Espaços urbanos

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Estátuas no frontão da União de Moços - foto Antônio Sarasá

domingo, 15 de abril de 2018

As pedras do antigo porto

Muitas vezes o silêncio protege a história. Ou a ignorância da sua concretude. Tem sido assim com as velhas pedras que calçam o início da Moron, quando ela nasce lá no Jacuí, ainda mergulhada nas águas.


As grandes e irregulares pedras estão ali desde o início da década de 1850, quando Fidêncio Pereira Fortes empreitou a obra de construção da rampa de embarque e desembarque do porto da Vila Nova de São João da Cachoeira.


Cartão-postal em que se vê claramente as pedras da rampa da Moron
- Fototeca Museu Municipal

A navegação era, naqueles meados do século XIX, importante modal de transporte. O Jacuí, em sua magnitude de águas, permitia o trânsito de embarcações até 58 toneladas já no início da década de 1840, quando Antonio Kussmann e Nicolau Faller começaram a navegação comercial entre Rio Pardo e Cachoeira. Mas faltava um porto organizado, com uma rampa que garantisse comodidade ao trânsito no embarque e desembarque.

Em outubro de 1852, a Câmara de Cachoeira solicitou ao engenheiro Frederico Heydtmann uma planta e orçamento da rampa que chegou à cifra de 9:524$200 réis, considerada vultosa. Em janeiro de 1853, Fidêncio Pereira Fortes conseguiu arrematar a obra por 3:169$200 réis a menos. Como era praxe naquela época, apresentou como fiador Antônio Pereira Fortes e teve que aguardar que a presidência da Província aprovasse a arrematação, o que se deu em 4 de maio de 1853.

 Dentre as cláusulas do contrato de arrematação, estava prevista a entrega da obra para vistoria em dois anos, não sem antes comunicar, com a antecedência de dois meses, a conclusão de cada uma das etapas, como construção de alicerces, desaterro e empedramento, para que fossem examinadas por comissão designada pelas autoridades. O pagamento do valor contratado seria feito em três parcelas, sendo a mais alta, no valor de 3:177$500, no ato da portaria de arrematação, e as outras duas, no valor de 1:588$750 cada, quando a obra estivesse na metade e, por último, na conclusão.

O início das obras apresentou uma dificuldade imprevista ao arrematante. Um grande banco de pedra vermelha encontrado no local causou sobrecarga de trabalho para escavação, obrigando Fidêncio a solicitar indenização e apresentar orçamento suplementar. Aprovado o aumento no valor, o arrematante precisou solicitar adição no tempo de entrega em mais um ano.

Após todos os percalços surgidos, Fidêncio Pereira Fortes finalmente entregou a primeira parte da rampa e calçada do porto em 1.º de dezembro de 1856, não deixando de alertar que deveriam ser tocadas as obras de construção dos paredões, calçada e empedramento até o banco de pedra vermelha. Em 7 de abril de 1857 a Câmara abriu concorrência para o restante das obras, sendo vencedor José Ferreira Neves, tendo como fiador Antônio Vicente da Fontoura.

Há mais de 160 anos as pedras assentadas por Fidêncio Pereira Fortes estão no nascedouro da Moron. Submetem-se, desde 1856, ao vai e vem das águas do Jacuí. Agora, como que tomadas de vida, andam assoprando nos ouvidos dos pescadores que por ali deixam suas canoas que têm medo do asfalto. Não são contra o progresso, como alguns insistem em afirmar. Elas querem mesmo é preservar sua história.


           
Fotos: Cristina da Gama Mór
Fonte: Cachoeira do Sul em busca de sua história, de Angela S. Schuh e Ione M. Sanmartin Carlos. Martins-Livreiro Editor, Porto Alegre, 1991.

8 comentários:

  1. Que Deus te abençoe, Mirian Ritzel e te proteja nesta tarefa de estudar,amar e cuidar nossa história e nossa Cachoeira.

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  2. Uma aula de história! Obrigado Miriam.

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  3. Beleza!Bom saber que nesse caminho tem o trabalho de meu trisavô Fidêncio.

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