Espaços urbanos

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Placa de inauguração da Primeira Hidráulica - 20/9/1921 - Cristianno Caetano

terça-feira, 12 de outubro de 2021

Série: Registros fotográficos incríveis - I

A Série: Registros fotográficos incríveis traz ao conhecimento dos leitores e seguidores imagens sensacionais da Cachoeira de outros tempos, tentando desvendá-las em pormenores. Contribuirá nesse desafio o memorialista Claiton Nazar, um dos maiores colecionadores de fotografias da Cachoeira antiga, cuja consultoria tem sido fundamental para a identificação de  imagens históricas disponíveis nos acervos, especialmente na Fototeca do Museu Municipal.

A maior parte desses registros fotográficos mantém a autoria no anonimato e a data indefinida. Alguns deles, inclusive, não guardam mais nenhuma relação com o aspecto atual da cidade e justamente por isto, ou talvez especialmente por essa dissociação com a realidade de hoje, é que se robustecem em significado e atiçam a imaginação daqueles que têm sensibilidade para se transportarem no tempo e no espaço.

Registro fotográfico incrível - I 

Crédito das imagens: Fototeca do Museu Municipal Edyr Lima

Praça da Conceição fronteira ao Teatro Municipal 

O registro fotográfico acima pode ser datado entre 1900 e 1908, com maior probabilidade de ter sido feito no ano de 1906, quando o intendente da época, Dr.  Cândido Alves Machado de Freitas, decidiu colocar bancos* nas praças e encomendou orçamentos para o serviço. A fotografia registra o interior da Praça da Conceição (atual Praça Dr. Balthazar de Bem), que era fechada por muros à época. Ao fundo, o prédio do Teatro Municipal, cuja placa de identificação está aposta sobre a porta central. À direita de quem observa a foto, divisa-se uma parte do prédio da Intendência Municipal, hoje sede do Museu.

A praça estava murada e gradeada, oferecendo um banco de ripas de madeira sobre estrutura de ferro. A sombra que parece convidar a um descanso é dada por árvores frondosas. A nitidez e a qualidade da fotografia permitem quase afirmar que há um cedro à direita, cuja exuberância da folhagem indica ser primavera ou verão. O caminho que conduz ao portão parece ser de terra solta, observando-se também que há tufos de grama crescida onde não há trânsito. Pela sombra projetada pelos pilares do muro pode-se imaginar que a tomada tenha sido feita pela manhã.

I - Decompondo a foto:

Teatro Municipal, inaugurado em 25 de dezembro de 1900 e interditado por problemas estruturais em 1908. Construído em três níveis que se distinguiam pelos diferentes tipos de colunas e esquadrias, tinha no primeiro deles cinco portas, sendo quatro guarnecidas por caras de leões; a quinta ostentava a placa de metal com o letreiro Teatro Municipal. No último nível, coroando a edificação, uma estátua. Seria de Dionísio, a divindade grega associada ao teatro? Ou quem sabe São João, padroeiro da Vila Nova e da maçonaria? A inauguração no dia de Natal foi marcada por uma festa maçônica.

Teatro Municipal

II - Decompondo a foto:

Os muros da Praça da Conceição: em agosto de 1898, os trabalhos de fechamento da praça com muros e grades estavam concluídos, serviço finalizado por um cidadão chamado Bruttus Machado, a quem os cofres públicos pagaram a quantia de 130 mil réis pelo serviço**.

Vista externa da Praça da Conceição fechada a muro


A foto seguinte mostra o mesmo trajeto feito no interior da Praça com maior distanciamento, vendo-se um transeunte caminhando rumo ao portão fronteiro ao Teatro Municipal.


Em outras tomadas, é possível confirmar que havia outro portão na quina da Praça que encontrava a atual Rua General Câmara.



No ângulo contrário, a vista da Igreja Matriz e do portão da Praça fronteiro ao Teatro Municipal.



E, finalmente, o Teatro Municipal visto do lado de fora da Praça.



O registro fotográfico incrível que inaugura a série pôde ser ampliado em diferentes ângulos em razão de existirem outros tantos que gravaram para a posteridade espaço urbano de tamanha relevância. A profusão de registros fotográficos se deve, com certeza, ao fato de que essa zona concentrava edificações de grande significado para a Cachoeira do final do século XIX e primeiros anos do século XX, com assídua frequência da população.


**Fonte: Arquivo Histórico do Município de Cachoeira do Sul - documento IM/RP/SF/D-039, fl. 506.

segunda-feira, 20 de setembro de 2021

20 de setembro de 1921 - água encanada em Cachoeira

O simples gesto de abrir uma torneira, tão corriqueiro em nossos dias, foi um enorme avanço para a comunidade cachoeirense que viu a sua primeira hidráulica ser inaugurada no dia 20 de setembro de 1921. Naquele dia, às 15 horas, reunidas as autoridades, convidados e o povo em geral, oficialmente a água começou a correr pelos canos, tanques e filtros nas instalações da Hidráulica, na Praça Itororó. 

Inauguração da Hidráulica - 20/9/1921 - Benjamin Camozato

As instalações da Hidráulica se constituíam dos aparatos necessários para o processo de captação, tratamento e distribuição de água, sem no entanto descuidarem-se os seus idealizadores do embelezamento do local. Chamava a atenção o chafariz, por onde cascateava lindamente a água, e os muros guarnecidos com as antigas grades que circundavam a Praça Almirante Tamandaré, atual Dr. Balthazar de Bem.

