Espaços urbanos

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Ninfa do Château d'Eau - Robispierre Giuliani

sexta-feira, 22 de abril de 2022

Pedra fundamental do Quartel de Engenharia de Cachoeira

Há 100 anos, no dia 2 de abril de 1922, Cachoeira recebeu autoridades para o lançamento da pedra fundamental dos quartéis do 3.º Batalhão de Engenharia, obra ansiada pela comunidade e que, efetivada, tornou a cidade polo reconhecido pela excelência das instalações e serviços militares.

3.º BE - Batalhão Conrado Bittencourt - Robispierre Giuliani


Conforme a imprensa noticiou, às 17 horas daquele 2 de abril, chegaram em trem especial o Ministro da Guerra, Dr. João Pandiá Calógeras, os generais Cândido Rondon, Abílio Noronha e outros oficiais do Exército, além de executivos da Companhia Construtora de Santos, empresa responsável pela construção de vários quartéis no Rio Grande do Sul, São Paulo, Santa Catarina e Mato Grosso. Foram todos recepcionados na Estação Ferroviária por autoridades locais e muitas pessoas da comunidade, sendo saudados, em nome da cidade, pelo intendente municipal Dr. Aníbal Lopes Loureiro.

Dr. João Pandiá Calógeras - Wikipédia

Depois das saudações e cumprimentos de praxe, o Ministro da Guerra e o intendente municipal, acompanhados das demais autoridades visitantes, seguiram em vários automóveis em rápido passeio pela cidade, dirigindo-se ao terreno escolhido para a construção dos quartéis do 3.º Batalhão de Engenharia. Adquirido pela municipalidade, o terreno foi cedido ao governo federal, tendo sido todo esquadrinhado pelo Ministro da Guerra, que aprovando-o, autorizou o início das obras.

Todos os passos das autoridades visitantes foram registrados em ata especial, lavrada em pergaminho por Emiliano Carpes, nomeado secretário da solenidade. Após a assinatura do Dr. Pandiá Calógeras e demais autoridades, o Dr. Roberto Simonsen, em nome da Companhia Construtora de Santos, ofereceu uma taça de champanha aos presentes, saudando o Ministro da Guerra por suas iniciativas à frente do ministério. Todos então levantaram suas taças em saudação à grande iniciativa, sendo logo chamados a ouvirem o pronunciamento do intendente. Aníbal Loureiro, em sua alocução, afirmou que a cidade estava engalanada e feliz pela visita do Sr. Calógeras e extremamente satisfeita em oferecer ao governo federal área necessária para tão importante e significativa obra. Fez referências à importância do Exército, suas instalações e tropas na garantia da integridade e soberania da pátria, escudado na experiência recente da guerra (I Grande Guerra) ocorrida na Europa. Ao terminar, levantou sua taça ao Ministro da Guerra e à grandeza e prosperidade do Brasil, sendo muito aplaudido.

Na sequência, manifestou-se o Dr. Pandiá Calógeras, agradecendo, em nome do governo federal, a doação de terrenos feita pelo município, ressaltando a cooperação patriótica que tinha, a exemplo de Cachoeira, encontrado em todo o Rio Grande do Sul. Finalizando a fala, entregou as obras aos responsáveis da companhia construtora, à competência da diretoria de engenharia do Exército, representada pelo General Cândido Rondon, e ao carinho do povo cachoeirense, conforme relatou o jornal O Commercio, em sua edição do dia 5 de abril de 1922.

Depois do discurso, deslocaram-se todos para lançarem a pedra fundamental das obras, tendo Calógeras disposto no local a primeira pá de cimento.

Lançamento da pedra fundamental, vendo-se, em primeiro plano,
ao centro, Pandiá Calógeras, ladeado, à esquerda, por Emiliano Carpes e, 
à direita, pelo Marechal Rondon - Grande Álbum de Cachoeira, de Benjamin Camozato

O 3.º Batalhão de Engenharia foi criado em São Gabriel, pelo Decreto n.º 12.739, em 26 de dezembro de 1917. Com a construção do quartel em Cachoeira, foi o 3.º BE transferido para a cidade, após a conclusão das obras em outubro de 1923.

sexta-feira, 15 de abril de 2022

Judas na Praça José Bonifácio

Nossos antepassados jamais imaginariam a interação virtual que temos hoje, nem as múltiplas possibilidades de comunicação. Todo esse aparato tem transformado as relações, e as redes sociais ditam hoje, para o bem e para o mal, os rumos da humanidade.

