Espaços urbanos

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Pôr-do-sol no Jacuí - foto Ernani Marques

terça-feira, 24 de fevereiro de 2026

Série Antigas Fazendas de Cachoeira: Fazenda São Nicolau

Novamente se bebe da fonte inesgotável das páginas do jornal O Commercio, conhecido ao seu tempo como Comercinho, para trazer as informações que compõem a série "Antigas Fazendas de Cachoeira". Na edição do dia 8 de março de 1916, à primeira página deste importante jornal que contou o cotidiano de Cachoeira ao longo de mais de seis décadas e meia, se encontra a notícia "Excursão a S. Nicolau".

Depois do redator, novamente anônimo, dar início ao texto com explicações de que não trataria de assuntos relacionados ao santo, tampouco ao arroio que toma o seu nome, certamente assim denominado por habitar suas imediações algum morador cuja alcunha homenageava São Nicolau, é que dá início à descrição da visita feita à fazenda homônima. 

Segundo a crônica que ficou preservada na coleção de O Commercio, no acervo de imprensa do Arquivo Histórico, a saída de Cachoeira em direção à propriedade deu-se nos "primeiros albores do domingo último", ou seja, no dia 5 de março de 1916, quando "a cidade ainda permanecia imersa nas profundezas do sono" e a pequena comitiva que faria a visita partiu da Avenida das Paineiras em direção à margem do Jacuí. Ora, a Avenida das Paineiras era a quadra da Rua 7 de Setembro fronteira à Praça José Bonifácio, na época arborizada por grande número de paineiras. Hoje, tal trecho corresponde à quadra em que a Rua 7 desdobra-se em duas pistas marcadas por um canteiro central. Dito isto, a comitiva tomou uma "barca" no antigo porto, "veículo previamente destinado a conduzi-la à estância de São Nicolau", então propriedade de Júlio Medeiros de Albuquerque. Chegados à outra margem do Jacuí  por volta das 7 horas, logo tomaram assento no carro puxado por bons cavalos que os aguardava. 

A viagem correu tranquila pela "linda várzea do Barbosa", até que ao chegarem próximo ao arroio que leva o nome de São Nicolau o carro em que estavam "ficou algum tempo com as rodas encravadas nos barrancos de um pequeno banhado". Como a distância daquele local até a fazenda não era grande, terminaram o trajeto a pé. A caminhada serviu para lhes abrir o apetite e degustarem com prazer a "mesa do excelente café" com que foram recebidos pela família proprietária.

"A Fazenda de São Nicolau, pertencente outrora ao Sr. José Marques da Silveira [...] fica ao Sul da cidade da Cachoeira, a légua e meia de distância." Na época, já estava "acrescentada com campos contíguos comprados a herdeiros de José Custódio Coelho Leal, tendo 38 quadras de sesmarias". O campo era "dos da de melhor qualidade" que existiam no 2.º distrito: "todo limpo, macio e fartamente empastado", [...] literalmente povoado de excelente rebanho bovino". Possuía ainda criação de animais cavalares e um bom rebanho de ovelhas. A fazenda estava "muito bem tapada e dividida em invernadas, tendo, junto à mangueira, bretes muito aperfeiçoados para facilitar o serviço de marcação e beneficiamento."

Segundo ia descrevendo o redator, "o estabelecimento de moradia assumiu, graças às reformas feitas na antiga casa e construções novas, uma feição mais confortável e moderna." O serviço de abastecimento de água retirada de uma vertente era feito através de bomba acionada por moinho de vento. Levada por pressão à caixa do depósito, a água  era distribuída por encanamentos a "todos os departamentos da fazenda: cozinha, casa de banhos, tanques de lavar roupa, de irrigação do jardim e de bebedouro aos animais domésticos, etc." O poço e o moinho estavam a 300 metros da sede, sendo "a água levada a uma altura de 15 metros."

