Espaços urbanos

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Placa de inauguração da Primeira Hidráulica - 20/9/1921 - Cristianno Caetano

terça-feira, 12 de outubro de 2021

Série: Registros fotográficos incríveis - I

A Série: Registros fotográficos incríveis traz ao conhecimento dos leitores e seguidores imagens sensacionais da Cachoeira de outros tempos, tentando desvendá-las em pormenores. Contribuirá nesse desafio o memorialista Claiton Nazar, um dos maiores colecionadores de fotografias da Cachoeira antiga, cuja consultoria tem sido fundamental para a identificação de  imagens históricas disponíveis nos acervos, especialmente na Fototeca do Museu Municipal.

A maior parte desses registros fotográficos mantém a autoria no anonimato e a data indefinida. Alguns deles, inclusive, não guardam mais nenhuma relação com o aspecto atual da cidade e justamente por isto, ou talvez especialmente por essa dissociação com a realidade de hoje, é que se robustecem em significado e atiçam a imaginação daqueles que têm sensibilidade para se transportarem no tempo e no espaço.

Registro fotográfico incrível - I 

Crédito das imagens: Fototeca do Museu Municipal Edyr Lima

Praça da Conceição fronteira ao Teatro Municipal 

O registro fotográfico acima pode ser datado entre 1900 e 1908, com maior probabilidade de ter sido feito no ano de 1906, quando o intendente da época, Dr.  Cândido Alves Machado de Freitas, decidiu colocar bancos* nas praças e encomendou orçamentos para o serviço. A fotografia registra o interior da Praça da Conceição (atual Praça Dr. Balthazar de Bem), que era fechada por muros à época. Ao fundo, o prédio do Teatro Municipal, cuja placa de identificação está aposta sobre a porta central. À direita de quem observa a foto, divisa-se uma parte do prédio da Intendência Municipal, hoje sede do Museu.

A praça estava murada e gradeada, oferecendo um banco de ripas de madeira sobre estrutura de ferro. A sombra que parece convidar a um descanso é dada por árvores frondosas. A nitidez e a qualidade da fotografia permitem quase afirmar que há um cedro à direita, cuja exuberância da folhagem indica ser primavera ou verão. O caminho que conduz ao portão parece ser de terra solta, observando-se também que há tufos de grama crescida onde não há trânsito. Pela sombra projetada pelos pilares do muro pode-se imaginar que a tomada tenha sido feita pela manhã.

I - Decompondo a foto:

Teatro Municipal, inaugurado em 25 de dezembro de 1900 e interditado por problemas estruturais em 1908. Construído em três níveis que se distinguiam pelos diferentes tipos de colunas e esquadrias, tinha no primeiro deles cinco portas, sendo quatro guarnecidas por caras de leões; a quinta ostentava a placa de metal com o letreiro Teatro Municipal. No último nível, coroando a edificação, uma estátua. Seria de Dionísio, a divindade grega associada ao teatro? Ou quem sabe São João, padroeiro da Vila Nova e da maçonaria? A inauguração no dia de Natal foi marcada por uma festa maçônica.

Teatro Municipal

II - Decompondo a foto:

Os muros da Praça da Conceição: em agosto de 1898, os trabalhos de fechamento da praça com muros e grades estavam concluídos, serviço finalizado por um cidadão chamado Bruttus Machado, a quem os cofres públicos pagaram a quantia de 130 mil réis pelo serviço**.

Vista externa da Praça da Conceição fechada a muro


A foto seguinte mostra o mesmo trajeto feito no interior da Praça com maior distanciamento, vendo-se um transeunte caminhando rumo ao portão fronteiro ao Teatro Municipal.


Em outras tomadas, é possível confirmar que havia outro portão na quina da Praça que encontrava a atual Rua General Câmara.



No ângulo contrário, a vista da Igreja Matriz e do portão da Praça fronteiro ao Teatro Municipal.



E, finalmente, o Teatro Municipal visto do lado de fora da Praça.



O registro fotográfico incrível que inaugura a série pôde ser ampliado em diferentes ângulos em razão de existirem outros tantos que gravaram para a posteridade espaço urbano de tamanha relevância. A profusão de registros fotográficos se deve, com certeza, ao fato de que essa zona concentrava edificações de grande significado para a Cachoeira do final do século XIX e primeiros anos do século XX, com assídua frequência da população.


**Fonte: Arquivo Histórico do Município de Cachoeira do Sul - documento IM/RP/SF/D-039, fl. 506.

segunda-feira, 20 de setembro de 2021

20 de setembro de 1921 - água encanada em Cachoeira

O simples gesto de abrir uma torneira, tão corriqueiro em nossos dias, foi um enorme avanço para a comunidade cachoeirense que viu a sua primeira hidráulica ser inaugurada no dia 20 de setembro de 1921. Naquele dia, às 15 horas, reunidas as autoridades, convidados e o povo em geral, oficialmente a água começou a correr pelos canos, tanques e filtros nas instalações da Hidráulica, na Praça Itororó. 