Convidados e autoridades presentes à inauguração - Museu Municipal

A captação da água no Jacuí era feita por meio de uma casa de máquinas de pequenas dimensões, uma espécie de poço que permitia com bastante limitação espacial o acesso do pessoal, colocação dos encanamentos e das correias transmissoras. Esse poço tinha a profundidade de 12,40 metros e sobre ele se assentava o motor elétrico de 14 HP, com capacidade para bombear 30 mil litros de água com 42 revoluções por minuto. Trabalharam na montagem desse equipamento o mecânico Ernesto Grübner e o engenheiro Ricardo Klinger.

A água era recalcada numa extensão de 200 metros, vencendo a altura de 40 metros e atingindo o elegante chafariz que a municipalidade adquiriu nas oficinas de J. Vicente Friedrichs, mesma empresa que forneceria mais tarde as ninfas e o Netuno ao Château d'Eau. O chafariz cumpria papel no processo de filtração da água que depois caía em três tanques antes de ser recolhida ao reservatório de 16,50 metros de altura e com capacidade para armazenar 100 metros cúbicos. Segundo os documentos da época, a torre, de linhas delicadas e elegante ornamentação, foi a primeira dessa grandeza construída no estado.

Tanques da Hidráulica, vendo-se ao fundo o Jacuí - Museu Municipal

Ao tempo da inauguração, segundo noticiou a imprensa, as instalações da Hidráulica ofereciam um belo panorama que se descortinava pela observação das várzeas e coxilhas por onde o Jacuí rolava suas águas em "curso orlado de luxuriantes matas".

As obras custaram 170 contos de réis e favoreceram moradores das ruas D. Luiza (atual Tuiuti), Sete de Setembro, Ferminiano (atual Gabriel Leon), 15 de Novembro, Sete de Abril (atual Dr. Milan Kras) e Moron.

Naquele memorável dia, destaque para o intendente Dr. Aníbal Lopes Loureiro que comemorava seu primeiro ano de mandato e inaugurou também melhorias no Mercado Público e seu gabinete junto ao prédio da Intendência Municipal.

Aníbal Loureiro no gabinete inaugurado também em 20/9/1921
- Benjamin Camozato (1922)

quarta-feira, 8 de setembro de 2021

Ataque assassino na Igreja Matriz

Em 8 de setembro de 1860, segundo dia de instalação da mesa eleitoral que procederia a eleições na Cidade da Cachoeira, integrada pelos cidadãos José Gomes Portinho, Antônio Vicente da Fontoura, Hilário Pereira Fortes, José Pereira da Silva Goulart e Tristão da Cunha e Souza, estavam sendo chamados e qualificados os eleitores para depositarem seus votos na urna. Presidia a mesa eleitoral o juiz de paz Tristão da Cunha e Souza. Os demais integrantes eram representantes dos dois partidos que disputavam o pleito: Santa Luzia, do Comendador Antônio Vicente da Fontoura e Brigadeiro José Gomes Portinho, e o Saquarema, representado pelo médico José Pereira da Silva Goulart e pelo Coronel Hilário Pereira Fortes.

Antônio Vicente da Fontoura, sentado à mesa, identificava e registrava os votantes em uma lista. Esta era a prática utilizada, uma vez que não havia ainda os documentos individuais de identificação dos eleitores. 


Comendador Antônio Vicente da Fontoura
- Museu Municipal

Cabia à mesa eleitoral o reconhecimento do eleitor e a consequente autorização para que procedesse à votação. Algumas vezes, por divergências ou desconhecimento da figura que se apresentava, havia impedimentos de voto. E nesse dia 8, justamente quando houve dúvida a respeito da identidade de um dos eleitores, com alguma discussão e posterior concessão do direito de voto, é que três tiros foram ouvidos, tendo como alvo José Gomes Portinho que, ileso, subiu à mesa para exigir a ordem. Os tiros, provavelmente, foram dados para distrair os presentes e dar oportunidade para que um homem, passando por baixo da mesa, ferisse o Comendador Fontoura com objeto cortante. Apunhalado, o Comendador ainda recebeu bengaladas na cabeça. Tais agressões acabaram por provocar-lhe a morte em 20 de outubro de 1860, certamente com atroz sofrimento.

O crime contra Antônio Vicente da Fontoura desencadeou um processo judicial com grande repercussão.

Em 20 de setembro, um mês antes do falecimento do Comendador, foram à sua casa entrevistá-lo sobre o atentado o Chefe de Polícia da Província, Dr. Eduardo Pindahiba de Mattos, acompanhado do escrivão João Henrique Froes e das testemunhas Dr. Pedro Baylet e João José de Leão. Encontraram o Comendador na cama, sendo ele inquirido pelo Dr. Eduardo. Obtiveram dele as seguintes informações: que ao ser ferido levantou-se de onde estava sentado e avistou o "preto conhecido por Manoel Pequeno", acreditando ter partido dele os ferimentos, apesar de não ter reparado que portasse faca em suas mãos. Quanto às cacetadas na cabeça, não sabia informar de quem tinham partido, pois se achava "todo banhado em sangue". Perguntado se julgava ter o atentado sido premeditado, respondeu que era o que parecia, atribuindo-o "a inimizades políticas". No entanto, sem acusar, o Comendador contou ter ouvido do Coronel Hilário, do Dr. Goulart e de Felisberto Ourique, do partido contrário ao seu, que venceriam "a eleição a todo custo", além de ter sido alertado na véspera que não fosse à Igreja porque morreria. Ao final da conversa, foi apresentada ao Chefe de Polícia a roupa que o Comendador usava no dia do crime, constatando a autoridade a grande quantidade de sangue e os sinais da facada no tecido.

Manoel Pequeno foi condenado às galés perpétuas. Os mandantes seguiram suas vidas. As divergências da política, acirradas durante a Revolução Farroupilha, encerrada 15 anos antes, conseguiram produzir uma importante vítima.

