Espaços urbanos

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Ponte do Fandango com leito submerso - 5/5/2024 - foto Ângelo Netto

quarta-feira, 30 de agosto de 2023

Cena de sangue no trem

Desde que o mundo é mundo a sordidez humana se manifesta. E, muitas das vezes, o ataque à honra é cobrado a ferro e fogo. 

Neste final de agosto, mês que recebeu a cor lilás para marcar ações de combate à violência contra a mulher, o blog traz uma triste história de desrespeito e vingança acontecida em meados dos anos 1920. 

A cena de sangue aqui descrita teve ampla repercussão na imprensa da Cachoeira de 1925 e seu desfecho ocorreu no percurso ferroviário entre a Estação da Ferreira e a de Jacuí, rumo a Santa Maria. Aqueles eram tempos de preponderância do transporte ferroviário e da facilidade com o que os trens chegavam aos mais distantes recantos. Não raro, acertos, desacertos, encontros e desencontros tinham no trem o seu lugar.

O crime em questão, ainda que tenha ocorrido no século passado, nos leva a pensar o quanto os tempos mudam, mas lentos são os processos de conscientização.

Estação Jacuí (2017) - foto Victor Hugo Langaro

Estação Ferreira (2022) - foto Renato F. Thomsen

Conta sobre o fato o jornal O Commercio, edição de 29 de julho de 1925:

"Um drama de família. Luta de morte entre compadres inimizados. No carro número 338, de 2.ª classe, que na tarde de 14 do corrente fazia parte do trem de passageiros que desta cidade seguiu para a de Santa Maria, desenrolou-se uma cena de sangue. O Sr. J. F. P.*, casado, de 40 anos de idade, agricultor no Cariginho, 4.º distrito da Soledade, havia embarcado na Estação Ferreira, no intuito de encontrar, dentro do trem, o seu compadre, vizinho e amigo, Sr. C. B., casado, de 45 anos de idade, agricultor na referida localidade, a fim de fazer com este um ajuste de contas sobre uma questão de honra.

Já o trem passara da Parada Pertille, 20 minutos além da Ferreira, e havia partido, naquele momento, da Estação Jacuí, quando J. F., ao entrar no referido carro, deu com os olhos no Sr. C. B. Este, ao deparar com o seu compadre, provavelmente porque sabia que aquele o procurava para uma desforra, dirigiu-se ao seu encontro e segurou-o pelo ombro esquerdo e pelo antebraço direito, que J. F. havia metido no bolso do sobretudo a fim de puxar o revólver, o que não foi fácil devido a ter o cano furado o forro do bolso do sobretudo e ficado preso.

Travou-se então luta corporal, com vantagem para C. B., que era mais corpulento e ainda foi auxiliado, no afã de impedir a seu companheiro o uso da arma de fogo, por um dos presentes.

Fazendo um esforço, desesperado de ódio, J. F. pôde movimentar o braço, empunhar o seu revólver 38 e dar um tiro na região epigástrica de C. B., que ainda continuou agarrado a seu compadre, pretendendo subjugá-lo até o momento que uma forte hemorragia interna paralisou-lhe as forças e caiu sobre o seu agressor que, então, atirou-o ao assoalho do carro. Dentro de 10 minutos C. B. expirava, e o trem voltou para a Estação de Jacuí, a fim de deixar ali o corpo e entregar o assassino que foi preso por um major do Exército.

C. B. foi enterrado no dia seguinte, no cemitério do Jacuí, e J. F. entregue à chegada ao tenente-coronel Dionysio da Fonseca Reys, subdelegado do 6.º distrito, que casualmente achava-se em Jacuí. A essa autoridade o criminoso relatou o móvel do delito, que aqui resumimos. 

Disse J. F. P. que há cerca de oito ou nove anos, tendo travado relações com C. B. que residia, nessa época, no Cortado, 8.º distrito de Cachoeira, convidou-o a ir morar no Cariginho, 4.º distrito da Soledade, nas  imediações das terras em que também residia. Começaram então as relações e a amizade entre as famílias de ambos. C. convidou a J. F. para ser padrinho de sua filha O., o que foi aceito por ele que, em retribuição dessa prova de amizade e confiança, convidou-o para padrinho de seu filho A.

Tudo corria bem e na maior harmonia até a manhã do dia 6 de maio último, em que J. F., recentemente chegado de uma viagem, viu sua mulher em uma roça próxima da casa, entregue a seus afazeres, e viu também que do matinho próximo apareceu, inopinadamente, C. B. que lançou-se sobre D. M. das D. P., pretendendo subjugá-la. Cego de cólera, o marido ultrajado, sem tempo de agarrar uma arma, correu para o local e deu alguns socos em B. que nem reagiu, fugindo em seguida. 

Ato contínuo, julgando a sua mulher culpada, quis tentar contra a sua vida e esta teve necessidade de refugiar-se em casa de um vizinho até que se acalmasse e voltasse à razão o marido exaltado.

Restabelecida a calma, a infeliz esposa contou, então, que aquela fora a segunda tentativa que, por meios violentos, fizera contra a sua honra o seu compadre, vizinho e amigo C. B. Disse que uma noite, quando seu marido estava em viagem, C. batera a horas mortas à porta da sua casa com propostas desonestas, recusando-se ela a abri-la e aceder aos seus desejos. C. prometeu então retirar-se e pediu à sua comadre que nada contasse a seu marido para evitar uma tragédia. Já descansada com esta promessa e quando mal havia passado meia hora, D. M. das D., ao tentar levantar-se da cama para atender um filho que chorava, sentiu-se agarrada com força por mãos de homem que tentavam subjugá-la, tapando-lhe a boca. Era seu compadre que havia arrombado uma porta da casa e entrara no quarto por uma porta aberta para satisfazer os seus instintos libidinosos. D. M., que estava com gravidez de seis meses, lutou até que conseguiu descer da cama e firmar-se a um canto da parede, onde trançou as pernas e impediu a obra de desonra do sátiro.

C. B., ao ter sido encontrado em flagrante de tentativa contra a honra de sua comadre, retirou-se imediatamente daquela localidade, dizendo ainda a um conhecido que encontrou que num momento de irreflexão tinha feito a infelicidade de uma família.

Já tinha dado todas as providências para mudar-se daquela localidade e já havia comprado terras de agricultura no município de Santo Ângelo das Missões, para onde seguia viagem quando foi alcançado pela vingança de seu compadre e amigo que tanto temia e com razão, porque custou-lhe a vida.

Eis o fato tal como o relatou J. F. P. que está na cadeia desta cidade e tem quatro filhos: E. M., com oito anos, N. J., com seis, A. J., com quatro, e D. E., com dois anos.

C. B. era casado com a Exma. Sr.ª D. F. L. B. e deixou os seguintes filhos: A., V., L., J., M., O. e B., sendo os primeiros três já criados.

Eis aí o trágico desenlace da ambição de satisfazer um desejo ilícito, que deixou em luto e desespero duas famílias." 

*Foram preservados os nomes dos envolvidos, constando apenas as iniciais.