Espaços urbanos

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Ponte do Fandango com leito submerso - 5/5/2024 - foto Ângelo Netto

terça-feira, 15 de novembro de 2022

Cachoeira ao tempo da proclamação da República

Com a notícia da proclamação da República, em 15 de novembro de 1889, a Câmara Municipal reuniu-se no dia 18, contando com a presença de Crescencio da Silva Santos, presidente, de Antonio Nelson da Cunha, Joaquim Gomes Fialho, Cincinato de Sampaio Ribeiro, Josino Outubrino de Lima, João Jorge Krieger e João Thomaz de Menezes Júnior. 

Na reunião, inteirados da nova forma de governo, decidiram telegrafar ao Marechal Visconde de Pelotas, governador provisório do Rio Grande do Sul, dizendo que "A Câmara Municipal de Cachoeira, aplaudindo a atitude calma e digna do Povo Brasileiro, presta a sua adesão a V. Ex.ª, certa de que V. Ex.ª trabalhará pela prosperidade e integridade da grande Pátria Brasileira".

Capa do periódico O Mosquito - Brazil Imperial

Em 7 de janeiro de 1890, o governo provisório deu posse a uma junta governativa que responderia pela administração do município enquanto a república dava seus primeiros passos. Compunham a primeira junta os cidadãos João Ferreira Barbosa e Silva (presidente), Antonio Nelson da Cunha, que tinha sido vereador da última legislatura, e Isidoro Neves da Fontoura, tendo por secretário Manoel Teixeira Cavalleiro, que foi depois substituído pelo poeta Alarico Ribeiro. A determinação para a nomeação da junta tinha partido do Visconde de Pelotas, por ato de 2 de janeiro que dissolveu a Câmara Municipal da Cachoeira, dando aos cidadãos nomeados a incumbência de administrarem provisoriamente os negócios municipais. A presidência, segundo determinação do ato, caberia ao mais velho que, no caso, era o cidadão João Ferreira Barbosa e Silva.

Um relatório datado de 17 de setembro de 1891, emitido para responder a questionamentos do Diretor de Estatística do Rio Grande do Sul, revela como era Cachoeira logo depois da proclamação da República. O documento diz, além de informações históricas e geográficas, o que segue:

(...)

"A cidade está situada numa eminência plana com pequenos declives para as vertentes denominadas do Amorim, a Leste, a sanga da Inês, a Oeste, a sanga da Micaela, ao Norte, e o referido rio Jacuí, ao Sul, à margem esquerda.

Tem 550 prédios urbanos formando bem alinhadas ruas de Norte a Sul, de Leste a Oeste. Os principais edifícios são: a Igreja, Casa da Intendência, Império, Teatro e Mercado.

A Igreja Matriz e o Império do Divino Espírito Santo - MMEL

O Mercado Público - MMEL

O Teatro Municipal e a casa da Intendência - MMEL

As ruas não são calçadas, têm, porém, sarjetas para dar escoamento às águas, e abauladas ao centro. A cidade é iluminada por 70 lampiões a querosene.

Um lampião na Rua Saldanha Marinho - Coleção Claiton Nazar

A área calculada por plantações, no município, é calculada em 10 léguas quadradas ou 435:600,000 metros quadrados. Os principais produtos da agricultura são: fumo preparado em folha e em corda, arroz, banha, feijão, milho, batatas, etc. A exportação do fumo em folha é calculada em 100.000 quilos, em corda 50.000 quilos, 5.000 de milho, 75.000 de banha, 1.000 sacas de batatas. A produção de cereais não se pode calcular.

Na cidade existem oito lojas de fazendas, 20 armazéns com fazendas, molhados, comestíveis, ferragens, etc., 20 tabernas, quatro açougues, quatro lojas de alfaiates, duas barbearias, duas casas com bilhares, duas funilarias, três fábricas de cerveja, duas hospedarias, quatro marcenarias, dois médicos, três fábricas a vapor de descascar arroz, três olarias, duas lojas de ourives, cinco padarias, três farmácias, duas relojoarias, uma fábrica de sabão, quatro lojas de sapateiros, duas lojas de celeiros, três tamancarias, duas tipografias. Há 57 casas de negócios espalhadas pelos distritos rurais.

À pouca distância desta cidade, no lugar denominado Paredão, há um estabelecimento onde se abatem 40.000 reses de corte, cuja carne é preparada seca e em conserva para exportação. 

O município está dividido em oito distritos policiais e administrativos. Não há divisão eclesiástica. Só há um vigário nesta cidade e outro padre católico na ex-colônia de Santo Ângelo, achando-se, também, neste lugar, um pastor evangélico.

A distância desta cidade à capital do estado é calculada em 260 quilômetros; à cidade de Rio Pardo, 66 km; à de Santa Maria da Boca do Monte, 120 km; à vila de Encruzilhada, 54 km; à de Caçapava, 106 km; à de São Sepé, 82 km; à de Santa Cruz, 70 km pelas estradas.

Há neste município 24 estabelecimentos públicos de instrução primária; não há aulas de instrução secundária. Frequentam estas 24 aulas, 935 alunos de ambos os sexos, achando-se matriculados maior número.

Há uma estrada de ferro que atravessa este município, a de Porto Alegre a Uruguaiana e outras estradas de rodagem gerais e municipais.

