Cachoeira de outros tempos

Cachoeira de outros tempos
Rua 7 de Setembro com Banco da Província ao fundo (~1928) - MMEL - Modificado por IA - Renato Thomsen

quarta-feira, 30 de setembro de 2026

Empastelamento!

Os empastelamentos de jornais eram comuns em tempos passados. Tais atos radicais tentavam impedir a impressão e a circulação desses veículos de comunicação,  pois a destruição dos equipamentos gráficos e da redação inviabilizava a produção dos periódicos. A motivação dos empastelamentos normalmente era de cunho político ou se dava por total discordância com as linhas editoriais adotadas pelas diferentes empresas jornalísticas. 

Em fevereiro de 1902, o jornal O Cachoeirense, fundado em 3 de dezembro de 1901, sob a direção de A. Soares e gerência de M. Gauss, dizendo-se órgão dos interesses do município, literário e noticioso, deixou de circular pelo empastelamento das oficinas tipográficas em que era impresso. Infelizmente não sobrou nenhum exemplar para conhecimento de sua apresentação gráfica ou do conteúdo publicado por seus dirigentes.

A. Soares devia ser a abreviatura do nome de Arthur Soares, jovem ligado à imprensa e que havia colaborado com o semanário O Commercio antes de se transferir para Santa Maria, onde se empregou temporariamente na redação do jornal Gaspar Martins.  M. Gauss pode se tratar de Max Gauss, membro do Conselho Fiscal do Clube Caixeiral Cachoeirense em 1901.

Pois A. Soares e M. Gauss viveram o drama do ataque destruidor ao seu jornal, fato publicado pelo jornal O Commercio  em sua edição de 12 de fevereiro de 1902, à página 2:

"A tipografia do extinto colega O Governo, onde ultimamente imprimia-se o periódico bimensal O Cachoeirense, foi na noite de 5 do corrente empastelada e inutilizada a máquina de impressão Marinoni. 

Prensa Marinoni de 1883 - Museu de Artes e Métiers - Wikipédia

O ativo subchefe de polícia, major Ramiro de Oliveira, tendo ciência do ocorrido, por telegrama, achou-se nesta cidade no dia [rasgado] e nesse mesmo dia, em presença de peritos e várias testemunhas, procedeu ao ato de corpo de delito, e prossegue rigorosamente as investigações policiais para descobrimento dos autores do atentado. Deploramos semelhante acontecimento."

Na notícia de O Commercio, há a informação de que O Cachoeirense se servia da máquina de impressão Marinoni, outrora pertencente a outro jornal cachoeirense, de nome O Governo. 

O jornal  O Governo havia sido fundado em 23 de março de 1899, dirigido e editado por Antônio Antunes de Araújo. Com sede à Rua 7 de Setembro, 87, O Governo suspendeu temporariamente sua publicação em 27 de outubro de 1901. Nesse meio tempo, O Cachoeirense passou a se servir da tipografia d'O Governo para edição e impressão de suas edições.

Cabeçalho do jornal cachoeirense O Governo, edição de 15/4/1900 - avulso raro - Acervo de Imprensa do AHMCS

Há um único exemplar de O Governo no acervo de imprensa do Arquivo Histórico do Município de Cachoeira do Sul, em péssimo estado de conservação. Trata-se de duas páginas da edição de 15 de abril de 1900. 

O Governo dizia-se órgão do Partido Republicano, mas não era do agrado geral dos republicanos de Cachoeira, especialmente da sua grande liderança, o Coronel Isidoro Neves da Fontoura que, em abril de 1900, fez longa crítica àquele jornal publicada no O Commercio sob o título "Sem preâmbulos!".

Em 1904, saiu a notícia de que o material tipográfico do extinto O Governo havia sido vendido para o jornal 1º de Março, de Rio Pardo. Venderam provavelmente o que havia sobrado do empastelamento ocorrido em 1902.

Há muito a desvendar sobre a rica história da imprensa em Cachoeira do Sul, cheia de títulos, de linhas editoriais diversas, pluralidade de opiniões, mas também ataques violentos à liberdade de expressão.

segunda-feira, 27 de julho de 2026

O destino de Josefina Rosa

Os crimes contra as mulheres são hoje chamados de feminicídios, se praticados por seus companheiros. Infelizmente, apesar da sucessão das eras, muitos homens ainda acreditam que as mulheres são como objetos e, portanto, têm proprietários. 

