Espaços urbanos

Espaços urbanos
Ponte do Fandango com leito submerso - 5/5/2024 - foto Ângelo Netto

terça-feira, 26 de dezembro de 2023

Temporal!

Costumo dizer que a história é uma "senhora" que gosta muito de se repetir.  E não é que até no clima ela se repete?

Cachoeira, 18 de dezembro de 1923. 

Em edição de 26 de dezembro de 1923, o jornal O Commercio, na página 3 de seu suplemento, publicou:

"Temporal violento. - Às 13 horas de 18 do corrente, quando já estava no prelo a edição anterior desta folha, desandou um temporal violento sobre esta cidade que derrubou cercas, quebrou galhos de árvores e arrancou telhas de algumas casas.

Uma faísca elétrica atingiu o depósito de aguardente da firma José Weber & Filhos, edificado à Travessa Major Ourique, ocasionando a queda do telhado de zinco e de duas paredes de material. Na ocasião havia grande quantidade de aguardente no referido depósito que, felizmente, não pegou fogo."

Cachoeira do Sul, 18 de dezembro de 2023. 

Ao entardecer, depois de um dia de calor intenso, despencou sobre a cidade um temporal com muito vento, faíscas elétricas e chuva em grande intensidade. Pela cidade, galhos e árvores inteiras caíram, causando transtornos em diversas residências, ruas e praças. O fenômeno "El Niño" deu mostras de sua força.

Queda de árvore na Praça Dr. Balthazar de Bem (18/12/2023)
- foto Assessoria de Comunicação da Prefeitura Municipal

Poucos dias depois, na mesma semana, 22 de dezembro, novamente ao entardecer, cenas nunca vividas na cidade foram registradas pelas câmeras e vídeos dos celulares. Nelas, ruas alagadas, carros boiando, muros destruídos e verdadeiras crateras abertas em ruas, calçadas e pátios de residências. Casas foram destelhadas, móveis e eletrodomésticos carregados pela força das águas, instaurando o caos. No dia seguinte, a Prefeitura Municipal decretou estado de emergência.

Rua alagada - 22/12/2023 - ASCOM - Prefeitura Municipal

A ocorrência de tais fenômenos naturais tem desafiado os meteorologistas e os padrões climatológicos. No caso do temporal de 18 de dezembro de 2023, verifica-se a repetição do  que ocorreu há 100 anos, porém com uma violência que parece ter sido superior à do dia 18 de dezembro de 1923.

Mesmo que a história esteja a se repetir, o fenômeno de 1923 se potencializou em 2023 pela forma desrespeitosa como o homem tem se relacionando com o meio ambiente. 

As previsões futuras já alcançaram o presente!

quinta-feira, 2 de novembro de 2023

Vestígios da morte

Na Cachoeira de tantas histórias também há espaço para acontecimentos bizarros. Um deles, ocorrido no final dos anos de 1950, deixou indignados os moradores do Bairro Barcelos que, da noite para o dia, por conta de uma obra empreendida pela Prefeitura Municipal, se viram cercados de vestígios da morte...

Vista aérea de Cachoeira do Sul, tendo o Bairro Barcelos ao fundo (esquerda)
- MMEL

Relativo ao ocorrido, vejamos o que registrou o jornal O Comércio, que circulou no dia 12 de março de 1958:

"Fatos estão ocorrendo em nossos dias, de âmago, injustiça e, porque não dizer a verdade, de profanação aos nosso mortos. É que a população da Vila Barcelos está seriamente consternada pelo fato real que está ocorrendo em um dos buracos existentes naquele populoso bairro de Cachoeira do Sul.

Terra, coroas, alças de caixões de defuntos e até pedaços de ossos humanos são trazidos de um dos cemitérios de nossa cidade, para entulhar o referido buracão, razão por que o povo está aterrorizado por tal ocorrência, e descabível coragem de nossas atuais autoridades em promover um ato tão desumano, sem, porventura, ter uma consciência mais cristã, ao menos para com nossos antepassados já falecidos.

Até onde, em pleno século XX, a nossa civilização deverá chegar, caro leitor?

Ali, por cúmulo, existe uma barriquinha d'água, onde a maior parte das famílias se abastecem do precioso líquido e que agora, precisamente neste momento, caro leitor, os caminhões da Prefeitura acharam para subterrar o buraco com terras trazidas do cemitério, acompanhadas de todos os apetrechos de caixão de defuntos.

