Cachoeira de outros tempos

Cachoeira de outros tempos
Rua 7 de Setembro com Banco da Província ao fundo (~1928) - MMEL - Modificado por IA - Renato Thomsen

quinta-feira, 27 de outubro de 2016

Um balão nos céus de Cachoeira em 1910

Nos primeiros anos do século XX, as opções de lazer e entretenimento da população eram restritas. Às iniciativas locais somavam-se atrações vindas de fora que abrangiam os cinematógrafos, trupes teatrais, ventríloquos, fantoches, touradas... E algumas delas foram responsáveis por momentos únicos, inesquecíveis...

O balão Granada

Na tarde de domingo, 13 de março de 1910, o capitão Guilherme de Magalhães Costa, segundo o jornal O Commercio, de 16 de março, “fez sua projetada ascensão aerostática”.

Representação de uma "ascensão aerostática"
- cartão-postal da Coleção Ernesto Müller

Segundo relata o jornal, pelas quatro horas da tarde começou regular afluência de povo ao local escolhido que era o terreno situado à Rua Moron, nos fundos da casa comercial de Pedro Stringuini. Antes das cinco, tiveram início os preparativos de enchimento do balão, tocando durante o ato uma banda musical. Pouco a pouco foi se esticando e entesando o escuro pano do colossal Granada, que tinha 24,5 metros de altura e 52,5 de circunferência, capacitado a suspender um peso de 900 quilos.

Rua Moron à esquerda - fototeca Museu Municipal

O tempo estava calmo e, portanto, muito propício para ascensão. Pelas cinco e meia, quando o balão já era contido em terra só à força, ouviu-se a voz de – Larga! O Granada fez um arranco lindo, conduzindo o intrépido aeronauta que subiu com a fisionomia calma e com a serenidade de quem conhece o seu ofício, sendo nessa ocasião alvo de estrepitosa aclamação que partiu da assistência.

O capitão Magalhães ia seguro pelos quadris a uma corda e estava a alguns três ou quatro metros de distância do seu barco que, depois de subir a uma altura, seguiu serenamente para o nascente, transpondo o arroio Amorim e indo cair nas proximidades da Charqueada do Paredão, donde o arrojado aeronauta foi trazido, de carro, por Francisco Timotheo da Cunha, João Bruno Lorenz e Oscar Pötter.

Imediações da Charqueada do Paredão
- Cartão-postal da fototeca do Museu Municipal 

O Granada chegou a subir à altura de 426 metros, gastando 16 minutos no percurso. Tendo caído num ponto elevado, muitas pessoas puderam presenciar, da cidade, a sua descida. Foi um verdadeiro sucesso que alcançou o capitão Magalhães, sendo apenas de lamentar que tão exíguo fosse o produto das entradas.

Ao pedido de muitos cavalheiros, que prometeram empenhar-se para que o distinto aeronauta conseguisse uma razoável compensação material das suas despesas, foi prevista uma segunda ascensão na tarde de domingo, dia 20 de março de 1910, sendo que nessa ocasião o Granada levaria a sua barquinha para conduzir Oscar Pötter e Marianna Peres, consorte do aeronauta Magalhães.

No domingo marcado, um forte vento que soprou à tarde não permitiu encher o balão Granada e fazer a projetada ascensão. Na tarde de segunda, estando o tempo propício, muitos foguetes convidaram para o local, onde uma banda musical fazia ouvir seus acordes. Pelas seis horas da tarde, na presença de uma assistência numerosa, ao grito de – Larga!, o Granada deu um arranco formidável e conduzindo a intrépida senhora Marianna Peres, que atreveu-se a sulcar os ares sem mais acompanhamento. Aos aplausos e aclamações que irromperam, uníssonos, a corajosa senhora agradecia com acenos de lenço.

O balão seguiu a direção do noroeste, tendo subido a uma altura de 470 metros. Depois de viajar cerca de 20 minutos, desceu na invernada do Sr. José Luiz de Carvalho, numa colina ao lado do capão de Nossa Senhora. 

quarta-feira, 12 de outubro de 2016

12 de outubro - Dia do Rio Jacuí

O rio Jacuí, grande patrimônio natural, constitui-se na maior vertente leste do Estado e serpenteia suas águas por entre terras cachoeirenses, levando vida e determinando a história, tanto que no calendário oficial do município o dia 12 de outubro é dedicado a ele.