Na sequência da descrição, surge a informação de que o serviço de instalação da água foi feito pelo Dr. João Minssen, "a cuja reconhecida competência e idoneidade hão sido confiadas outras instalações do gênero neste município, sempre com bom êxito." Ora, o Dr. João Minssen, hoje patrono da Biblioteca Pública Municipal, de que foi o primeiro diretor, era agrônomo de profissão e deixou um legado de avanços não só na sua área, como em empreendimentos variados a que se dedicou no município.

Outra benfeitoria importante foi a implantação de diversos açudes, "distribuídos pelos locais necessários" da propriedade, o que remediou o inconveniente da "falta de aguadas".

Nas imediações da casa que servia de sede à fazenda, descrita como uma "vivenda confortável, ampla, bem arejada e dotada dos cômodos indispensáveis", havia um grande açude que seria destinado à "alimentação de um tanque carrapaticida", a ser construído na próxima primavera. 

Sede da Fazenda São Nicolau - Acervo familiar - gentileza Méia Albuquerque

A propriedade também dispunha de "uma boa quinta e extensas lavouras" que produziam para o seu consumo. Foi notada uma grande criação de galinhas das melhores raças, além de uma "pequena criação de porcos ingleses em dependências apropriadas a esse fim."

Ao fim da visita, a família proprietária serviu um "lauto almoço" à comitiva de O Commercio, cuja "bela e brusca ofensiva foi comandada pelo general von Möller", aqui se referindo o redator ao proprietário do jornal, Henrique Möller Filho.

Quanto ao dono e anfitrião da Fazenda São Nicolau, deixaram registrado na matéria que "além de fazendeiro", era também "um hábil agrimensor e, de par com a cultura dos campos", cultivava "também sonetos". Era "poeta e trabalhou, noutros tempos, na imprensa diária da culta cidade de Pelotas, exercendo a sua atividade na redação do Diário Popular. Com o mesmo compasso que mede os campos, mede os versos", observou o redator, arrematando: "Mas já se vê que não é nenhum boêmio que ande a desperdiçar o tempo à cata de rimas."

Em 2026, a Fazenda São Nicolau segue escrevendo a sua história com os descendentes de Júlio Medeiros de Albuquerque. Na sede, conserva o velho casarão modificado em sua arquitetura, porém cheio de memórias de uma tradição familiar forjada nos campos dedicados a São Nicolau.

Suely Soares, Sarita Soares, Sylvia e Isidoro Albuquerque (sentados). Em pé, Célia Dutra Soares
Acervo familiar - gentileza Méia Albuquerque
Vista atual, vendo-se o "moinho de vento" - foto Méia Albuquerque

Vista atual da sede da Fazenda São Nicolau - foto Méia Albuquerque

sexta-feira, 30 de janeiro de 2026

Série Antigas Fazendas de Cachoeira: Fazenda do Cedro

O blog inicia hoje nova série, desta feita tratando sobre antigas propriedades rurais da grande Cachoeira. A que inaugura a série é a Fazenda do Cedro, localizada na margem direita do rio Jacuí e à margem esquerda do arroio São Nicolau, propriedade de Leandro Ferreira Barbosa e outros. Nesta fazenda nasceu a grande liderança operária de Cachoeira do Sul - José Nicolau Barbosa, que considerava Leandro Barbosa seu pai adotivo. Mas esta é outra história. 

Conheceremos a Fazenda do Cedro através da descrição feita por um redator do jornal O Commercio, depois de visita à propriedade no distante ano de 1916.

Na tardinha de sábado, dia 12 de janeiro de 1916, o repórter do jornal, cujo nome não é citado, dirigiu-se à praia do Jacuí, onde foi recebido por Leandro Barbosa e Arthur Bastian em uma gasolina comandada pelo arrematante do passo, Eloy Lisbôa. Transposto o rio, todos seguiram em direção à fazenda em um carro posto à disposição pelo proprietário. O trajeto até a sede da fazenda ficava em torno de uma légua, trecho que precisava ser vencido antes do anoitecer.