Será que cavando não se encontrará algum dente de ouro? É muito possível!!! Porque ali contém um enorme bazar, tanto de casa funerária como de dentista...

Uma riqueza morta, para um povo de um bairro católico, que não permite que o local de suas residências seja profanado por tão monstruosa realidade - entulhar buracos com terras de cemitério, cuja profanação, iniciada certamente por homens hereges, em plena civilização e que também não deixa de trazer grandes recordações dos tempos idos!

Sejamos, pois, mais humanos e que isto  jamais se repita, principalmente agora que o povo vibra por uma paz espiritual e que também vem apelando clemência a Deus Nosso Senhor para os homens pecadores, "porque eles não sabem o que fazem"! Assim seja.

Um zelador.

A tal obra, que pretendia resolver um problema, pelo descalabro da solução acabou piorando - e muito - a situação! 

domingo, 29 de outubro de 2023

Notícias do relógio

O velho relógio que existia nas imediações da Praça José Bonifácio - que sumiu sem deixar vestígios - passou por muitas situações desde a sua implantação no cruzamento da Rua 7 de Setembro com a antiga Travessa 24 de Maio, hoje Rua Dr. Sílvio Scopel, no final de janeiro do ano de 1928. Foi ele um dos últimos elementos a completar o grande e revolucionário projeto de urbanização promovido durante a administração do Dr. João Neves da Fontoura.

Relógio na Rua 7 de Setembro - Studio Aurora - MMEL

Sua presença naquele local importante da cidade servia não apenas para embelezamento, mas cumpria o importante papel de informar as horas e as condições climáticas e atmosféricas, já que dispunha também de um barômetro e termômetros. Acostumada a se abastecer de tais informações, a população reclamava quando algum problema acontecia com o mecanismo, o que deveras atrapalhava a rotina da cidade.

Intenso trânsito em torno do relógio - MMEL

Pouco mais de 10 anos depois da instalação do melhoramento, o jornal O Comércio, de 4 de abril de 1939, já registrava estar o relógio parado:

"Não sabemos por que ainda anda parado o relógio do Obelisco da Praça José Bonifácio. Dizem que isto acontece devido à trepidação do movimento de veículos que por ali transitam. Está certo. Mas também para ter-se um cronômetro que nunca funciona não sabemos qual a vantagem. Se não há um jeito para que então, no seu lugar, não se põe uma outra coisa de utilidade, de expressão? Por exemplo, um busto ou herma que perpetue a memória de um dos vultos da nossa história, mormente nesta esplêndida fase de nacionalização evidenciada dentro da nossa pátria.” 

O mesmo jornal trouxe uma notinha em sua edição do dia 3 de março de 1954, página 3, que dá mostras de mais um dos problemas envolvendo o decantado relógio. Assina-a alguém que se identificava pelas iniciais A. A. 

"Relógio desmantelado

Quando João Neves da Fontoura reformou e aformoseou Cachoeira, pôs no coração da praça verdejante de cinamomos um fino e artístico relógio que indicasse aos passantes e passeantes o silencioso itinerário das horas...

Hoje o que se vê é apenas um arcabouço com a órbita vazia dando, dentro do buliçoso progresso desta cidade, a triste impressão de um órgão de vida que se extinguiu...

Dizem que o motivo desse ponto vem da trepidação do solo, ocasionada pela passagem de veículos, paralisadora do mecanismo do relógio...

Não seria caso de se recorrer à capital, onde deve haver certamente um especialista em relógio parado?

A. A."

Como se vê, nem relógio mais havia na coluna central do monumento, razão de se imaginar que o seu fim já se desenhava trágico antes da metade da década de 1950... O mistério permanece.

quarta-feira, 30 de agosto de 2023

Cena de sangue no trem

Desde que o mundo é mundo a sordidez humana se manifesta. E, muitas das vezes, o ataque à honra é cobrado a ferro e fogo. 

Neste final de agosto, mês que recebeu a cor lilás para marcar ações de combate à violência contra a mulher, o blog traz uma triste história de desrespeito e vingança acontecida em meados dos anos 1920. 

