Espaços urbanos

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Balsa atravessando o Jacuí - Foto Renato F. Thomsen

domingo, 1 de abril de 2018

O Roberto da Música


Existem pessoas que apesar de terem desaparecido há dezenas de anos, vez ou outra têm seus nomes trazidos à tona, ora por um fato resgatado em algum documento, ora pela marca que imprimiram em seu distanciado tempo de vida. Uma destas figuras é o “Roberto da Música”, que emerge dos tempos idos, regendo bandas e dando tom aos sonhos coletivos de operários na velha Cachoeira do final do século XIX.

Roberto Francisco Silva, filho de José Francisco da Silva, nasceu em 7 de junho de 1860. Duraria apenas 49 anos, falecendo em 10 de novembro de 1909. Detalhes de sua curta vida são praticamente desconhecidos, talvez pelo seu caráter reservado e extremamente discreto. Não fosse por um artigo publicado no Jornal do Povo de 30 de junho de 1947, autoria de Gustavo Peixoto, ainda menos seria possível saber desta interessante personagem histórica.

Disse Gustavo, por ocasião da inauguração do retrato de Roberto Silva na Liga Operária Cachoeirense:

 “O Roberto da Música. (...) Assim o conheci, quando da minha infância. Admirava-o em sua boa vontade e maestria na banda de música na qual era estimado por seus companheiros, discípulos e toda a Cachoeira. Era de ver e admirar a banda de música por ele regida! ORDEM! RESPEITO! HARMONIA! AFINAÇÃO E ASSEIO.
Nos bailes, quando o terno era regido por ele, maior tornava-se o número de famílias. (...)
Ainda bem me lembro da banda de música do Clube Caixeiral, composta e formada pelos rapazes de nossa sociedade e que escolheram Roberto para organizar tão saudoso conjunto musical. E me vem à lembrança ainda (...) de uma retreta à frente da sede do clube, o sobrado dos Barcellos, em que a rapaziada toda fardada, com instrumentos novos e reluzindo, executava admiráveis peças de seu repertório e eu, guri, apaixonado por tudo aquilo, segurava o papel da música para um dos integrantes fazer a execução. E a banda era regida ali por David Soares Barcellos Filho, o nosso coletor federal, que na clarineta fazia o canto; também ali estavam Lúcio Gauss, filho do saudoso professor Gauss, no bombardão; Luiz Leão, o inesquecível cachoeirense, no bombo e pratos; o não menos saudoso Ceciliano Teixeira, fiscal federal, no piston, e tantos outros. Mas, de um lado, modesto, recolhido a um canto estava o maestro de fato, aquele que tudo organizara e para quem os olhares e atenção de todos estavam voltados: O ROBERTO DA MÚSICA.

O sobrado dos Barcellos - Rua 7 de Setembro - Fototeca do Museu Municipal

Os anos passaram... Entrei, por uma destas coisas da vida, para a Liga Operária Cachoeirense e me fui à papelada e livros de sua biblioteca e, com imensa satisfação e alegria, me encontrei de novo com o Roberto da Música e fiquei mais satisfeito por saber de uma outra qualidade sua – fundador e primeiro presidente da Liga! Cresceu o conceito do Roberto em mim. Compreendi e avaliei os trabalhos por que passara para chegar à fundação da sociedade que, hoje, sem medo de errar, é a mais antiga de minha terra. Os que sucederam a Roberto souberam conservar o que ele com enormes sacrifícios fizera. – Sim – enormes sacrifícios – hoje para o operário tudo é fácil, tem leis que o amparam (...), mas, naqueles tempos, o operário nada tinha e nem podia ter e que se quisesse ter era tido como anarquista e logo preso e mal visto. – Por isto tudo, calculo o quanto trabalhou Roberto, ao lado de seus companheiros e outros, para conseguir fundar a Liga! (...)

Roberto era tido como cidadão respeitado e de todo acatamento – estes predicados fizeram ser escolhido pela comissão que veio de Porto Alegre para fundar uma sociedade de operários, e a polícia, que não consentia reuniões dos operários, teve que ceder, teve que se submeter e acatar o homem que tão benquisto era em Cachoeira. (...)

Como ia dizendo, entrei na Liga e vi mais a qualidade de quanto era estimado e querido por todos o nosso Roberto da Música. E nunca pensei que os de hoje, os que aqui vêm e gozam seus benefícios, que gozam seu edifício, não têm olhos para verem no REGISTRO DA SAUDADE o fundador de tão grande entidade de classe! – O RETRATO DE ROBERTO – POR ISSO FALEI – RECLAMEI (...) – e vi com satisfação que todos se prontificaram a colaborar no resgate de tão importante débito – a inauguração na sala principal da figura do maior entre os maiores sócios desta benemérita instituição e hoje aí está, simples, modesta como ele era, mas GRANDE EM SUA BONDADE, EM SEU ESPÍRITO DE ORGANIZAÇÃO, RETO EM SEUS DEVERES E ESPOSO E PAI AMANTÍSSIMO. – Aí está para os olhos de todos o 1.º presidente da Liga Operária Cachoeirense! Meus respeitos. (...)

Roberto Silva - 1.º presidente da Liga Operária

De fato a Liga Beneficente Operário Internacional Cachoeirense, hoje Liga Beneficente Operária Cachoeirense, foi fundada por Roberto Silva e outros em 1.º de novembro de 1897. Foi ele escolhido o seu primeiro presidente.

Segundo Ícaro Bittencourt, em O Mutualismo Operário em Cachoeira (1897-1923): o Caso das Sociedades Beneficentes Liga Operária Internacional Cachoeirense e União Operária 1.º de Maio, UFSM, 2008, a Liga oferecia aos seus sócios ajuda médica, auxílio farmácia, auxílio judiciário, enterro, escola, biblioteca e lazer. Um ano depois da fundação, há o registro do estabelecimento de uma aula em sua sede, recebendo o professor os proventos de 15.000 réis por três aulas semanais.

E justamente por este caráter assistencial da Liga que Gustavo Peixoto escreveu seu artigo, encerrado com o apelo de que os sócios destinassem um auxílio pecuniário a Clarice Silva, viúva de Roberto, anciã que se via desprovida de amparo, a despeito do muito que seu marido representara para aquela instituição. E encerrou seu apelo dizendo:

Embora pequena esta pensão, para nós é grande, porque todos os meses temos na presença o nosso saudoso fundador e maior esta pensão é para vós, respeitável senhora, porque vereis nela que não somos ingratos, que temos na lembrança a figura sempre alegre e modesta do nosso Roberto. (...) Tenho dito!

Independente de ter sido o intento de Gustavo Peixoto atendido ou não, o fato é que as palavras que empregou em seu artigo ofereceram um facho de luz sobre a figura do Roberto da Música, já desbotada pelo tempo, o Roberto Silva que hoje dá nome a uma das ruas da cidade, pálida homenagem ao grande e discreto homem que foi.

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