Espaços urbanos

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Nossa Senhora abençoa o Centro Histórico - foto Renato F. Thomsen

segunda-feira, 20 de março de 2017

Teatro Municipal - uma dívida que atravessou décadas

Pode-se dizer que Cachoeira teve tradição em erguer casas de espetáculos para o entretenimento da população. Tais casas logicamente representavam o seu tempo, ou melhor, atendiam ao tipo de diversão da época. Foi assim no século XIX, com os teatros, e no século XX, com os cinemas. 

A primeira grande casa do gênero que se levantou em Cachoeira foi o Teatro Cachoeirense, erguido antes da Revolução Farroupilha, com incríveis 500 lugares! Cabia quase toda a população da Vila Nova de São João da Cachoeira lá dentro! Há divergências a respeito da finalização desta obra, mas o fato é que em abril de 1830 houve a encenação de uma peça jocosa no seu palco, estando a assistência lotada. A classe comerciária, então chamada de caixeiral, foi a responsável por erguer o tal templo das representações, um forte sinal de que o comércio era a grande força econômica nos primeiros tempos, sendo fundamental para o crescimento e a ascensão da freguesia à vila e depois da vila à cidade!


Teatro Cachoeirense - fototeca Museu Municipal

Do Teatro Cachoeirense há poucas notícias. Seu prédio estava ali quando teve começo a construção da Casa de Câmara, Júri e Cadeia, em 1861, e bem mais tarde, no final de 1885, uma correspondência do delegado de polícia recomendava aos vereadores que gradeassem uma janela da cadeia que “dava para o pátio (...) de forma que qualquer preso não possa servir-se dela para galgar o muro que tem do lado do Teatro desta cidade”. Quase vinte anos depois, a Intendência contratou a construção de um muro “na parede do lado sul do teatro velho que foi  incendiado”. Esta informação de 1909 confirma, embora não haja documento descrevendo o sucedido, que o “teatro velho”, ou o Teatro Cachoeirense, havia sido consumido pelo fogo, provavelmente na virada do século XIX para o século XX.


A Intendência e o Teatro Cachoeirense - fototeca Museu Municipal

Talvez em razão da perda do primeiro teatro, o povo de Cachoeira logo começou a sonhar com outro. As tratativas para isto envolveram pessoas influentes da comunidade, de forma que o intendente David Soares de Barcellos, homem que se depreende fosse apreciador das artes, uma vez que mantinha uma orquestra familiar integrada pelos filhos, empenhou-se sobremaneira para a construção do Teatro Municipal. A Intendência passou a emitir apólices com o intuito de arrecadar recursos para a obra que foi inaugurada no Natal de 1900.


Construção do Teatro Municipal - fototeca Museu Municipal

Teatro e Intendência Municipal - fototeca Museu Municipal

Levando em consideração o investimento na construção e o pouco tempo de funcionamento do Teatro (menos de oito anos), arruinado pelo desmoronamento do telhado**, a ideia das apólices resultou em uma dívida aos cofres municipais que levou mais de 60 anos para ser saldada!

Sobre isto a edição do Jornal do Povo de 24 de setembro de 1961 estampou:

Prefeitura vem resgatando apólices emitidas em 1900 para a construção do Teatro Municipal

“No período de 1900 a 1924, o Município emitia um determinado número de apólices visando mealhar fundos para a compra de terrenos e a construção do Teatro Municipal e quartéis militares. As apólices emitidas em 1924 eram assinadas pelo então intendente Aníbal Loureiro, pelo contador Wladimir Nogueira e pelo tesoureiro Augusto Cézar de Lima, sendo seu valor nominal de 1.000,oo cruzeiros, rendendo juros de 10% aos adquirentes. Quanto às emitidas em 1900, eram do mesmo valor nominal, rendendo porém um menor juro anual (8%), sendo rubricadas pelo intendente David S. Barcellos, Galvão de Abreu, Alfredo Xavier da Cunha, Pedro Kieper, Manoel Paes de Freitas, José Friedrich e Júlio Jacobim*. A colocação desses valores permitiu ao Município colimar seus objetivos: os terrenos foram adquiridos. Um deles, entregue ao governo para a construção dos quartéis e que corresponde àquele onde até hoje se situam nossas guarnições militares. Sobre o outro imóvel ergueu-se o Teatro Municipal que funcionou até por volta de 1907 (...)."

E o jornal segue a matéria dizendo que até aquele momento o município estava resgatando essas apólices, sobre as quais pagava juros. Havia procedido ao resgate de 37, restando ainda 44 a serem resgatadas...

Sem condições de recuperar os estragos advindos do desabamento, a Intendência passou o prédio em 1913 para o governo estadual para que nele fosse instalado o fórum e o Colégio Elementar Antônio Vicente da Fontoura. 

Como se vê, grande foi o investimento, pequeno o retorno do portentoso prédio do Teatro Municipal. A dívida contraída pela municipalidade com as apólices a juros demorou décadas para ser saldada. Mesmo assim é de se lamentar que o prédio tenha desaparecido e, se porventura ainda existisse, comporia com grande garbo o já rico conjunto arquitetônico de nosso Centro Histórico.

*Foi mantida a grafia utilizada pelo jornal nos nomes próprios referidos na matéria transcrita.
**http://historiadecachoeiradosul.blogspot.com.br/search?q=desmoronamento+do+teatro+municipal

3 comentários:

  1. Que pena que demoliram, ele fazia parte da história.

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  2. Marchas e contra marchas dos patrimônios históricos. Obrigada Mírian! Gostei muito!

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  3. Este gasto expressivo da Intendência também me chamou a atenção quando pesquisei os livros das despesas (IM/RP/SF/D) no Arquivo Histórico. Anotei estes dados de junho de 1912, totalizando 2:760$000 pagos por semestre:

    880$000 – 22 apólices (18 de Benta Portinho de Araújo e 4 dos filhos: Antonieta e Luís Araújo);
    160$000 – apólices nº 3, 4, 5 e 6 de Benta Portinho de Araújo;
    Em 1914/1915 estas apólices foram transferidas para Carlos Krieger, Manuel Costa Jr., Theophilo Lobato e João Neves da Fontoura;
    800$000 – 20 apólices da herança da finada Heduviges Falcão Leal, mãe de Olímpio Coelho Leal;
    760$000 – 19 apólices a Cândido Alves Machado de Freitas;
    80$000 – apólices nº 43 e 44 das menores Maria e Vicência, filhas de Manoel Marcondes de Almada;
    40$000 – apólice nº 1 de Guilherme Franke;
    40$000 – uma apólice de Olympio Gomes Porto.

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