Cachoeira de outros tempos

Cachoeira de outros tempos
Rua 7 de Setembro com Banco da Província ao fundo (~1928) - MMEL - Modificado por IA - Renato Thomsen

sexta-feira, 6 de janeiro de 2012

Um imperador em Cachoeira

Era uma vez um lugarejo chamado Vila Nova de São João da Cachoeira, encravado no coração de uma província chamada São Pedro do Rio Grande do Sul, que se engalanou para receber um imperador. A história, acontecida no dia 7 de janeiro de 1846, deu-se assim:
Desde outubro de 1845, os vereadores da Vila Nova de São João da Cachoeira estavam agitados com os preparativos para a visita do jovem Imperador Pedro II. Uma vila pequena ainda, com raras casas cômodas e gente pouco habituada aos rapapés da Corte tinha muito que evoluir para receber tão ilustre personagem. 
Em sucessivas reuniões, liderados pelo presidente Alexandre Coelho Leal, os vereadores João Thomaz de Menezes Filho, João Pinto da Fonseca Guimaraens, José Pereira da Silva Goulart, João Antonio de Barcellos e João de Souza Dias discutiram quais os compromissos do Imperador na Vila, como o povo seria preparado, quais os trajes que eles deveriam usar na presença dos visitantes, como as casas e as ruas seriam decoradas e iluminadas e em que moradia, afinal, o Imperador poderia acomodar-se com relativo conforto. A escolha recaiu sobre um casarão erguido pelo Dr. Jozé Afonso Pereira, na Rua Santo Antônio, de fachada decorada por azulejos portugueses, onde os hóspedes teriam aposentos asseados, serviçais disponíveis, boa mesa e conversa civilizada, pois o anfitrião, além de médico, era homem viajado e acostumado a reuniões sociais.
A casa do Dr. Pereira em cartão-postal da coleção particular
 de Renate S. Aguiar

Outro cartão-postal do casarão que hospedou D. Pedro II

Tomadas as devidas providências, antes do clarear do dia 7 de janeiro de 1846, às 5 horas da manhã, os vereadores reuniram-se na Câmara para, em comitiva, seguir até as proximidades do Passo do Amorim para receberem D. Pedro II e a comitiva imperial. Montavam os melhores cavalos, trajavam roupas previamente acertadas e que pareciam as mais adequadas à ocasião: calça, colete e casaca preta, lenço branco ao pescoço, botins e chapéu armado. O vereador presidente, em nome dos seus pares e dos habitantes da Vila Nova de São João da Cachoeira, deu as boas-vindas ao Imperador, externando a satisfação de poder abrigar Sua Majestade e comitiva, finalizando com vivas à pacificação da Província. Assim escoltado, o Imperador desceu a Rua do Corpo da Guarda, dirigindo-se à Rua Santo Antônio para, finalmente, ser acomodado na casa do Dr. Pereira.
Imperador Pedro II
A casa em questão foi vendida muitos anos depois a descendentes de José Gomes Portinho, cachoeirense que fez nome na Revolução Farroupilha e depois na Guerra do Paraguai, quando defendeu os interesses do Império. Como prova de sua envergadura moral, Portinho recusou o título de Barão de Cruz Alta que D. Pedro II lhe ofertou em 1878. Era republicano por convicção, julgando-se, portanto, impossibilitado de receber honrarias do Império. Mas esta já é outra história.

Da primeira visita de D. Pedro II a Cachoeira (ele retornaria em 1865) restam hoje alguns azulejos da casa do Dr. Jozé Afonso Pereira, preservados no acervo do Museu Municipal, as atas da Câmara que relatam os preparativos e ações levadas a efeito pelos vereadores e a ponteira do cetro de metal dourado que foi oferecido ao Imperador. O casarão que hospedou D. Pedro não resistiu ao desgaste do tempo e à nossa incapacidade de preservar patrimônios e cedeu espaço para um prédio sem beleza, sem nobreza e sem história.

Duas das últimas fotos do casarão, 1984 - Claiton Nazar


A (des)construção que ocupa o lugar do casarão
nos dias de hoje - foto Claiton Nazar

Texto de Mirian Ritzel, baseado em dados constantes da documentação do Arquivo Histórico e Museu Municipal, publicado originalmente em 2008 no site CachoeiraTem – WWW.cachoeiratem.com.br. 


quinta-feira, 5 de janeiro de 2012

Série Lojas do Passado: A Carioca

           A Carioca foi inaugurada em 12 de outubro de 1917. Propriedade de Luiz Leão e Heitor Gomes Martins, estava localizada no prédio construído na Rua Andrade Neves, junto à Casa Primavera. Comercializava inicialmente frutas, doces, bebidas e cigarros.
Em 1º de setembro de 1919, Luiz Leão e Heitor G. Martins dissolveram a sociedade, constituindo outra sob a razão social de Martins & Leão. O nome fantasia A Carioca foi mantido e o comércio ampliado para bebidas, especialidades e comestíveis finos.
Em 16 de novembro daquele mesmo ano, o estabelecimento foi transferido para vasto prédio na Rua 7 de Setembro, 157. Junto ao estabelecimento passou a funcionar o Carioca Clube.
A Carioca, defronte ao Cinema Coliseu Cachoeirense