Leandro Barbosa e Arthur Bastian acompanharam o carro em suas próprias montarias. O trajeto foi descrito como travessia por uma vasta planície de campo que margeava o Jacuí, depois da qual passaram a subir por declives "ora mais suaves, ora mais fortes", até que pouco antes do anoitecer avistaram uma colina em que se assentavam as principais edificações da propriedade.  A casa principal, vasta e espaçosa, era construída com frente para o Norte e em elevação que permitia uma vista privilegiada da região e de parte da cidade ao longe. Aos fundos dela, uma "quinta de árvores frutíferas. Laranjeiras comuns e de variedades selecionadas, umbigo, do céu, toranja, em número superior a 300 pés, pessegueiros de espécies diversas em grande quantidade, videiras, abundância de limoeiros com os seus frutos indispensáveis em casos de moléstia, bergamoteiras, etc."

Casa da sede da Fazenda do Cedro em tomada de Benjamin Camozato
- Grande Álbum de Cachoeira (1922)

Nas proximidades da casa, um grande cercado feito de tela de arame abrigava uma plantação de alfafa e outros pastos crescidos espontaneamente, onde havia fartura de pés de araçás, fortemente carregados, e de outras árvores silvestres, dentre as quais 100 mudas de pés de ipê, com os quais futuramente pretendiam fazer uma alameda à frente da casa.

Nos extremos Sul e Oeste do cercado, corria "um bambual espesso de um metro e mais de espessura, com alguns claros para a circulação do ar, produzindo uma fresca agradabilíssima." Naquele local acontecia o recreio da família, para o que existiam bancos para descanso e onde, à noite, habitualmente, reuniam-se as pessoas da casa para "fazer avenida", levando um lampião quando não havia luar.

O repórter registrou ter visto outras espécies vegetais, como ipê, cedro, angico, louro e "caroba, a preciosa planta medicinal". Avistou árvores ornamentais, como seis pés de eucaliptos das variedades citriodora, rostrata e outras que impregnavam "o ar com o agradável e penetrante aroma de suas folhas." Toda a cobertura vegetal era efeito da mão humana, pois outrora só havia campos.

Depois de uma noite de sono, "ao romper da aurora", erguidos do leito, aproveitaram o café, seguido por uma cavalgada pelos arredores na companhia do proprietário da fazenda. Leandro Barbosa contou que a propriedade tinha sido comprada em 1889 "do finado João Ferreira Barbosa ao também já falecido José Custódio Coelho Leal, naquele bom tempo em que uma légua de campo valia 30:000$000*, um novilho escolhido 12$500** e o gado de cria 5$000*** por cabeça." 

A propriedade tinha uma légua de superfície e por divisas naturais, ao Norte, o rio Jacuí, a Oeste, o arroio Capané e, a Leste, o arroio São Nicolau. Ao Sul, limitava com campos de Júlio Medeiros de Albuquerque e Capitão Francisco Gama. Eram os proprietários, à época, Carlinda de Barcellos Barbosa, viúva do casal adquirente, Leandro Barbosa, filho, e Branca Aydos Bastian, esposa de Arthur Bastian e neta do casal que, por falecimento de sua mãe, possuía um quarto de légua em usufruto.

Capitão Francisco Gama, um dos lindeiros - MMEL

No passeio, seguiram rumo Sul, "apreciando lavouras de milho e alguns exemplares de gado", dentre os quais um touro Holstein ferido por uma briga com um touro Hereford. Descendo por uma encosta, avistaram um lote de vacas, novilhas e terneiras holandesas, gado que conservava boas carnes todo ano "graças à excelência do campo e ao abrigo que, durante o inverno, fornecia o  mato próximo". Além do gado crioulo, bem conservado e em boas condições de gordura, era a raça holandesa a de maior quantidade, produtora de maior volume de leite do que a crioula. Porém, o leite da holandesa era menos gordo que o da vaca crioula.

