Cachoeira de outros tempos

Cachoeira de outros tempos
Rua 7 de Setembro com Banco da Província ao fundo (~1928) - MMEL - Modificado por IA - Renato Thomsen

sexta-feira, 26 de julho de 2013

Santa Josefa

Nestes tempos de visita papal ao Brasil e da repercussão dos ideais do catolicismo somos remetidos às manifestações religiosas locais. Em Cachoeira, há muitíssimos anos e com marcante devoção, é cultuada a figura de Santa Josefa, misto de lenda e fé que talvez muitos de nossos jovens, alvo preferencial da Jornada Mundial da Juventude, desconheçam totalmente.

Antiga Capela de Santa Josefa

O jornal O Commercio (1900-1966), em sua edição de 23 de maio de 1906, publicou artigo assinado por "Pompeu", contando interessante diálogo envolvendo o culto à Santa Josefa:

SANTA JOSEFA

Não resta dúvida de que o título é sugestivo, para o nosso meio, ao menos. Certamente a santa de que vamos tratar tem o número dois na galeria da santidade católica romana.
O caso é simples: lá nos registros seculares do Vaticano deve existir, por força, o nome santificado de uma Josefa que foi canonizada. Provavelmente essa Josefa que por qualquer motivo fez jus à canonização por algum ato de benemerência que a levou à categoria de divindade celeste, não é a mesma que temos por aqui, essa que uma tradição histórica nos lembra naquela cruz branca e preta que se eleva à cabeceira de um quadrilátero, cercado de grade, que existe num dos arrabaldes da Cachoeira. Deve haver, por conseguinte, duas santas Josefas – uma romana e outra cachoeirense.
Alguém nos contou a história da nossa Santa Josefa. Foi uma preta escrava que sucumbiu ao martírio do látego escravocrata da era passada. Ali, onde existe a cruz e o quadrilátero aludidos, foi ela sepultada e, dizem, não apodreceu, isto é, não passou o seu corpo pela prova destruidora da decomposição física. Santificou-se por isto, e realmente o fato é bastante suficiente para demonstrar a sua passagem para a divinização que coroou o seu nome humilde quando mísera terrena.
Num dia destes, passávamos por lá, eu e um amigo. Junto ao quadrilátero santo estavam duas mulheres do povo, ajoelhadas, concentradas nas suas fervorosas orações de crentes. Olhei e calei, mas segredei aos meus botões: “A fé nos salva!”
O meu amigo olhou-as, virou-se para o meu lado e sentenciou:
-          Bestas!
-          Por quê?, interroguei.
-          Por quê? Pois o que é aquilo?
-          Tu, que és espírita, que pertences a uma religião nova, que só crês em Deus como autor de todas
as coisas, todo poderoso, onipotente, não me explicarás  o que exprime aquela palhaçada?
-   Para nós, cachoeirenses, é eloquente atestado de um barbarismo de última hora; uma idolatria selvagem que não casa com o nosso século! Vamos até lá e vais ver até onde chega a ignorância e a santa selvageria de certa gente.
-   Vês? Aqui, nada mais nem menos, há uma camada de sebo e cera que se pode medir por palmos, disse-me, mostrando-me o quadrilátero de grades. Vês essa traparia aqui pendurada a esta cruz? São vestidos, saias, toalhas, o diabo a quatro que aqui vêm depor os fiéis, como um sacrifício oferecido à santa. Olha! Aqui está uma toalha bordada, admira isto!
E o nosso amigo nos mostrava  um pano branco bordado à linha encarnada com os dizeres: “Santa Josefa”, acima de uma figura feita de pano e desenhada à tinta sardinha. Tinha os braços abertos...
-          No desenho não andou o lápis da arte, mas talvez o carvão de algum analfabeto!
-          E zombas disto?, perguntei.
-          E você, ainda me pergunta? Homem! Você é tolerante demais!
-   Não é tolerância: é saber respeitar a crença alheia. Calculo que nisto aqui não haverá hipocrisia, mentira religiosa. Sabe Deus, somente, da porção de fé e crença com que aqui pôs este pano bordado quem o depositou aos pés desta cruz, como testemunho da sua fé e respeito!
-          Qual nada, isto é pura estupidez; não admito outra coisa!
Nesta terra, como em toda a parte, não há instrução do povo pequeno; só se cuida da política, e o mais vai por água abaixo e o fruto é destas coisas! Igual a isto só nas costas da África!...
E continuamos o caminho e o meu amigo tinha uma pouca de razão!
A ignorância, que torna o indivíduo um selvagem doméstico, que cobre-lhe os horizontes da concepção, do discernimento, que inibe-o da análise, da comparação; que furta-lhe o privilégio de achar o equivalente aproximado do impenetrável ser da obra que admiramos, tememos e de que fazemos parte, sob o império onipotente de Deus, não pode frutificar aos olhos da luz dos séculos que correm, senão nesses pedaços de santo barbarismo que o salvam: a crença, a fé, a sinceridade real do voto.
Na treva, tudo é treva, por isto, se há condenação no caso, ela não recairá de certo – senão sobre os que esquecem da luz que têm a distribuir, por dever!