Inauguração da Hidráulica - 20/9/1921 - Benjamin Camozato

As instalações da Hidráulica se constituíam dos aparatos necessários para o processo de captação, tratamento e distribuição de água, sem no entanto descuidarem-se os seus idealizadores do embelezamento do local. Chamava a atenção o chafariz, por onde cascateava lindamente a água, e os muros guarnecidos com as antigas grades que circundavam a Praça Almirante Tamandaré, atual Dr. Balthazar de Bem.

Convidados e autoridades presentes à inauguração - Museu Municipal

A captação da água no Jacuí era feita por meio de uma casa de máquinas de pequenas dimensões, uma espécie de poço que permitia com bastante limitação espacial o acesso do pessoal, colocação dos encanamentos e das correias transmissoras. Esse poço tinha a profundidade de 12,40 metros e sobre ele se assentava o motor elétrico de 14 HP, com capacidade para bombear 30 mil litros de água com 42 revoluções por minuto. Trabalharam na montagem desse equipamento o mecânico Ernesto Grübner e o engenheiro Ricardo Klinger.

A água era recalcada numa extensão de 200 metros, vencendo a altura de 40 metros e atingindo o elegante chafariz que a municipalidade adquiriu nas oficinas de J. Vicente Friedrichs, mesma empresa que forneceria mais tarde as ninfas e o Netuno ao Château d'Eau. O chafariz cumpria papel no processo de filtração da água que depois caía em três tanques antes de ser recolhida ao reservatório de 16,50 metros de altura e com capacidade para armazenar 100 metros cúbicos. Segundo os documentos da época, a torre, de linhas delicadas e elegante ornamentação, foi a primeira dessa grandeza construída no estado.

Tanques da Hidráulica, vendo-se ao fundo o Jacuí - Museu Municipal

Ao tempo da inauguração, segundo noticiou a imprensa, as instalações da Hidráulica ofereciam um belo panorama que se descortinava pela observação das várzeas e coxilhas por onde o Jacuí rolava suas águas em "curso orlado de luxuriantes matas".

As obras custaram 170 contos de réis e favoreceram moradores das ruas D. Luiza (atual Tuiuti), Sete de Setembro, Ferminiano (atual Gabriel Leon), 15 de Novembro, Sete de Abril (atual Dr. Milan Kras) e Moron.

Naquele memorável dia, destaque para o intendente Dr. Aníbal Lopes Loureiro que comemorava seu primeiro ano de mandato e inaugurou também melhorias no Mercado Público e seu gabinete junto ao prédio da Intendência Municipal.

Aníbal Loureiro no gabinete inaugurado também em 20/9/1921
- Benjamin Camozato (1922)

quarta-feira, 8 de setembro de 2021

Ataque assassino na Igreja Matriz

Em 8 de setembro de 1860, segundo dia de instalação da mesa eleitoral que procederia a eleições na Cidade da Cachoeira, integrada pelos cidadãos José Gomes Portinho, Antônio Vicente da Fontoura, Hilário Pereira Fortes, José Pereira da Silva Goulart e Tristão da Cunha e Souza, estavam sendo chamados e qualificados os eleitores para depositarem seus votos na urna. Presidia a mesa eleitoral o juiz de paz Tristão da Cunha e Souza. Os demais integrantes eram representantes dos dois partidos que disputavam o pleito: Santa Luzia, do Comendador Antônio Vicente da Fontoura e Brigadeiro José Gomes Portinho, e o Saquarema, representado pelo médico José Pereira da Silva Goulart e pelo Coronel Hilário Pereira Fortes.

Antônio Vicente da Fontoura, sentado à mesa, identificava e registrava os votantes em uma lista. Esta era a prática utilizada, uma vez que não havia ainda os documentos individuais de identificação dos eleitores. 


Comendador Antônio Vicente da Fontoura
- Museu Municipal

Cabia à mesa eleitoral o reconhecimento do eleitor e a consequente autorização para que procedesse à votação. Algumas vezes, por divergências ou desconhecimento da figura que se apresentava, havia impedimentos de voto. E nesse dia 8, justamente quando houve dúvida a respeito da identidade de um dos eleitores, com alguma discussão e posterior concessão do direito de voto, é que três tiros foram ouvidos, tendo como alvo José Gomes Portinho que, ileso, subiu à mesa para exigir a ordem. Os tiros, provavelmente, foram dados para distrair os presentes e dar oportunidade para que um homem, passando por baixo da mesa, ferisse o Comendador Fontoura com objeto cortante. Apunhalado, o Comendador ainda recebeu bengaladas na cabeça. Tais agressões acabaram por provocar-lhe a morte em 20 de outubro de 1860, certamente com atroz sofrimento.