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Para saber mais: obra A Morte do Comendador  - Eleições, Crimes Políticos e Honra (Antonio Vicente da Fontoura, Cachoeira, RS, 1860), de Paulo Roberto Staudt Moreira, José Iran Ribeiro e Miquéias Henrique Mugge. Editora Unisinos e Oikos Ltda., São Leopoldo, 2016.

domingo, 8 de agosto de 2021

A Escola de Música de Cachoeira

Cachoeira é uma cidade musical e muitas podem ser as razões dessa musicalidade. Uma delas certamente foi uma iniciativa levada a efeito há 100 anos: a fundação do Conservatório de Música de Cachoeira.

Em meados de abril de 1921, o intendente Aníbal Lopes Loureiro recebeu o pianista Guilherme Fontainha, diretor artístico do Centro de Cultura Artística do Rio Grande do Sul. Sob sua eficiente administração foram criados conservatórios de música em várias cidades do Rio Grande do Sul, Cachoeira uma delas. A iniciativa visava a interiorização da cultura artística, projeto idealizado por ele em parceria com o bandolinista italiano José Corsi.

Guilherme Fontainha - www.institutopianobrasileiro.com.br

O jornal O Commercio de 27 de abril de 1921 noticiou que o maestro Fontainha, diretor do Conservatório de Música de Porto Alegre, encontrou-se com o intendente de Cachoeira para incentivá-lo à criação de um conservatório na cidade, onde "além de outras vantagens, se ministrará o ensino pela escola moderna, a exemplo do que se tem feito em outros municípios". As negociações entre o intendente e Guilherme Fontainha acertaram que a Intendência iria alugar e mobiliar um prédio apropriado e, com brevidade, chegaria uma professora diplomada para lecionar e dirigir o conservatório.

O Commercio conclui a notícia dizendo: "Folgamos em registrar esta notícia, pois a fundação de tal escola muito contribuirá para difundir entre nós o ensino da arte musical pelos modernos processos".

João Neves da Fontoura, presidente do Clube Renascença, entusiasta da ideia, cedeu dependências da entidade para nelas funcionar a Escola de Música até que a Intendência providenciasse outro local apropriado e devidamente equipado.

No início de maio de 1921, assumiu a direção da escola a senhorita Laura Silva, pianista diplomada. Hospedada na residência de Francisco Timóteo da Cunha, na Rua Sete de Setembro n.º 215, Laura Silva passou a receber lá as matrículas dos interessados.

Casa de Francisco Timóteo da Cunha (com a charrete em frente) - Museu Municipal

No ato da matrícula, os alunos eram informados dos regulamentos da escola, dentre os quais destacavam-se as finalidades: "a difusão de uma verdadeira cultura musical, acessível à mocidade e com recursos relativamente módicos; preparar os candidatos a exames e ao professorado; formar bons musicistas e elevar o diletantismo à perfeição". Como se vê, o propósito era formar músicos qualificados e aptos a replicarem o seu conhecimento. Ação como essa foi fundamental para impulsionar o talento que havia em boa quantidade na Cachoeira do início do século XX.

No programa da escola seriam lecionadas as matérias desenvolvidas nos "mais acreditados estabelecimentos musicais da América do Sul". Não havia limite de idade à inscrição e a obtenção de diploma exigia o cumprimento de requisitos, sendo os exames para sua obtenção feitos por "maestro ou pessoa competente, estranha à escola".

No dia 10 de junho de 1921, sediada no Clube Renascença, foi oficialmente inaugurada a Escola Musical de Cachoeira. A notícia dada pelo O Commercio em 13 de junho dá a dimensão do acontecimento:

Sede do Clube Renascença, local de funcionamento da Escola Musical - foto Benjamin Camozato

"Domingo último, às 14 horas, em o edifício sito à Rua Sete de Setembro nº 92, onde funcionou a Associação Comercial, realizou-se a inauguração da Escola Musical, fundada nesta cidade sob o patrocínio do “Centro de Cultura Artística”, de Porto Alegre. Presentes as autoridades municipais, estaduais e federais, representantes da imprensa e do clero, exmas. senhoras e senhoritas, e os elementos mais representativos da sociedade cachoeirense, tomou a palavra o Sr. Dr. Aníbal Lopes Loureiro, que declarou inaugurada a Escola Musical, concedendo a palavra ao orador oficial, Dr. Minuano de Moura, depois de se congratular com os presentes pela fundação de tão importante estabelecimento.

Em seguida, o Dr. Minuano de Moura, tomando a palavra, discorreu brilhantemente sobre a arte, encarando-a sob todos os seus aspectos, e finalizou com o incentivo ao culto da arte do trabalho, fazendo votos para que a Escola que ora se inaugurava, sob a direção dos professores José Corsi e Guilherme Fontainha, se afirmasse em Cachoeira, onde vicejavam as mais belas flores da arte.

As últimas palavras do orador foram acolhidas com uma estrepitosa salva de palmas. Logo após, foi dado início ao concerto, onde a distinta virtuose Laura Silva, professora da Escola Musical, deu apenas uma pálida ideia de seu gênio, interpretando, com admirável maestria, acompanhada pelo professor Maurice Maissiat, Chopin, Gounod, Liszt e outros autores de nomeada.

Esse magnífico concerto produziu excelente impressão ao seleto auditório, sendo os seus intérpretes fartamente aplaudidos em todos os números que constituíam o programa. Findo o concerto, o Dr. Aníbal Loureiro tomou a palavra, encerrando a sessão inaugural da Escola, tendo sido lavrada uma ata.

A professora Laura Silva e o professor Maurice Maissiat foram muito felicitados pela feliz interpretação que souberam dar ao programa do concerto.

