Espaços urbanos

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Ponte do Fandango com leito submerso - 5/5/2024 - foto Ângelo Netto

domingo, 3 de julho de 2022

Estatística demográfica da velha Cachoeira

Em 1910, desempenhava a função de secretário de Arquivo e Estatística da Intendência Municipal aquele que seria conhecido como o maior historiador de Cachoeira, atento que foi à documentação legada pelas administrações municipais desde a instalação da Vila Nova de São João da Cachoeira, em 5 de agosto de 1820. Seu nome: Afonso Aurélio Porto.

Aurélio Porto - Museu Municipal

Ao organizar a documentação existente na Intendência, Aurélio Porto foi coletando dados para a publicação do conteúdo histórico constante do Relatório de Estatística apresentado ao Coronel Isidoro Neves da Fontoura, intendente municipal, em setembro de 1910. Este relatório, precioso em suas informações, embasou em boa parte o Resumo Histórico que Aurélio Porto publicou, em 1922, no Grande Álbum de Cachoeira no Centenário da Independência do Brasil, editado por Benjamin Camozato.

Grande Álbum de Cachoeira, de Benjamin Camozato
- foto Renato F. Thomsen

Um dos dados mais interessantes do relatório, além da referência dos principais acontecimentos históricos, é o que se refere à população local desde o tempo da Freguesia de Nossa Senhora da Conceição da Cachoeira, criada em 10 de julho de 1779. Na realidade, os dados populacionais levantados por Aurélio Porto iniciam quatro anos depois, ou seja, em 1783. Segundo ele, as primeiras informações foram anotadas porque o governador José Marcelino de Figueiredo ordenou ao Capitão Antônio Gomes de Campos, comandante do distrito, que fosse feito um arrolamento de todas as estâncias sob sua jurisdição. O levantamento englobou 110 estabelecimentos de criação. A Aldeia, recém elevada à freguesia, era composta por cerca de 80 ranchos. Fazendo o cálculo de que havia em média seis almas por fogo, ou seja, seis pessoas por residência, mais o avultado número de escravos necessários para o atendimento do serviço na grande extensão territorial das estâncias e computando as famílias indígenas aldeadas, chegou Aurélio Porto ao número aproximado de 1.140 habitantes.

Em 1803, o número saltou para 3.283. Naquele ano, o governador Paulo José da Silva Gama fez o primeiro censo populacional da capitania. Em 1814, a população já era de 8.225 almas na freguesia que então englobava Cachoeira, Caçapava, Santa Maria e São Gabriel. A capela de Caçapava estava densamente povoada, tendo em vista o grande êxodo de famílias que para lá se dirigiam atraídas pelas minas de ouro. Santa Maria, por sua vez, estava deixando de ser o acampamento das tropas que se embrenhavam pelo interior.  A distribuição das almas (habitantes) era a seguinte em 1814:

Cachoeira - 3.850 almas

Caçapava - 2.044 almas

Santa Maria - 1.640 almas

São Gabriel - 691 almas

Total: 8.225 almas

O historiador alerta que os dados careciam de maior precisão, pois naquele início de século XIX, em razão das tantas vezes que os rio-grandenses tinham que pegar em armas, as populações flutuavam muito ao sabor das lutas.

No ano de 1817, graças a uma certidão do Padre Inácio Francisco Xavier dos Santos, vigário da freguesia, foi possível precisar que a população de Cachoeira e Santa Maria perfazia 5.289 almas discriminadas em 1.423 homens brancos, 71 homens pardos forros, 63 homens pretos forros, 250 índios homens, 120 homens pardos cativos e 972 homens pretos cativos; 1.426 mulheres brancas; 58 mulheres pardas forras, 52 mulheres pretas forras, 186 índias mulheres, 132 mulheres pardas cativas e 536 mulheres pretas cativas. O total de homens era de 2.898 e o total de mulheres, 2.390.

Assinatura do padre Ignacio Francisco Xavier dos Santos
- Arquivo Histórico

Em 1820, quando a freguesia foi elevada à condição de vila, a população era de 12.245 habitantes distribuídos em 1.653 fogos (casas). Compunham a vila de Cachoeira as freguesias de Santa Maria, Caçapava, Alegrete e São Gabriel, com uma média de 7,4 habitantes por fogo. Assim, Cachoeira tinha 657 fogos e uma população de 4.861 almas; Santa Maria contava com 366 fogos e 2.708 almas; Caçapava com 280 casas e 2.072 moradores; Alegrete, 250 fogos, 1.850 moradores; São Gabriel, 100 casas e 754 moradores.

Em 1830, a situação populacional era a seguinte:

Cachoeira: 794 fogos com 5.458 almas

Caçapava: 298 fogos, 2.952 almas, sendo 1.828 livres e 1.124 escravos

Santa Maria: 443 fogos, 2.188 almas, das quais 1.351 livres e 837 escravos

Alegrete: 270 fogos, 1.944 almas, sendo 1.200 livres e 744 escravos

São Gabriel: 150 fogos, com 1.050 almas

Livramento: 120 fogos, com 840 almas

Os dados levantados por Aurélio Porto concluíram que no ano de 1910, quando ele elaborou o relatório por determinação do intendente Isidoro Neves da Fontoura, a população total de Cachoeira, então contando com a sede e mais sete distritos, era de 44.993 habitantes. 

Pelos dados de 2020, o município de Cachoeira do Sul registra 81.860 habitantes e também dispõe de sete distritos: cidade (sede), Ferreira, Bosque, Três Vendas, Barro Vermelho, Capané e Cordilheira.

Nos 112 anos que nos separam do relatório de Aurélio Porto o município foi desmembrado por muitas emancipações, o que reduziu não só a área territorial como também o contingente populacional. Mas diferentemente do que se observava no passado mais distante, quando o Rio Grande vivia envolvido com disputas de território, hoje o que determina a oscilação de dados populacionais é o êxodo advindo da busca de oportunidades e crescimento.