Sejam quais forem os mecanismos de comunicação, desde os mais toscos até os mais sofisticados, o homem sempre soube servir-se deles para expressar-se direta ou indiretamente.

Na Semana Santa de 1908, inusitadas aparições estavam colocando as autoridades em alerta, assim como despertando curiosidade nas pessoas... 

Em sua rotineira patrulha pelas ruas da cidade, a Guarda Municipal encontrou, na madrugada do sábado de aleluia, um "judas" comodamente instalado em um dos bancos da Praça do Mercado, hoje José Bonifácio, defronte ao armazém de Feliciano da Silva. O "judas" tinha duas caras, trajava fraque curto, botas, chapéu de aba larga e pincenê*. O jornal Rio Grande, deu a notícia destacando que pelo local e outros detalhes era "fácil supor a quem se referia a alegoria, cujo efeito foi frustrado pela polícia". E mais, "na mesma praça, defronte à agência do Correio, apareceu de manhã outro judas que escapou à vigilância policial", chamando a atenção de todos que passavam e que, em discussões, julgavam ser um dos carteiros da cidade...

A exposição de bonecos no sábado de aleluia é uma tradição bem antiga, mas que desapareceu entre nós. Sua prática era uma forma de criticar pessoas, normalmente políticos ou figuras polêmicas, dando-lhes o tratamento punitivo como o fariam com Judas Iscariotes por ter entregue Jesus Cristo aos seus algozes. A tradição, chamada por uns de "Queima de Judas" ou "Malhação de Judas", foi introduzida no Brasil pelos portugueses. Na maioria das vezes, o "judas" era surrado até se desmanchar ou então ateavam fogo sobre o seu corpo, normalmente montado com serragem, palha ou trapos velhos e vestido de forma a identificar o alvo da crítica.

Bancos da Praça José Bonifácio - Museu Municipal

Quem seria o "judas" sentado num dos bancos da praça? Certamente uma figura de relevo na Cachoeira daqueles tempos... O distanciamento temporal torna difícil decifrar o recado, mas que ele foi dado, e muito bem dado para os cachoeirenses daquele tempo, ah, certamente foi! 

Imaginem se esta tradição voltasse!!!

*pincenê: óculos sem haste.


terça-feira, 22 de março de 2022

Série: Registros fotográficos incríveis - IV - Engenhos de arroz - Engenho Brasil

Dando sequência à Série: Registros fotográficos incríveis IV, sobre engenhos de arroz, iniciada com o Grande Engenho Central, vamos agora descobrir outras imagens de outro importante estabelecimento do gênero, o Engenho Brasil, que em seu tempo chegou a ser o maior da América Latina. Os engenhos de arroz foram responsáveis durante décadas pela injeção de recursos que fizeram com que Cachoeira, ao longo do século XX, experimentasse muitos avanços nos mais diversos campos da vida da comunidade, havendo registros fotográficos de boa parte deles, dentre os quais muitos garimpados por Claiton Nazar, colaborador da série.

Assim como para o Grande Engenho Central a publicação O Estado do Rio Grande do Sul, editada por Monte Domecq em 1916, foi importante para a propagação e manutenção da sua história, o Grande Álbum de Cachoeira no Centenário da Independência, de Benjamin Camozato, que no corrente ano completa seu centenário, fez importantes registros fotográficos sobre diversos engenhos daquele tempo. Nessa publicação há referências fotográficas ao Engenho Brasil, assim como outros que em Cachoeira, naquele ano de 1922, existiam "em grande número, com capacidade diária, para o beneficiamento de cerca de 4.000 sacos", segundo palavras de Camozato. Dos engenhos apresentados no Grande Álbum, o primeiro foi justamente o Engenho Brasil, de Reinaldo Roesch & Cia., que produzia diariamente 800 sacos das marcas "Micado" e "Oriente", esta última produzida até o encerramento das suas atividades comerciais, além de "Zênite" e "Gaivota". A capacidade de armazenamento do Brasil era de 40.000 sacos. Acompanhavam Reinaldo Roesch no empreendimento, que foi inaugurado em 26 de maio de 1921, os sócios Dr. Alfredo Papay, Reinaldo Treptow e Edwino Schneider. Na ocasião, os convidados ao ato puderam conferir as instalações e os maquinismos adquiridos para o beneficiamento do arroz, sendo obsequiados com churrasco regado a chope.