A cena de sangue aqui descrita teve ampla repercussão na imprensa da Cachoeira de 1925 e seu desfecho ocorreu no percurso ferroviário entre a Estação da Ferreira e a de Jacuí, rumo a Santa Maria. Aqueles eram tempos de preponderância do transporte ferroviário e da facilidade com o que os trens chegavam aos mais distantes recantos. Não raro, acertos, desacertos, encontros e desencontros tinham no trem o seu lugar.

O crime em questão, ainda que tenha ocorrido no século passado, nos leva a pensar o quanto os tempos mudam, mas lentos são os processos de conscientização.

Estação Jacuí (2017) - foto Victor Hugo Langaro

Estação Ferreira (2022) - foto Renato F. Thomsen

Conta sobre o fato o jornal O Commercio, edição de 29 de julho de 1925:

"Um drama de família. Luta de morte entre compadres inimizados. No carro número 338, de 2.ª classe, que na tarde de 14 do corrente fazia parte do trem de passageiros que desta cidade seguiu para a de Santa Maria, desenrolou-se uma cena de sangue. O Sr. J. F. P.*, casado, de 40 anos de idade, agricultor no Cariginho, 4.º distrito da Soledade, havia embarcado na Estação Ferreira, no intuito de encontrar, dentro do trem, o seu compadre, vizinho e amigo, Sr. C. B., casado, de 45 anos de idade, agricultor na referida localidade, a fim de fazer com este um ajuste de contas sobre uma questão de honra.

Já o trem passara da Parada Pertille, 20 minutos além da Ferreira, e havia partido, naquele momento, da Estação Jacuí, quando J. F., ao entrar no referido carro, deu com os olhos no Sr. C. B. Este, ao deparar com o seu compadre, provavelmente porque sabia que aquele o procurava para uma desforra, dirigiu-se ao seu encontro e segurou-o pelo ombro esquerdo e pelo antebraço direito, que J. F. havia metido no bolso do sobretudo a fim de puxar o revólver, o que não foi fácil devido a ter o cano furado o forro do bolso do sobretudo e ficado preso.

Travou-se então luta corporal, com vantagem para C. B., que era mais corpulento e ainda foi auxiliado, no afã de impedir a seu companheiro o uso da arma de fogo, por um dos presentes.

Fazendo um esforço, desesperado de ódio, J. F. pôde movimentar o braço, empunhar o seu revólver 38 e dar um tiro na região epigástrica de C. B., que ainda continuou agarrado a seu compadre, pretendendo subjugá-lo até o momento que uma forte hemorragia interna paralisou-lhe as forças e caiu sobre o seu agressor que, então, atirou-o ao assoalho do carro. Dentro de 10 minutos C. B. expirava, e o trem voltou para a Estação de Jacuí, a fim de deixar ali o corpo e entregar o assassino que foi preso por um major do Exército.

C. B. foi enterrado no dia seguinte, no cemitério do Jacuí, e J. F. entregue à chegada ao tenente-coronel Dionysio da Fonseca Reys, subdelegado do 6.º distrito, que casualmente achava-se em Jacuí. A essa autoridade o criminoso relatou o móvel do delito, que aqui resumimos. 

Disse J. F. P. que há cerca de oito ou nove anos, tendo travado relações com C. B. que residia, nessa época, no Cortado, 8.º distrito de Cachoeira, convidou-o a ir morar no Cariginho, 4.º distrito da Soledade, nas  imediações das terras em que também residia. Começaram então as relações e a amizade entre as famílias de ambos. C. convidou a J. F. para ser padrinho de sua filha O., o que foi aceito por ele que, em retribuição dessa prova de amizade e confiança, convidou-o para padrinho de seu filho A.

Tudo corria bem e na maior harmonia até a manhã do dia 6 de maio último, em que J. F., recentemente chegado de uma viagem, viu sua mulher em uma roça próxima da casa, entregue a seus afazeres, e viu também que do matinho próximo apareceu, inopinadamente, C. B. que lançou-se sobre D. M. das D. P., pretendendo subjugá-la. Cego de cólera, o marido ultrajado, sem tempo de agarrar uma arma, correu para o local e deu alguns socos em B. que nem reagiu, fugindo em seguida. 

Ato contínuo, julgando a sua mulher culpada, quis tentar contra a sua vida e esta teve necessidade de refugiar-se em casa de um vizinho até que se acalmasse e voltasse à razão o marido exaltado.