Trem saindo da Estação Cachoeira - Coleção Claiton Nazar

A renda média do município, de 1879 a 1889, é de 16:000$000, do estado, 35:000$000 e, geral, 30:000$000*."

A república instalada em 15 de novembro de 1889 pode ser recuperada em sua gênese graças a documentos e registros preservados por gerações. Vivas a este importante legado!

*Contos de réis.

terça-feira, 1 de novembro de 2022

O curioso Alimento Fabini

A Charqueada do Paredão sempre causa muita curiosidade, especialmente porque de sua história, apesar da relevância, pouco ainda se sabe. Dos seus arquivos praticamente nada restou por aqui, sabendo-se dela o que a imprensa da época noticiava ou poucas publicações referiam. Sua importância para a economia cachoeirense foi imensa, mais uma razão para se lamentar o descaso com que tem sido tratado o que sobrou de seu complexo industrial.

Complexo da Charqueada (2018) - Méia Albuquerque


Charqueada do Paredão - sala de fabricação do Alimento Fabini
- Benjamin Camozato (1922)


O que restou da sala de fabricação (2021) - SMIC


Seção de pesagem e embalagem do Alimento Fabini
- Benjamin Camozato (1922)

Há 100 anos, por ocasião das comemorações do centenário da independência do Brasil, foi realizada uma grande exposição nacional no Rio de Janeiro, então capital federal, em que o melhor do país foi exposto. Cachoeira se fez presente com um dos mais afamados produtos da Charqueada do Paredão: o Alimento Fabini. Mas que alimento era este? Por que se chamava Fabini? Para a primeira pergunta há resposta, mas para a segunda ainda não.

Em 1.º de novembro de 1922, o jornal O Commercio reproduziu matéria publicada em jornal do Rio em que era destacada a qualidade do produto. Dali se extrai a resposta para a primeira pergunta:

O Alimento Fabini tem a forma de um granulado e na sua preparação é utilizada apenas a polpa de carne muscular de bovino, enriquecida no seu valor alimentício pela substituição em peso de sua parte aquosa pelo glúten de cereais escolhidos. Por um processo especial foi desagregada a fibra muscular da carne, o que garante ao produto o seu alto grau de digestão, fato assinalado em todas as análises. Essa circunstância foi particularmente posta em evidência pelos dietistas europeus, pois irá facilitar o aproveitamento da riqueza nutritiva da carne às pessoas que por terem vias digestivas delicadas não se possam alimentar de carne em seu estado natural. Para esses o Alimento Fabini representa um precioso recurso, pois permite a assimilação ao mais alto grau de todos os princípios nutritivos da carne, sem nenhum dos seus inconvenientes. Por esta mesma razão os pediatras têm encontrado no Alimento Fabini um recurso precioso para alimentação reconstituinte das crianças.

O Alimento Fabini é fabricado em Cachoeira, no Rio Grande do Sul, sob a direção médica do Dr. Balthazar de Bem. A fábrica, onde trabalham duzentos operários, é constituída por seis pavilhões e está sujeita à fiscalização sanitária do governo federal.

A firma Aredio & Companhia, do Rio de Janeiro, São Paulo e Buenos Aires são os distribuidores gerais do Alimento Fabini.

O Alimento Fabini, pelas notícias disponíveis, começou a ser comercializado em 1922. Nessa época, depois de enfrentar dificuldades, a Charqueada do Paredão passou a ser conduzida por uma sociedade comanditária, tendo à frente o médico Balthazar de Bem. Por foto estampada no Grande Álbum de Cachoeira no Centenário da Independência do Brasil (1922), de Benjamin Camozato, a denominação da empresa passou a ser Alimento Fabini, então o carro-chefe da indústria.

Entrada da fábrica do Alimento Fabini - Benjamin Camozato (1922)

Outra curiosidade a respeito da fabricação do Fabini é o fato de que a seção correspondente era composta por operárias, notando-se o esmero com que aparecem nas fotos feitas por Benjamin Camozato, onde é possível verificar que usavam uniforme e protetores na cabeça.

É, pois, o Alimento Fabini, em momento quase final da história de sucesso da Charqueada do Paredão, mais uma página curiosa desse importante empreendimento local.


quarta-feira, 7 de setembro de 2022

A Cachoeira do ano do primeiro centenário da Independência do Brasil (1922)

7 de setembro de 1922. Cachoeira, um dos mais ricos municípios do estado, desenvolveu um extenso programa de comemorações do primeiro centenário da Independência do Brasil, envolvendo todos os seus segmentos e classes sociais. 

Embalado pelo sucesso da lavoura orizícola, o município de Cachoeira entrou na década de 1920 com uma arrecadação mais robusta e personalidades políticas fortes. 

Os dados econômicos daquele ano diziam que a força da sua economia estava nos setores pastoril e agrícola. A sua área era de 601.789,5 hectares, discriminados em 463.702,9 de campos e 60.323,8 hectares de matos. A agricultura, que se desenvolvia tremendamente, era mais intensa nos 4.º, 5.º, 6.º e 7.º distritos, ou seja, Parada Borges, Restinga Seca, Jacuí e São Miguel (4.º distrito), D. Francisca, Vale Vêneto, Trombudo, Faxinal do Soturno, São João do Polêsine e Formoso (5.º distrito), Agudo, Pinhal, Novo São Paulo e Cerro Chato (6.º distrito) e Parada Pertille, Três Vendas, Taboão, Pertille, Biscaim, Bosque, Cancelão, Picada dos Machados, Timbaúva, Cortado e Cerro Branco (7.º distrito), onde estavam as colônias e as zonas de serra e de matos. 