O crime contra Antônio Vicente da Fontoura desencadeou um processo judicial com grande repercussão.

Em 20 de setembro, um mês antes do falecimento do Comendador, foram à sua casa entrevistá-lo sobre o atentado o Chefe de Polícia da Província, Dr. Eduardo Pindahiba de Mattos, acompanhado do escrivão João Henrique Froes e das testemunhas Dr. Pedro Baylet e João José de Leão. Encontraram o Comendador na cama, sendo ele inquirido pelo Dr. Eduardo. Obtiveram dele as seguintes informações: que ao ser ferido levantou-se de onde estava sentado e avistou o "preto conhecido por Manoel Pequeno", acreditando ter partido dele os ferimentos, apesar de não ter reparado que portasse faca em suas mãos. Quanto às cacetadas na cabeça, não sabia informar de quem tinham partido, pois se achava "todo banhado em sangue". Perguntado se julgava ter o atentado sido premeditado, respondeu que era o que parecia, atribuindo-o "a inimizades políticas". No entanto, sem acusar, o Comendador contou ter ouvido do Coronel Hilário, do Dr. Goulart e de Felisberto Ourique, do partido contrário ao seu, que venceriam "a eleição a todo custo", além de ter sido alertado na véspera que não fosse à Igreja porque morreria. Ao final da conversa, foi apresentada ao Chefe de Polícia a roupa que o Comendador usava no dia do crime, constatando a autoridade a grande quantidade de sangue e os sinais da facada no tecido.

Manoel Pequeno foi condenado às galés perpétuas. Os mandantes seguiram suas vidas. As divergências da política, acirradas durante a Revolução Farroupilha, encerrada 15 anos antes, conseguiram produzir uma importante vítima.

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Para saber mais: obra A Morte do Comendador  - Eleições, Crimes Políticos e Honra (Antonio Vicente da Fontoura, Cachoeira, RS, 1860), de Paulo Roberto Staudt Moreira, José Iran Ribeiro e Miquéias Henrique Mugge. Editora Unisinos e Oikos Ltda., São Leopoldo, 2016.

domingo, 8 de agosto de 2021

A Escola de Música de Cachoeira

Cachoeira é uma cidade musical e muitas podem ser as razões dessa musicalidade. Uma delas certamente foi uma iniciativa levada a efeito há 100 anos: a fundação do Conservatório de Música de Cachoeira.

Em meados de abril de 1921, o intendente Aníbal Lopes Loureiro recebeu o pianista Guilherme Fontainha, diretor artístico do Centro de Cultura Artística do Rio Grande do Sul. Sob sua eficiente administração foram criados conservatórios de música em várias cidades do Rio Grande do Sul, Cachoeira uma delas. A iniciativa visava a interiorização da cultura artística, projeto idealizado por ele em parceria com o bandolinista italiano José Corsi.

Guilherme Fontainha - www.institutopianobrasileiro.com.br

O jornal O Commercio de 27 de abril de 1921 noticiou que o maestro Fontainha, diretor do Conservatório de Música de Porto Alegre, encontrou-se com o intendente de Cachoeira para incentivá-lo à criação de um conservatório na cidade, onde "além de outras vantagens, se ministrará o ensino pela escola moderna, a exemplo do que se tem feito em outros municípios". As negociações entre o intendente e Guilherme Fontainha acertaram que a Intendência iria alugar e mobiliar um prédio apropriado e, com brevidade, chegaria uma professora diplomada para lecionar e dirigir o conservatório.

O Commercio conclui a notícia dizendo: "Folgamos em registrar esta notícia, pois a fundação de tal escola muito contribuirá para difundir entre nós o ensino da arte musical pelos modernos processos".

João Neves da Fontoura, presidente do Clube Renascença, entusiasta da ideia, cedeu dependências da entidade para nelas funcionar a Escola de Música até que a Intendência providenciasse outro local apropriado e devidamente equipado.

No início de maio de 1921, assumiu a direção da escola a senhorita Laura Silva, pianista diplomada. Hospedada na residência de Francisco Timóteo da Cunha, na Rua Sete de Setembro n.º 215, Laura Silva passou a receber lá as matrículas dos interessados.

Casa de Francisco Timóteo da Cunha (com a charrete em frente) - Museu Municipal

No ato da matrícula, os alunos eram informados dos regulamentos da escola, dentre os quais destacavam-se as finalidades: "a difusão de uma verdadeira cultura musical, acessível à mocidade e com recursos relativamente módicos; preparar os candidatos a exames e ao professorado; formar bons musicistas e elevar o diletantismo à perfeição". Como se vê, o propósito era formar músicos qualificados e aptos a replicarem o seu conhecimento. Ação como essa foi fundamental para impulsionar o talento que havia em boa quantidade na Cachoeira do início do século XX.

