Espaços urbanos

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Para não esquecer o 1.º de maio e sua alusão ao trabalho - foto Robispierre Giuliani

domingo, 9 de novembro de 2014

Dr. Balthazar de Bem - 90.º aniversário de falecimento

A morte do Dr. Balthazar Patrício de Bem, ocorrida em 10 de novembro de 1924, causou enorme comoção em Cachoeira, decretando para aquele ano um dos momentos mais pungentes da história local. Em parte pela importância do médico, político, empresário e cidadão reverenciado, em parte pela situação que desencadeou o acontecimento, o fato é que a década de 1920 mais uma vez experimentava um de seus tantos movimentos político-revolucionários, desenhando-se tragicamente em nosso meio.

Dr. Balthazar de Bem - morto aos 47 anos

O jornal O Commercio, em sua edição de 12 de novembro de 1924, traduz bem a comoção que tomou conta da cidade, razão pela qual transcrevemos alguns trechos significativos constantes da primeira página, tomada quase que na íntegra pela trágica notícia:

O Commercio, edição de 12/11/1924, p. 1 - acervo Arquivo Histórico

Uma dolorosa tragédia encheu de luto e dor a sociedade cachoeirense: o inesperado desaparecimento do cenário da vida do estimado e querido clínico Dr. Balthazar Patrício de Bem, membro da comissão executiva do Partido Republicano local e deputado estadual.

Anteontem, pouco antes de uma hora da tarde, uma grande aglomeração de povo pelas esquinas e em várias vias públicas passava de boca em boca a triste nova: - Morreu o Dr. Balthazar! Mataram o Dr. Balthazar!

Saindo pela madrugada, em companhia de amigos e ardorosos defensores da causa da legalidade, ameaçada pela sublevação do 3.º Batalhão de Engenharia, aqui aquartelado, ocorrida nas primeiras horas da madrugada de domingo, pelas 6 horas transpunha o Dr. Balthazar o Passo de São Lourenço, com a força que pretendia impedir o alastramento da sublevação do 3.º.

Uma légua além da Sanga Funda, no 3.º distrito, alcançaram a força revoltosa que ia bem aparelhada e municiada, travando-se combate, que foi renhido e encarniçado, com ferimentos e perdas de vida de ambos os lados.

Corajoso e apaixonado defensor das suas ideias políticas, o Dr. Balthazar entrou na linha de fogo, em que quase todos os atiradores estavam em posição deitada, a qual, seguidamente, ele abandonava para pôr-se de pé, apesar dos insistentes pedidos do seu afilhado João Noronha de Bem, que o acompanhava e muito lhe pedia que não expusesse o seu corpo, tanto mais que, devido ao calor, tirara o casaco, de modo que a camisa branca mais se destacava ao longe, servindo facilmente de alvo.

Pouco depois das 10h30, quando ia acesa a luta, o Dr. Balthazar queixou-se que estava ferido. Imediatamente foi colocado em um auto, conduzido pelo seu afilhado João Noronha de Bem e acompanhado pelo Dr. Glycerio Alves, que também na linha de fogo, no entusiasmo da defesa da causa, estava combatendo o inimigo de frente a frente.

O ferimento fora, infelizmente, mortal. Um balaço no vazio do ventre, lado direito, seguido de grande hemorragia, ia roubando-lhe a vida, rapidamente, em caminho para esta cidade.

Vendo fugir-lhe a vida, uma infinita angústia apoderou-se de sua alma boa e generosa: lembrou-se, com imenso pesar, de não ver, na hora extrema, a sua esposa querida e os filhos idolatrados. Os seus últimos pensamentos e as suas últimas palavras ainda foram para a sua Marina querida, sendo este nome uma das últimas palavras que lhe saiu da boca, quando sentiu que se aproximava a morte.

Perto do baixio denominado Sarandi, um pouco além do Passo de São Lourenço, no 8.º distrito municipal, cerraram-se para sempre os olhos daquele que foi um grande e humanitário representante da nobre ciência médica, um cidadão que amava com extremos a sua terra natal, um cavalheiro de apreciáveis qualidades morais e um exemplar chefe de família. (...)

A notícia da morte do Dr. Balthazar estende-se por toda a primeira página daquela edição de O Commercio e ainda pelas edições seguintes, com publicação da repercussão no meio social, das exéquias e dos primeiros passos legais de solução de seus negócios que envolviam as propriedades rurais e a Charqueada Paredão, dentre outros.

Dr. Balthazar de Bem, natural de Caçapava, onde nasceu em 16 de março de 1877, deixou a esposa Marina Mattos de Bem e os filhos Etelvina, João Carlos e Nora.

O blog História de Cachoeira do Sul seguirá publicando notas sobre o infausto acontecimento, inclusive da morte do jornalista Fábio Alves Leitão, também vitimado na mesma ocasião, relembrando página ímpar da nossa história.

4 comentários:

  1. Como neta de Fábio Leitão acompanho essa história, registrando o 90 aniversário da morte de meu avô na batalha do Barro Vermelho.

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    1. Sim, Elenara. Vou falar da morte dele também. Aliás, já falei. Busca no campo pesquisa para conferires.
      Obrigada pela leitura.

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