Rio Jacuí serpenteando pelo território cachoeirense - foto Robispierre Giuliani
Foto Robispierre Giuliani

A palavra Jacuí vem de yacu (jacu), galináceo, e y, água, rio: “o rio dos jacus”. O seu nome primitivo é Ygaí, ou seja, ygáu, planta parasita conhecida popularmente como “barba-de-velho” e y, água: “rio da barba-de-velho”. Pode se tratar também de ygara, ygá, canoa, e y, água, o que significa “rio das canoas”.


Canoas no Jacuí - foto Veridiana Dalpian
Rio das canoas - foto Robispierre Giuliani

Cachoeira do Sul deve sua existência ao rio Jacuí. A partir de 1750, quando houve a assinatura do Tratado de Madri, para dar cumprimento ao acordo de fronteiras entre as coroas portuguesa e espanhola, o rio constituiu-se a fronteira entre portugueses e espanhóis e a barreira natural que protegeu e amparou os primeiros povoadores – os soldados portugueses. Suas águas serviram para a sobrevivência e manutenção dos pioneiros e ofereceram também as bases de uma economia calcada primeiramente na pecuária e depois consolidada com o cultivo e exploração das lavouras de arroz. 

A existência do Jacuí também foi determinante para que, em meados do século XIX, a rica economia de Pelotas, baseada na exploração da indústria do charque, fosse abalada pela instalação, em Cachoeira, da primeira charqueada do centro do Rio Grande do Sul, dando início a um período de grande crescimento econômico para a região.

 Complexo remanescente da Charqueada do Paredão às margens do Jacuí
- fototeca Museu Municipal

Mas Cachoeira não deve ao Jacuí somente a existência e a sobrevivência. Deve também o seu nome. Os habitantes da aldeia de índios assentada sobre a elevação do terreno localizado na margem esquerda do rio, proximidades do atual Hospital de Caridade, avistavam diariamente as cachoeiras que encrespavam o leito e acabaram incorporando a palavra cachoeira aos nomes dados à povoação. O primeiro registro da denominação apareceu em 1779, quando o lugar passou de Capela de São Nicolau para Freguesia de Nossa Senhora da Conceição da Cachoeira. Em 1820, com a emancipação político-administrativa de Cachoeira da Vila de Rio Pardo, o município ganhou o nome de Vila Nova de São João da Cachoeira. Em 1859, pela elevação ao foro de cidade, surgiu a Cidade da Cachoeira e, em 1944, por decreto do Presidente Getúlio Vargas, Cachoeira recebeu o designativo do Sul,  para distinção de cidade homônima na Bahia.

E para endossar a ligação íntima da existência de Cachoeira com o rio até um apelido a cidade ganhou: “Princesa do Jacuí”.

Alguém ainda pode duvidar da força do Jacuí na história, na economia e na vida de Cachoeira do Sul?

domingo, 25 de setembro de 2016

Château d'Eau - vestígios do passado sob as tintas do tempo

Poucas vezes Cachoeira do Sul teve a oportunidade de ver diversos de seus patrimônios históricos, verdadeiros ícones, em processo de recuperação. E o Château d’Eau, nossa maior referência de urbanidade, depois de anos entregue à própria sorte, finalmente ressurge em sua magnitude arquitetônica e simbólica.


Das  janelas do Paço Municipal, as obras de recuperação
do Château d'Eau e Catedral N. Sra. da Conceição
- foto Renato F. Thomsen


As diversas fases pelas quais o monumento tem passado em seu processo de restauro, obra executada pelo Studio Sarasá, vêm revelando muitas coisas, desde as diferentes camadas pictóricas até sua dimensão simbólica.


O Château d'Eau sob andaimes - foto Drone Cachoeira

E o transeunte da Praça Balthazar de Bem, estupefato com as obras que se desenvolvem também no Paço Municipal (ou Prefeitura) e na Catedral, fica a se perguntar diante da “transparência” que o restauro do Château d’Eau oferece por não haver paredes que o escondam: afinal que cores tinham as ninfas, Netuno e o próprio Château d’Eau?