Como acima ficou dito, a Escola Musical funcionará à Rua Sete de Setembro, tendo sido o mobiliário desse estabelecimento, do valor de 2:000$000, cedido pela Intendência. A municipalidade contribui, ainda, com o aluguel do prédio onde funciona a Escola, por cuja manutenção e prosperidade fazemos ardentes votos.

O revmo. Padre Vicente da Cruz Trovisqueira, após o discurso oficial, lançou a bênção à Escola Musical".

Professor e musicista Maurice Maissiat 
com a esposa cachoeirense - Coleção Flávio Silva

A Escola de Música, também chamada de Conservatório de Música, não teve vida longa, mas suficiente para formar musicistas que seguiram carreiras de sucesso. Dentre eles, a pianista Rita de Cássia Fernandes Barbosa, depois fundadora da Escola Municipal de Belas Artes. Graças também ao funcionamento da escola, Cachoeira acolheu o pianista cearense Souto Menor, que a dirigiu por bom tempo. 

Pianista Rita de Cássia F. Barbosa

Anúncio da Escola Musical n'O Commercio, 20/7/1921
- Arquivo Histórico


Como se vê, o traço cultural da musicalidade também tem raiz histórica de iniciação formal. Os frequentadores da Escola Musical seguiram replicando as lições, fazendo jus à finalidade precípua de "formar bons musicistas e elevar o diletantismo* à perfeição". Ambiente tão propício à música também foi capaz de atrair para a cidade artistas vindos dos mais diferentes lugares, abrindo espaço também para que muitos deles aqui se radicassem e exercessem os seus dons. Está explicada em boa parte a  tradição musical de Cachoeira e provado eficiente o projeto de Guilherme Fontainha e José Corsi.

*gosto acentuado pelas artes, especialmente pela música.

Dedico esta postagem à memória do musicista cachoeirense Flávio Silva, com quem descobri muito sobre a música em Cachoeira.

domingo, 18 de julho de 2021

Desvendando uma foto centenária

Desvendar fotos é um desafio delicioso para quem trabalha com história, tarefa que por vezes se transforma em um verdadeiro quebra-cabeças, especialmente quando o distanciamento entre o tempo do registro e o momento da análise é maior.

Para começar, vivemos uma época em que ninguém mais imprime fotografias, pois muitos são os recursos de armazenamento de imagens. No entanto, ainda somos uma geração que pode acompanhar a própria evolução pessoal em fotos, álbuns, vídeos, sem contar a herança de registros fotográficos de antepassados. E, de quebra, ainda nos dar ao deleite de tentar decifrar o passado contido em velhas e desbotadas imagens...

Muitas vezes, ao observarmos fotos antigas, deparamo-nos com uma série de dúvidas relacionadas à data, ao local em que foi feita, ao evento, às pessoas envolvidas, questões postas pela inexistência  de anotações de quem viveu a situação retratada.

O recente falecimento do popularíssimo Marco Antônio Guidugli, figura querida da cidade, dono de uma memória privilegiada e de um tipo físico também marcante, despertou a atenção sobre uma fotografia que está prestes a completar 100 anos! Trata-se do registro feito no dia 20 de setembro de 1921, quando a Hidráulica Municipal foi inaugurada.

Figuras da cidade presentes à inauguração da Primeira Hidráulica
- foto Benjamin Camozato - Grande Álbum de Cachoeira

Na foto, muitos homens da Cachoeira de então, dentre os quais é possível identificar o Padre Luiz Scortegagna, Vigário da Igreja Matriz, o comerciante Nicolau Roos, Henrique Möller Filho, dono do jornal O Commercio, Ernesto Müller, Vice-Cônsul da Áustria e liderança da comunidade germânica, e dois meninos atrás dos quais está uma figura que lembra muito o Guidugli que há bem pouco tempo estava entre nós. O tipo físico, o trajar e até mesmo a maneira de se postar na foto fazem pensar que a figura bem poderia ser um antepassado dele. Aí começa o exercício que poderá, ou não, levar à identificação...

Marco Antônio Guidugli era filho de Umberto Atílio Guidugli que, por sua vez, era filho do italiano Francesco Guidugli, imigrante nascido na Toscana e casado com a italiana Assunta Tagliassachi, nascida em Pisa. No Brasil, tiveram o filho Umberto Atílio, em 1904, chamado de Eliseu pela mãe que não queria que o menino tivesse o nome do príncipe italiano assassinado*. Eliseu, por sua vez, casou-se com Suely Medeiros Pereira, sobrinha-neta de Borges de Medeiros. O casal teve dois filhos: Umberto Fernando e Marco Antônio, nascido em 10 de maio de 1947 e falecido em 5 de julho de 2021.

Francesco aparece com armazém na Rua Moron em 1902, anunciando no jornal O Commercio que estava se estabelecendo na Rua Sete de Setembro, no endereço em que funcionara a casa comercial de João Gerdau. Anos mais tarde, adquiriu terrenos na Rua Saldanha Marinho, instalando-se ali com seu negócio. Na mesma rua, muito tempo depois, o filho Eliseu abriu a sua tipografia que ficou famosa pela  edição das revistas Aquarela.

Voltemos à foto do dia 20 de setembro de 1921.  Poderia a figura semelhante ao já saudoso Guidugli ser o seu avô Francesco? 

Seria Francesco Guidugli?

A ata da inauguração da Hidráulica traz as assinaturas de muitas das pessoas que estiveram prestigiando o acontecimento. Nela não consta a assinatura de Francesco Guidugli, o que não pode ser tido como conclusivo.

Por enquanto, diante da impossibilidade de afirmar a identidade do homem retratado por Benjamin Camozato, fica a questão no ar e o gostoso exercício de adivinhação. Alguém pode me ajudar? 