A história de Cachoeira guarda muitos destes tristes episódios, alguns deles resguardados na excelente documentação mantida pelo Arquivo Histórico do Município (AHMCS), o que possibilita revisitar páginas que não deveriam fazer parte da memória de lugares civilizados. No entanto, ainda que sejam fatos condenáveis, rememorá-los é uma forma de sinalizar para mudanças de paradigmas que insistem em se manter, apesar da evolução dos tempos.

O caso em questão ocorreu em 24 de julho de 1890 e a recuperação do fato se dá através de um ofício encaminhado pelo delegado de polícia ao presidente da Junta Municipal, David Soares de Barcellos. A Junta Municipal era composta por cidadãos nomeados para governarem o município logo depois de 15 de novembro de 1889, enquanto a república se organizava. David Soares de Barcellos presidia a junta ou comissão administrativa composta, naquele momento, por ele e mais os cidadãos Antônio Nelson da Cunha e Isidoro Neves da Fontoura.

No ofício, emitido em 25 de julho pelo delegado Victorino Borges de Medeiros, constava a informação de que uma mulher, de nome Josephina Rosa, havia sido assassinada na véspera pelo marido. Como a vítima era "de família pobre", o delegado solicitava à autoridade municipal providências para o sepultamento, informando que era preciso "somente alugar-se um caixão e abrir sepultura".

Imagem gerada com ajuda da IA

Ora, naquele tempo, tanto os presos da cadeia que viessem a falecer, quanto os indigentes tinham custeados os sepultamentos pela municipalidade. Não há nenhuma linha detalhando o crime, tampouco informação de que o assassino tivesse sido detido. 

Ofício de 25/7/1890 - JMS/SE/CR-001 - Acervo documental do AHMCS

Quem era Josephina Rosa? Qual a motivação de ter a vida ceifada pelo próprio marido? Infelizmente estas perguntas não têm resposta, embora não haja explicação suficiente para justificar que alguém tire a vida de outrem, ainda que na sociedade do final do século XIX coubesse aos homens, fossem pais, irmãos ou maridos, o destino das mulheres.

segunda-feira, 29 de junho de 2026

Orquidário Municipal

Em um dia de setembro de 1961, do interior da Casa Alaggio, na Rua 7 de Setembro, o orquidófilo Odino Bacchin observou a pérgula da Praça José Bonifácio recoberta por trepadeiras em flor e teve uma ideia que o encheu de entusiasmo. Por que não criar na velha praça um local para exposição permanente de flores? Voltou a atenção para a mostra floral promovida pelo Núcleo Orquidófilo de Cachoeira do Sul, nas dependências da Alaggio, e transmitiu a ideia para os companheiros Atride Livi e Germano Wolff. Cativados pelas perspectivas, os três orquidófilos decidiram levar a sugestão aos demais integrantes do Núcleo.

Orquidófilo Odino Bacchin - MMEL

Pérgula na Praça José Bonifácio - inspiração para o orquidário - MMEL

Casa Alaggio - Rua 7 de Setembro - MMEL - IA por Renato Thomsen

Alguns dias depois, Odino Bacchin, Germano Wolff e Atride Livi procuraram o prefeito municipal Moacyr Cunha Rosing, para transmitir-lhe o plano. Imediatamente o prefeito sugeriu o local onde existira o Mercado Público, bem no coração da José Bonifácio, para a construção do orquidário que já tinha até nome escolhido: Luys de Mendonça e Silva - presidente da Sociedade Brasileira de Orquidófilos e grande incentivador e criador de núcleos dedicados ao estudo e cultivo de orquídeas. Germano Wolff, desenhista e arquiteto, ficou encarregado do projeto.

O início efetivo das obras do orquidário foi bastante retardado e muitas foram as interrupções devido às dificuldades financeiras enfrentadas pela Prefeitura Municipal. O governo de Moacyr Rosing chegou ao fim, herdando Arnoldo Paulo Fürstenau o compromisso de concluir a obra.