No programa da escola seriam lecionadas as matérias desenvolvidas nos "mais acreditados estabelecimentos musicais da América do Sul". Não havia limite de idade à inscrição e a obtenção de diploma exigia o cumprimento de requisitos, sendo os exames para sua obtenção feitos por "maestro ou pessoa competente, estranha à escola".

No dia 10 de junho de 1921, sediada no Clube Renascença, foi oficialmente inaugurada a Escola Musical de Cachoeira. A notícia dada pelo O Commercio em 13 de junho dá a dimensão do acontecimento:

Sede do Clube Renascença, local de funcionamento da Escola Musical - foto Benjamin Camozato

"Domingo último, às 14 horas, em o edifício sito à Rua Sete de Setembro nº 92, onde funcionou a Associação Comercial, realizou-se a inauguração da Escola Musical, fundada nesta cidade sob o patrocínio do “Centro de Cultura Artística”, de Porto Alegre. Presentes as autoridades municipais, estaduais e federais, representantes da imprensa e do clero, exmas. senhoras e senhoritas, e os elementos mais representativos da sociedade cachoeirense, tomou a palavra o Sr. Dr. Aníbal Lopes Loureiro, que declarou inaugurada a Escola Musical, concedendo a palavra ao orador oficial, Dr. Minuano de Moura, depois de se congratular com os presentes pela fundação de tão importante estabelecimento.

Em seguida, o Dr. Minuano de Moura, tomando a palavra, discorreu brilhantemente sobre a arte, encarando-a sob todos os seus aspectos, e finalizou com o incentivo ao culto da arte do trabalho, fazendo votos para que a Escola que ora se inaugurava, sob a direção dos professores José Corsi e Guilherme Fontainha, se afirmasse em Cachoeira, onde vicejavam as mais belas flores da arte.

As últimas palavras do orador foram acolhidas com uma estrepitosa salva de palmas. Logo após, foi dado início ao concerto, onde a distinta virtuose Laura Silva, professora da Escola Musical, deu apenas uma pálida ideia de seu gênio, interpretando, com admirável maestria, acompanhada pelo professor Maurice Maissiat, Chopin, Gounod, Liszt e outros autores de nomeada.

Esse magnífico concerto produziu excelente impressão ao seleto auditório, sendo os seus intérpretes fartamente aplaudidos em todos os números que constituíam o programa. Findo o concerto, o Dr. Aníbal Loureiro tomou a palavra, encerrando a sessão inaugural da Escola, tendo sido lavrada uma ata.

A professora Laura Silva e o professor Maurice Maissiat foram muito felicitados pela feliz interpretação que souberam dar ao programa do concerto.

Como acima ficou dito, a Escola Musical funcionará à Rua Sete de Setembro, tendo sido o mobiliário desse estabelecimento, do valor de 2:000$000, cedido pela Intendência. A municipalidade contribui, ainda, com o aluguel do prédio onde funciona a Escola, por cuja manutenção e prosperidade fazemos ardentes votos.

O revmo. Padre Vicente da Cruz Trovisqueira, após o discurso oficial, lançou a bênção à Escola Musical".

Professor e musicista Maurice Maissiat 
com a esposa cachoeirense - Coleção Flávio Silva

A Escola de Música, também chamada de Conservatório de Música, não teve vida longa, mas suficiente para formar musicistas que seguiram carreiras de sucesso. Dentre eles, a pianista Rita de Cássia Fernandes Barbosa, depois fundadora da Escola Municipal de Belas Artes. Graças também ao funcionamento da escola, Cachoeira acolheu o pianista cearense Souto Menor, que a dirigiu por bom tempo. 

Pianista Rita de Cássia F. Barbosa

Anúncio da Escola Musical n'O Commercio, 20/7/1921
- Arquivo Histórico


Como se vê, o traço cultural da musicalidade também tem raiz histórica de iniciação formal. Os frequentadores da Escola Musical seguiram replicando as lições, fazendo jus à finalidade precípua de "formar bons musicistas e elevar o diletantismo* à perfeição". Ambiente tão propício à música também foi capaz de atrair para a cidade artistas vindos dos mais diferentes lugares, abrindo espaço também para que muitos deles aqui se radicassem e exercessem os seus dons. Está explicada em boa parte a  tradição musical de Cachoeira e provado eficiente o projeto de Guilherme Fontainha e José Corsi.

*gosto acentuado pelas artes, especialmente pela música.

Dedico esta postagem à memória do musicista cachoeirense Flávio Silva, com quem descobri muito sobre a música em Cachoeira.