Naquele tempo o município dispunha de 24 núcleos coloniais, com produção variada de cereais, especialmente milho, feijão, cevada, trigo, fumo, aveia e batata inglesa. Mas a principal cultura era do arroz, produzido em grandes extensões de várzeas e banhados, o que fazia de Cachoeira o maior produtor do estado. 

Existiam 104 empresas produtoras de arroz que atingiram, no ano de 1921, a safra de 600.000 sacos. Dentre estas empresas, destacavam-se como maiores: Barros & Cia., Roberto Danzmann, Reinoldo Preussler & Cia., Christóvão Zinn & Cia., Fortes & Radünz, Ricardo Schaurich & Cia., Bonifácio Gomes & Cia., A. Castagnino & Vieira da Cunha e João Leitão & Cia. Existiam 25 engenhos de descascar arroz, sendo os principais de Ernesto Pertille & Filhos, Stracke & Cia., Felippe Matte e Roesch & Cia., estes instalados na cidade.

Algumas granjas de criação (1922)
- O Rio Grande do Sul, de Alfredo R. da Costa

A pecuária era destacada e bastante adiantada no cruzamento de raças. Existiam, no município, 300 mil bovinos, 40 mil ovinos, 50.000 equinos e 50.000 suínos, para destacar os maiores rebanhos. As raças mais criadas eram Hereford, Devon e Polled-Angus. Dentre os criadores de animais finos, destaque para Dr. Balthazar de Bem, Eurípedes Mostardeiro, Sebastião Pereira, Dr. Borges de Medeiros, Julio Medeiros e Irmãos Souza.

O comércio era grande e forte em todo o município, com 395 casas de negócios. A indústria contava com 98 fábricas, produzindo aguardente, cerveja e outras bebidas, móveis, chapéus, calçados, conservas e cigarros, dentre outros.

Comerciantes e industrialistas de Cachoeira (1922)
- O Rio Grande do Sul, de Alfredo R. da Costa


Alguns empreendimentos comerciais e industriais (1922)
- O Rio Grande do Sul, de Alfredo R. da Costa 

A administração pública era exercida pelo intendente Annibal Lopes Loureiro, secundado pelo Conselho Municipal e um grupo de dinâmicos servidores.

Servidores da Intendência (1922)
- O Rio Grande do Sul, de Alfredo R. da Costa 

A sede da cidade, com 600 hectares, estava dividida em nove ruas longitudinais e 21 transversais. Dividida em sede alta e sede baixa pelo complexo da Estação Ferroviária, no alto da Rua Sete de Setembro, existiam zonas bem definidas, como o Alto da Estação, o Bairro Rio Branco, o centro e o extremo sul, onde se destacava o prédio da Intendência, do Colégio Elementar e da Igreja Matriz.

Igreja Matriz (1922)
- O Rio Grande do Sul, de Alfredo R. da Costa 

A principal rua era a Sete de Setembro, onde se concentrava o comércio, cafés, centros de diversões, cartórios e consultórios. A Praça José Bonifácio, que era uma das quatro existentes, concentrava em seu território o Mercado Público, o Cinema Coliseu Cachoeirense e quiosques-bar.

Estação Ferroviária e Mercado Público (1922)
- O Rio Grande do Sul, de Alfredo R. da Costa

A cidade era iluminada a luz elétrica, com agradável aspecto à noite, especialmente na rua principal e na Praça José Bonifácio. Além de muitas e variadas casas comerciais, existiam sete hotéis, sete barbearias, quatro alfaiatarias, oito depósitos de móveis, três bares, cinco farmácias, três livrarias, dois bazares, três funilarias, cinco depósitos de madeiras, duas ourivesarias, três chapelarias, uma casa de louças, quatro botequins, três tipografias, três lojas de calçados, uma casa de eletricidade, oito ferrarias, um moinho, cinco engenhos de arroz, quatro engraxatarias, cinco marcenarias, quatro serrarias, duas fundições e sucursais dos bancos Nacional do Comércio, Província, Brasil e Pelotense, possuindo o último um belíssimo palacete.

O serviço de água era fornecido, em parte, pela hidráulica municipal e tinha projetado o serviço de esgoto.

Dois quartéis estavam em construção, sendo o aquartelamento do exército fator de esperado progresso para a cidade.

A população da época, em torno de 53.649 habitantes (1921) tinha à disposição 18 escolas estaduais, 17 federais e 44 municipais, sendo subvencionadas pelo estado. Havia também 35 escolas particulares.

Cachoeira, como se vê pelos dados registrados na obra O Rio Grande do Sul, de Alfredo R. da Costa, editado em Porto Alegre no ano de 1922,  era uma cidade em franco desenvolvimento e que, segundo as palavras do autor: "será, dentro de poucos anos, uma das mais belas e prósperas cidades do estado."

Obra referência

E foi esta Cachoeira que, em 1922, comemorou com muita dignidade, respeito e devoção o primeiro centenário da Independência do Brasil.

