Espaços urbanos

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Pôr-do-sol no Jacuí - foto Ernani Marques

sexta-feira, 30 de janeiro de 2026

Série Antigas Fazendas de Cachoeira: Fazenda do Cedro

O blog inicia hoje nova série, desta feita tratando sobre antigas propriedades rurais da grande Cachoeira. A que inaugura a série é a Fazenda do Cedro, localizada na margem direita do rio Jacuí e à margem esquerda do arroio São Nicolau, propriedade de Leandro Ferreira Barbosa e outros. Nesta fazenda nasceu a grande liderança operária de Cachoeira do Sul - José Nicolau Barbosa, que considerava Leandro Barbosa seu pai adotivo. Mas esta é outra história. 

Conheceremos a Fazenda do Cedro através da descrição feita por um redator do jornal O Commercio, depois de visita à propriedade no distante ano de 1916.

Na tardinha de sábado, dia 12 de janeiro de 1916, o repórter do jornal, cujo nome não é citado, dirigiu-se à praia do Jacuí, onde foi recebido por Leandro Barbosa e Arthur Bastian em uma gasolina comandada pelo arrematante do passo, Eloy Lisbôa. Transposto o rio, todos seguiram em direção à fazenda em um carro posto à disposição pelo proprietário. O trajeto até a sede da fazenda ficava em torno de uma légua, trecho que precisava ser vencido antes do anoitecer.

Leandro Barbosa e Arthur Bastian acompanharam o carro em suas próprias montarias. O trajeto foi descrito como travessia por uma vasta planície de campo que margeava o Jacuí, depois da qual passaram a subir por declives "ora mais suaves, ora mais fortes", até que pouco antes do anoitecer avistaram uma colina em que se assentavam as principais edificações da propriedade.  A casa principal, vasta e espaçosa, era construída com frente para o Norte e em elevação que permitia uma vista privilegiada da região e de parte da cidade ao longe. Aos fundos dela, uma "quinta de árvores frutíferas. Laranjeiras comuns e de variedades selecionadas, umbigo, do céu, toranja, em número superior a 300 pés, pessegueiros de espécies diversas em grande quantidade, videiras, abundância de limoeiros com os seus frutos indispensáveis em casos de moléstia, bergamoteiras, etc."

Casa da sede da Fazenda do Cedro em tomada de Benjamin Camozato
- Grande Álbum de Cachoeira (1922)

Nas proximidades da casa, um grande cercado feito de tela de arame abrigava uma plantação de alfafa e outros pastos crescidos espontaneamente, onde havia fartura de pés de araçás, fortemente carregados, e de outras árvores silvestres, dentre as quais 100 mudas de pés de ipê, com os quais futuramente pretendiam fazer uma alameda à frente da casa.

Nos extremos Sul e Oeste do cercado, corria "um bambual espesso de um metro e mais de espessura, com alguns claros para a circulação do ar, produzindo uma fresca agradabilíssima." Naquele local acontecia o recreio da família, para o que existiam bancos para descanso e onde, à noite, habitualmente, reuniam-se as pessoas da casa para "fazer avenida", levando um lampião quando não havia luar.

O repórter registrou ter visto outras espécies vegetais, como ipê, cedro, angico, louro e "caroba, a preciosa planta medicinal". Avistou árvores ornamentais, como seis pés de eucaliptos das variedades citriodora, rostrata e outras que impregnavam "o ar com o agradável e penetrante aroma de suas folhas." Toda a cobertura vegetal era efeito da mão humana, pois outrora só havia campos.

Depois de uma noite de sono, "ao romper da aurora", erguidos do leito, aproveitaram o café, seguido por uma cavalgada pelos arredores na companhia do proprietário da fazenda. Leandro Barbosa contou que a propriedade tinha sido comprada em 1889 "do finado João Ferreira Barbosa ao também já falecido José Custódio Coelho Leal, naquele bom tempo em que uma légua de campo valia 30:000$000*, um novilho escolhido 12$500** e o gado de cria 5$000*** por cabeça." 

A propriedade tinha uma légua de superfície e por divisas naturais, ao Norte, o rio Jacuí, a Oeste, o arroio Capané e, a Leste, o arroio São Nicolau. Ao Sul, limitava com campos de Júlio Medeiros de Albuquerque e Capitão Francisco Gama. Eram os proprietários, à época, Carlinda de Barcellos Barbosa, viúva do casal adquirente, Leandro Barbosa, filho, e Branca Aydos Bastian, esposa de Arthur Bastian e neta do casal que, por falecimento de sua mãe, possuía um quarto de légua em usufruto.

