Cachoeira de outros tempos

Cachoeira de outros tempos
Rua 7 de Setembro com Banco da Província ao fundo (~1928) - MMEL - Modificado por IA - Renato Thomsen

segunda-feira, 27 de julho de 2026

O destino de Josefina Rosa

Os crimes contra as mulheres são hoje chamados de feminicídios, se praticados por seus companheiros. Infelizmente, apesar da sucessão das eras, muitos homens ainda acreditam que as mulheres são como objetos e, portanto, têm proprietários. 

A história de Cachoeira guarda muitos destes tristes episódios, alguns deles resguardados na excelente documentação mantida pelo Arquivo Histórico do Município (AHMCS), o que possibilita revisitar páginas que não deveriam fazer parte da memória de lugares civilizados. No entanto, ainda que sejam fatos condenáveis, rememorá-los é uma forma de sinalizar para mudanças de paradigmas que insistem em se manter, apesar da evolução dos tempos.

O caso em questão ocorreu em 24 de julho de 1890 e a recuperação do fato se dá através de um ofício encaminhado pelo delegado de polícia ao presidente da Junta Municipal, David Soares de Barcellos. A Junta Municipal era composta por cidadãos nomeados para governarem o município logo depois de 15 de novembro de 1889, enquanto a república se organizava. David Soares de Barcellos presidia a junta ou comissão administrativa composta, naquele momento, por ele e mais os cidadãos Antônio Nelson da Cunha e Isidoro Neves da Fontoura.

No ofício, emitido em 25 de julho pelo delegado Victorino Borges de Medeiros, constava a informação de que uma mulher, de nome Josephina Rosa, havia sido assassinada na véspera pelo marido. Como a vítima era "de família pobre", o delegado solicitava à autoridade municipal providências para o sepultamento, informando que era preciso "somente alugar-se um caixão e abrir sepultura".

Imagem gerada com ajuda da IA

Ora, naquele tempo, tanto os presos da cadeia que viessem a falecer, quanto os indigentes tinham custeados os sepultamentos pela municipalidade. Não há nenhuma linha detalhando o crime, tampouco informação de que o assassino tivesse sido detido. 

Ofício de 25/7/1890 - JMS/SE/CR-001 - Acervo documental do AHMCS

Quem era Josephina Rosa? Qual a motivação de ter a vida ceifada pelo próprio marido? Infelizmente estas perguntas não têm resposta, embora não haja explicação suficiente para justificar que alguém tire a vida de outrem, ainda que na sociedade do final do século XIX coubesse aos homens, fossem pais, irmãos ou maridos, o destino das mulheres.

segunda-feira, 29 de junho de 2026

Orquidário Municipal

Em um dia de setembro de 1961, do interior da Casa Alaggio, na Rua 7 de Setembro, o orquidófilo Odino Bacchin observou a pérgula da Praça José Bonifácio recoberta por trepadeiras em flor e teve uma ideia que o encheu de entusiasmo. Por que não criar na velha praça um local para exposição permanente de flores? Voltou a atenção para a mostra floral promovida pelo Núcleo Orquidófilo de Cachoeira do Sul, nas dependências da Alaggio, e transmitiu a ideia para os companheiros Atride Livi e Germano Wolff. Cativados pelas perspectivas, os três orquidófilos decidiram levar a sugestão aos demais integrantes do Núcleo.

Orquidófilo Odino Bacchin - MMEL

Pérgula na Praça José Bonifácio - inspiração para o orquidário - MMEL

Casa Alaggio - Rua 7 de Setembro - MMEL - IA por Renato Thomsen

Alguns dias depois, Odino Bacchin, Germano Wolff e Atride Livi procuraram o prefeito municipal Moacyr Cunha Rosing, para transmitir-lhe o plano. Imediatamente o prefeito sugeriu o local onde existira o Mercado Público, bem no coração da José Bonifácio, para a construção do orquidário que já tinha até nome escolhido: Luys de Mendonça e Silva - presidente da Sociedade Brasileira de Orquidófilos e grande incentivador e criador de núcleos dedicados ao estudo e cultivo de orquídeas. Germano Wolff, desenhista e arquiteto, ficou encarregado do projeto.

O início efetivo das obras do orquidário foi bastante retardado e muitas foram as interrupções devido às dificuldades financeiras enfrentadas pela Prefeitura Municipal. O governo de Moacyr Rosing chegou ao fim, herdando Arnoldo Paulo Fürstenau o compromisso de concluir a obra.