* Umberto I, rei da Itália, assassinado em 29 de julho de 1900, em Monza, por Gaetano Bresci.

domingo, 13 de junho de 2021

Uma igreja para o "Santo Casamenteiro"

"Ó gentil e amoroso Santo Antônio, cujo coração foi sempre cheio de simpatia humana, sussurra a minha petição aos doces ouvidos do Menino Jesus, que gostava de estar em seus braços. A gratidão do meu coração será sempre sua. Amém." 

O dia 13 de junho é dedicado a Santo Antônio, cuja devoção se traduz bastante antiga em Cachoeira. Cultuá-lo, muito antes de ser em razão de sua fama de "santo casamenteiro", se relaciona com a nossa raiz histórica portuguesa. Da mesma forma que herdamos dos nossos fundadores o culto à Imaculada Conceição, a padroeira de Portugal, rendemos preces ao santo que nasceu em Lisboa a 15 de agosto de 1195.


Santo Antônio - Robispierre Giuliani

Santo Antônio nasceu Fernando de Bulhões, nome substituído durante a sua formação religiosa na Ordem dos Cônegos Regrantes de Santo Agostinho. Sua dedicação à doutrina fez dele um estudioso e grande teólogo que foi postumamente reconhecido pelo Papa Pio XII com o título de Doutor da Igreja (1946).

A primeira homenagem oficial a Santo Antônio, em Cachoeira, foi a denominação, em 1858, de uma das principais ruas da Vila Nova de São João da Cachoeira, e uma das mais antigas, popularmente conhecida como Rua dos Cachorros. Nessa antiga rua possuíam terrenos dois vultos da história da instalação da Vila, os vereadores Francisco José da Silva Moura, português de nascimento, Joaquim Gomes Pereira, e o médico José Afonso Pereira, proprietário da casa em que D. Pedro II foi hospedado em 1846.


Cartão-postal da Rua Saldanha Marinho - Museu Municipal


Francisco José da Silva Moura possuía dois terrenos na Rua de Santo Antônio, um deles concedido em 1820. Seria ele devoto do santo português, seu conterrâneo, influenciando assim na denominação da rua?

A Rua de Santo Antônio não conservou este nome, passando a se chamar Rua Saldanha Marinho ainda no final do século XIX.

Na década de 1920, quando os padres redentoristas chegaram em Cachoeira com a disposição de aqui instalarem um convento e uma igreja, foram obsequiados com a concessão de um terreno junto ao Potreiro dos Fialho. A doação foi feita por Antoninha Fialho com a condição de que a igreja a ser erguida homenageasse a Santo Antônio. E assim foi feito. A igreja foi inaugurada em outubro de 1937, o local passou a ser conhecido como Bairro Fialho depois que os herdeiros de Antoninha estabeleceram um loteamento e, finalmente, como Bairro Santo Antônio. 


Construção da Igreja Santo Antônio - Museu Municipal

O "santo casamenteiro" ganhou um templo que é uma das mais ricas pérolas da arquitetura sacra de Cachoeira do Sul, projeto do arquiteto e artista alemão José Lutzenberger, e inventariada como patrimônio histórico-cultural.


Detalhe da Igreja Santo Antônio 
- Robispierre Giuliani


Torres da Igreja Santo Antônio - Renato Thomsen

domingo, 16 de maio de 2021

Ataque à Charqueada!!!

A Charqueada e Estabelecimento Paredão foi uma das mais poderosas forças econômicas de Cachoeira e responsável por substanciais repasses de recursos ao município desde o final do século XIX até o primeiro quarto do século XX. 

Charqueada do Paredão - Museu Municipal


Sua instalação à margem esquerda do Jacuí, no ano de 1878, representou uma guinada na indústria saladeiril rio-grandense. As congêneres da Charqueada do Paredão concentravam-se nas regiões da campanha e no sul do estado, principalmente em Pelotas. O estabelecimento do negócio em Cachoeira, centro do estado, favoreceu sobremaneira os tropeiros de gado, reduzindo o envio de tropas para o sul! Em tempos de condução do gado a pé era grande negócio encurtar o trajeto. Para os criadores locais, comerciar com a Charqueada era mais vantajoso ainda, especialmente porque havia grandes campos de invernada nas redondezas do complexo industrial.

Em 1887, a charqueada passou para capital inglês, adotando o nome Brazilian Extract of Meat and Hide Factory. Com a mudança de administração, a indústria equipou-se, estendeu a gama de produtos e fez grandes investimentos no complexo à beira do rio.

Uma das grandes melhorias foi a reconstrução do pavilhão de conservas em 1909. Com projeto de engenheiros ingleses, o pavilhão foi erguido pelo construtor Antonelli Oreste na parte de alvenaria, ficando a marcenaria a cargo de Carlos Böer. A estrutura do telhado veio da Inglaterra e as madeiras empregadas foram cabriúva, louro e pinho de riga. Para favorecer a circulação e renovação do ar, o prédio foi construído com dezenas de janelas e aberturas laterais em toda a extensão da cumeeira.

Pavilhão da Charqueada (1909) - Ernani Marques


2021. Um dos mais representativos registros da memória econômica de Cachoeira do Sul está sendo atacado e vilipendiado à luz do dia! As grandes e envidraçadas janelas pensadas pelos ingleses para introdução da luz e do ar necessário ao trabalho exibem o esqueleto do pavilhão. Sua cobertura, pouco a pouco, desaparece... Os dilapidadores do patrimônio histórico servem-se de tudo que encontram por lá e enchem carros e caminhonetes, sentindo-se senhores do que parece não ter dono... 





Pavilhão saqueado - SMIC

Os bens do patrimônio histórico deviam ser entendidos como pertencentes a todos. Ainda que deles possamos descobrir autoria, construtores, propósitos, sua existência e permanência advêm de decisões que perpassaram gerações. Que medidas devem ser tomadas com quem se julga no direito de dilapidar o que não é somente seu, mas de todos?