Engenho Brasil no Grande Álbum de Cachoeira (1922),
de Benjamin Camozato


Engenho Brasil - foto de Benjamin Camozato - Coleção Claiton Nazar


Complexo do Engenho Brasil - reprodução Robispierre Giuliani


Complexo anterior a 1961 - Coleção Rodrigo Carvalho


Uma das seções do Engenho Brasil - Coleção Wilto Schultz



Seção de embalagem do arroz para comercialização - 
reprodução Robispierre Giuliani



Carregamento para transporte - reprodução Robispierre Giuliani


Locomóvel - Robispierre Giuliani


Em 1928, para atender ao crescimento dos negócios, Reinaldo Roesch e seus sócios mandaram construir um grande depósito fronteiro ao prédio da antiga Fundição Treptow, onde estavam instalados, junto aos trilhos da viação férrea. O depósito tinha capacidade para armazenar 50.000 sacos de arroz e foi construído por Sebastião Moser. 

Um grande incêndio, ocorrido em 24 de fevereiro de 1961, quase liquidou com o complexo do engenho. Mas a capacidade do negócio era tanta que logo teve início a reconstrução, ficando o grande Engenho Brasil com a conformação que ainda hoje pode ser conferida naquela que se tornou, por força de sua presença, conhecida como "área dos engenhos", um verdadeiro patrimônio histórico industrial de Cachoeira do Sul.

As lentes do fotógrafo Robispierre Giuliani registraram as manchetes dos jornais da época, referindo o grande incêndio:

Folha da Tarde, de Porto Alegre (capa - 25/2/1961)


Cobertura da Folha da Tarde



Jornal do Povo (capa - 26/2/1961) - Acervo de Imprensa do Arquivo Histórico



O Comércio (capa - 1.º/3/1961) - Acervo de Imprensa do Arquivo Histórico

Com o passar do tempo, o Engenho Brasil, já então propriedade apenas dos sócios Reinaldo Roesch e Edwino Schneider, mantinha investimentos não só na  produção, aquisição e beneficiamento do arroz, como também na pecuária. A capacidade produtiva diária era de 3.000 sacos de arroz com casca, depósito com capacidade para 500.000 sacos, secadores, moega, silos, instalações para parboilização do arroz e posto de gasolina próprio. Em 26 de julho de 1947, os sócios Reinaldo Roesch e Edwino Schneider deliberaram transformar seu negócio em uma sociedade anônima. No começo da década de 1980, a Reinaldo Roesch S.A. era a principal acionista do Engenho de Arroz Ipiranga, de Cacequi. 

Em 1989, o Engenho Brasil encerrou definitivamente suas atividades, tendo atualmente parte de suas instalações locadas para outros empreendimentos.

Chaminé do Engenho Brasil - Jorge Ritter


Robispierre Giuliani



Em qualquer lugar do mundo a área dos engenhos seria tratada como joia!!! Pensemos nisto.


Vista aérea do extinto Engenho Brasil - Renato Thomsen

 Robispierre Giuliani

domingo, 13 de março de 2022

Série: Registros fotográficos incríveis - IV - Engenhos de arroz - Grande Engenho Central

A Série: Registros fotográficos incríveis chega à sua quarta edição, desta vez enfocando antigos engenhos de arroz, em grande parte responsáveis pelo incremento na economia de Cachoeira, especialmente a partir do começo do século XX. Como há imagens de vários e diferentes engenhos de arroz, esta série será subdivida, começando pelo Grande Engenho Central, cujas ruínas reapareceram em razão da seca experimentada nos primeiros meses de 2022.

Como das outras edições, a série conta com o auxílio imprescindível do memorialista Claiton Nazar, dono de uma invejável coleção de fotografias da Cachoeira antiga e conhecedor não só da arte de fotografar, como também da cultura orizícola, engenheiro agrônomo que é de formação.