Mais adiante, em um dos pontos mais elevados da fazenda, do qual se descortinava "um panorama esplêndido", ficava o "Cerrito", coberto de campo marcado por pedregulhos. Descendo novamente a várzea, chegaram ao "Capão do Cedro", que deu origem ao nome da fazenda. "Situado na encosta de uma colina, tinha uma grande quantidade de cedros e de outras árvores bem desenvolvidas", dando mostras de que "as florestas são as coletoras, conservadoras e purificadoras da água."

Internando-se pelo mato, à procura da melhor fonte de água da fazenda, viram a grande quantidade de vertentes "que rolavam as suas águas pelas descidas do terreno", tornando-se mais abundantes à medida que se aproximavam da fonte.  Dali seguiram para ver a criação de porcos Berkshire, "pequenos e grandes, em número de 80, todos encerrados em vasto compartimento cercado de tábuas e arame farpado, visto que o porco é um animal daninho". Os animais eram alimentados com farelo de arroz e a criação era em pequena escala, mais a título de experiência de negócio de Leandro Barbosa.

Já haviam percorrido duas léguas pela fazenda e o sol começava a esquentar, registrou o repórter. Por isto tomaram rumo da casa, passando ainda por lavouras de amendoim, melancias, melões, milho e feijão, trabalho de David Torres de Barcellos, mais conhecido por "Barcelão", "incansável perseguidor e inexorável assassino das formigas do sítio."

Antes de chegarem à casa, presenciaram "o sacrifício de uma linda e gorda novilha, laçada na mangueira e trazida para o campo. Depois de pealada, foram espichados os laços e o capataz, Sr. Lúcio Gonçalves, um homem que, a contento dos proprietários, ali exercia sua atividade há 26 anos, procedeu ao abate. A carne da novilha forneceu um churrasco superior.

Enquanto o repórter andou pelo campo com Leandro Barbosa, Arthur Bastian foi à margem do Jacuí, "trazendo no carrinho do estabelecimento" o proprietário do O Commercio, sua irmã Cristiana Möller e o sobrinho Pedro Müller que à hora do almoço sentaram-se à mesa, da qual também fizeram parte Leandro Barbosa e a esposa Rigoleta, Arthur Bastian, a esposa Branca e a filha Eulina, a senhorita Argélia Marques Pereira, David Torres de Barcellos e o noticiarista do jornal. Noutra mesa defronte, sentaram-se o menino Walmor Camozato e Maria de Lourdes, filha de Leandro Barbosa.

Walmor Camozato - Acervo familiar

No cardápio do almoço, carnes de novilha, carneiro, porco e galinha, tudo regado com a Cerveja Cachoeirense. "Apesar de já terem alguns comido uvas e outros melancias, o assalto à carne assada foi feito com excelente disposição."

Para fazerem a digestão, retiraram-se para a "Avenida dos Bambus", ocasião em que chegaram mais dois visitantes, os senhores Ramiro Ramos de Chaves e Benjamin Camozato, que ali passaram a noite de domingo. Benjamin Camozato "teve a lembrança de trazer uma pequena máquina fotográfica, tirando um grupo em que figuraram pessoas da casa e visitantes."

Benjamin Camozato - Acervo familiar

Registro feito por Benjamin Camozato e publicado no Grande Álbum de Cachoeira (1922)
- Seriam estas imagens as que foram coletadas em janeiro de 1916?
- A moça do medalhão (à esquerda, acima) é Maria de Lourdes, a filha de Leandro Barbosa?

Por fim, viram ainda "os estábulos das vacas leiteiras, galpões para abrigo dos touros de raça durante a estação invernosa e o grande açude, parte natural e parte artificial, existente a Oeste da casa, que tem canoa para excursões sobre as suas águas e constitui um dos mais aprazíveis pontos de recreio da fazenda."

Pelas 16h30, retornaram para a cidade, "a carro e a cavalo, trazendo as mais agradáveis recordações do esplêndido passeio."