Restabelecida a calma, a infeliz esposa contou, então, que aquela fora a segunda tentativa que, por meios violentos, fizera contra a sua honra o seu compadre, vizinho e amigo C. B. Disse que uma noite, quando seu marido estava em viagem, C. batera a horas mortas à porta da sua casa com propostas desonestas, recusando-se ela a abri-la e aceder aos seus desejos. C. prometeu então retirar-se e pediu à sua comadre que nada contasse a seu marido para evitar uma tragédia. Já descansada com esta promessa e quando mal havia passado meia hora, D. M. das D., ao tentar levantar-se da cama para atender um filho que chorava, sentiu-se agarrada com força por mãos de homem que tentavam subjugá-la, tapando-lhe a boca. Era seu compadre que havia arrombado uma porta da casa e entrara no quarto por uma porta aberta para satisfazer os seus instintos libidinosos. D. M., que estava com gravidez de seis meses, lutou até que conseguiu descer da cama e firmar-se a um canto da parede, onde trançou as pernas e impediu a obra de desonra do sátiro.

C. B., ao ter sido encontrado em flagrante de tentativa contra a honra de sua comadre, retirou-se imediatamente daquela localidade, dizendo ainda a um conhecido que encontrou que num momento de irreflexão tinha feito a infelicidade de uma família.

Já tinha dado todas as providências para mudar-se daquela localidade e já havia comprado terras de agricultura no município de Santo Ângelo das Missões, para onde seguia viagem quando foi alcançado pela vingança de seu compadre e amigo que tanto temia e com razão, porque custou-lhe a vida.

Eis o fato tal como o relatou J. F. P. que está na cadeia desta cidade e tem quatro filhos: E. M., com oito anos, N. J., com seis, A. J., com quatro, e D. E., com dois anos.

C. B. era casado com a Exma. Sr.ª D. F. L. B. e deixou os seguintes filhos: A., V., L., J., M., O. e B., sendo os primeiros três já criados.

Eis aí o trágico desenlace da ambição de satisfazer um desejo ilícito, que deixou em luto e desespero duas famílias." 

*Foram preservados os nomes dos envolvidos, constando apenas as iniciais.

sexta-feira, 28 de julho de 2023

Uma capela para a escrava santa

Cachoeira, ano de 1912. A imprensa começou a publicar uma série de anúncios sobre o desejo da comunidade de construir uma capela para Santa Josefa, no lugar que lhe era consagrado há muito tempo, onde figurava uma simples cruz de madeira ali colocada por seus devotos para marcar o túmulo da lendária figura.

A cruz ficava na encosta da colina que então dominava a cidade. Por compra da Intendência Municipal, no terreno logo seriam erguidas as primeiras casas do Bairro Rio Branco.

A cidade vista a partir do "futuro" Bairro Rio  Branco 
- Fototeca Museu Municipal

A editoria do jornal O Commercio, em uma de suas manifestações sobre a campanha de construção de uma capela para Santa Josefa, edição de 19 de junho de 1912, afirmou que franqueava suas colunas "ao empenho de algumas pessoas devotas", obedecendo também "à simpatia por essa  ideia, pois era "dever de patriotismo o conservar cada povo suas lendas e, mais tradicional do que aquela cruz, não possui Cachoeira outro monumento nem mais popular legenda". Acrescentou ainda: "E como sejamos pela tolerância absoluta em questão de cultos, pois que todos eles têm a mesma origem e o mesmo alvo - Deus e a moral - no cofre que nos foi confiado para o recolhimento de espórtulas e que aqui se acha à disposição de quantos queiram concorrer para o piedoso tentame, depositam: O Comércio - 20$000, P. Camargo, Ferreira - 2$000, O. C. - 1$000, Marcos Vieira - 2$000, Celso Evangelista da Cunha - 2-$000". 

Os esforços e as campanhas dos simpatizantes e devotos de Santa Josefa se estenderam por longos 16 anos. Enquanto isto, em 1915, em cumprimento de uma promessa feita à santa, Francisco Bifano mandou circundar a cruz existente no local do túmulo de Josefa com uma grade de ferro. 

A grade que rodeia o túmulo coberta de mensagens de graças alcançadas
- Fototeca Museu Municipal

Dois anos depois, o intendente Francisco Fontoura Nogueira da Gama, amparado pela Lei N.º 58, de 19 de março de 1917, fez doação de um terreno para a construção da capela. Mas as obras ainda demorariam, mesmo tendo o construtor Sebastião Moser tomado para si o encargo. 