Capitão Francisco Gama, um dos lindeiros - MMEL

No passeio, seguiram rumo Sul, "apreciando lavouras de milho e alguns exemplares de gado", dentre os quais um touro Holstein ferido por uma briga com um touro Hereford. Descendo por uma encosta, avistaram um lote de vacas, novilhas e terneiras holandesas, gado que conservava boas carnes todo ano "graças à excelência do campo e ao abrigo que, durante o inverno, fornecia o  mato próximo". Além do gado crioulo, bem conservado e em boas condições de gordura, era a raça holandesa a de maior quantidade, produtora de maior volume de leite do que a crioula. Porém, o leite da holandesa era menos gordo que o da vaca crioula.

Mais adiante, em um dos pontos mais elevados da fazenda, do qual se descortinava "um panorama esplêndido", ficava o "Cerrito", coberto de campo marcado por pedregulhos. Descendo novamente a várzea, chegaram ao "Capão do Cedro", que deu origem ao nome da fazenda. "Situado na encosta de uma colina, tinha uma grande quantidade de cedros e de outras árvores bem desenvolvidas", dando mostras de que "as florestas são as coletoras, conservadoras e purificadoras da água."

Internando-se pelo mato, à procura da melhor fonte de água da fazenda, viram a grande quantidade de vertentes "que rolavam as suas águas pelas descidas do terreno", tornando-se mais abundantes à medida que se aproximavam da fonte.  Dali seguiram para ver a criação de porcos Berkshire, "pequenos e grandes, em número de 80, todos encerrados em vasto compartimento cercado de tábuas e arame farpado, visto que o porco é um animal daninho". Os animais eram alimentados com farelo de arroz e a criação era em pequena escala, mais a título de experiência de negócio de Leandro Barbosa.

Já haviam percorrido duas léguas pela fazenda e o sol começava a esquentar, registrou o repórter. Por isto tomaram rumo da casa, passando ainda por lavouras de amendoim, melancias, melões, milho e feijão, trabalho de David Torres de Barcellos, mais conhecido por "Barcelão", "incansável perseguidor e inexorável assassino das formigas do sítio."

Antes de chegarem à casa, presenciaram "o sacrifício de uma linda e gorda novilha, laçada na mangueira e trazida para o campo. Depois de pealada, foram espichados os laços e o capataz, Sr. Lúcio Gonçalves, um homem que, a contento dos proprietários, ali exercia sua atividade há 26 anos, procedeu ao abate. A carne da novilha forneceu um churrasco superior.

Enquanto o repórter andou pelo campo com Leandro Barbosa, Arthur Bastian foi à margem do Jacuí, "trazendo no carrinho do estabelecimento" o proprietário do O Commercio, sua irmã Cristiana Möller e o sobrinho Pedro Müller que à hora do almoço sentaram-se à mesa, da qual também fizeram parte Leandro Barbosa e a esposa Rigoleta, Arthur Bastian, a esposa Branca e a filha Eulina, a senhorita Argélia Marques Pereira, David Torres de Barcellos e o noticiarista do jornal. Noutra mesa defronte, sentaram-se o menino Walmor Camozato e Maria de Lourdes, filha de Leandro Barbosa.

Walmor Camozato - Acervo familiar

No cardápio do almoço, carnes de novilha, carneiro, porco e galinha, tudo regado com a Cerveja Cachoeirense. "Apesar de já terem alguns comido uvas e outros melancias, o assalto à carne assada foi feito com excelente disposição."

Para fazerem a digestão, retiraram-se para a "Avenida dos Bambus", ocasião em que chegaram mais dois visitantes, os senhores Ramiro Ramos de Chaves e Benjamin Camozato, que ali passaram a noite de domingo. Benjamin Camozato "teve a lembrança de trazer uma pequena máquina fotográfica, tirando um grupo em que figuraram pessoas da casa e visitantes."

Benjamin Camozato - Acervo familiar

Registro feito por Benjamin Camozato e publicado no Grande Álbum de Cachoeira (1922)
- Seriam estas imagens as que foram coletadas em janeiro de 1916?
- A moça do medalhão (à esquerda, acima) é Maria de Lourdes, a filha de Leandro Barbosa?

