Espaços urbanos

Espaços urbanos
Igreja Santo Antônio - César Roos

domingo, 13 de junho de 2021

Uma igreja para o "Santo Casamenteiro"

"Ó gentil e amoroso Santo Antônio, cujo coração foi sempre cheio de simpatia humana, sussurra a minha petição aos doces ouvidos do Menino Jesus, que gostava de estar em seus braços. A gratidão do meu coração será sempre sua. Amém." 

O dia 13 de junho é dedicado a Santo Antônio, cuja devoção se traduz bastante antiga em Cachoeira. Cultuá-lo, muito antes de ser em razão de sua fama de "santo casamenteiro", se relaciona com a nossa raiz histórica portuguesa. Da mesma forma que herdamos dos nossos fundadores o culto à Imaculada Conceição, a padroeira de Portugal, rendemos preces ao santo que nasceu em Lisboa a 15 de agosto de 1195.


Santo Antônio - Robispierre Giuliani

Santo Antônio nasceu Fernando de Bulhões, nome substituído durante a sua formação religiosa na Ordem dos Cônegos Regrantes de Santo Agostinho. Sua dedicação à doutrina fez dele um estudioso e grande teólogo que foi postumamente reconhecido pelo Papa Pio XII com o título de Doutor da Igreja (1946).

A primeira homenagem oficial a Santo Antônio, em Cachoeira, foi a denominação, em 1858, de uma das principais ruas da Vila Nova de São João da Cachoeira, e uma das mais antigas, popularmente conhecida como Rua dos Cachorros. Nessa antiga rua possuíam terrenos dois vultos da história da instalação da Vila, os vereadores Francisco José da Silva Moura, português de nascimento, Joaquim Gomes Pereira, e o médico José Afonso Pereira, proprietário da casa em que D. Pedro II foi hospedado em 1846.


Cartão-postal da Rua Saldanha Marinho - Museu Municipal


Francisco José da Silva Moura possuía dois terrenos na Rua de Santo Antônio, um deles concedido em 1820. Seria ele devoto do santo português, seu conterrâneo, influenciando assim na denominação da rua?

A Rua de Santo Antônio não conservou este nome, passando a se chamar Rua Saldanha Marinho ainda no final do século XIX.

Na década de 1920, quando os padres redentoristas chegaram em Cachoeira com a disposição de aqui instalarem um convento e uma igreja, foram obsequiados com a concessão de um terreno junto ao Potreiro dos Fialho. A doação foi feita por Antoninha Fialho com a condição de que a igreja a ser erguida homenageasse a Santo Antônio. E assim foi feito. A igreja foi inaugurada em outubro de 1937, o local passou a ser conhecido como Bairro Fialho depois que os herdeiros de Antoninha estabeleceram um loteamento e, finalmente, como Bairro Santo Antônio. 


Construção da Igreja Santo Antônio - Museu Municipal

O "santo casamenteiro" ganhou um templo que é uma das mais ricas pérolas da arquitetura sacra de Cachoeira do Sul, projeto do arquiteto e artista alemão José Lutzenberger, e inventariada como patrimônio histórico-cultural.


Detalhe da Igreja Santo Antônio 
- Robispierre Giuliani


Torres da Igreja Santo Antônio - Renato Thomsen

domingo, 16 de maio de 2021

Ataque à Charqueada!!!

A Charqueada e Estabelecimento Paredão foi uma das mais poderosas forças econômicas de Cachoeira e responsável por substanciais repasses de recursos ao município desde o final do século XIX até o primeiro quarto do século XX. 

Charqueada do Paredão - Museu Municipal


Sua instalação à margem esquerda do Jacuí, no ano de 1878, representou uma guinada na indústria saladeiril rio-grandense. As congêneres da Charqueada do Paredão concentravam-se nas regiões da campanha e no sul do estado, principalmente em Pelotas. O estabelecimento do negócio em Cachoeira, centro do estado, favoreceu sobremaneira os tropeiros de gado, reduzindo o envio de tropas para o sul! Em tempos de condução do gado a pé era grande negócio encurtar o trajeto. Para os criadores locais, comerciar com a Charqueada era mais vantajoso ainda, especialmente porque havia grandes campos de invernada nas redondezas do complexo industrial.

Em 1887, a charqueada passou para capital inglês, adotando o nome Brazilian Extract of Meat and Hide Factory. Com a mudança de administração, a indústria equipou-se, estendeu a gama de produtos e fez grandes investimentos no complexo à beira do rio.

