa: quase 100 anos depois, ainda seria considerado um bom marqueteiro.

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