Ver programa das comemorações em:

http://arquivohistoricodecachoeiradosul.blogspot.com/2022/09/como-cachoeira-comemorou-o-centenario.html

domingo, 28 de agosto de 2022

Série Registros fotográficos incríveis V - O Império do Espírito Santo

No corrente ano de 2022, o Rio Grande do Sul está comemorando os 270 anos do povoamento açoriano. Cachoeira, como muitos outros municípios estado afora, também recebeu um contingente desses portugueses das ilhas dos Açores, sofrendo igualmente a influência de seu modo de ser e agir. Um legado no cultivo da terra, em hábitos alimentares, no modo de falar e nas celebrações religiosas ficou por aqui.

Certamente uma das mais marcantes tradições culturais dos Açores é a que se refere ao culto ao Divino Espírito Santo. Representado pela pomba branca, o Espírito Santo vai muito além da devoção, revelando-se através de ações que buscam estabelecer a comunhão e a solidariedade entre as pessoas.

Cachoeira, como de resto os muitos municípios que tiveram o povoamento açoriano, também teve erguido o seu Império do Divino, edificação em que os devotos se reuniam para os festejos religiosos. O Império foi construído nas proximidades da Igreja Matriz por iniciativa do devoto Ferminiano Pereira Soares que, na condição de festeiro do ano de 1855, pediu licença ao vigário para edificar. 

Pedido de construção do Império por Ferminiano P. Soares
Documento das Irmandades Conjuntas
  

Existem várias tomadas fotográficas que retratam a fachada do Império. A Série Registros fotográficos incríveis - V - sempre com o apoio do memorialista Claiton Nazar, buscou na fototeca do Museu Municipal uma fantástica seleção de imagens que lá chegaram graças à aquisição de uma coleção de fotos atribuídas a Renoardo Pohlmann e que foram resguardadas por Martinho Schünemann até serem adquiridas pelo Município.

Registros fotográficos I e II: a Praça Almirante Tamandaré, atual Dr. Balthazar de Bem, aparece murada nestes registros, o que pode ser observado no canto esquerdo das fotos. No outro lado, ao fundo, a Igreja Matriz e, em primeiro plano, à direita, o salão do Império do Divino Espírito Santo. Na primeira foto é possível ver que não há janelas na fachada, e sim cinco portas de acesso, sendo a principal a mais alta, com as demais diminuindo em altura em relação à central em ambos os lados. Na segunda foto, iluminada pelo sol, é mais fácil visualizar o olho de Deus estampado no frontão do edifício e no alto a coroa do Império.



Registro fotográfico III: o Império do Divino Espírito Santo, em ângulo semelhante aos dois anteriores, permite que se veja as cinco portas em detalhes e sobre a principal uma placa. O que diria ela? Portaria o ano 1856 da construção?


Registro fotográfico IV: dia de procissão. A Igreja Matriz tem sua frente tomada de fieis, estando alguns também à frente do edifício do Império. Na sacada esquerda da Igreja um homem observa tudo. Dá para perceber que as vidraças das sacadas têm vidros coloridos. Que cores teriam? 

A foto mostra que por este tempo a Igreja Matriz não ficava em um nível acima da rua e, portanto, não precisava de escada para acessá-la. 


Registro fotográfico V: a imagem é do começo da década de 1920, antes das reformas gerais que a Praça Dr. Balthazar de Bem sofreria. Vê-se o prédio do Império como plano de fundo das árvores, registro feito por Joaquim Vidal.


Registro fotográfico VI: outra procissão toma rumo da Igreja Matriz. Neste registro o frontão do Império fica bem visível.


Registro fotográfico VII: a Praça Dr. Balthazar de Bem depois da inauguração do Château d'Eau, mas antes da reforma da fachada da Igreja Matriz, ou seja, entre 1925 e 1929. A Igreja Matriz domina a foto, com o Império à esquerda e o Château d'Eau à frente. 


O Império do Divino Espírito Santo chegou a abrigar uma escola noturna e o Fórum. Sem manutenção, acabou sucumbindo de nossa paisagem, levando consigo uma página importante do culto ao Espírito Santo, tradição cultivada com devoção pelos açorianos que um dia se estabeleceram em Cachoeira.

domingo, 3 de julho de 2022

Estatística demográfica da velha Cachoeira

Em 1910, desempenhava a função de secretário de Arquivo e Estatística da Intendência Municipal aquele que seria conhecido como o maior historiador de Cachoeira, atento que foi à documentação legada pelas administrações municipais desde a instalação da Vila Nova de São João da Cachoeira, em 5 de agosto de 1820. Seu nome: Afonso Aurélio Porto.

Aurélio Porto - Museu Municipal

Ao organizar a documentação existente na Intendência, Aurélio Porto foi coletando dados para a publicação do conteúdo histórico constante do Relatório de Estatística apresentado ao Coronel Isidoro Neves da Fontoura, intendente municipal, em setembro de 1910. Este relatório, precioso em suas informações, embasou em boa parte o Resumo Histórico que Aurélio Porto publicou, em 1922, no Grande Álbum de Cachoeira no Centenário da Independência do Brasil, editado por Benjamin Camozato.

