Espaços urbanos

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Ponte do Fandango com leito submerso - 5/5/2024 - foto Ângelo Netto

sexta-feira, 22 de abril de 2022

Pedra fundamental do Quartel de Engenharia de Cachoeira

Há 100 anos, no dia 2 de abril de 1922, Cachoeira recebeu autoridades para o lançamento da pedra fundamental dos quartéis do 3.º Batalhão de Engenharia, obra ansiada pela comunidade e que, efetivada, tornou a cidade polo reconhecido pela excelência das instalações e serviços militares.

3.º BE - Batalhão Conrado Bittencourt - Robispierre Giuliani


Conforme a imprensa noticiou, às 17 horas daquele 2 de abril, chegaram em trem especial o Ministro da Guerra, Dr. João Pandiá Calógeras, os generais Cândido Rondon, Abílio Noronha e outros oficiais do Exército, além de executivos da Companhia Construtora de Santos, empresa responsável pela construção de vários quartéis no Rio Grande do Sul, São Paulo, Santa Catarina e Mato Grosso. Foram todos recepcionados na Estação Ferroviária por autoridades locais e muitas pessoas da comunidade, sendo saudados, em nome da cidade, pelo intendente municipal Dr. Aníbal Lopes Loureiro.

Dr. João Pandiá Calógeras - Wikipédia

Depois das saudações e cumprimentos de praxe, o Ministro da Guerra e o intendente municipal, acompanhados das demais autoridades visitantes, seguiram em vários automóveis em rápido passeio pela cidade, dirigindo-se ao terreno escolhido para a construção dos quartéis do 3.º Batalhão de Engenharia. Adquirido pela municipalidade, o terreno foi cedido ao governo federal, tendo sido todo esquadrinhado pelo Ministro da Guerra, que aprovando-o, autorizou o início das obras.

Todos os passos das autoridades visitantes foram registrados em ata especial, lavrada em pergaminho por Emiliano Carpes, nomeado secretário da solenidade. Após a assinatura do Dr. Pandiá Calógeras e demais autoridades, o Dr. Roberto Simonsen, em nome da Companhia Construtora de Santos, ofereceu uma taça de champanha aos presentes, saudando o Ministro da Guerra por suas iniciativas à frente do ministério. Todos então levantaram suas taças em saudação à grande iniciativa, sendo logo chamados a ouvirem o pronunciamento do intendente. Aníbal Loureiro, em sua alocução, afirmou que a cidade estava engalanada e feliz pela visita do Sr. Calógeras e extremamente satisfeita em oferecer ao governo federal área necessária para tão importante e significativa obra. Fez referências à importância do Exército, suas instalações e tropas na garantia da integridade e soberania da pátria, escudado na experiência recente da guerra (I Grande Guerra) ocorrida na Europa. Ao terminar, levantou sua taça ao Ministro da Guerra e à grandeza e prosperidade do Brasil, sendo muito aplaudido.

Na sequência, manifestou-se o Dr. Pandiá Calógeras, agradecendo, em nome do governo federal, a doação de terrenos feita pelo município, ressaltando a cooperação patriótica que tinha, a exemplo de Cachoeira, encontrado em todo o Rio Grande do Sul. Finalizando a fala, entregou as obras aos responsáveis da companhia construtora, à competência da diretoria de engenharia do Exército, representada pelo General Cândido Rondon, e ao carinho do povo cachoeirense, conforme relatou o jornal O Commercio, em sua edição do dia 5 de abril de 1922.

Depois do discurso, deslocaram-se todos para lançarem a pedra fundamental das obras, tendo Calógeras disposto no local a primeira pá de cimento.

Lançamento da pedra fundamental, vendo-se, em primeiro plano,
ao centro, Pandiá Calógeras, ladeado, à esquerda, por Emiliano Carpes e, 
à direita, pelo Marechal Rondon - Grande Álbum de Cachoeira, de Benjamin Camozato

O 3.º Batalhão de Engenharia foi criado em São Gabriel, pelo Decreto n.º 12.739, em 26 de dezembro de 1917. Com a construção do quartel em Cachoeira, foi o 3.º BE transferido para a cidade, após a conclusão das obras em outubro de 1923.

sexta-feira, 15 de abril de 2022

Judas na Praça José Bonifácio

Nossos antepassados jamais imaginariam a interação virtual que temos hoje, nem as múltiplas possibilidades de comunicação. Todo esse aparato tem transformado as relações, e as redes sociais ditam hoje, para o bem e para o mal, os rumos da humanidade.

Sejam quais forem os mecanismos de comunicação, desde os mais toscos até os mais sofisticados, o homem sempre soube servir-se deles para expressar-se direta ou indiretamente.

Na Semana Santa de 1908, inusitadas aparições estavam colocando as autoridades em alerta, assim como despertando curiosidade nas pessoas... 

Em sua rotineira patrulha pelas ruas da cidade, a Guarda Municipal encontrou, na madrugada do sábado de aleluia, um "judas" comodamente instalado em um dos bancos da Praça do Mercado, hoje José Bonifácio, defronte ao armazém de Feliciano da Silva. O "judas" tinha duas caras, trajava fraque curto, botas, chapéu de aba larga e pincenê*. O jornal Rio Grande, deu a notícia destacando que pelo local e outros detalhes era "fácil supor a quem se referia a alegoria, cujo efeito foi frustrado pela polícia". E mais, "na mesma praça, defronte à agência do Correio, apareceu de manhã outro judas que escapou à vigilância policial", chamando a atenção de todos que passavam e que, em discussões, julgavam ser um dos carteiros da cidade...

A exposição de bonecos no sábado de aleluia é uma tradição bem antiga, mas que desapareceu entre nós. Sua prática era uma forma de criticar pessoas, normalmente políticos ou figuras polêmicas, dando-lhes o tratamento punitivo como o fariam com Judas Iscariotes por ter entregue Jesus Cristo aos seus algozes. A tradição, chamada por uns de "Queima de Judas" ou "Malhação de Judas", foi introduzida no Brasil pelos portugueses. Na maioria das vezes, o "judas" era surrado até se desmanchar ou então ateavam fogo sobre o seu corpo, normalmente montado com serragem, palha ou trapos velhos e vestido de forma a identificar o alvo da crítica.

Bancos da Praça José Bonifácio - Museu Municipal

Quem seria o "judas" sentado num dos bancos da praça? Certamente uma figura de relevo na Cachoeira daqueles tempos... O distanciamento temporal torna difícil decifrar o recado, mas que ele foi dado, e muito bem dado para os cachoeirenses daquele tempo, ah, certamente foi! 

Imaginem se esta tradição voltasse!!!

*pincenê: óculos sem haste.