Neste meio tempo, o Núcleo Orquidófilo passou a chamar-se Sociedade Cachoeirense de Orquidófilos e os jovens Guilherme Stockey e Aldomar Sander, membros da diretoria, assumiram a tarefa de acompanhar a construção do orquidário.

Finalmente, em 19 de setembro de 1965, às 10 horas da manhã, a ideia de Odino Bacchin foi, em parte, solenemente concretizada. Estava criado o Orquidário Municipal. Por razões legais, o nome de Luys Mendonça e Silva não pôde ser adotado, mas uma placa referindo-o foi colocada junto ao prédio do orquidário numa homenagem das autoridades e "amigos cachoeirenses das orquídeas". O evento foi o ponto culminante da XIV Exposição Estadual de Orquídeas, que aconteceu de 16 a 19 de setembro daquele ano. 

19/9/1965 - inauguração do Orquidário Municipal - MMEL

Orquidário e Fonte das Águas Dançantes - 1968 - MMEL

 Antigo Orquidário Municipal - foto Robispierre Giuliani

Odino Bacchin não conseguiu ver seu sonho completamente realizado. O orquidário não teve vida muito longa. Entretanto, o prédio continua lá. 

De algum lugar, o velho orquidófilo deve estar a imaginar como poderia ser mais belo aquele recanto se as orquídeas pudessem povoá-lo e, em algumas noites,  serem banhadas pelos jatos coloridos das vizinhas águas dançantes.

Texto baseado em outro escrito originalmente em 5/9/2000, por ocasião do 35.º aniversário de inauguração do Orquidário Municipal, quando foi colocada a placa em homenagem a Luys Mendonça e Silva em espaço do Parque Municipal da Cultura, ao lado da antiga sede do Museu Municipal Edyr Lima.

sábado, 30 de maio de 2026

O projetista do Cine-Teatro Coliseu

O Cine-Teatro Coliseu, cuja fachada é tombada como patrimônio histórico-cultural e embeleza uma das mais importantes quadras da Rua 7 de Setembro, em marcante estilo "art-déco", até o momento não tinha divulgação de quem havia sido seu projetista. Pois graças ao acervo de imprensa do Arquivo Histórico e reportagens nos jornais O Comércio e Jornal do Povo, ano 1936, foi possível descobrir que o projeto foi assinado pelo engenheiro José Stammel, de São Leopoldo. Stammel estava envolvido, à época, com a construção da Igreja Santo Antônio, projetada por José Lutzenberger. Muito provavelmente sua presença na cidade, em razão da obra da igreja, favoreceu a contratação do trabalho pelos empresários Henrique Comassetto e Algemiro Carvalho, proprietários do Cinema Coliseu Cachoeirense e empreendedores do novo cine-teatro. Com mais de uma frente de trabalho na cidade, proporcionou-se que abrisse, juntamente com o construtor local Jacob Bauer, um escritório de engenharia e construções no final daquele ano de 1936.

17/2/1938 - inauguração do Cine-Teatro Coliseu - IA por Renato Thomsen

Henrique Comassetto - um dos proprietários do novo cine-teatro - MMEL

Na edição de 19 de abril de 1936, página 3, o Jornal do Povo publicou uma entrevista com o engenheiro, intitulada: A construção do prédio para o novo cinema. Uma entrevista do engenheiro José Stammel ao "Jornal do Povo". Na matéria, a primeira pergunta feita ao profissional, que estava acompanhado de Henrique Comassetto, um dos mandantes da obra, foi sobre em que local seria erguido "o novo teatro". Respondeu o engenheiro que, de acordo com Henrique Comassetto, tinha ficado resolvido que o novo edifício seria "levantado no terreno existente entre a Confeitaria do Sr. Olivio Costa e o Restaurante Comercial em virtude de oferecer o mesmo maiores vantagens do que o terreno onde se acha o Hotel América". Eis aí um dado novo na história do Cine-Teatro Coliseu. O Hotel América ocupava a esquina da Rua 7 de Setembro com Rua 7 de Abril, hoje Dr. Milan Kras. No lugar deste antigo hotel, foi construída, no início da década de 1970, a agência central do Banco do Brasil.

Antigo Hotel América - Rua 7 de Setembro - MMEL

Voltemos à entrevista. A próxima pergunta foi sobre o início das obras. Segundo Stammel, a construção seria iniciada em 25 dias, pois o que dependia dele em termos de plantas e orçamentos já estava finalizado. 