Em 5 de maio de 1928, o proprietário e editor do jornal O Commercio, Henrique Möller Filho, requereu a devida licença para iniciar a construção da capela. Foi confiado ao Dr. Leopoldo Souza, engenheiro-chefe das Obras Públicas da Intendência Municipal, o serviço de marcação do lugar da edificação e as instruções necessárias para a execução da obra ao construtor Sebastião Moser.

Em agosto de 1928 a capela foi concluída a um custo total de 4:500$000 réis. 

Capela de Santa Josefa - MMEL

Os devotos de Santa Josefa, responsáveis pela construção da capela, certamente reprovariam as mudanças que a singela, mas elegante edificação tomou quando a ela acrescentaram uma desajeitada cobertura para guarnecer a porta. 
A Capela de Santa Josefa é triplamente patrimônio cultural do município: pela lendária figura que cultua, pela arquitetura que ostenta e pela inegável devoção que desperta.

A capela em 2019 - MR

domingo, 7 de maio de 2023

Casarão pesteado

Os jornais são verdadeiros mananciais de informações. Muitas vezes uma notícia ou nota aparentemente sem oferecer maior interesse é capaz de levar a uma bela descoberta ou a indagações até então não levantadas!

Foi o que sucedeu pela leitura de um artigo assinado apenas pelas iniciais DIF (ainda sem pistas para associação ao nome verdadeiro do autor), intitulado A peste - ligeiros comentários. Foi através dele que obtivemos conhecimento sobre uma casa na Rua 7 de Setembro que à época estava com o futuro ameaçado. Na tal casa teriam sido hospedados figurões do Império. Tais informações, até então desconhecidas, fazem do casarão referido mais um espaço de valor histórico que o tempo, a ignorância e o desapego à memória condenaram à demolição. Foi-se ao chão uma edificação que testemunhou e fez parte da nossa história, sem que ao menos tivéssemos tempo de reconhecê-la como espaço relevante de memória. Sofreu ela o mesmo que a velha casa da Rua Saldanha Marinho, também pertencente a um médico de nome José Afonso Pereira da Silva, que em 1846 hospedou o Imperador Pedro II e que foi fragorosamente posta ao chão na década de 1980.

Casa que hospedou D. Pedro II - Rua Saldanha Marinho
- Fototeca Museu Municipal

A casa referida pelo jornal de 1922 abre uma perspectiva de ligação entre os dois médicos, provavelmente membros da mesma família, e que aparentemente mantinham a tradição de bem receber os ilustres homens de seu tempo. 

Dizia o articulista do jornal O Commercio, edição de 23 de agosto de 1922, página 1:

"A PESTE

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Ligeiros comentários

Por um verdadeiro prodígio de equilíbrio mantém-se ainda de pé, à Rua 7 de Setembro, esquina da Travessa Ramiro Barcellos, desta cidade, uma das mais antigas casas de Cachoeira, propriedade hoje do distinto médico, nosso ilustre conterrâneo, Dr. Pereira da Silva.

A propósito dos últimos e recentes casos de peste ocorridos entre nós, resolveu com muito acerto a autoridade sanitária, de comum acordo com a administração municipal, proceder à queima de algumas casas velhas e, para o sacrifício, foi apontada dentre elas a do Dr. Pereira.

Em se tratando de um prédio antiquíssimo há tempos desabitado e em ruínas quase, lembrou-se alguém de cognominá-lo, aliás com muita precisão, de pardieiro suspeito.

A zombeteira classificação, inserta em um telegrama do Correio do Povo não satisfez ao Dr. Pereira que em carta dirigida ao mesmo jornal mostrou-se agastado com o ridículo lançado à sua rica casinha, relíquia de um passado distante que ele não consentiu que fosse reduzida a cinzas pelo fogo. Coisa de tanta valia não feita para ser queimada.

A casa do Dr. Pereira, além do custo dos materiais antigos, de puro cerne de que foi construída, tem ainda o seu valor histórico que não pode e não deve ser esquecido. Ela serviu para hospedar em tempos idos pessoas de grande destaque no meio monárquico brasileiro. Foi habitada e era frequentada, em princípios do século passado, por gente da elite cachoeirense daquele tempo. Quando da guerra do Brasil contra o Paraguai por aqui passou parte do exército imperial para os campos de batalha, alguns oficiais generais ali foram recebidos e alojados.

