Espaços urbanos

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Château d'Eau - Méia Albuquerque

sábado, 3 de outubro de 2020

Ossos na Praça da Conceição

Houve um tempo em que a Praça Dr. Balthazar de Bem era chamada de Praça da Conceição, em virtude de ficar fronteira ao largo da Igreja Matriz Nossa Senhora da Conceição. Por essa época, era ainda desprovida do Château d'Eau, ocupante do canteiro central dos três que a constituem hoje.


Igreja Matriz Nossa Senhora da Conceição
- Museu Municipal

A praça sofreu várias modificações ao longo de sua história, algumas delas comprobatórias de que uma grande extensão do terreno que rodeava a igreja havia sido utilizada para sepultamento dos mortos. 

Em 7 de janeiro de 1890, época em que a Cidade da Cachoeira era dirigida por um grupo de cidadãos - a chamada Junta Municipal ou Comissão Administrativa dos Negócios do Município*- , houve uma reunião em que foi discutido o macabro resultado de aterros realizados na Praça da Conceição, expondo à população restos mortais dos antigos sepultamentos procedidos ali. 

Os constantes aterros, principiados ainda na década de 1850 pelo então construtor português José Ferreira Neves, tinham por intuito nivelar o terreno da praça em relação à Igreja Matriz. Ao contrário do que é hoje, a igreja ficava num platô mais elevado em relação à praça, o que foi resolvido depois de várias e trabalhosas intervenções. Como prova disso, o acesso à igreja se dá por degraus.


Praça Dr. Balthazar de Bem, antiga Praça da Conceição
- Renato F. Thomsen


No início de 1890, assustados com o estado deplorável da praça após mais uma obra de aterramento, os membros da comissão administrativa oficiaram ao delegado de polícia na expectativa de resolverem a situação:

"Ilmo. Sr. Achando-se a descoberto na praça denominada da Conceição, nesta cidade, grande quantidade de assamenta humana, visto ter ali sido outrora cemitério, esta Comissão pede-vos para que ordeneis o emprego dos presos da cadeia na remoção da dita ossamenta, com cujo procedimento prestareis um importante serviço pelo qual se antecipa esta administração agradecendo-vos." Assinaram o ofício encaminhado ao delegado Olympio Coelho Leal os cidadãos J. Ferreira B. e Silva, Isidoro Neves da Fontoura e Antonio Nelson da Cunha. 

Em 1896, novas obras de aterro e calçamento foram realizadas e, dois anos depois, em razão dos animais que pastavam os jardins da praça, inutilizando qualquer tipo de iniciativa no sentido de melhorar o aspecto daquele logradouro, o intendente David Soares de Barcellos autorizou o pagamento da última etapa do serviço de muramento dos jardins da Praça da Conceição. O custo da obra foi de 130 mil réis, cabendo a Bruttus Machado a sua execução.**


Jardim norte da |Praça da Conceição - defronte ao Império do Divino
- Museu Municipal

A Praça da Conceição permaneceu murada por mais de 20 anos. Em janeiro de 1921, os muros e as grades que cercavam o jardim do lado norte da praça, ou seja, o que ficava fronteiro ao prédio do Império do Divino Espírito Santo começaram a ser removidos. Os materiais foram aproveitados para levantar os muros no entorno do terreno da Hidráulica Municipal, cuja inauguração ocorreu em 20 de setembro daquele ano. Parte do muro original e das grades encontra-se lá até hoje.


Muros e grades removidos em 1921 - Museu Municipal



Primeira hidráulica - Grande Álbum de Cachoeira,
de Benjamin Camozato


A prática regular de sepultamentos na Igreja Matriz e em seu entorno desde a inauguração do templo, acumularam grande quantidade de restos humanos. A cada obra nas imediações, o material se revelava, causando dores de cabeça às autoridades e distintos sentimentos na população.

*A instituição de uma Comissão Administrativa ou Junta Municipal foi a solução encontrada para garantir a administração dos municípios logo depois da proclamação da República (15 de novembro de 1889) e perdurou até 1892.

**Comprovado por documento do acervo do Arquivo Histórico - IM/RP/SF/D-039, fl. 506.

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