Espaços urbanos

Espaços urbanos
Ponte do Fandango - foto Mireila Moro

domingo, 4 de janeiro de 2015

No alvorecer de 1915

No alvorecer de 1915, o jornal O Commercio, edição do dia 1.º de janeiro daquele ano, sob o título Tempo e Navegação, publicou o seguinte texto:

Que calor! É a exclamação que se ouve agora quase de todos os lábios, pois o verão entrou às deveras, espantando o frio que ainda sentimos em algumas noites e manhãs da primeira quinzena de dezembro. Mas temos de submeter-nos pacientemente às impertinências desse hóspede indispensável por sua natureza, visto ser o verão que favorece a vegetação, sazona os frutos e permite a produção dos cereais, além de que amadurece o pasto e promove o engorde dos animais vacuns.
Não obstante as chuvas abundantes que caíram no fim do inverno e na primavera última, o rio Jacuí, após poucos dias de ausência do líquido elemento, está consideravelmente reduzido em seu volume e dentro em breve, se outras chuvas não caírem, só permitirá aos vapores de pequeno calado a navegação ao porto desta cidade.

No alvorecer de 2015, cem anos depois, podemos dizer que o tempo se repete, exceção ao aspecto atual do Jacuí que, ao contrário de 1915, está abundante em águas. Mas quanto à navegação, talvez o escriba da notícia acima julgasse impensável que em 2015 ela não existisse mais!

Vapor atracado no porto de Cachoeira - fototeca Museu Municipal

Na primeira década do século XX e ainda por um bom tempo depois, o baixo custo dos fretes cobrados pelas companhias de navegação fazia com que o transporte fluvial fosse o modal preferido. Durante o inverno, em época de chuvas normais, produtos do trabalho de uma zona riquíssima de produção, composta pelos sete distritos, escoavam pelo porto da cidade de Cachoeira. No verão, devido ao período de seca, a navegação no rio Jacuí era interrompida. Naquela época, o porto fluvial de Cachoeira era mais importante do que os de Jaguarão, Itaqui, Santa Vitória, São Borja e Uruguaiana. 

Açúcar, arame, aguardente, calçados, café, farelo, fazendas, farinha de mandioca, de trigo, ferragens, querosene, louças, sal, vidros, vinhos e outras mercadorias ofereciam significativo movimento no porto, transportadas em mais de vinte embarcações das companhias Jacob Becker & Cia., Eduardo Geherck & Cia. e Alberto Moreira, principalmente. Além das embarcações de grande porte, das quais se destacavam o vapor D. Pedro, da Companhia Jacob Becker, e o vapor Santo Ângelo, de Eduardo Geherck & Cia., muitas outras, de pequena tonelagem, trabalhavam no interior do Município no transporte de arroz de várias empresas arrozeiras localizadas às margens do Jacuí. Essas embarcações eram conhecidas como gasolinas. Destacavam-se, entre elas: Progresso, de Zinn & Filhos, Doralina, de Manoel Carvalho, Neptuno, de Antônio F. Gomes, Garibaldi, de Neves & Cia., Beija-Flor, de Baptista Carlos & Filhos, Primavera, de Eduardo Wollmann, Audaz, de Albino Pohlmann, Dona Joana e Natal, de Porto Alegre.

Porto de Cachoeira movimentado - fototeca Museu Municipal

O tempo seguiu mais ou menos similar nesse período de 100 anos, mas a economia de Cachoeira do Sul certamente seria outra se a navegação não tivesse sucumbido.

Quem sabe daqui a 100 anos algum curioso leitor não descubra este texto e igualmente julgue impensável ter Cachoeira perdido por um longo tempo a navegação no Jacuí! Mas esta será uma prerrogativa do futuro. Por enquanto, só podemos analisar o passado!
  

Nenhum comentário:

Postar um comentário