Indagado sobre a lotação do novo cinema, o engenheiro respondeu que o empreendimento comportaria 1.500 lugares e que as plantas previam dotar a sala de projeção de ampla ventilação, facilitar o escoamento rápido do público, em caso de incêndio e outros perigos, havendo, além das portas de entrada, seis portas laterais para saída, todas com persianas de aço, facilitando a sua abertura. Para o palco estava planejada ventilação por três das suas faces, sendo dotado de camarins e de instalações para uso dos artistas. O projeto do edifício com três andares previa espaço no térreo para a plateia e a sala de espera. No primeiro andar, a segunda plateia e alguns compartimentos para escritórios ou apartamentos. No segundo andar, a cabine, o depósito e outras necessidades. Além disso, o engenheiro destacou a previsão de modernas e várias instalações sanitárias. 

Quanto ao estilo do prédio, Stammel denominou-o "moderno", marcando a entrega da obra para um prazo de sete a oito meses, se não houvesse nenhum percalço.

E, finalizando a matéria jornalística, assim deixou registrado o Jornal do Povo: "Cachoeira parece que, desta feita, vai ver realizado seu sonho decenal. Depois de tanta promessa veremos surgir, afinal, o edifício grandioso do grande Comassetto. Cachoeira não terá mais que se humilhar do indecente barracão que há tantos anos enodoa a Praça José Bonifácio e a própria cidade. Estamos, pois, de parabéns."

O "indecente barracão" referido pelo jornal era o do antigo Cinema Coliseu Cachoeirense,  sucessor de outros cinemas ali instalados desde a década de 1910, ocupando a esquina da Praça José Bonifácio com a Rua Andrade Neves. O negócio já era explorado pelos empreendedores do novo cine-teatro desde meados da década de 1920 e, por muitos anos, tinha sido o grande e festejado ponto de cinema da cidade, além de importante palco para artistas, conferencistas e famosos de outros tempos .

Barracão do Cinema Coliseu Cachoeirense - Praça José Bonifácio - MMEL

Já o outro jornal, O Comércio, em sua edição de 3 de junho de 1936, referiu-se ao Cinema Coliseu Cachoeirense de uma forma mais saudosista: "Quantas ilusões, quantas vidas se entrelaçaram e até mesmo quantos projetos sonhados dentro do velho recinto do Coliseu! Muitas destas quiméricas ilusões tornaram-se em realidades e outras foram desfeitas pelas mãos cruéis do destino." E acrescentou que, no ano de 1926, "por ocasião de ser calçada a cidade, o Sr. Comassetto fez uma reforma geral no seu cinema, melhorando-o consideravelmente e deixando-o em condições para que nele pudessem trabalhar grandes companhias teatrais."

Quanto à edificação do Cine-Teatro Coliseu, cujo nome só foi decidido depois de ter passado por outras versões, coube à união de José Stammel ao construtor Jacob Bauer. 

Em dezembro de 1936, José Stammel, intitulando-se arquiteto e construtor, comunicava à população cachoeirense que havia assumido todos os negócios do falecido Sebastião Moser a pedido da viúva Josefa Moser, anunciando que qualquer assunto relacionado aos seus serviços fosse tratado com o gerente Jacob Bauer. 

Segundo Günter Weimer*, Josef Hermann Stammel era natural de Coblenz, na Alemanha, nascido em 22 de dezembro de 1903. Formou-se  na Escola Estadual de Construção de Barmen, Elberfeld. Quando emigrou para o Brasil e apresentou seu diploma, já apresentava um extenso currículo como engenheiro-chefe de uma importante empresa na Alemanha. Além da Igreja Santo Antônio, do Cine-Teatro Coliseu, da refinaria de banha e da casa do Dr. Milan Kras em Cachoeira, deixou obras em São Leopoldo e Taquara. 

*Arquitetos e construtores no Rio Grande do Sul - 1892/1945, de Günter Weimer. Editora UFSM, Santa Maria - RS, pp. 169 a 171.

quinta-feira, 30 de abril de 2026

Série Antigas Fazendas de Cachoeira: Fazenda das Paineiras

Retomando as descrições de fazendas da zona rural de Cachoeira, a reportagem do jornal O Commercio dirigiu-se, na tarde de sábado, 3 de março de 1928, à Fazenda das Paineiras, localizada no então 1.º distrito municipal.

A excursão partiu da cidade às quatro horas da tarde e, "transpondo, de aranha, a barca do Botucaraí, às cinco horas e meia" pisavam "o campo da fazenda, onde, gentilmente, um próprio esperava" para guiá-los, "trazendo um cavalo encilhado para um companheiro de viagem."

