Espaços urbanos

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Placa do 1.º Centenário - Catedral N. Sra. da Conceição - foto Elizabeth Thomsen

sábado, 4 de julho de 2020

Série: Cachoeira Bicentenária - Primeiro hospital


A primeira referência à instalação de um hospital em Cachoeira foi feita ainda no tempo da Vila Nova de São João da Cachoeira pelo vereador e também médico Dr. José Pereira da Silva Goulart. Sua proposta foi apresentada na sessão do dia 15 de outubro de 1846, e atendia ao disposto na Lei de 1.º de outubro de 1828, que estabelecia que as vilas providenciassem na criação de casas de caridade para dar assistência aos expostos* e aos doentes pobres. A instituição deveria se chamar Hospital de São João, mas não obteve aprovação dos demais vereadores, sendo arquivada.

Dr. José Pereira da Silva Goulart
- Acervo Família Vieira da Cunha

Quase vinte anos depois, quando o Imperador Pedro II visitou Cachoeira pela segunda vez, uma das coisas que chamou sua atenção na cidade foi a excelência do trabalho prestado pelo médico pernambucano Cristóvão José Vieira a 26 doentes distribuídos por “duas casas más, porém bem providas de tudo, leitos, colchões, cobertores, medicamentos, pratos de metal, talheres, etc.” Em razão disso, o Imperador sugeriu à Câmara que usasse o recém-aprontado prédio da Casa de Câmara, Júri e Cadeia como hospital, sendo transportados os doentes para lá quando “um dia mais quente permita expô-los ao ar”. 

Antiga Casa de Câmara, Júri e Cadeia - Foto Mirian Ritzel

O cirurgião-mor Cristóvão José Vieira foi reconhecido pelo Imperador que o nomeou diretor-chefe de todos os hospitais existentes ou a serem criados de Porto Alegre até a fronteira. Mas o Dr. Vieira não se afastou de Cachoeira enquanto não achou quem o substituísse. 

O sobrado da Casa de Câmara, Júri e Cadeia foi empregado como hospital militar para atendimento especialmente aos praças do Exército envolvidos com a Guerra do Paraguai, quase todos vitimados não pela guerra, mas pelas condições adversas do clima sulino. O uso não foi muito longo, eis que em novembro de 1865 os vereadores requisitaram ao Ministro da Guerra a devolução do prédio por estar ele sendo ocupado apenas por quatro doentes quase curados, o que foi feito.

Um intervalo de 38 anos separou a solicitação do Imperador da outra iniciativa para dotar a cidade finalmente de um hospital, ou asilo de caridade. Em 1903 o advogado Ernesto Barros publicou no jornal O Commercio um artigo intitulado “Apelo aos corações generosos”, em que conclamava a comunidade a unir esforços para a construção de um prédio que servisse de hospital. A recepção à ideia foi tamanha que em 23 de agosto daquele ano foi lançada a pedra fundamental do nosso primeiro hospital.

Dr. Ernesto Barros

A partir desse ato, muitas campanhas foram deflagradas junto à comunidade e muitos e de todos os tipos foram os auxílios. A obra coube ao construtor português Manoel Gomes Pereira que ergueu um sobrado de 52 palmos de frente por 103 de fundos. A inauguração ocorreu em 11 de dezembro de 1910.

O prédio do nosso primeiro hospital é tombado como patrimônio histórico do município e abriga hoje a Escola de Educação Profissional de Saúde do Hospital de Caridade. Dela já saíram muitos profissionais que estão distribuídos pelos mais diversos lugares do estado e até mesmo fora dele, honrando o profissionalismo demonstrado pelo quase desconhecido e esquecido cirurgião-mor Cristóvão José Vieira.

Escola Profissional de Saúde do HCB - Foto COMPAHC

 *Expostos: crianças abandonadas, enjeitadas.

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