Como se depreende da descrição apurada feita pelo redator de O Commercio na edição do dia 16 de janeiro de 1916, na primeira página, a Fazenda do Cedro era lugar de progresso para aqueles tempos, servindo este precioso registro para estabelecer as inevitáveis comparações com o tempo atual, demonstrando que os afazeres rurais tomaram rumos de desenvolvimento e abandono de práticas ancestrais, como o abate da novilha descrito pelo repórter. 

Preciosos são os arquivos que preservam o passado, permitindo ao presente uma incursão no tempo, nas práticas e nos costumes dos que nos antecederam. O acesso a tais registros oportuniza entender o passado e preparar melhor o futuro.

*30:000$000 = trinta contos de réis.

**12$500 = doze mil e quinhentos réis.

***5$000 = cinco mil réis.

sexta-feira, 19 de dezembro de 2025

Romeu e Julieta

Um dos primeiros cinemas de Cachoeira, o Familiar, foi fundado em 1910 pelos irmãos Renoardo e Albino Pohlmann. Sua localização era a Praça José Bonifácio, com frente voltada para a Rua 7 de Setembro, trecho conhecido como Avenida das Paineiras. No dia 10 de outubro daquele ano, ocorreu a primeira sessão, consagrando o local como ponto de encontro dos cachoeirenses em época de poucas atividades de entretenimento.

Movimento em frente ao Cinema Familiar - foto Renoardo Pohlmann - MMEL

Fachada do Cinema Familiar fotografada por Renoardo Pohlmann e colorizada com IA
- Renato Thomsen

Em 1912, Albino Pohlmann retirou-se da sociedade, ingressando Felipe Moser em seu lugar, girando a razão social como Pohlmann & Moser. E, naquele ano, o Cinema Familiar deve ter experimentado um de seus maiores sucessos, a exibição da tragédia Romeu e Julieta, clássico de William Shakespeare, exibição que atraiu centenas de pessoas para as sessões. O jornal O Commercio, na sua edição do dia 28 de agosto de 1912, primeira página, deu grande destaque à atração:

"A tragédia de amor - Romeu e Julieta - levou, à noite de domingo último, um extraordinário número de espectadores ao recinto deste agradável centro de diversões, da empresa Pohlmann & Moser. Não obstante estar muito ampliado, depois das últimas reformas, podendo conter mais de 700 pessoas, o Familiar tornou-se pequeno para a onda de povo que o invadiu a fim de apreciar a grandiosa tragédia de Shakespeare, arquitetada sobre um fato histórico. O longo argumento, ocupando quase duas páginas do programa, intercalado de primorosos versos do imaginoso e ardente poeta Olavo Bilac, dava uma ideia do emocionante enredo da bela peça, rigorosamente encenada com os trajes daquela época pela acreditada casa Pathé Frères*. E a exibição da longa fita colorida, dividida em duas partes e de 1.000 metros de extensão, correspondeu plenamente à expectativa, tal o consciencioso desempenho que deram-lhe os artistas contratados pela fábrica. As outras fitas exibidas foram: Exéquias das vítimas da grande catástrofe do couraçado Liberté, natural; D. Babilau gosta de animais e Little Moritz faz-se musculoso, cômicas; Romance do ladrão de caça, dramática. Amanhã, quinta-feira, haverá espetáculo com atraente programa, sendo, a pedido geral, repetida a grandiosa fita Romeu e Julieta, digna de ser apreciada."

É provável que a versão exibida no Cinema Familiar tenha sido o curta-metragem mudo, produzido na Itália em 1908, e estrelado por Florence Lawrence. O original está disponível no YouTube e pode ser acessado pelo link https://www.youtube.com/watch?v=teJyp1EQJZw#

Florence Lawrence, a Julieta de 1908 - Wikipédia

A outra versão possível, estrelada por George Lessey e Julia M. Taylor, com direção de Barry O'Neil, foi lançada no ano de 1911.