Luiz Leão retirou-se da sociedade em dezembro e, em novembro de 1920, foram iniciadas reformas no prédio para estabelecimento de um café. O Café A Carioca foi inaugurado em 1º de abril de 1921, defronte ao Coliseu Cachoeirense, em amplo salão de três portas, calçada de mosaico e mobiliado a capricho. Em 1924 Carlos Kromer foi admitido como gerente do estabelecimento.
A Carioca, na Rua 7 de Setembro, local do atual Ed. Brasília


Interior do Café A Carioca em dia de grande movimento


Em agosto de 1941, o Café A Carioca foi comprado pela firma Francisco Brunkhorst & Cia., proprietária da Gruta do Leite, sendo também arrendadas as suas dependências. Em abril de 1942, foi fechado temporariamente por determinação do Posto de Higiene da cidade, reabrindo após três meses de reforma e adaptação às exigências sanitárias.
A história do Café A Carioca foi selada em 21 de novembro de 1942, quando um incêndio destruiu o prédio que então pertencia aos herdeiros Peixoto Vieira da Cunha e ao Banco da Província. O gerente Júlio Zanenga não conseguiu retirar nada do café, restando daquele ponto consagrado por gerações de cachoeirenses apenas poucas e incompletas imagens.

Imagens: Grande Álbum de Cachoeira, Benjamin Camozato, 1922
                Fototeca Museu Municipal


terça-feira, 3 de janeiro de 2012

Em princípios de janeiro...

Nos primeiros dias de vários janeiros da nossa rica história aconteceram importantes acontecimentos:
- em 1900, dia 1º: fundação do jornal O Comércio (O Commercio) por Henrique Möller Filho. O jornal, semanário, circulava às quartas-feiras. Nos primeiros tempos era bilíngue, atendendo à comunidade germânica numerosa da cidade e honrando as origens da família de seu proprietário. A vida do Comercinho, como era carinhosamente chamado na cidade, durou 66 anos. Encerrou as atividades em fevereiro de 1966.

Oficinas da Tipografia d'O Comércio. Sentado, o fundador.

- em 1914, dia 1º: início de circulação da revista mensal Brasil Filatélico (Brazil Philatelico), de responsabilidade do multidisciplinar Benjamin Celestino Camozato, dentista, fotógrafo, cinegrafista, comerciante, para citar as suas principais atividades.
- em 1937, dia 1º: fundação da Companhia Navegação Cachoeira Ltda.
- em 1946, dia 1º: fundação do Centro Cultural Cachoeirense, liderado pelo Dr. Ervin Wolffenbüttel, primeiro presidente, Liberato Salzano Vieira da Cunha e Emilio Freitag. O Centro Cultural foi entidade precursora do movimento artístico-cultural que caracterizou Cachoeira do Sul e que ainda hoje é uma das suas marcas.
Integrantes do Centro Cultural na gare da Estação

- em 1913, dia 2: criação da Seção de Higiene Municipal, sob a direção do Dr. Walter Castilho.
- em 1949, dia 6: fundação do Asilo de Velhice Nossa Senhora Medianeira pela Sociedade Cachoeirense de Auxílio aos Necessitados – SCAN, uma das entidades assistenciais mais apoiadas pela comunidade até hoje.
Imagens: Fototeca Museu Municipal

segunda-feira, 2 de janeiro de 2012

Um voto

Nenhuma casa deixará de ter luz e de ter água na torneira, lençóis limpos nas camas, lenha para o fogo, assoalho lavado, pão quente sobre a mesa, roupas desordenadas nas prateleiras das crianças, compotas de pêssego no guarda-louça, fotos dos antigos penduradas na parede.
Nenhuma casa deixará de ter suas janelas e suas portas com trincos ferrolhos e trancas abertas e quem sabe um gato de jeito morno e lento sobre a almofada.
Nenhuma casa deixará de ter a música de vozes amenas ou alteradas por alguma rusga e de suspiros silêncios passos pássaros.
Não. Nenhuma.
E terá uma cozinha. E a cozinha terá panelas para que sejam refogados legumes e seja cozido o arroz, enquanto palavras contam causos receitas receios romances.
Nenhuma casa deixará de ter um motivo que seja para festejar.
Nenhuma casa.
Nenhuma.
Célia Maria Maciel
Feliz 2012 e obrigada por seguir em nossa companhia!