Uma das grandes melhorias foi a reconstrução do pavilhão de conservas em 1909. Com projeto de engenheiros ingleses, o pavilhão foi erguido pelo construtor Antonelli Oreste na parte de alvenaria, ficando a marcenaria a cargo de Carlos Böer. A estrutura do telhado veio da Inglaterra e as madeiras empregadas foram cabriúva, louro e pinho de riga. Para favorecer a circulação e renovação do ar, o prédio foi construído com dezenas de janelas e aberturas laterais em toda a extensão da cumeeira.

Pavilhão da Charqueada (1909) - Ernani Marques


2021. Um dos mais representativos registros da memória econômica de Cachoeira do Sul está sendo atacado e vilipendiado à luz do dia! As grandes e envidraçadas janelas pensadas pelos ingleses para introdução da luz e do ar necessário ao trabalho exibem o esqueleto do pavilhão. Sua cobertura, pouco a pouco, desaparece... Os dilapidadores do patrimônio histórico servem-se de tudo que encontram por lá e enchem carros e caminhonetes, sentindo-se senhores do que parece não ter dono... 





Pavilhão saqueado - SMIC

Os bens do patrimônio histórico deviam ser entendidos como pertencentes a todos. Ainda que deles possamos descobrir autoria, construtores, propósitos, sua existência e permanência advêm de decisões que perpassaram gerações. Que medidas devem ser tomadas com quem se julga no direito de dilapidar o que não é somente seu, mas de todos?

Onde está o compromisso, enquanto sociedade, com a nossa própria história? 

segunda-feira, 19 de abril de 2021

Theo Wiederspahn e a Igreja de Lutero

Em 19 de abril de 1931, Cachoeira testemunhou a inauguração da Igreja de Lutero, no Bairro Rio Branco. A obra, erguida em apenas oito meses, trazia a assinatura de um dos mais prestigiados arquitetos alemães que viveu e trabalhou no Rio Grande do Sul: Theo Wiederspahn.

Theo Wiederspahn - @igornatusch


Theodor Alexander Josef Wiederspahn nasceu em Wiesbaden, na Alemanha, em 19 de fevereiro de 1878, e faleceu, em Porto Alegre, no dia 12 de novembro de 1952. Sua relação com a engenharia/arquitetura começou na terra natal, aos 14 anos, quando se empregou como aprendiz de pedreiro e cursou, concomitantemente, uma escola de construção. Em 1896, graduou-se na Escola Real de Construção. Em Wiesbaden, começou a trabalhar como arquiteto na firma de seu pai, quando projetou e construiu vários prédios. Desses, quatro são considerados hoje como de interesse histórico-cultural.

A oportunidade de vir para o Brasil surgiu em 1908, para trabalhar na construção de estradas de ferro no Rio Grande do Sul, atividade que acabou por não exercer. Fixou-se em Porto Alegre, ingressando numa das mais prestigiadas firmas de construção da cidade - a de Rudolf Ahrons, ali permanecendo até 1915. A partir de então começou a atuar sozinho, tornando-se um dos mais requisitados e prestigiados arquitetos. 

Existem várias e importantes obras por ele projetadas na capital do estado e em várias cidades do interior. Em Cachoeira, duas são bastante celebradas e reconhecidas: o Templo Martim Lutero, inaugurado em 19 de abril de 1931, e o segundo prédio do Hospital de Caridade, em 1940.

Templo Martim Lutero - Museu Municipal


Projeto do 2.º prédio do Hospital
- Coleção Armando Fontanari


Mas antes disso, Theo projetou a casa do silvicultor José Zell, no Bairro Rio Branco, depois adquirida por Alfredo Papay e, posteriormente, por Edwino Schneider. 

Residência projetada por Theo Wiederspahn para José Zell
- Gentileza Elizabeth Thomsen


A mesma casa, depois propriedade do Dr. Alfredo Papay
- Museu Municipal

A mesma casa, quando propriedade de Edwino Schneider
(segunda à esquerda) - Museu Municipal

Depois de projetar a casa para José Zell, Theo Wiederspahn viveu períodos de dificuldades, tendo inclusive perdido o título de arquiteto. Nessa época, trabalhando como construtor, teria desenhado as plantas da agência do Banco da Província para Cachoeira, projeto executado por Domingo Francisco Rocco em 1927.

Na sequência vieram os projetos e execução do Templo Martim Lutero, obra para a qual apresentou duas propostas, uma denominada "Louvor a Deus" e outra "Quo vadis". Na concorrência, três projetos foram escolhidos, sendo os dois de Theo os que conquistaram primeiro e segundo lugar. Por sugestão dele mesmo, o projeto "Quo vadis" foi o construído, pois apesar de ser o segundo colocado, se adequava melhor ao terreno de esquina.