Romeu (George Lessey) e Julieta (Julia M. Taylor) - curta de 1911 - https://www.imdb.com/pt/title/tt0123245/?ref_=mv_close

Uma curiosidade é a de que muito provavelmente os aparelhos utilizados para projeção no Cinema Familiar tenham sido adaptados ou até mesmo fabricados por Albino Pohlmann, um verdadeiro gênio da mecânica na história de Cachoeira (ver postagens sobre ele), uma vez que era ele quem produzia as máquinas fotográficas utilizadas pelo irmão Renoardo.

Vão longe os tempos dos primeiros cinemas em Cachoeira, mas segue firme a sétima arte, ainda que o mundo tenha mudado muito e as opções de entretenimento se multiplicado de tal forma que nem em sonhos  seriam imaginadas por aqueles pioneiros empreendedores.

*Pathé Frères: sociedade francesa de cinema que produzia e negociava filmes, fundada pelos irmãos Pathé em 1896. No começo do século XX, entrou na indústria fonográfica também.

domingo, 30 de novembro de 2025

Um monumento desaparecido

Nestes tempos de discussão sobre democracia e outras tantas formas de exercício do poder, vem à lembrança um monumento que foi erguido na Praça Dr. Balthazar de Bem, cujo destino se perdeu, restando no local apenas vestígios que podem ou não ser dele.

Mandado colocar pela Prefeitura Municipal na parte Sul da Praça Dr. Balthazar de Bem, o monumento foi inaugurado durante a Semana da Democracia de 1962.

No dia 27 de novembro de 1962, às 8 horas da manhã, o padre Orlando Geraldo Penna celebrou uma missa solene na Igreja Matriz para encerramento da Semana da Democracia, quando saudou a memória dos oficiais e praças do Exército sacrificados durante a intentona comunista de 1935. Depois da missa, por volta das 9h30, as autoridades se dirigiram à Praça Dr. Balthazar de Bem, onde o prefeito Moacyr Cunha Rosing convidou o Tenente Coronel Milton Braga Horta para descerrar a placa sobreposta em monólito, ali erguido "em sinal de repulsa do povo brasileiro ao comunismo, entregando-a ao patrimônio público da cidade", como referiu o jornal O Commercio em sua edição de 28 de novembro. 

A intentona comunista, ou revolta comunista, foi uma reação de militares contra o governo de Getúlio Vargas e que constou de ataques armados em quartéis de Natal, Recife e Rio de Janeiro, entre os dias 24 e 27 de novembro de 1935. A articulação dos ataques partiu da Aliança Nacional Libertadora - ANL, fundada em março daquele ano por integrantes de diferentes correntes políticas liderados pelo Partido Comunista. Luiz Carlos Prestes, que retornou ao país em abril de 1935, tornou-se o presidente de honra da ANL, dando início a uma articulação que pretendia tomar o poder no país e, posteriormente, instalar o regime socialista. A Lei de Segurança Nacional pôs fim aos planos de Luiz Carlos Prestes, fechando a ANL em 11 de julho de 1935. Apesar do fechamento, as articulações tiveram continuidade, tendo por desfecho as revoltas nos quartéis que acabaram sendo enfrentadas pelo governo, restando abafado o movimento. Seguiu-se à revolta comunista um período de controle, com muitas prisões e perseguições, dando força para o golpe de estado de 1937, quando Getúlio Vargas instituiu o Estado Novo.

Soldados armados em frente ao quartel de Natal - RN - Acervo digital Globo

Voltando ao monumento instalado no lado Sul da Praça Dr. Balthazar de Bem, em 27 de novembro de 1962, e que portava uma placa com a inscrição: Homenagem de Cachoeira do Sul aos heróis tombados na Intentona Comunista de 1935, em defesa da liberdade e das instituições – 27-XI-1962, seria este anônimo artefato que repousa na praça sem identificação alguma, projetado por Harry Iserhardt?

Foto Mirian Ritzel 

Alguém tem foto ou registro para comprovar o aspecto desse monumento? 

Mais um mistério sobre destino de elemento da paisagem urbana e um patrimônio público da cidade destituído da memória de seu tempo.