Espaços urbanos

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A Imaculada - foto Renato Thomsen

sábado, 29 de novembro de 2014

A Cachoeira dos Consulados

A história de Cachoeira do Sul é muito rica. Esta afirmação não causa mais espanto em ninguém, especialmente naquelas pessoas que têm interesse em conhecer o lugar onde vivem ou nasceram, buscando nele as referências que foram forjadas no passado, perpassaram os tempos e estão ainda presentes nos dias de hoje.

Em um ambiente rico de história, o que não faltam são peculiaridades, fatos únicos e do conhecimento de poucos. Vamos a um deles.

Ernesto Müller e família
Cachoeira do Sul, apesar de não ser uma capital, foi sede de dois consulados: o primeiro, mais antigo, portava bandeira da Áustria e era representado pelo Vice-Cônsul Ernesto Müller, um dos grandes nomes dentre os cidadãos da Cachoeira do final do século XIX, início do século XX. A sede do Vice-Consulado ficava na Rua Júlio de Castilhos, em casa até hoje existente, e era facilmente identificada por duas águias que guarneciam o portão de acesso, servindo de referência para os colonos e outras pessoas de ascendência germânica que vinham em busca de orientações do Sr. Ernesto Müller. 

Residência de Ernesto Müller - fototeca Museu Municipal

Mais recentemente em nossa história, na década de 1950, outra representação diplomática foi instalada na cidade, desta vez da República do Uruguai, e tendo à frente, como cônsul, uma mulher: Sara Claveaux de Jardim.


Patente de Cônsul de Distrito em nome de Sara Claveaux de Jardim
- 1965 - acervo Arquivo Histórico
D. Sara, do alto de seus 93 anos, lembra bem dos tempos em que foi nomeada Cônsul Honorária em Cachoeira do Sul, cidade para a qual transferiu residência depois que se casou com o cachoeirense Geanone Jardim.


Sara Claveaux Jardim - arquivo particular

Quando da instalação do Consulado do Uruguai, alguns uruguaios moravam em Cachoeira. O ano era 1950 e a representação diplomática, a exemplo do que também havia feito Ernesto Müller, foi disposta na casa em que D. Sara residia. Assim, o Consulado do Uruguai teve duas sedes, sempre na mesma Rua Presidente Vargas, primeiro na esquina com a Rua Marechal Floriano, em um casarão antigo identificado por um belo vitral na fachada, ainda existente, e depois na casa onde ela reside até hoje, construída ao lado da primeira sede.


1.ª sede do Consulado do Uruguai - Rua Mal. Floriano com Presidente Vargas
- acervo COMPAHC
Enquanto na casa de Ernesto Müller as águias serviam como sinalizadoras do endereço diplomático, na casa de D. Sara havia uma placa com o escudo do Uruguai que indicava ser ela Cônsul*. E assim foi até 1976, quando renunciou ao cargo.

Importante ressaltar que o serviço diplomático uruguaio em Cachoeira nunca foi exercido no sobrado de David Soares de Barcelos, na Volta da Charqueada, local que por um tempo pertenceu à família do marido de Sara Jardim e onde ela nunca residiu.

Em 1982, a uruguaia Sara tornou-se cidadã brasileira e em 2015 completará 70 anos de Brasil. Para Cachoeira, onde viveu a maior parte de sua vida, trouxe um pouco do Uruguai, temperando com seu sotaque uma página singular da nossa história.


*Cônsul ou consulesa? Atualmente é preferencial o uso da palavra cônsul para identificar o representante diplomático, seja ele feminino ou masculino. Assim: o cônsul, a cônsul.


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