Depois de tudo isso e não tendo até hoje a casinha histórica do Dr. Pereira feito mal a ninguém, vem agora a higiene científica moderna dizer, por seus órgãos autorizados, que ela precisa ser destruída pelo fogo para garantir a gente contra a peste!

Muito embora o Dr. Pereira, como médico competente, adote os princípios de ciência no que respeita os processos da profilaxia social, agressiva e defensiva, todavia, debaixo de outro aspecto, isto é, como proprietário ele acha que aqueles princípios não devem ser aceitos em absoluto; devem sofrer as suas restrições em virtude de não poderem ser, em medicina, preteridos certos e determinados diagramas. E argumentando assim em sua carta, ele chega muito lógica e naturalmente à conclusão de que a sua casa não deve ser incendiada, o que consulta bem aos seus interesses.

A casinha merece antes, diz ele em sua missiva, que se a conserve melhorando, enquanto de pé ela se for mantendo pelo mágico poder do equilíbrio até que um belo dia venha a desabar sobre alguém, à falta de alicerces que já lhe vão escasseando, o que aliás não terá importância.

Não se deve concluir do exposto que o Dr. Pereira seja um inimigo radical do fogo. Ele não o adota apenas sob o ponto de vista da higiene profilática contra o micróbio da peste. Nos últimos tempos tem  o provecto clínico vivido às voltas com as chamas. Vem de inventar o Brasol, combustível de primeiríssima, a cujo poder ignescente deslizarão nas estradas automóveis de todas as marcas, serão acionados motores de todos os fabricantes e navegarão gasolinas e barcos de todas as espécies e calados.

E se o Dr. Pereira houvesse consentido na queima da sua casa já teríamos então apreciado também a força das chamas do Brasol, o qual aplicado para início do fogo superaria, com certeza, a eficácia do velho querosene, tão comumente usado nos incêndios.

Não nos foi dado assistir esse espetáculo, porque relegando em parte as noções adquiridas sobre a ação do fogo contra a vida do micróbio, o Dr. Pereira defende assim a sua propriedade.

E o distinto médico conterrâneo tem toda a razão: sem fogo mesmo as pestes passam e... a casa fica."

DIF

A peste, motivo da demolição de algumas casas na Cachoeira de 1922, era a bubônica, que em 1920 apresentou um surto que vitimou várias pessoas. O seu combate era feito, naqueles tempos, através da eliminação dos focos, demolindo os lugares em que houve infestação e vítimas. 

O mesmo jornal O Commercio noticiou, em março de 1920, que "Cachoeira infelizmente ainda possui, no seu centro mais povoado, velhíssimos prédios, incompatíveis com o nosso grau de progresso e que, pelas suas péssimas condições de asseio, são verdadeiros viveiros de ratos, prontos a tornarem-se, numa circunstância como a atual, em terríveis focos de peste, a difundir a epidemia pela cidade. E, por uma estranha circunstância, pertencem eles a pessoas abastadas que, pela sua conservação, estão impedindo o progresso da cidade e constituindo uma ameaça à saúde pública. Felizmente, ao que sabemos, o ilustre Dr. Intendente Municipal tomou severas medidas para que tais prédios, muitos deles já ameaçando ruínas, sejam imediatamente demolidos."

Felizmente a bubônica foi debelada, o Dr. Pereira da Silva foi respeitado em sua propriedade e o casarão não teve, naquele momento, o destino que muitos desejavam. No entanto, muito tempo depois, a edificação acabou perdendo espaço para a modernidade, não deixando nem registrada a sua história. 

Teria o artigo sobre a peste revelado mais um casarão histórico da vetusta Cachoeira? Que personagens do Império teriam passado por ele? Que parentesco unia o médico José Afonso Pereira, da casa que hospedou D. Pedro II na Rua de Santo Antônio (Saldanha Marinho), com a casa do Dr. Pereira da Silva localizada na Rua 7 de Setembro, esquina Rua Ramiro Barcelos?