Grande Álbum de Cachoeira, de Benjamin Camozato
- foto Renato F. Thomsen

Um dos dados mais interessantes do relatório, além da referência dos principais acontecimentos históricos, é o que se refere à população local desde o tempo da Freguesia de Nossa Senhora da Conceição da Cachoeira, criada em 10 de julho de 1779. Na realidade, os dados populacionais levantados por Aurélio Porto iniciam quatro anos depois, ou seja, em 1783. Segundo ele, as primeiras informações foram anotadas porque o governador José Marcelino de Figueiredo ordenou ao Capitão Antônio Gomes de Campos, comandante do distrito, que fosse feito um arrolamento de todas as estâncias sob sua jurisdição. O levantamento englobou 110 estabelecimentos de criação. A Aldeia, recém elevada à freguesia, era composta por cerca de 80 ranchos. Fazendo o cálculo de que havia em média seis almas por fogo, ou seja, seis pessoas por residência, mais o avultado número de escravos necessários para o atendimento do serviço na grande extensão territorial das estâncias e computando as famílias indígenas aldeadas, chegou Aurélio Porto ao número aproximado de 1.140 habitantes.

Em 1803, o número saltou para 3.283. Naquele ano, o governador Paulo José da Silva Gama fez o primeiro censo populacional da capitania. Em 1814, a população já era de 8.225 almas na freguesia que então englobava Cachoeira, Caçapava, Santa Maria e São Gabriel. A capela de Caçapava estava densamente povoada, tendo em vista o grande êxodo de famílias que para lá se dirigiam atraídas pelas minas de ouro. Santa Maria, por sua vez, estava deixando de ser o acampamento das tropas que se embrenhavam pelo interior.  A distribuição das almas (habitantes) era a seguinte em 1814:

Cachoeira - 3.850 almas

Caçapava - 2.044 almas

Santa Maria - 1.640 almas

São Gabriel - 691 almas

Total: 8.225 almas

O historiador alerta que os dados careciam de maior precisão, pois naquele início de século XIX, em razão das tantas vezes que os rio-grandenses tinham que pegar em armas, as populações flutuavam muito ao sabor das lutas.

No ano de 1817, graças a uma certidão do Padre Inácio Francisco Xavier dos Santos, vigário da freguesia, foi possível precisar que a população de Cachoeira e Santa Maria perfazia 5.289 almas discriminadas em 1.423 homens brancos, 71 homens pardos forros, 63 homens pretos forros, 250 índios homens, 120 homens pardos cativos e 972 homens pretos cativos; 1.426 mulheres brancas; 58 mulheres pardas forras, 52 mulheres pretas forras, 186 índias mulheres, 132 mulheres pardas cativas e 536 mulheres pretas cativas. O total de homens era de 2.898 e o total de mulheres, 2.390.

Assinatura do padre Ignacio Francisco Xavier dos Santos
- Arquivo Histórico

Em 1820, quando a freguesia foi elevada à condição de vila, a população era de 12.245 habitantes distribuídos em 1.653 fogos (casas). Compunham a vila de Cachoeira as freguesias de Santa Maria, Caçapava, Alegrete e São Gabriel, com uma média de 7,4 habitantes por fogo. Assim, Cachoeira tinha 657 fogos e uma população de 4.861 almas; Santa Maria contava com 366 fogos e 2.708 almas; Caçapava com 280 casas e 2.072 moradores; Alegrete, 250 fogos, 1.850 moradores; São Gabriel, 100 casas e 754 moradores.

Em 1830, a situação populacional era a seguinte:

Cachoeira: 794 fogos com 5.458 almas

Caçapava: 298 fogos, 2.952 almas, sendo 1.828 livres e 1.124 escravos

Santa Maria: 443 fogos, 2.188 almas, das quais 1.351 livres e 837 escravos

Alegrete: 270 fogos, 1.944 almas, sendo 1.200 livres e 744 escravos

São Gabriel: 150 fogos, com 1.050 almas

Livramento: 120 fogos, com 840 almas

Os dados levantados por Aurélio Porto concluíram que no ano de 1910, quando ele elaborou o relatório por determinação do intendente Isidoro Neves da Fontoura, a população total de Cachoeira, então contando com a sede e mais sete distritos, era de 44.993 habitantes. 

Pelos dados de 2020, o município de Cachoeira do Sul registra 81.860 habitantes e também dispõe de sete distritos: cidade (sede), Ferreira, Bosque, Três Vendas, Barro Vermelho, Capané e Cordilheira.

Nos 112 anos que nos separam do relatório de Aurélio Porto o município foi desmembrado por muitas emancipações, o que reduziu não só a área territorial como também o contingente populacional. Mas diferentemente do que se observava no passado mais distante, quando o Rio Grande vivia envolvido com disputas de território, hoje o que determina a oscilação de dados populacionais é o êxodo advindo da busca de oportunidades e crescimento.

sexta-feira, 22 de abril de 2022

Pedra fundamental do Quartel de Engenharia de Cachoeira

Há 100 anos, no dia 2 de abril de 1922, Cachoeira recebeu autoridades para o lançamento da pedra fundamental dos quartéis do 3.º Batalhão de Engenharia, obra ansiada pela comunidade e que, efetivada, tornou a cidade polo reconhecido pela excelência das instalações e serviços militares.

3.º BE - Batalhão Conrado Bittencourt - Robispierre Giuliani


Conforme a imprensa noticiou, às 17 horas daquele 2 de abril, chegaram em trem especial o Ministro da Guerra, Dr. João Pandiá Calógeras, os generais Cândido Rondon, Abílio Noronha e outros oficiais do Exército, além de executivos da Companhia Construtora de Santos, empresa responsável pela construção de vários quartéis no Rio Grande do Sul, São Paulo, Santa Catarina e Mato Grosso. Foram todos recepcionados na Estação Ferroviária por autoridades locais e muitas pessoas da comunidade, sendo saudados, em nome da cidade, pelo intendente municipal Dr. Aníbal Lopes Loureiro.