Neste meio tempo, o Núcleo Orquidófilo passou a chamar-se Sociedade Cachoeirense de Orquidófilos e os jovens Guilherme Stockey e Aldomar Sander, membros da diretoria, assumiram a tarefa de acompanhar a construção do orquidário.

Finalmente, em 19 de setembro de 1965, às 10 horas da manhã, a ideia de Odino Bacchin foi, em parte, solenemente concretizada. Estava criado o Orquidário Municipal. Por razões legais, o nome de Luys Mendonça e Silva não pôde ser adotado, mas uma placa referindo-o foi colocada junto ao prédio do orquidário numa homenagem das autoridades e "amigos cachoeirenses das orquídeas". O evento foi o ponto culminante da XIV Exposição Estadual de Orquídeas, que aconteceu de 16 a 19 de setembro daquele ano. 

19/9/1965 - inauguração do Orquidário Municipal - MMEL

Orquidário e Fonte das Águas Dançantes - 1968 - MMEL

 Antigo Orquidário Municipal - foto Robispierre Giuliani

Odino Bacchin não conseguiu ver seu sonho completamente realizado. O orquidário não teve vida muito longa. Entretanto, o prédio continua lá. 

De algum lugar, o velho orquidófilo deve estar a imaginar como poderia ser mais belo aquele recanto se as orquídeas pudessem povoá-lo e, em algumas noites,  serem banhadas pelos jatos coloridos das vizinhas águas dançantes.

Texto baseado em outro escrito originalmente em 5/9/2000, por ocasião do 35.º aniversário de inauguração do Orquidário Municipal, quando foi colocada a placa em homenagem a Luys Mendonça e Silva em espaço do Parque Municipal da Cultura, ao lado da antiga sede do Museu Municipal Edyr Lima.

sábado, 30 de maio de 2026

O projetista do Cine-Teatro Coliseu

O Cine-Teatro Coliseu, cuja fachada é tombada como patrimônio histórico-cultural e embeleza uma das mais importantes quadras da Rua 7 de Setembro, em marcante estilo "art-déco", até o momento não tinha divulgação de quem havia sido seu projetista. Pois graças ao acervo de imprensa do Arquivo Histórico e reportagens nos jornais O Comércio e Jornal do Povo, ano 1936, foi possível descobrir que o projeto foi assinado pelo engenheiro José Stammel, de São Leopoldo. Stammel estava envolvido, à época, com a construção da Igreja Santo Antônio, projetada por José Lutzenberger. Muito provavelmente sua presença na cidade, em razão da obra da igreja, favoreceu a contratação do trabalho pelos empresários Henrique Comassetto e Algemiro Carvalho, proprietários do Cinema Coliseu Cachoeirense e empreendedores do novo cine-teatro. Com mais de uma frente de trabalho na cidade, proporcionou-se que abrisse, juntamente com o construtor local Jacob Bauer, um escritório de engenharia e construções no final daquele ano de 1936.

17/2/1938 - inauguração do Cine-Teatro Coliseu - IA por Renato Thomsen

Henrique Comassetto - um dos proprietários do novo cine-teatro - MMEL

Na edição de 19 de abril de 1936, página 3, o Jornal do Povo publicou uma entrevista com o engenheiro, intitulada: A construção do prédio para o novo cinema. Uma entrevista do engenheiro José Stammel ao "Jornal do Povo". Na matéria, a primeira pergunta feita ao profissional, que estava acompanhado de Henrique Comassetto, um dos mandantes da obra, foi sobre em que local seria erguido "o novo teatro". Respondeu o engenheiro que, de acordo com Henrique Comassetto, tinha ficado resolvido que o novo edifício seria "levantado no terreno existente entre a Confeitaria do Sr. Olivio Costa e o Restaurante Comercial em virtude de oferecer o mesmo maiores vantagens do que o terreno onde se acha o Hotel América". Eis aí um dado novo na história do Cine-Teatro Coliseu. O Hotel América ocupava a esquina da Rua 7 de Setembro com Rua 7 de Abril, hoje Dr. Milan Kras. No lugar deste antigo hotel, foi construída, no início da década de 1970, a agência central do Banco do Brasil.

