Retomando as descrições de fazendas da zona rural de Cachoeira, a reportagem do jornal O Commercio dirigiu-se, na tarde de sábado, 3 de março de 1928, à Fazenda das Paineiras, localizada no então 1.º distrito municipal.
A excursão partiu da cidade às quatro horas da tarde e, "transpondo, de aranha, a barca do Botucaraí, às cinco horas e meia" pisavam "o campo da fazenda, onde, gentilmente, um próprio esperava" para guiá-los, "trazendo um cavalo encilhado para um companheiro de viagem."
Quando entraram no campo, tiveram que encurtar as rédeas do animal que conduzia a aranha, pois o terreno tinha a "superfície pouco plana em razão da lavoura de arroz que ali possuía, há muitos anos passados, o Dr. Arlindo Leal."
Depois de uma caminhada de cerca de 50 minutos pelo campo da fazenda, ao saírem da várzea avistaram, numa elevação do terreno, um mato que ainda continha madeira de lei em quantidade. Nele era avistada uma picada, por onde logo chegaram à frente da sede da fazenda, sendo ali acolhidos, com "sua habitual amabilidade" pelo proprietário Vasco de Freitas Souza*.
A casa ficava numa colina, de onde era avistada a maior parte do estabelecimento. A sede era uma "vasta habitação de material, com cômodos para numerosa família e com dependências confortáveis para o pessoal das lides" da fazenda.
Além da moradia da família, existia "um vasto galpão de material, com jirau para abrigo e trabalho do pessoal, bem como estrebarias de material para abrigo dos animais de trato."
Paineiras que pareciam "seculares, com troncos de alguns metros de circunferência", ocupavam a direita, a esquerda e os fundos da casa, sendo elas que provavelmente deram origem ao nome da fazenda.
Depois do jantar, os visitantes foram convidados a se sentarem à frente da casa, "à luz de um luar magnífico", para gozarem "um pouco da fresca". Depois, retornaram à casa para serem obsequiados por uma apresentação musical do proprietário que, apreciador do bandoneon, proporcionou-lhes "a audição de dois lindos dobrados e uma valsa de sua composição que compôs e tocava de memória, porque não conhecia notas de música."
Mal despontara o sol da manhã de domingo, todos estavam a postos "apreciando as cintilações de ouro e prata que o astro-rei punha sobre o campo e sobre o lago próximo, e enchendo os pulmões do puro ar do campo." Logo seguiram para a mangueira, "onde três empregados tratavam da ordenha das vacas, quase todas com cruza de Holandês, Pampa, Devon e Durham, animais que se mantinham a campo durante o inverno, "em magníficas condições de carne, graças à especial qualidade das pastagens da fazenda."
Às 10 horas, em passeio a cavalo com Vasco Souza, seguiram até a margem do rio Jacuí, onde apreciaram "os matos e capões com as melhores madeiras de lei que, na sua superfície [...] de 28 quadras de sesmaria", ainda possuía a fazenda. No mesmo local, foram notados vestígios de taipas de outra grande lavoura de arroz que possuía o Dr. Arlindo Leal há cerca de oito anos passados, quando lhe pertencia o estabelecimento, lugar onde o campo estava bem gramado e, portanto, muito melhorada a pastagem." Também foram apreciar "o banheiro carrapaticida do estabelecimento, notando, nas suas proximidades, dois touros Pampa, raça especial para a produção de carne."
A Fazenda das Paineiras havia sido adquirida por Vasco Souza do Banco da Província, ao custo de 510 contos de réis, então com 48 quadras de sesmaria. Não faltou quem levantasse a temeridade de tal negócio. "Entretanto, o valor do estabelecimento, representado nas suas várzeas fertilíssimas, nos seus matos de madeiras de lei e nas suas pastagens de primeira qualidade, proporcionou-lhe a venda, a bom preço, de 20 quadras de sesmaria da fazenda, ficando-lhe 28. Vendendo uma grande parte do gado, atendeu e liquidou os últimos encargos que pesavam sobre a propriedade". [...]
"As terras fertilíssimas, em torno da sede, permitiram auferir bons lucros da exploração da agricultura", ainda que em pequena escala, "só para as maiores necessidades da fazenda, devido à exiguidade do pessoal para esse fim, que preferia o trabalho nas grandes lavouras de arroz."
Às três e meia da tarde, os visitantes retiraram-se da fazenda, chegando à cidade cerca de três horas depois. Trouxeram "a melhor das impressões da bela Fazenda das Paineiras" e agradecendo, na edição do jornal que foi publicada em 21 de março de 1928, à página 2, "ao amigo Vasco Souza e à sua excelentíssima família as gentilezas dispensadas ao noticiarista desta folha."
Não há registros fotográficos conhecidos da Fazenda das Paineiras. No acervo documental do Arquivo Histórico é possível conferir a marca de gado utilizada pelo proprietário, Vasco de Souza Freitas. A marca lembra uma letra "h" minúscula e com serifa.