Dr. João Pandiá Calógeras - Wikipédia

Depois das saudações e cumprimentos de praxe, o Ministro da Guerra e o intendente municipal, acompanhados das demais autoridades visitantes, seguiram em vários automóveis em rápido passeio pela cidade, dirigindo-se ao terreno escolhido para a construção dos quartéis do 3.º Batalhão de Engenharia. Adquirido pela municipalidade, o terreno foi cedido ao governo federal, tendo sido todo esquadrinhado pelo Ministro da Guerra, que aprovando-o, autorizou o início das obras.

Todos os passos das autoridades visitantes foram registrados em ata especial, lavrada em pergaminho por Emiliano Carpes, nomeado secretário da solenidade. Após a assinatura do Dr. Pandiá Calógeras e demais autoridades, o Dr. Roberto Simonsen, em nome da Companhia Construtora de Santos, ofereceu uma taça de champanha aos presentes, saudando o Ministro da Guerra por suas iniciativas à frente do ministério. Todos então levantaram suas taças em saudação à grande iniciativa, sendo logo chamados a ouvirem o pronunciamento do intendente. Aníbal Loureiro, em sua alocução, afirmou que a cidade estava engalanada e feliz pela visita do Sr. Calógeras e extremamente satisfeita em oferecer ao governo federal área necessária para tão importante e significativa obra. Fez referências à importância do Exército, suas instalações e tropas na garantia da integridade e soberania da pátria, escudado na experiência recente da guerra (I Grande Guerra) ocorrida na Europa. Ao terminar, levantou sua taça ao Ministro da Guerra e à grandeza e prosperidade do Brasil, sendo muito aplaudido.

Na sequência, manifestou-se o Dr. Pandiá Calógeras, agradecendo, em nome do governo federal, a doação de terrenos feita pelo município, ressaltando a cooperação patriótica que tinha, a exemplo de Cachoeira, encontrado em todo o Rio Grande do Sul. Finalizando a fala, entregou as obras aos responsáveis da companhia construtora, à competência da diretoria de engenharia do Exército, representada pelo General Cândido Rondon, e ao carinho do povo cachoeirense, conforme relatou o jornal O Commercio, em sua edição do dia 5 de abril de 1922.

Depois do discurso, deslocaram-se todos para lançarem a pedra fundamental das obras, tendo Calógeras disposto no local a primeira pá de cimento.

Lançamento da pedra fundamental, vendo-se, em primeiro plano,
ao centro, Pandiá Calógeras, ladeado, à esquerda, por Emiliano Carpes e, 
à direita, pelo Marechal Rondon - Grande Álbum de Cachoeira, de Benjamin Camozato

O 3.º Batalhão de Engenharia foi criado em São Gabriel, pelo Decreto n.º 12.739, em 26 de dezembro de 1917. Com a construção do quartel em Cachoeira, foi o 3.º BE transferido para a cidade, após a conclusão das obras em outubro de 1923.

sexta-feira, 15 de abril de 2022

Judas na Praça José Bonifácio

Nossos antepassados jamais imaginariam a interação virtual que temos hoje, nem as múltiplas possibilidades de comunicação. Todo esse aparato tem transformado as relações, e as redes sociais ditam hoje, para o bem e para o mal, os rumos da humanidade.

Sejam quais forem os mecanismos de comunicação, desde os mais toscos até os mais sofisticados, o homem sempre soube servir-se deles para expressar-se direta ou indiretamente.

Na Semana Santa de 1908, inusitadas aparições estavam colocando as autoridades em alerta, assim como despertando curiosidade nas pessoas... 

Em sua rotineira patrulha pelas ruas da cidade, a Guarda Municipal encontrou, na madrugada do sábado de aleluia, um "judas" comodamente instalado em um dos bancos da Praça do Mercado, hoje José Bonifácio, defronte ao armazém de Feliciano da Silva. O "judas" tinha duas caras, trajava fraque curto, botas, chapéu de aba larga e pincenê*. O jornal Rio Grande, deu a notícia destacando que pelo local e outros detalhes era "fácil supor a quem se referia a alegoria, cujo efeito foi frustrado pela polícia". E mais, "na mesma praça, defronte à agência do Correio, apareceu de manhã outro judas que escapou à vigilância policial", chamando a atenção de todos que passavam e que, em discussões, julgavam ser um dos carteiros da cidade...

A exposição de bonecos no sábado de aleluia é uma tradição bem antiga, mas que desapareceu entre nós. Sua prática era uma forma de criticar pessoas, normalmente políticos ou figuras polêmicas, dando-lhes o tratamento punitivo como o fariam com Judas Iscariotes por ter entregue Jesus Cristo aos seus algozes. A tradição, chamada por uns de "Queima de Judas" ou "Malhação de Judas", foi introduzida no Brasil pelos portugueses. Na maioria das vezes, o "judas" era surrado até se desmanchar ou então ateavam fogo sobre o seu corpo, normalmente montado com serragem, palha ou trapos velhos e vestido de forma a identificar o alvo da crítica.

Bancos da Praça José Bonifácio - Museu Municipal

Quem seria o "judas" sentado num dos bancos da praça? Certamente uma figura de relevo na Cachoeira daqueles tempos... O distanciamento temporal torna difícil decifrar o recado, mas que ele foi dado, e muito bem dado para os cachoeirenses daquele tempo, ah, certamente foi! 