Onde está o compromisso, enquanto sociedade, com a nossa própria história? 

segunda-feira, 19 de abril de 2021

Theo Wiederspahn e a Igreja de Lutero

Em 19 de abril de 1931, Cachoeira testemunhou a inauguração da Igreja de Lutero, no Bairro Rio Branco. A obra, erguida em apenas oito meses, trazia a assinatura de um dos mais prestigiados arquitetos alemães que viveu e trabalhou no Rio Grande do Sul: Theo Wiederspahn.

Theo Wiederspahn - @igornatusch


Theodor Alexander Josef Wiederspahn nasceu em Wiesbaden, na Alemanha, em 19 de fevereiro de 1878, e faleceu, em Porto Alegre, no dia 12 de novembro de 1952. Sua relação com a engenharia/arquitetura começou na terra natal, aos 14 anos, quando se empregou como aprendiz de pedreiro e cursou, concomitantemente, uma escola de construção. Em 1896, graduou-se na Escola Real de Construção. Em Wiesbaden, começou a trabalhar como arquiteto na firma de seu pai, quando projetou e construiu vários prédios. Desses, quatro são considerados hoje como de interesse histórico-cultural.

A oportunidade de vir para o Brasil surgiu em 1908, para trabalhar na construção de estradas de ferro no Rio Grande do Sul, atividade que acabou por não exercer. Fixou-se em Porto Alegre, ingressando numa das mais prestigiadas firmas de construção da cidade - a de Rudolf Ahrons, ali permanecendo até 1915. A partir de então começou a atuar sozinho, tornando-se um dos mais requisitados e prestigiados arquitetos. 

Existem várias e importantes obras por ele projetadas na capital do estado e em várias cidades do interior. Em Cachoeira, duas são bastante celebradas e reconhecidas: o Templo Martim Lutero, inaugurado em 19 de abril de 1931, e o segundo prédio do Hospital de Caridade, em 1940.

Templo Martim Lutero - Museu Municipal


Projeto do 2.º prédio do Hospital
- Coleção Armando Fontanari


Mas antes disso, Theo projetou a casa do silvicultor José Zell, no Bairro Rio Branco, depois adquirida por Alfredo Papay e, posteriormente, por Edwino Schneider. 

Residência projetada por Theo Wiederspahn para José Zell
- Gentileza Elizabeth Thomsen


A mesma casa, depois propriedade do Dr. Alfredo Papay
- Museu Municipal

A mesma casa, quando propriedade de Edwino Schneider
(segunda à esquerda) - Museu Municipal

Depois de projetar a casa para José Zell, Theo Wiederspahn viveu períodos de dificuldades, tendo inclusive perdido o título de arquiteto. Nessa época, trabalhando como construtor, teria desenhado as plantas da agência do Banco da Província para Cachoeira, projeto executado por Domingo Francisco Rocco em 1927.

Na sequência vieram os projetos e execução do Templo Martim Lutero, obra para a qual apresentou duas propostas, uma denominada "Louvor a Deus" e outra "Quo vadis". Na concorrência, três projetos foram escolhidos, sendo os dois de Theo os que conquistaram primeiro e segundo lugar. Por sugestão dele mesmo, o projeto "Quo vadis" foi o construído, pois apesar de ser o segundo colocado, se adequava melhor ao terreno de esquina.

Projeto original de Theo Wiederspahn
- Comunidade Evangélica de Confissão Luterana


Carimbo do arquiteto
- Comunidade Evangélica de Confissão Luterana


Saíram da prancheta de Theo Wiederspahn obras celebradas de Porto Alegre e hoje conhecidas como Casa de Cultura Mário Quintana, Museu de Artes do Rio Grande do Sul - MARGS, Memorial do Rio Grande do Sul, Santander Cultural e Shopping Total, para citar algumas.

O Templo Martim Lutero atesta o gênio criativo de Theo Wiederspahn e há 90 anos ergue-se altivo no Bairro Rio Branco, guardando o tanto da história dos que sonharam com ele e o ergueram. Traduz também o compromisso dos que o elegeram como patrimônio histórico-cultural, salvaguardando-o para o futuro.

Agradecimentos especiais à arquiteta Elizabeth Thomsen pela cedência de imagens.

segunda-feira, 8 de março de 2021

Dona Alzira

Alta, magra, voz grossa e o costume de pigarrear. Rosto oblongo e grande, com olhos amiudados pelos óculos de lentes grossas para correção da miopia. Cabelos alvos e ondulados. Arguta em perceber qualquer deslize no uso da língua portuguesa. Essa era a descrição da professora Alzira da Cunha Carlos que há 125 anos iniciou, no Barro Vermelho, suas atividades docentes.


Alzira da Cunha Carlos - Museu Municipal


Impossível contar a história da educação em Cachoeira sem dedicar uma página especial à professora Alzira. Bageense, ela nasceu em 8 de maio de 1877, filha do republicano histórico João Batista Carlos e de sua mulher Faustina da Cunha Carlos. Seu diploma de professora pela Escola Normal de Porto Alegre foi assinado pelo diretor Manoel Pacheco Prates em 11 de dezembro de 1895. Antes dela, que se tenha notícia, apenas a professora Cândida Fortes Brandão, formada em 1885, possuía o tão raro diploma!


Família Carlos (cerca de 1903) - Acervo familiar

Além de ter ensinado as primeiras letras para irmãos e sobrinhos, Alzira formou algumas gerações de cachoeirenses a partir de 1902, quando abriu com as irmãs Hilda e Amanda sua escola particular, que funcionava na Rua Saldanha Marinho, defronte ao Colégio Marista. A casa era ao mesmo tempo escola e residência. Amanda era quem comandava a casa e Alzira a "chefe" da família e diretora da escola.