Projeto original de Theo Wiederspahn
- Comunidade Evangélica de Confissão Luterana


Carimbo do arquiteto
- Comunidade Evangélica de Confissão Luterana


Saíram da prancheta de Theo Wiederspahn obras celebradas de Porto Alegre e hoje conhecidas como Casa de Cultura Mário Quintana, Museu de Artes do Rio Grande do Sul - MARGS, Memorial do Rio Grande do Sul, Santander Cultural e Shopping Total, para citar algumas.

O Templo Martim Lutero atesta o gênio criativo de Theo Wiederspahn e há 90 anos ergue-se altivo no Bairro Rio Branco, guardando o tanto da história dos que sonharam com ele e o ergueram. Traduz também o compromisso dos que o elegeram como patrimônio histórico-cultural, salvaguardando-o para o futuro.

Agradecimentos especiais à arquiteta Elizabeth Thomsen pela cedência de imagens.

segunda-feira, 8 de março de 2021

Dona Alzira

Alta, magra, voz grossa e o costume de pigarrear. Rosto oblongo e grande, com olhos amiudados pelos óculos de lentes grossas para correção da miopia. Cabelos alvos e ondulados. Arguta em perceber qualquer deslize no uso da língua portuguesa. Essa era a descrição da professora Alzira da Cunha Carlos que há 125 anos iniciou, no Barro Vermelho, suas atividades docentes.


Alzira da Cunha Carlos - Museu Municipal


Impossível contar a história da educação em Cachoeira sem dedicar uma página especial à professora Alzira. Bageense, ela nasceu em 8 de maio de 1877, filha do republicano histórico João Batista Carlos e de sua mulher Faustina da Cunha Carlos. Seu diploma de professora pela Escola Normal de Porto Alegre foi assinado pelo diretor Manoel Pacheco Prates em 11 de dezembro de 1895. Antes dela, que se tenha notícia, apenas a professora Cândida Fortes Brandão, formada em 1885, possuía o tão raro diploma!


Família Carlos (cerca de 1903) - Acervo familiar

Além de ter ensinado as primeiras letras para irmãos e sobrinhos, Alzira formou algumas gerações de cachoeirenses a partir de 1902, quando abriu com as irmãs Hilda e Amanda sua escola particular, que funcionava na Rua Saldanha Marinho, defronte ao Colégio Marista. A casa era ao mesmo tempo escola e residência. Amanda era quem comandava a casa e Alzira a "chefe" da família e diretora da escola.

Na escola, além do currículo formal, eram lecionadas outras disciplinas, como francês, música, bordado e pintura. Alzira encarregava-se do ensino de português e conhecimentos gerais; Hilda lecionava matemática e Amanda ensinava boas maneiras. Caminhar com um livro na cabeça para correção da postura, onde colocar as mãos, como aceitar um copo d'água ou um doce e que tipo de conversas manter eram lições aprendidas com Amanda.

Aliás, não só de relevo eram os ensinamentos das irmãs Carlos, mas também famosos eram os trabalhos manuais executados por elas! Além das funções docentes, a confecção de enxovais para bebês e noivas eram especialidades das irmãs.

Pela imprensa é possível perceber o reconhecimento ao trabalho da professora Alzira, assim como notória era sua participação em diferentes momentos da comunidade. Em 1904 eis que Alzira da Cunha Carlos consta como secretária da diretoria da Sociedade Recreio, agremiação formada por senhoras e senhoritas, bem como inúmeras vezes foi madrinha de casamentos. 

Como viveu muito - faleceu em 7 de maio de 1976, às vésperas de completar 99 anos - Alzira foi sempre muito celebrada por seus alunos, tendo recebido ao longo da vida muitas homenagens e reconhecidas lembranças. Uma das mais importantes distinções foi a denominação patronímica da Seção Infantil da Biblioteca Pública Municipal "Dr. João Minssen", verdadeiro celeiro de novos leitores.

Falar em Alzira da Cunha Carlos, abalizada e reconhecida educadora, é oportuna forma de homenagear todas as mulheres que lançaram mão de seus talentos e formação para contribuírem com o melhoramento da comunidade cachoeirense, permitindo que outras mulheres e homens também tivessem a oportunidade de se reconhecerem como agentes de transformação do mundo.

Colaboraram com informações: Ione M. Sanmartin Carlos, Dione A. Carlos Dias e Ione Carlos Hentges.