Antigo Hotel América - Rua 7 de Setembro - MMEL

Voltemos à entrevista. A próxima pergunta foi sobre o início das obras. Segundo Stammel, a construção seria iniciada em 25 dias, pois o que dependia dele em termos de plantas e orçamentos já estava finalizado. 

Indagado sobre a lotação do novo cinema, o engenheiro respondeu que o empreendimento comportaria 1.500 lugares e que as plantas previam dotar a sala de projeção de ampla ventilação, facilitar o escoamento rápido do público, em caso de incêndio e outros perigos, havendo, além das portas de entrada, seis portas laterais para saída, todas com persianas de aço, facilitando a sua abertura. Para o palco estava planejada ventilação por três das suas faces, sendo dotado de camarins e de instalações para uso dos artistas. O projeto do edifício com três andares previa espaço no térreo para a plateia e a sala de espera. No primeiro andar, a segunda plateia e alguns compartimentos para escritórios ou apartamentos. No segundo andar, a cabine, o depósito e outras necessidades. Além disso, o engenheiro destacou a previsão de modernas e várias instalações sanitárias. 

Quanto ao estilo do prédio, Stammel denominou-o "moderno", marcando a entrega da obra para um prazo de sete a oito meses, se não houvesse nenhum percalço.

E, finalizando a matéria jornalística, assim deixou registrado o Jornal do Povo: "Cachoeira parece que, desta feita, vai ver realizado seu sonho decenal. Depois de tanta promessa veremos surgir, afinal, o edifício grandioso do grande Comassetto. Cachoeira não terá mais que se humilhar do indecente barracão que há tantos anos enodoa a Praça José Bonifácio e a própria cidade. Estamos, pois, de parabéns."

O "indecente barracão" referido pelo jornal era o do antigo Cinema Coliseu Cachoeirense,  sucessor de outros cinemas ali instalados desde a década de 1910, ocupando a esquina da Praça José Bonifácio com a Rua Andrade Neves. O negócio já era explorado pelos empreendedores do novo cine-teatro desde meados da década de 1920 e, por muitos anos, tinha sido o grande e festejado ponto de cinema da cidade, além de importante palco para artistas, conferencistas e famosos de outros tempos .

Barracão do Cinema Coliseu Cachoeirense - Praça José Bonifácio - MMEL

Já o outro jornal, O Comércio, em sua edição de 3 de junho de 1936, referiu-se ao Cinema Coliseu Cachoeirense de uma forma mais saudosista: "Quantas ilusões, quantas vidas se entrelaçaram e até mesmo quantos projetos sonhados dentro do velho recinto do Coliseu! Muitas destas quiméricas ilusões tornaram-se em realidades e outras foram desfeitas pelas mãos cruéis do destino." E acrescentou que, no ano de 1926, "por ocasião de ser calçada a cidade, o Sr. Comassetto fez uma reforma geral no seu cinema, melhorando-o consideravelmente e deixando-o em condições para que nele pudessem trabalhar grandes companhias teatrais."

Quanto à edificação do Cine-Teatro Coliseu, cujo nome só foi decidido depois de ter passado por outras versões, coube à união de José Stammel ao construtor Jacob Bauer. 

Em dezembro de 1936, José Stammel, intitulando-se arquiteto e construtor, comunicava à população cachoeirense que havia assumido todos os negócios do falecido Sebastião Moser a pedido da viúva Josefa Moser, anunciando que qualquer assunto relacionado aos seus serviços fosse tratado com o gerente Jacob Bauer. 

Segundo Günter Weimer*, Josef Hermann Stammel era natural de Coblenz, na Alemanha, nascido em 22 de dezembro de 1903. Formou-se  na Escola Estadual de Construção de Barmen, Elberfeld. Quando emigrou para o Brasil e apresentou seu diploma, já apresentava um extenso currículo como engenheiro-chefe de uma importante empresa na Alemanha. Além da Igreja Santo Antônio, do Cine-Teatro Coliseu, da refinaria de banha e da casa do Dr. Milan Kras em Cachoeira, deixou obras em São Leopoldo e Taquara. 

*Arquitetos e construtores no Rio Grande do Sul - 1892/1945, de Günter Weimer. Editora UFSM, Santa Maria - RS, pp. 169 a 171.