Na escola, além do currículo formal, eram lecionadas outras disciplinas, como francês, música, bordado e pintura. Alzira encarregava-se do ensino de português e conhecimentos gerais; Hilda lecionava matemática e Amanda ensinava boas maneiras. Caminhar com um livro na cabeça para correção da postura, onde colocar as mãos, como aceitar um copo d'água ou um doce e que tipo de conversas manter eram lições aprendidas com Amanda.

Aliás, não só de relevo eram os ensinamentos das irmãs Carlos, mas também famosos eram os trabalhos manuais executados por elas! Além das funções docentes, a confecção de enxovais para bebês e noivas eram especialidades das irmãs.

Pela imprensa é possível perceber o reconhecimento ao trabalho da professora Alzira, assim como notória era sua participação em diferentes momentos da comunidade. Em 1904 eis que Alzira da Cunha Carlos consta como secretária da diretoria da Sociedade Recreio, agremiação formada por senhoras e senhoritas, bem como inúmeras vezes foi madrinha de casamentos. 

Como viveu muito - faleceu em 7 de maio de 1976, às vésperas de completar 99 anos - Alzira foi sempre muito celebrada por seus alunos, tendo recebido ao longo da vida muitas homenagens e reconhecidas lembranças. Uma das mais importantes distinções foi a denominação patronímica da Seção Infantil da Biblioteca Pública Municipal "Dr. João Minssen", verdadeiro celeiro de novos leitores.

Falar em Alzira da Cunha Carlos, abalizada e reconhecida educadora, é oportuna forma de homenagear todas as mulheres que lançaram mão de seus talentos e formação para contribuírem com o melhoramento da comunidade cachoeirense, permitindo que outras mulheres e homens também tivessem a oportunidade de se reconhecerem como agentes de transformação do mundo.

Colaboraram com informações: Ione M. Sanmartin Carlos, Dione A. Carlos Dias e Ione Carlos Hentges.

quarta-feira, 17 de fevereiro de 2021

O busto que desapareceu...

À semelhança do que ocorreu com o famoso relógio que havia no canteiro central da Rua Sete de Setembro, que desapareceu sem deixar vestígios, também um monumento um tanto mais antigo teve o mesmo desconhecido destino. Trata-se do busto de Júlio de Castilhos, inaugurado em 15 de novembro de 1922.

Até mesmo sua localização é inexata, constando ter sido erguido no jardim ao lado do prédio da Intendência Municipal.

Segundo noticiou O Commercio em 22 de novembro de 1922, "às 9 horas da manhã, presente numerosa e seleta assistência,  composta de cavalheiros, exmas. senhoras e senhoritas, e dos alunos do Colégio Elementar Antônio Vicente da Fontoura, devidamente uniformizados, realizou-se o ato de inauguração de um busto do Dr. Júlio de Castilhos (...) assentado sobre um pedestal de granito, com base de alvenaria, tendo à frente uma placa de bronze, gravada artisticamente com os dizeres: Homenagem da municipalidade de Cachoeira ao patriarca do Rio Grande. Essa placa foi modelada pelo hábil artista Torquato Ferrari".


Busto de Júlio de Castilhos - Grande Álbum de Cachoeira, 
de Benjamin Camozato (1922)

Placa do busto confeccionada por Torquato Ferrari
- Acervo Marta Ferrari Fortes

Os convidados foram reunidos em torno do busto, onde se pronunciou o Dr. João Neves da Fontoura. Em seu discurso, o membro da comissão do Partido Republicano local congratulou-se com a municipalidade por ter erigido "junto ao edifício onde se trabalha para o engrandecimento e progresso do município o busto do Dr. Júlio de Castilhos, o inolvidável patriarca rio-grandense, principalmente naquele dia em que se comemorava o aniversário da proclamação da República, pela qual ele se batera infatigavelmente toda a sua vida, e que a preciosa herança de sua gigantesca obra continuava a defendê-la dos ataques dos falsos apóstolos (...)".

O busto de Júlio de Castilhos havia sido adquirido sete anos antes por um grupo de republicanos e ofertado à Intendência Municipal. Dentre os republicanos adquirentes, os nomes de Isidoro e seu filho João Neves da Fontoura, Francisco Gama, Antonio Antunes de Araújo, Ernesto Müller, Henrique Möller Filho, Arlindo Leal e Horácio Borges. Em tamanho natural, foi executado pelo famoso escultor Jesus M. Corona, pai de Fernando Corona que, por sua vez, esculpiu o busto do Dr. Liberato Salzano Vieira da Cunha, plantado na Praça Dr. Balthazar de Bem desde 1958.

O busto de Júlio de Castilhos tinha escultor reconhecido, teve compradores importantes politicamente que o doaram à Intendência, como provam documentos existentes no acervo do Arquivo Histórico*, e tem relato na imprensa sobre o dia da sua festiva inauguração. Ainda que não haja descrição exata do local onde foi assentado, é certo que se localizava no jardim que até hoje existe e que conduz às dependências do gabinete do prefeito e outras secretarias ao lado do atual Museu Municipal. O fato que causa estranheza é que, aparentemente, apesar da herança política de Júlio de Castilhos e da importância dos republicanos locais que o presentearam à municipalidade, o busto não permaneceu ali por muito tempo. Quando teria sido retirado? Para onde foi levado? Afinal, que destino teve obra escultórica assinada por tão proeminente artista?

