Os empastelamentos de jornais eram comuns em tempos passados. Tais atos radicais tentavam impedir a impressão e a circulação desses veículos de comunicação, pois a destruição dos equipamentos gráficos e da redação inviabilizava a produção dos periódicos. A motivação dos empastelamentos normalmente era de cunho político ou se dava por total discordância com as linhas editoriais adotadas pelas diferentes empresas jornalísticas.
Em fevereiro de 1902, o jornal O Cachoeirense, fundado em 3 de dezembro de 1901, sob a direção de A. Soares e gerência de M. Gauss, dizendo-se órgão dos interesses do município, literário e noticioso, deixou de circular pelo empastelamento das oficinas tipográficas em que era impresso. Infelizmente não sobrou nenhum exemplar para conhecimento de sua apresentação gráfica ou do conteúdo publicado por seus dirigentes.
A. Soares devia ser a abreviatura do nome de Arthur Soares, jovem ligado à imprensa e que havia colaborado com o semanário O Commercio antes de se transferir para Santa Maria, onde se empregou temporariamente na redação do jornal Gaspar Martins. M. Gauss pode se tratar de Max Gauss, membro do Conselho Fiscal do Clube Caixeiral Cachoeirense em 1901.
Pois A. Soares e M. Gauss viveram o drama do ataque destruidor ao seu jornal, fato publicado pelo jornal O Commercio em sua edição de 12 de fevereiro de 1902, à página 2:
"A tipografia do extinto colega O Governo, onde ultimamente imprimia-se o periódico bimensal O Cachoeirense, foi na noite de 5 do corrente empastelada e inutilizada a máquina de impressão Marinoni.
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| Prensa Marinoni de 1883 - Museu de Artes e Métiers - Wikipédia |
O ativo subchefe de polícia, major Ramiro de Oliveira, tendo ciência do ocorrido, por telegrama, achou-se nesta cidade no dia [rasgado] e nesse mesmo dia, em presença de peritos e várias testemunhas, procedeu ao ato de corpo de delito, e prossegue rigorosamente as investigações policiais para descobrimento dos autores do atentado. Deploramos semelhante acontecimento."
Na notícia de O Commercio, há a informação de que O Cachoeirense se servia da máquina de impressão Marinoni, outrora pertencente a outro jornal cachoeirense, de nome O Governo.
O jornal O Governo havia sido fundado em 23 de março de 1899, dirigido e editado por Antônio Antunes de Araújo. Com sede à Rua 7 de Setembro, 87, O Governo suspendeu temporariamente sua publicação em 27 de outubro de 1901. Nesse meio tempo, O Cachoeirense passou a se servir da tipografia d'O Governo para edição e impressão de suas edições.
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| Cabeçalho do jornal cachoeirense O Governo, edição de 15/4/1900 - avulso raro - Acervo de Imprensa do AHMCS |
Há um único exemplar de O Governo no acervo de imprensa do Arquivo Histórico do Município de Cachoeira do Sul, em péssimo estado de conservação. Trata-se de duas páginas da edição de 15 de abril de 1900.
O Governo dizia-se órgão do Partido Republicano, mas não era do agrado geral dos republicanos de Cachoeira, especialmente da sua grande liderança, o Coronel Isidoro Neves da Fontoura que, em abril de 1900, fez longa crítica àquele jornal publicada no O Commercio sob o título "Sem preâmbulos!".
Em 1904, saiu a notícia de que o material tipográfico do extinto O Governo havia sido vendido para o jornal 1º de Março, de Rio Pardo. Venderam provavelmente o que havia sobrado do empastelamento ocorrido em 1902.
Há muito a desvendar sobre a rica história da imprensa em Cachoeira do Sul, cheia de títulos, de linhas editoriais diversas, pluralidade de opiniões, mas também ataques violentos à liberdade de expressão.










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