Imaginem se esta tradição voltasse!!!

*pincenê: óculos sem haste.


terça-feira, 22 de março de 2022

Série: Registros fotográficos incríveis - IV - Engenhos de arroz - Engenho Brasil

Dando sequência à Série: Registros fotográficos incríveis IV, sobre engenhos de arroz, iniciada com o Grande Engenho Central, vamos agora descobrir outras imagens de outro importante estabelecimento do gênero, o Engenho Brasil, que em seu tempo chegou a ser o maior da América Latina. Os engenhos de arroz foram responsáveis durante décadas pela injeção de recursos que fizeram com que Cachoeira, ao longo do século XX, experimentasse muitos avanços nos mais diversos campos da vida da comunidade, havendo registros fotográficos de boa parte deles, dentre os quais muitos garimpados por Claiton Nazar, colaborador da série.

Assim como para o Grande Engenho Central a publicação O Estado do Rio Grande do Sul, editada por Monte Domecq em 1916, foi importante para a propagação e manutenção da sua história, o Grande Álbum de Cachoeira no Centenário da Independência, de Benjamin Camozato, que no corrente ano completa seu centenário, fez importantes registros fotográficos sobre diversos engenhos daquele tempo. Nessa publicação há referências fotográficas ao Engenho Brasil, assim como outros que em Cachoeira, naquele ano de 1922, existiam "em grande número, com capacidade diária, para o beneficiamento de cerca de 4.000 sacos", segundo palavras de Camozato. Dos engenhos apresentados no Grande Álbum, o primeiro foi justamente o Engenho Brasil, de Reinaldo Roesch & Cia., que produzia diariamente 800 sacos das marcas "Micado" e "Oriente", esta última produzida até o encerramento das suas atividades comerciais, além de "Zênite" e "Gaivota". A capacidade de armazenamento do Brasil era de 40.000 sacos. Acompanhavam Reinaldo Roesch no empreendimento, que foi inaugurado em 26 de maio de 1921, os sócios Dr. Alfredo Papay, Reinaldo Treptow e Edwino Schneider. Na ocasião, os convidados ao ato puderam conferir as instalações e os maquinismos adquiridos para o beneficiamento do arroz, sendo obsequiados com churrasco regado a chope.


Engenho Brasil no Grande Álbum de Cachoeira (1922),
de Benjamin Camozato


Engenho Brasil - foto de Benjamin Camozato - Coleção Claiton Nazar


Complexo do Engenho Brasil - reprodução Robispierre Giuliani


Complexo anterior a 1961 - Coleção Rodrigo Carvalho


Uma das seções do Engenho Brasil - Coleção Wilto Schultz



Seção de embalagem do arroz para comercialização - 
reprodução Robispierre Giuliani



Carregamento para transporte - reprodução Robispierre Giuliani


Locomóvel - Robispierre Giuliani


Em 1928, para atender ao crescimento dos negócios, Reinaldo Roesch e seus sócios mandaram construir um grande depósito fronteiro ao prédio da antiga Fundição Treptow, onde estavam instalados, junto aos trilhos da viação férrea. O depósito tinha capacidade para armazenar 50.000 sacos de arroz e foi construído por Sebastião Moser. 

Um grande incêndio, ocorrido em 24 de fevereiro de 1961, quase liquidou com o complexo do engenho. Mas a capacidade do negócio era tanta que logo teve início a reconstrução, ficando o grande Engenho Brasil com a conformação que ainda hoje pode ser conferida naquela que se tornou, por força de sua presença, conhecida como "área dos engenhos", um verdadeiro patrimônio histórico industrial de Cachoeira do Sul.

As lentes do fotógrafo Robispierre Giuliani registraram as manchetes dos jornais da época, referindo o grande incêndio:

Folha da Tarde, de Porto Alegre (capa - 25/2/1961)


Cobertura da Folha da Tarde



Jornal do Povo (capa - 26/2/1961) - Acervo de Imprensa do Arquivo Histórico



O Comércio (capa - 1.º/3/1961) - Acervo de Imprensa do Arquivo Histórico

Com o passar do tempo, o Engenho Brasil, já então propriedade apenas dos sócios Reinaldo Roesch e Edwino Schneider, mantinha investimentos não só na  produção, aquisição e beneficiamento do arroz, como também na pecuária. A capacidade produtiva diária era de 3.000 sacos de arroz com casca, depósito com capacidade para 500.000 sacos, secadores, moega, silos, instalações para parboilização do arroz e posto de gasolina próprio. Em 26 de julho de 1947, os sócios Reinaldo Roesch e Edwino Schneider deliberaram transformar seu negócio em uma sociedade anônima. No começo da década de 1980, a Reinaldo Roesch S.A. era a principal acionista do Engenho de Arroz Ipiranga, de Cacequi. 

Em 1989, o Engenho Brasil encerrou definitivamente suas atividades, tendo atualmente parte de suas instalações locadas para outros empreendimentos.

Chaminé do Engenho Brasil - Jorge Ritter


Robispierre Giuliani



Em qualquer lugar do mundo a área dos engenhos seria tratada como joia!!! Pensemos nisto.