Seria a casa da direita na foto a que pertenceu ao Dr. Pereira da Silva?
Quem seriam os ilustres que nela se hospedaram?
- Fototeca Museu Municipal

Rua 7 de Setembro entre Andrade Neves e Ramiro Barcelos
 - Coleção Claiton Nazar


Cada tempo tem suas pestes, mas a que verdadeiramente assola e gera as demais é a da ignorância. Contra ela só há dois antídotos eficazes: a educação e a cultura.


domingo, 26 de março de 2023

Série Lojas do Passado: Livraria e Bazar Krahe

Atestando o excelente cenário econômico e cultural de Cachoeira que se desenhava com os avanços da produção e beneficiamento do arroz, abriu as portas, em agosto de 1906, a Livraria de Martin Krahe, situada na esquina da Rua 7 de Setembro com a então Travessa 24 de Maio. O estabelecimento oferecia aos fregueses todo sortimento de publicações, livros em branco, jornais e revistas ilustradas de moda, mantendo um bazar de miudezas, constante de objetos de adorno e finíssimos artigos de couro.

Em 1907, ampliou a oferta de produtos, passando a vender pianos da marca Rachals & Cia., fabricados em Hamburgo, na Alemanha, e harmônios de diversos preços. No carnaval desse mesmo ano, os foliões foram atraídos para comprar confete, serpentinas, bisnagas, lança-perfumes, máscaras, narizes e barbas para os festejos de Momo. Foi um sucesso!

No ano seguinte, o bazar inovou. Mandou fabricar na Europa louças estampando imagens coloridas de Cachoeira. Copos, vasos, taças e cálices foram produzidos. O jornal Rio Grande, propagandeando a novidade, publicou em sua edição do dia 9 de abril que tinha recebido do Bazar Krahe "uma jarra de vidro com vista da Rua 7 de Setembro, trabalhada em cores". Os itens eram excelentes suvenires para serem presenteados a visitantes e mesmo para comporem as mesas finas da sociedade cachoeirense. Terá sobrado alguma peça desta louçaria que estampava a cidade da época?

A partir de 1912, houve mudança da razão social da livraria e bazar, passando a se apresentar como Casa Filial de Krahe & Cia. Na foto abaixo, na verdade um cartão-postal de uma série que pode ser atribuída a Benjamin Camozato, vê-se o prédio da Livraria e Bazar com o letreiro "Casa Filial de Krahe & Cia." na parte superior do frontão. Na lateral, "Livraria, papelaria e bazar".

- Fototeca do Museu Municipal

Outras imagens do local - Fototeca do Museu Municipal

Em 1913, a novidade anunciada na imprensa era que o estabelecimento ofertava artigos para fotografia, "esporte" que estava se popularizando na cidade. E, em julho daquele ano, a vitrine do bazar serviu para expor a planta da Escola Brasileira-Alemã prestes a ser construída no Bairro Rio Branco. Em notícia no Rio Grande, edição do dia 27, foi veiculado o comentário de que a planta anunciava a obra de "um belo edifício, tendo dois andares, de estilo moderno e que vai embelezar a cidade nova. O primeiro andar é destinado às aulas, o segundo a dormitórios, quartos, salão para festas, etc. A referida planta foi feita pelo arquiteto Schubert*, aqui residente." O edifício em questão é o que se encontra atrás do Templo Martim Lutero, onde funcionou a escola a partir de 13 de março de 1914. A "cidade nova" referida na notícia era como o jornal e de resto os moradores da cidade estavam se referindo ao novo Bairro Rio Branco, o primeiro planejado de nossa história e que foi aberto em 1912.

Escola Alemã-Brasileira no dia da inauguração - 1913
- Fototeca do Museu Municipal

E a moda de expor projetos arquitetônicos pegou. Em 1920, "na vitrine da Filial Krahe & Cia., esteve exposta, durante alguns dias, a planta do vasto e belo edifício que a filial do Banco Pelotense vai mandar construir à Rua 7 de Setembro, esquina da Rua Venâncio Aires (atual Presidente Vargas), planta confeccionada pelo engenheiro construtor Dr. Santiago Borba, e que foi muito apreciada", conforme noticiou o jornal O Commercio, de 7 de abril daquele ano. Este projeto, na verdade, era de autoria do arquiteto Manoel Itaqui, executado pelo construtor Santiago Borba. O prédio do extinto Banco Pelotense hoje abriga o Banrisul e está retomando a sua imponência graças ao processo de restauro em curso.