Por fim, viram ainda "os estábulos das vacas leiteiras, galpões para abrigo dos touros de raça durante a estação invernosa e o grande açude, parte natural e parte artificial, existente a Oeste da casa, que tem canoa para excursões sobre as suas águas e constitui um dos mais aprazíveis pontos de recreio da fazenda."

Pelas 16h30, retornaram para a cidade, "a carro e a cavalo, trazendo as mais agradáveis recordações do esplêndido passeio."

Como se depreende da descrição apurada feita pelo redator de O Commercio na edição do dia 16 de janeiro de 1916, na primeira página, a Fazenda do Cedro era lugar de progresso para aqueles tempos, servindo este precioso registro para estabelecer as inevitáveis comparações com o tempo atual, demonstrando que os afazeres rurais tomaram rumos de desenvolvimento e abandono de práticas ancestrais, como o abate da novilha descrito pelo repórter. 

Preciosos são os arquivos que preservam o passado, permitindo ao presente uma incursão no tempo, nas práticas e nos costumes dos que nos antecederam. O acesso a tais registros oportuniza entender o passado e preparar melhor o futuro.

*30:000$000 = trinta contos de réis.

**12$500 = doze mil e quinhentos réis.

***5$000 = cinco mil réis.

sexta-feira, 19 de dezembro de 2025

Romeu e Julieta

Um dos primeiros cinemas de Cachoeira, o Familiar, foi fundado em 1910 pelos irmãos Renoardo e Albino Pohlmann. Sua localização era a Praça José Bonifácio, com frente voltada para a Rua 7 de Setembro, trecho conhecido como Avenida das Paineiras. No dia 10 de outubro daquele ano, ocorreu a primeira sessão, consagrando o local como ponto de encontro dos cachoeirenses em época de poucas atividades de entretenimento.

Movimento em frente ao Cinema Familiar - foto Renoardo Pohlmann - MMEL

Fachada do Cinema Familiar fotografada por Renoardo Pohlmann e colorizada com IA
- Renato Thomsen

Em 1912, Albino Pohlmann retirou-se da sociedade, ingressando Felipe Moser em seu lugar, girando a razão social como Pohlmann & Moser. E, naquele ano, o Cinema Familiar deve ter experimentado um de seus maiores sucessos, a exibição da tragédia Romeu e Julieta, clássico de William Shakespeare, exibição que atraiu centenas de pessoas para as sessões. O jornal O Commercio, na sua edição do dia 28 de agosto de 1912, primeira página, deu grande destaque à atração:

"A tragédia de amor - Romeu e Julieta - levou, à noite de domingo último, um extraordinário número de espectadores ao recinto deste agradável centro de diversões, da empresa Pohlmann & Moser. Não obstante estar muito ampliado, depois das últimas reformas, podendo conter mais de 700 pessoas, o Familiar tornou-se pequeno para a onda de povo que o invadiu a fim de apreciar a grandiosa tragédia de Shakespeare, arquitetada sobre um fato histórico. O longo argumento, ocupando quase duas páginas do programa, intercalado de primorosos versos do imaginoso e ardente poeta Olavo Bilac, dava uma ideia do emocionante enredo da bela peça, rigorosamente encenada com os trajes daquela época pela acreditada casa Pathé Frères*. E a exibição da longa fita colorida, dividida em duas partes e de 1.000 metros de extensão, correspondeu plenamente à expectativa, tal o consciencioso desempenho que deram-lhe os artistas contratados pela fábrica. As outras fitas exibidas foram: Exéquias das vítimas da grande catástrofe do couraçado Liberté, natural; D. Babilau gosta de animais e Little Moritz faz-se musculoso, cômicas; Romance do ladrão de caça, dramática. Amanhã, quinta-feira, haverá espetáculo com atraente programa, sendo, a pedido geral, repetida a grandiosa fita Romeu e Julieta, digna de ser apreciada."

É provável que a versão exibida no Cinema Familiar tenha sido o curta-metragem mudo, produzido na Itália em 1908, e estrelado por Florence Lawrence. O original está disponível no YouTube e pode ser acessado pelo link https://www.youtube.com/watch?v=teJyp1EQJZw#

Florence Lawrence, a Julieta de 1908 - Wikipédia

A outra versão possível, estrelada por George Lessey e Julia M. Taylor, com direção de Barry O'Neil, foi lançada no ano de 1911.