Quando entraram no campo, tiveram que encurtar as rédeas do animal que conduzia a aranha, pois o terreno tinha a "superfície pouco plana em razão da lavoura de arroz que ali possuía, há muitos anos passados, o Dr. Arlindo Leal."

Depois de uma caminhada de cerca de 50 minutos pelo campo da fazenda, ao saírem da várzea avistaram, numa elevação do terreno, um mato que ainda continha madeira de lei em quantidade. Nele era avistada uma picada, por onde logo chegaram à frente da sede da fazenda, sendo ali acolhidos, com "sua habitual amabilidade" pelo proprietário Vasco de Freitas Souza*.

A casa ficava numa colina, de onde era avistada a maior parte do estabelecimento. A sede era uma "vasta habitação de material, com cômodos para numerosa família e com dependências confortáveis para o pessoal das lides" da fazenda.

Além da moradia da família, existia "um vasto galpão de material, com jirau para abrigo e trabalho do pessoal, bem como estrebarias de material para abrigo dos animais de trato."

Paineiras que pareciam "seculares, com troncos de alguns metros de circunferência", ocupavam a direita, a esquerda e os fundos da casa, sendo elas que provavelmente deram origem ao nome da fazenda.

Depois do jantar, os visitantes foram convidados a se sentarem à frente da casa, "à luz de um luar magnífico", para gozarem "um pouco da fresca". Depois, retornaram à casa para serem obsequiados por uma apresentação musical do proprietário que, apreciador do bandoneon, proporcionou-lhes "a audição de dois lindos dobrados e uma valsa de sua composição que compôs e tocava de memória, porque não conhecia notas de música."

Mal despontara o sol da manhã de domingo, todos estavam a postos "apreciando as cintilações de ouro e prata que o astro-rei punha sobre o campo e sobre o lago próximo, e enchendo os pulmões do puro ar do campo." Logo seguiram para a mangueira, "onde três empregados tratavam da ordenha das vacas, quase todas com cruza de Holandês, Pampa, Devon e Durham, animais que se mantinham a campo durante o inverno, "em magníficas condições de carne, graças à especial qualidade das pastagens da fazenda."

Às 10 horas, em passeio a cavalo com Vasco Souza, seguiram até a margem do rio Jacuí, onde apreciaram "os matos e capões com as melhores madeiras de lei que, na sua superfície [...] de 28 quadras de sesmaria", ainda possuía a fazenda. No mesmo local, foram notados vestígios de taipas de outra grande lavoura de arroz que possuía o Dr. Arlindo Leal há cerca de oito anos passados, quando lhe pertencia o estabelecimento, lugar onde o campo estava bem gramado e, portanto, muito melhorada a pastagem." Também foram apreciar "o banheiro carrapaticida do estabelecimento, notando, nas suas proximidades, dois touros Pampa, raça especial para a produção de carne."

A Fazenda das Paineiras havia sido adquirida por Vasco Souza do Banco da Província, ao custo de 510 contos de réis, então com 48 quadras de sesmaria. Não faltou quem levantasse a temeridade de tal negócio. "Entretanto, o valor do estabelecimento, representado nas suas várzeas fertilíssimas, nos seus matos de madeiras de lei e nas suas pastagens de primeira qualidade, proporcionou-lhe a venda, a bom preço, de 20 quadras de sesmaria da fazenda, ficando-lhe 28. Vendendo uma grande parte do gado, atendeu e liquidou os últimos encargos que pesavam sobre a propriedade". [...]

"As terras fertilíssimas, em torno da sede, permitiram auferir bons lucros da exploração da agricultura", ainda que em pequena escala, "só para as maiores necessidades da fazenda, devido à exiguidade do pessoal para esse fim, que preferia o trabalho nas grandes lavouras de arroz."

Às três e meia da tarde, os visitantes retiraram-se da fazenda, chegando à cidade cerca de três horas depois. Trouxeram "a melhor das impressões da bela Fazenda das Paineiras" e agradecendo, na edição do jornal que foi publicada em 21 de março de 1928, à página 2, "ao amigo Vasco Souza e à sua excelentíssima família as gentilezas dispensadas ao noticiarista desta folha."

Não há registros fotográficos conhecidos da Fazenda das Paineiras. No acervo documental do Arquivo Histórico é possível conferir a marca de gado utilizada pelo proprietário, Vasco de Souza Freitas. A marca lembra uma letra "h" minúscula e com serifa.

Fragmento de registro de marcas de gado - CM/S/RM-002

*Também aparece Vasco de Souza Freitas.