Vista aérea do extinto Engenho Brasil - Renato Thomsen

 Robispierre Giuliani

domingo, 13 de março de 2022

Série: Registros fotográficos incríveis - IV - Engenhos de arroz - Grande Engenho Central

A Série: Registros fotográficos incríveis chega à sua quarta edição, desta vez enfocando antigos engenhos de arroz, em grande parte responsáveis pelo incremento na economia de Cachoeira, especialmente a partir do começo do século XX. Como há imagens de vários e diferentes engenhos de arroz, esta série será subdivida, começando pelo Grande Engenho Central, cujas ruínas reapareceram em razão da seca experimentada nos primeiros meses de 2022.

Como das outras edições, a série conta com o auxílio imprescindível do memorialista Claiton Nazar, dono de uma invejável coleção de fotografias da Cachoeira antiga e conhecedor não só da arte de fotografar, como também da cultura orizícola, engenheiro agrônomo que é de formação.

Do primeiro engenho de arroz da história de Cachoeira não há registro fotográfico conhecido, embora dentre os membros da família que o fundou, montou e operou, os Pohlmann, constem dois homens fantásticos, o fotógrafo Renoardo e seu irmão José Albino, habilidosíssimo mecânico. Talvez Renoardo tenha feito algum registro do velho engenho do pai, João Frederico Pohlmann, fundado em 1887, na Rua Sete de Setembro. Quem sabe até com uma máquina fotográfica fabricada pelo irmão? 

Uma importante fonte para buscar imagens dos primeiros engenhos de arroz é a publicação O Estado do Rio Grande do Sul, editado por Monte Domecq, em Barcelona, no ano de 1916. A obra traz informações históricas, econômicas e sociais dos principais municípios gaúchos. Pois é nela que aparece, em primeiro lugar no gênero de engenhos de arroz em Cachoeira, o Grande Engenho Central, de Aydos, Neves & Cia., localizado à margem esquerda do Jacuí, junto à rampa do porto. 

Grande Engenho Central - Monte Domecq (1916), p. 498

O Grande Engenho Central foi organizado em 1907, tendo como sócios João Aydos, Frederico Dexheimer, Eurípedes Mostardeiro, todos comerciantes em Porto Alegre, e o Coronel Isidoro Neves da Fontoura, importante liderança econômica e política de Cachoeira. A firma, sob a razão social de Aydos, Neves & Cia., iniciou com um capital de 300 contos de réis e para a instalação do engenho adquiriu uma área no local conhecido como Porto Fidêncio, à margem esquerda do rio Jacuí e ao lado do porto da Rua Moron.

Em maio de 1919, o engenho foi arrematado por Araújo, Leal & Cia., em 1921 foi vendido para Ernesto Pertille & Filho, em 1925, para Matte, Gaspary & Cia. e, em 1937, para a Brasil Arroz Ltda, de Porto Alegre. Na enchente de 1941, o Engenho Central, como então era chamado, estava sob a administração do Instituto Rio-Grandense do Arroz - IRGA.

Pelo registro da publicação referida, ano 1916, em que já aparece a exuberante chaminé de alvenaria, é possível descobrir registros fotográficos anteriores, em que ela ainda não havia sido erguida, embora haja outra que aparenta ser de metal e estar fixada mais ao centro do conjunto construtivo:

Grande Engenho Central - acervo Ernesto Müller

No registro da coleção de Ernesto Müller, percebe-se o leito seco do Jacuí, onde uma criança parece se sentar tranquilamente. Na próxima fotografia, com a inscrição 27, vê-se o Jacuí em plena capacidade para navegação tendo em vista três vapores que se postam à frente do engenho, com destaque para o de nome Santa Cruz.

Coleção Claiton Nazar

O cartão-postal que segue traz um aramado em torno da chaminé e parece ser anterior à foto acima em razão da vegetação um pouco menor.

Cartão-postal do porto e Engenho Central - Fototeca Museu Municipal


O registro seguinte enfoca o prédio de três andares em que se dava o beneficiamento do arroz:

Grande pavilhão de beneficiamento - Fototeca Museu Municipal


Nos próximos registros fotográficos, vê-se a grande chaminé de alvenaria, construída mais próximo da margem do rio:


Engenho Central administrado por Ernesto Pertille & Filho
- Coleção Claiton Nazar

Fototeca Museu Municipal

                             
Durante a grande enchente de 1941, o Engenho Central, cuja administração já tinha passado por várias mãos, ficou com suas instalações parcialmente submersas, como flagrado nos dois próximos registros:

Enchente de 1941 - Fototeca Museu Municipal

Engenho Central IRGA - Coleção Emília X. Gaspary


E por fim, uma das últimas imagens do complexo ainda com a chaminé íntegra:


Complexo do IRGA no local do antigo Engenho Central (1991)
- Foto Claiton Nazar

A grande seca que assolou o município de Cachoeira do Sul no verão de 2022 fez com que o recuo das águas do Jacuí fizesse surgir uma faixa de areia na margem esquerda fronteira às antigas instalações do engenho. Foi possível então acessar as ruínas das suas antigas instalações, verificando o quão grandioso foi este empreendimento que provou a força da lavoura orizícola cachoeirense no século XX. Os próximos registros fotográficos mostram o que restou do velho engenho em janeiro de 2022:

Foto Mirian Ritzel


Foto Méia Albuquerque



Foto Méia Albuquerque

O blog aceita contribuições fotográficas para robustecer os registros da série. Muito obrigada!