A Livraria e Bazar Krahe seguiu em funcionamento pelo menos até a década de 1930. Mais tarde, o ponto passou a ser explorado com o mesmo ramo pelo médico Eurico Wilhelm, responsável pela construção de novo prédio no local. Depois o endereço passou a sediar a ainda lembrada farmácia do Laurentino, por um bom tempo a Loja Beck's e hoje abriga agência do SICOOB.

O local ao tempo em que abrigava loja de roupas 
- Foto Claiton Nazar

*Franz Schubert, 

domingo, 19 de fevereiro de 2023

Imagens de antigos carnavais

O carnaval cachoeirense também tem sua história, cujos registros chegaram até nós principalmente através das páginas do jornal O Commercio, semanário de propriedade de Henrique Möller Filho, fundado em 1900. Por ele sabemos da existência do grupo Pyrilampos, composto por homens fantasiados que saíram às ruas da bruxuleante Cachoeira de 1900 para festejar o reinado de Momo. Naqueles tempos, somente os homens podiam sair às ruas em festejos carnavalescos. O que não dá para garantir é que alguma corajosa mulher, sob a proteção de uma boa fantasia e providencial máscara, não tenha se inserido no bulício de tão animado bloco!

Naqueles tempos, os foliões eram conduzidos pelas bandas musicais ou cordões de Zé Pereiras, sendo o ponto de encontro a Avenida das Paineiras, nossa atual Rua Sete de Setembro.

Em 1904, o Clube Comercial, sucessor do Clube Cachoeirense, que foi fundado em 1899, passou a realizar bailes à fantasia. No ano seguinte, há o registro do Clube Diabo a 4, que surgiu para dar oportunidade de participarem das folias de Momo aquelas pessoas que não eram sócias de nenhum clube.

A partir de 1907, o Bazar Krahe, localizado na esquina da Rua Sete de Setembro com Travessa 24 de Maio, hoje Rua Dr. Sílvio Scopel, fazia propaganda de confetes, serpentinas, bisnagas, lança-perfumes, máscaras, narizes e barbas para quem quisesse participar do carnaval.

Livraria e Bazar Krahe - Fototeca Museu Municipal

Em 1913, fundado o Clube Renascença no prédio que até hoje é conhecido como "União de Moços Católicos", na Rua Sete de Setembro, começaram a ter grande destaque os bailes de máscaras, com maciça presença de famílias e foliões. Por essa época era muito comum os mascarados se concentrarem na casa de algum diretor do  Renascença, de onde partiam, em alegre desfile até o salão, quando fogos de artifício espocavam sobre o lugar.

Nesses primeiros tempos de registro do carnaval, sobram notícias sobre as movimentações de fantasiados nas ruas da cidade, desfilando a pé ou em carros, com grande animação e "jogo" de confetes, serpentinas e lança-perfume. Depois dos desfiles, reuniam-se os foliões nos salões de bailes para enfezarem até a madrugada.

Destes primeiros carnavais não ficaram registros fotográficos. A partir dos anos 1920, principalmente por iniciativa de Torquato Ferrari e depois de Joaquim Vidal, conhecidos criadores de fantasias e carros alegóricos, começaram a surgir fotografias de blocos e de alguns desfiles de rua.

Para não deixar passar em branco mais um carnaval e relembrar as festas de Momo do passado, seguem algumas imagens dos foliões cachoeirenses. Infelizmente a maioria delas não tem data ou identificação das pessoas. Mas são registros preciosos de antigos e embalados carnavais de Cachoeira.


Carros alegóricos do carnaval de 1922 - Bloco Alvi-Rubro
- obras de Torquato Ferrari - Acervo familiar


Bloco Bem Unidos - Sociedade Atirados Concórdia
- Carnaval de 1930 - Fototeca Museu Municipal


Bloco carnavalesco Fica firme - Clube Comercial
- Acervo João Carlos Alves Mór


Bloco de casais defronte ao Clube Comercial 
- Acervo João Carlos Alves Mór


- Acervo Célia Decker


Bloco de Marinheiros - Clube Comercial
- Acervo Nilton Fernando


Bloco de casais - Clube Comercial
- Acervo João Carlos Alves Mór

As memórias do carnaval de Cachoeira do Sul, de diferentes épocas, certamente poderão ser localizadas nos arquivos familiares. Que estes arquivos não se percam para que os retratos da folia possam fazer reviver as glórias de antigos e festejados carnavais.