Romeu (George Lessey) e Julieta (Julia M. Taylor) - curta de 1911 - https://www.imdb.com/pt/title/tt0123245/?ref_=mv_close

Uma curiosidade é a de que muito provavelmente os aparelhos utilizados para projeção no Cinema Familiar tenham sido adaptados ou até mesmo fabricados por Albino Pohlmann, um verdadeiro gênio da mecânica na história de Cachoeira (ver postagens sobre ele), uma vez que era ele quem produzia as máquinas fotográficas utilizadas pelo irmão Renoardo.

Vão longe os tempos dos primeiros cinemas em Cachoeira, mas segue firme a sétima arte, ainda que o mundo tenha mudado muito e as opções de entretenimento se multiplicado de tal forma que nem em sonhos  seriam imaginadas por aqueles pioneiros empreendedores.

*Pathé Frères: sociedade francesa de cinema que produzia e negociava filmes, fundada pelos irmãos Pathé em 1896. No começo do século XX, entrou na indústria fonográfica também.

domingo, 30 de novembro de 2025

Um monumento desaparecido

Nestes tempos de discussão sobre democracia e outras tantas formas de exercício do poder, vem à lembrança um monumento que foi erguido na Praça Dr. Balthazar de Bem, cujo destino se perdeu, restando no local apenas vestígios que podem ou não ser dele.

Mandado colocar pela Prefeitura Municipal na parte Sul da Praça Dr. Balthazar de Bem, o monumento foi inaugurado durante a Semana da Democracia de 1962.

No dia 27 de novembro de 1962, às 8 horas da manhã, o padre Orlando Geraldo Penna celebrou uma missa solene na Igreja Matriz para encerramento da Semana da Democracia, quando saudou a memória dos oficiais e praças do Exército sacrificados durante a intentona comunista de 1935. Depois da missa, por volta das 9h30, as autoridades se dirigiram à Praça Dr. Balthazar de Bem, onde o prefeito Moacyr Cunha Rosing convidou o Tenente Coronel Milton Braga Horta para descerrar a placa sobreposta em monólito, ali erguido "em sinal de repulsa do povo brasileiro ao comunismo, entregando-a ao patrimônio público da cidade", como referiu o jornal O Commercio em sua edição de 28 de novembro. 

A intentona comunista, ou revolta comunista, foi uma reação de militares contra o governo de Getúlio Vargas e que constou de ataques armados em quartéis de Natal, Recife e Rio de Janeiro, entre os dias 24 e 27 de novembro de 1935. A articulação dos ataques partiu da Aliança Nacional Libertadora - ANL, fundada em março daquele ano por integrantes de diferentes correntes políticas liderados pelo Partido Comunista. Luiz Carlos Prestes, que retornou ao país em abril de 1935, tornou-se o presidente de honra da ANL, dando início a uma articulação que pretendia tomar o poder no país e, posteriormente, instalar o regime socialista. A Lei de Segurança Nacional pôs fim aos planos de Luiz Carlos Prestes, fechando a ANL em 11 de julho de 1935. Apesar do fechamento, as articulações tiveram continuidade, tendo por desfecho as revoltas nos quartéis que acabaram sendo enfrentadas pelo governo, restando abafado o movimento. Seguiu-se à revolta comunista um período de controle, com muitas prisões e perseguições, dando força para o golpe de estado de 1937, quando Getúlio Vargas instituiu o Estado Novo.

Soldados armados em frente ao quartel de Natal - RN - Acervo digital Globo

Voltando ao monumento instalado no lado Sul da Praça Dr. Balthazar de Bem, em 27 de novembro de 1962, e que portava uma placa com a inscrição: Homenagem de Cachoeira do Sul aos heróis tombados na Intentona Comunista de 1935, em defesa da liberdade e das instituições – 27-XI-1962, seria este anônimo artefato que repousa na praça sem identificação alguma, projetado por Harry Iserhardt?

Foto Mirian Ritzel 

Alguém tem foto ou registro para comprovar o aspecto desse monumento? 

Mais um mistério sobre destino de elemento da paisagem urbana e um patrimônio público da cidade destituído da memória de seu tempo.

sábado, 18 de outubro de 2025

Tributo aos que construíram o Château d'Eau

O Château d’Eau é o nosso maior símbolo cultural e chega ao centenário consagrado material e simbolicamente.  Sua história, cantada e decantada, demonstra a capacidade que nossos antepassados tiveram de olhar para o futuro, assentando nos subterrâneos da terra os condutos que não só levaram água e esgoto para os lares cachoeirenses, mas incluíram o município no seleto grupo daqueles lugares que conseguiram emergir de um passado de estagnação e atraso. E, mais do que isto, conseguiram dotar a cidade de monumentos que entregaram não só funcionalidade, mas valores estéticos que garantiram a admiração imediata tanto naquele distante ano de 1925 como em todo o tempo que veio depois, chegando hoje aos 100 anos mantendo o seu fascínio.