Do primeiro engenho de arroz da história de Cachoeira não há registro fotográfico conhecido, embora dentre os membros da família que o fundou, montou e operou, os Pohlmann, constem dois homens fantásticos, o fotógrafo Renoardo e seu irmão José Albino, habilidosíssimo mecânico. Talvez Renoardo tenha feito algum registro do velho engenho do pai, João Frederico Pohlmann, fundado em 1887, na Rua Sete de Setembro. Quem sabe até com uma máquina fotográfica fabricada pelo irmão? 

Uma importante fonte para buscar imagens dos primeiros engenhos de arroz é a publicação O Estado do Rio Grande do Sul, editado por Monte Domecq, em Barcelona, no ano de 1916. A obra traz informações históricas, econômicas e sociais dos principais municípios gaúchos. Pois é nela que aparece, em primeiro lugar no gênero de engenhos de arroz em Cachoeira, o Grande Engenho Central, de Aydos, Neves & Cia., localizado à margem esquerda do Jacuí, junto à rampa do porto. 

Grande Engenho Central - Monte Domecq (1916), p. 498

O Grande Engenho Central foi organizado em 1907, tendo como sócios João Aydos, Frederico Dexheimer, Eurípedes Mostardeiro, todos comerciantes em Porto Alegre, e o Coronel Isidoro Neves da Fontoura, importante liderança econômica e política de Cachoeira. A firma, sob a razão social de Aydos, Neves & Cia., iniciou com um capital de 300 contos de réis e para a instalação do engenho adquiriu uma área no local conhecido como Porto Fidêncio, à margem esquerda do rio Jacuí e ao lado do porto da Rua Moron.

Em maio de 1919, o engenho foi arrematado por Araújo, Leal & Cia., em 1921 foi vendido para Ernesto Pertille & Filho, em 1925, para Matte, Gaspary & Cia. e, em 1937, para a Brasil Arroz Ltda, de Porto Alegre. Na enchente de 1941, o Engenho Central, como então era chamado, estava sob a administração do Instituto Rio-Grandense do Arroz - IRGA.

Pelo registro da publicação referida, ano 1916, em que já aparece a exuberante chaminé de alvenaria, é possível descobrir registros fotográficos anteriores, em que ela ainda não havia sido erguida, embora haja outra que aparenta ser de metal e estar fixada mais ao centro do conjunto construtivo:

Grande Engenho Central - acervo Ernesto Müller

No registro da coleção de Ernesto Müller, percebe-se o leito seco do Jacuí, onde uma criança parece se sentar tranquilamente. Na próxima fotografia, com a inscrição 27, vê-se o Jacuí em plena capacidade para navegação tendo em vista três vapores que se postam à frente do engenho, com destaque para o de nome Santa Cruz.

Coleção Claiton Nazar

O cartão-postal que segue traz um aramado em torno da chaminé e parece ser anterior à foto acima em razão da vegetação um pouco menor.

Cartão-postal do porto e Engenho Central - Fototeca Museu Municipal


O registro seguinte enfoca o prédio de três andares em que se dava o beneficiamento do arroz:

Grande pavilhão de beneficiamento - Fototeca Museu Municipal


Nos próximos registros fotográficos, vê-se a grande chaminé de alvenaria, construída mais próximo da margem do rio:


Engenho Central administrado por Ernesto Pertille & Filho
- Coleção Claiton Nazar

Fototeca Museu Municipal

                             
Durante a grande enchente de 1941, o Engenho Central, cuja administração já tinha passado por várias mãos, ficou com suas instalações parcialmente submersas, como flagrado nos dois próximos registros:

Enchente de 1941 - Fototeca Museu Municipal

Engenho Central IRGA - Coleção Emília X. Gaspary


E por fim, uma das últimas imagens do complexo ainda com a chaminé íntegra:


Complexo do IRGA no local do antigo Engenho Central (1991)
- Foto Claiton Nazar

A grande seca que assolou o município de Cachoeira do Sul no verão de 2022 fez com que o recuo das águas do Jacuí fizesse surgir uma faixa de areia na margem esquerda fronteira às antigas instalações do engenho. Foi possível então acessar as ruínas das suas antigas instalações, verificando o quão grandioso foi este empreendimento que provou a força da lavoura orizícola cachoeirense no século XX. Os próximos registros fotográficos mostram o que restou do velho engenho em janeiro de 2022:

Foto Mirian Ritzel


Foto Méia Albuquerque



Foto Méia Albuquerque

O blog aceita contribuições fotográficas para robustecer os registros da série. Muito obrigada!