 Tentando responder às indagações e também dar sustentação ao que os técnicos encontraram a partir da última camada de tinta removida, historiadecachoeiradosul foi buscar fotografias antigas do monumento para demonstrar que as cores que hoje se apresentam como propostas dos restauradores, bem mais escuras do que o usual, parecem ter sido efetivamente utilizadas no monumento.

Com o julgamento o leitor!


Château d'Eau na década de 1930
- fototeca Museu Municipal

Coleção particular Armando Fontanari


Coleção particular Armando Fontanari



Atletas do Grêmio Náutico Tamandaré defronte ao Château d'Eau
- Coleção particular Armando Fontanari

Antônio Machado da Silva
- Coleção particular Família Waldicyr Machado

Agradecimentos a Ione Sanmartin Carlos que obteve as fotos da Coleção particular de Armando Fontanari.

quinta-feira, 8 de setembro de 2016

Apostas do passado

A cada edição da EXPOINTER os criadores de Cachoeira do Sul voltam com um bom número de rosetas, evidenciando que a pecuária local tem qualidade e competitividade. Mas isto não é fruto do acaso e sim de uma trajetória histórica fundada na segunda metade do século XVIII.

A criação de gado foi a primeira vocação econômica do município. A opção que os soldados portugueses tiveram quando aqui chegaram para tentar assegurar o cumprimento do Tratado de Madri, aproveitando-se do gado xucro que vadiava pelos campos, perpassou os séculos, sobrevivendo e acompanhando os ciclos econômicos que vieram depois.

Na segunda metade do século XIX, com a instalação da Charqueada do Paredão, houve grande incremento à criação de gado. A própria Charqueada mantinha em seu redor vastos campos para invernada do gado que adquiria. Cachoeira chegou a abalar os negócios das charqueadas de Pelotas por sua localização geográfica privilegiada, no centro do estado. Vender para a Charqueada Paredão era melhor negócio, pois Cachoeira ficava no meio do caminho...

Charqueada do Paredão vista de longe - cartão-postal de Benjamin Camozato
- fototeca Museu Municipal

Por conta das vantagens de Cachoeira em detrimento de outros pólos charqueadores, e aproveitando o movimento revolucionário de 1893, dizem, a ponte do Passo Geral do Jacuí teve providencialmente incendiada parte do seu leito, impossibilitando assim a passagem das tropas que vinham abastecer a Charqueada!

Pilares que restaram da Ponte do Passo Geral do Jacuí - foto Méia Albuquerque

Durante os primeiros anos do século XX, notadamente quando o Dr. Balthazar de Bem era o intendente, a administração municipal demonstrou preocupação com a melhoria do plantel de gado criado localmente, tomando iniciativas que hoje podem parecer inusitadas, mas que certamente contribuíram para que a pecuária aqui tivesse os incrementos necessários para se solidificar. O touro flamengo adquirido para cruzar com as vacas dos chacareiros em 1913 foi uma destas iniciativas, assim como a compra e a distribuição gratuita de sementes do capim-gordura e capim-jaraguá, também ideia do visionário Balthazar de Bem naquele mesmo ano. Estes capins eram considerados os melhores para o engorde do gado. Aliás foi o Dr. Balthazar o introdutor no município do gado da raça Devon, de que fazia criação em suas duas granjas da Penha, uma que se localizava onde hoje está o Bairro Marina (este era o nome da sua esposa) e outra no caminho para Caçapava.

Capim-jaraguá - unilabsementes.com.br

Capim-gordura - agrolink.com.br

Os tempos mudaram e a tecnologia chegou ao campo, vencendo as barreiras naturais da própria cultura do criador gaúcho, que era baseada quase que unicamente na experiência e na tradição passadas de pai para filho. As cabanhas cachoeirenses estão consentâneas com o século XXI, esbanjam bons espécimes e honram uma tradição fundada ainda ao tempo do domínio e posse de nossas fronteiras. Apostas do passado com respostas no presente e projeções para o futuro.