Construção do Château d'Eau - A. Saidenberg 

Château d'Eau recém-inaugurado - MMEL

Os anseios de fazer Cachoeira se desenvolver tiveram início um bom tempo antes da inauguração da Segunda Hidráulica, da qual faz parte o Château d’Eau e o reservatório enterrado da Praça Borges de Medeiros, inaugurados conjuntamente porque trabalhavam em sintonia. Em 1911, Isidoro Neves da Fontoura deu os primeiros passos para dotar Cachoeira de uma hidráulica. Por coincidência, Isidoro era o pai daquele que inauguraria o complexo hoje centenário, o Dr. João Neves da Fontoura. Mas a iniciativa do Coronel Isidoro não logrou êxito. Em 1921, outro intendente, Aníbal Lopes Loureiro, deixou como legado de sua administração a Primeira Hidráulica, inaugurada em 20 de setembro de 1921, cuja caixa d’água segue a abastecer e adornar as adjacências do Hospital de Caridade.

A Primeira Hidráulica não satisfazia totalmente a necessidade de levar água aos lares cachoeirenses. Sua abrangência não ultrapassava o limite norte da Praça José Bonifácio, de modo que a zona alta da cidade continuava mergulhada no afã de obter água da velha forma, ou seja, através dos pipeiros ou da coleta em outros mananciais. Com a construção da Segunda Hidráulica, a água atingiu a dita “cidade nova” que se erguia acima da Estação da Viação Férrea.

Francisco Fontoura Nogueira da Gama foi o intendente que assinou os empréstimos necessários para tão importante obra, mas a sua saúde debilitada determinou que se afastasse da administração municipal, cabendo ao jovem João Neves da Fontoura, vice-intendente, a sua execução e inauguração.

Todos estes nomes da vida político-administrativa de Cachoeira são amplamente conhecidos e difundidos, assim como os dos profissionais responsáveis pelo planejamento e execução das obras da Segunda Hidráulica. Saturnino de Brito, Walter Jobim de Siqueira, Antônio de Siqueira, Giuseppe Gaudenzi, João Vicente Friedrichs, firma Silveira, Soares & Cia. são nomes que consolidaram esta história. Mas quem foram os que, anonimamente, ergueram os monumentos que hoje enaltecemos e que há mais de 100 anos os fincaram na terra? Pois são estes homens, trabalhadores nas mais diferentes funções, algumas delas perdidas no passar do tempo, que merecem também o nosso aplauso e reconhecimento.

Graças ao acervo documental preservado no valoroso Arquivo Histórico do Município é que foi possível levantar 310 nomes de trabalhadores que tiraram das pranchetas dos seus idealizadores o Château d’Eau que hoje admiramos e aplaudimos. Certamente alguns de nós carregam nas veias o seu sangue e boa parte do suor que derramaram no afã de executarem suas tarefas foi derramado no solo que depois foi ajardinado e embelezado para nossa admiração e deleite.

São eles:

Abilio Sousa

Adalberto Costa

Adão Cruz

Adão Oliveira 

Agenor Alves

Alberto Almeida

Alberto Dalma

Alberto Pedrozo

Alberto Trento

Alcides Silva

Alexandre Machado

Alvaro Lewis

Amadeo Martins

Amaro Dornelles

Ambrozino Porto

Ananias Rodrigues

Anapio Carvalho

Anaurelino Vieira

André Ferraro

Angelo Bonfoco

Angelo Ferrari

Angelo Peloso

Antenor Siqueira

Anthero M. da Silva

Antonio Francisco

Antonio Loureiro

Antonio Moreira

Antonio Morejano

Apparicio Machado

Aracy Figueiró

Aristides Alves

Armando Asplanato

Arthur Lara

Astrogildo Garcia

Ataliba Rodrigues

Augusto Alves

Augusto Ferreira

Avelino da Silva

Balbino Domingues

Balthasar Bicca

Baptista Carvalho

Basileu Santos

Basilio Farias

Belarmino Castro

Belmonte Lara

Benedicto Paulo

Bernardino Nascimento

Braz Avila

Candido Carvalho

Carlos Pacheco

Clarindo Saraiva

Claro Mendes

Claudino Rodrigues

Clemente Sezino

David Pedrozo

Demetrio Soares

Deoclecio Ferraz

Domingos Delzovo

Doralino Ferreira

Dorico Corrêa

Eduardo Ferraro

Eduardo Soares

Egydio Peluso

Ernesto Thomaz

Erothildes Lopes

Estacio dos Santos

Estevão Rosa

Euzebio Lemos

Ezequiel Silva

Faustino Franco

Favorino Fernandes

Florencio Leguiça

Floriano Saldanha

Florisbaldo Alves

Francisco Assis

Francisco Claudiano

Francisco Lewis

Francisco Lopes

Francisco Moraes

Franklin R. Maia

Gabriel Fonseca

Gaspar Cardozo

Geraldino Nunes

Geronymo Ilha

Giuseppe Rissieri

Godofredo Athayde

Gomercindo Alves

Gregorio Braga

Guilherme Athayde

Henrique Loureiro

Herculano Lucas

Hilario Aguir [sic]

Hilario Costa

Honorio Ayres

Horacio Barreto

Izidoro Garcia

Jacy Lewis

Januario Santos

João A. Lopes

João A. Rodrigues

João Antonio

João B. Grecca

João Belmonte

João C. Barcellos

João C. Ilha

João Candido

João Cardozo

João Cosubk

João da Silva

João Damazio

João Dutter

João F. Pedrozo

João Felix

João Ferraro

João Francisco

João Garcia

João Gonçalves

João Lemos

João M. Alves

João Medeiros

João Pantaleão

João Papajorge

João Rodrigues

João Rosalino

João Smuthini

Joaquim Cunha

José A. Cardozo

José Corrêa

José Lopes

José Miranda

José Modesto

José Pereira

José Rasck

José Ribeiro

José Simões

Julião Lopes

Julio Domingues

Julio Guedes

Julio Matheus

Julio Rosa

Julio Ruport

Justino Silva

Ladislau Peixoto

Laurindo Silva

Levindo Rosa

Libanio Santos

Lucas Pinhac

Luiz Caetano

Luiz Copede

Luiz da Silva

Manoel Alves

Manoel Candido

Manoel Cassiano

Manoel Pacheco

Manoel Rodrigues

Manoel Vidal

Marciano Pereira

Marcondes Silveira

Marcos Bezerra

Marcos G. d'Oliveira

Mario Costa

Martins Pio

Martins Proense

Miguel Petronilio

Napoleão Alves

Narcizo Santos

Nathalino Fernandes

Nelson Vieira

Octacilio Loureiro

Octacilio Machado

Ottonor Cunha

Pacifico Pereira

Pantaleão R. Santos

Paulo Machado

Paulo Moreira

Pedro Dornelles

Pedro Pedrozo

Pedro Pereira

Pedro Risso

Pedro Simões

Porfirio Peixoto

Possidonio Gonçalves

Propicio Carvalho

Ramão Dutter

Ramiro Chaves

Ramiro Lemos

Reduzindo Colmedeiro

Regino Moura

Reinaldo Paulo

Roberto Rosa

Roldão Costa

Rosalino Machado

Salustiano Martins

Sergio Motta

Sergio Pereira

Setembrino Carvalho

Silvino Claudiano

Simplicio Carvalho

 Suely Brum

Theobaldo Rodrigues

Theodoro Vieira

Vergilino Macedo

Vergilio Rosa

Vicente Ferreira

Vicente Granado

Victalino Lemos

Waldomiro Silva

Zeferino Aguir

As suas funções na obra eram de aparelhadores, pedreiros que dirigem o trabalho de corte e colação de pedras; apontadores, que fazem levantamentos e registros diários nos canteiros de obras; boches, que transportam por carretas; cavouqueiros, que abrem buracos ou cavoucos; manilheiros, que assentam as manilhas, além de serventes, rondas, contínuos, calceteiros e capatazes.

Texto produzido para ser lido na solenidade comemorativa do centenário do Château d'Eau, promovida pela Secretaria Municipal de Cultura, em 18 de outubro de 2025, às 20 horas, quando representei o Arquivo Histórico do Município e o COMPAHC. As atividades tiveram o apoio da UFSM-CS, ASSOARTE e ASCART.