A única imagem do busto que se conhece é a que ilustra o início desta postagem, retirada do Grande Álbum de Cachoeira, de Benjamin Camozato, edição de 1922. A foto abaixo do busto, mostra o prédio do Fórum e o da Intendência, com movimentação de pessoas em sua frente. Na tentativa de compreender se a foto registrava o dia da inauguração, percebi que as árvores fronteiras à Intendência não poderiam estar com aquele aspecto no mês de novembro. Então solicitei auxílio do memorialista e grande colecionador de fotografias antigas de Cachoeira, Claiton Nazar. Analisamos o panorama registrado por Camozato, concluindo que a foto foi feita em outra ocasião e está ali provavelmente para ilustrar o ambiente em que o busto foi inserido. 


Fórum e Intendência - Grande Álbum de Cachoeira,
de Benjamin Camozato (1922)

Outra constatação: o álbum de Camozato comprovadamente só veio a público em 1923, dando a ele tempo de registrar a inauguração ocorrida em novembro de 1922. De fato, na imprensa da época, especialmente no ano do centenário da Independência, há farta divulgação do trabalho de Camozato na elaboração de seu álbum comemorativo e, a partir de abril de 1923, notícias do seu aspecto, da comercialização e da aceitação pelo público. A Intendência Municipal de Cachoeira, uma das mais interessadas em dispor da publicação para difundir o município, só foi adquirir exemplares em janeiro de 1925, quando pagou por 250 volumes a quantia de um conto de réis.


Acervo documental Arquivo Histórico

Outra preciosa colaboração de Claiton Nazar foi lembrar que numa foto da década de 1920, em que aparece a Igreja Matriz em sua feição antes da grande reforma de 1929, o jardim da Intendência não porta o busto, pois naquele que se julga ter sido o seu lugar, está a escultura do menino com o ganso, alegoria que hoje se encontra no Parque Municipal da Cultura.


Jardim da Intendência - década de 1920 - Coleção Dóris Gressler

Como se vê, muito há ainda por ser desvendado sobre a história do busto de Júlio de Castilhos e o destino que teve... Preferências políticas podem ter ocasionado seu sumiço? Dificilmente, pois entre 1915, ano em que o busto foi assentado, e 1929, e mesmo depois disso, o poder em Cachoeira ainda se mantinha nas mãos dos republicanos. A não ser que, conforme disse João Neves em seu discurso naquele 15 de novembro de 1922, a figura de Júlio de Castilhos, representada no busto, tenha sofrido ataques dos seus "falsos apóstolos"...

*Vide: 

http://arquivohistoricodecachoeiradosul.blogspot.com/2012/08/arquivos-da-historia-de-cachoeira.html 

domingo, 17 de janeiro de 2021

Casa Augusto Wilhelm - 100 anos

Há 100 anos, no dia 17 de janeiro de 1921, Augusto Wilhelm abria oficialmente as portas da sua casa comercial,  uma das mais importantes do gênero na história da cidade. Concluída ainda em 1920, desde os primeiros dias de 1921 uma propaganda de sua abertura no jornal O Commercio, com rara utilização de fotografia, chamava atenção dos leitores para a breve inauguração:


Anúncio n'O Commercio antes da abertura
12/1/1921


"Augusto Wilhelm - Rua 7 de Setembro n.º 146 - Cachoeira. Casa de ferragens, louças, vidros, tintas, miudezas, etc. Abrindo em breve as suas portas à concorrência pública, previne ao público que dispõe de bonito sortimento de objetos próprios para presentes e artigos de fantasia. Uma visita à nova casa, para apreciar o seu vasto e variado sortimento."

Conforme o mesmo jornal anunciou em sua edição de 19 de janeiro:

"Anteontem, às quatro horas da tarde, com a presença de representantes das casas bancárias locais, do comércio, das indústrias e da imprensa local, foi solenemente inaugurada a casa de ferragens, louças e miudezas que o nosso amigo Augusto Wilhelm estabeleceu à Rua 7 de Setembro n.º 146, num dos pontos mais centrais da cidade. Localizada em espaçoso edifício próprio, especialmente construído para esse fim, a nova casa tem instalações as mais perfeitas para bem servir ao fim a que se destina. Aos presentes foram servidos líquidos generosos em abundância, sendo erguidos vários brindes à prosperidade da nova casa. Agradecidos pelo convite que nos foi dirigido para assistirmos ao ato inaugural, ao qual, por motivo de força maior não nos foi possível comparecer, fazemos votos para que a nova casa seja bafejada pela simpatia e pela proteção pública".


Notícia da inauguração - O Commercio
- 19/1/1921


Quadra da Casa Augusto Wilhelm - Fototeca Museu Municipal


Casa Augusto Wilhelm - 1922 - Benjamin Camozato

O projeto da Casa Augusto Wilhelm traz a assinatura do engenheiro-arquiteto Frederico Gelbert, vindo de Porto Alegre. O mesmo profissional foi o responsável pela planta original do prédio Knorr & Eisner, no alto da Rua Sete, defronte à Estação Ferroviária. Como naquele, construído anteriormente, no da Casa Augusto Wilhelm também o projetista colocou no frontão um rosto humano, remetendo ao propósito do empreendimento, Na casa de Augusto Wilhelm, o rosto é de Mercúrio, deus associado ao comércio, sendo provavelmente a mesma figura a utilizada na Knorr & Eisner.


Antigo Knorr & Eisner - Coleção Claiton Nazar

Mercúrio encimando a casa comercial de Augusto Wilhelm
- foto Carla Nazar

As marcantes e históricas instalações da extinta Casa Augusto Wilhelm chegam ao centenário remetendo a um passado de gloriosa atividade comercial, Em sua trajetória de funcionamento, um lema a tornou famosa, representando o espírito de seu fundador e sucessores que orientavam os vendedores a fazerem jus ao "Insista, periga ter!"