Pompeu

Aspecto atual da Capela de Santa Josefa - infelizmente descaracterizada

domingo, 14 de julho de 2013

Banco Nacional do Comércio

Banco Nacional do Comércio - imagem Santander Cultural
- gentileza Mico Vargas

       Na década de 1910 e início da seguinte, quando Cachoeira já se projetava no cenário estadual como uma das potências econômicas, os grandes bancos começaram a abrir agências na cidade. O primeiro foi o Banco da Província, em 1911, seguido pelo Banco Nacional do Comércio, em 1916, pelo Banco do Brasil, em 1919, e pelo Banco Pelotense, em 1922.

       O Banco Nacional do Comércio, instituição fundada em Porto Alegre no ano de 1895, assim como outros que depois se estabeleceram, começou a atuar com uma pequena representação em Cachoeira. Instalada na casa comercial de Cunha & Cia., na Rua Sete de Setembro, lá ocupava um salão especialmente destinado para esse fim, tendo aberto suas portas para o atendimento dos interessados em abril de 1916. Naquela época, o quadro de funcionários contava com Oswaldo Schilling, contador, Francisco Antunes da Cunha, gerente, e Leonel Friedrich, subgerente.

          Com o crescimento natural dos negócios, o estabelecimento de crédito instalou-se em edifício próprio à Rua Sete de Setembro nº 160. “Luz e ar em abundância existem nas dependências do novo edifício, reconstruído pela firma Plentz e Ermel, e que pelo seu belo frontispício concorre para o embelezamento da parte norte da Rua Sete de Setembro”, dizia o jornal O Commercio, edição de 16 de janeiro de 1918. Com o empreendimento, o Banco Nacional do Comércio foi o primeiro a instalar-se em sede própria na cidade.

À esquerda, vê-se a cabeça de Mercúrio sobressaindo no alto da fachada
do Banco Nacional do Comércio - fototeca Museu Municipal

Vista geral da agência do Banco Nacional do Comércio
- coleção Claiton Nazar

E segue o jornal O Commercio, naquela edição de janeiro de 1918: “Tivemos ocasião de percorrer, em companhia do contador, Sr. Aldomiro Franco, as diversas dependências, entre as quais, além do salão principal, notamos a sala reservada para a gerência e o compartimento da casa forte, destinado a guardar os livros e valores do estabelecimento.

O prédio que serviu de agência àquele estabelecimento ainda está na Rua Sete de Setembro, abrigando a loja Dois Irmãos. Do alto de sua fachada, Mercúrio, representando o comércio, ainda que mutilado, espreita o movimento de nossa mais importante via pública.

Mercúrio no alto da fachada - foto Nelda Scheidt

domingo, 7 de julho de 2013

"Queremos uma comunidade e uma escola"

        Os luteranos estabelecidos em Cachoeira no final do século XIX ansiavam por uma comunidade que os acolhesse em seus anseios religiosos e de associativismo. O Pastor Kurt Benno Eckert, em sua obra Quando florescem os arrozais... conta esta história em detalhes.
         Quando um pastor luterano visitava as famílias alemãs, o que era feito esporadicamente, os membros perguntavam: “Quando teremos uma Comunidade? Quando teremos um Pastor? Quando teremos uma Escola para ensinar os nossos filhos?”
        Uma reunião entre as famílias alemãs, realizada em 8 de junho de 1893, foi decisiva para a elaboração dos estatutos e posterior criação da Comunidade. Nessa reunião resolveram adquirir também um terreno para instalar uma escola, seguindo a máxima de que ao lado de cada igreja deve haver uma escola. Em 3 de julho daquele ano, finalmente, foi solenemente criada a Comunidade Evangélica de Confissão Luterana de Cachoeira. Com a leitura e aprovação dos estatutos, foi também aclamado Phillip Adam o primeiro presidente, em reconhecimento ao seu desvelo e empenho pela criação da Comunidade. Os demais membros da diretoria eram Johann Gerdau, Rudolfo Homrich, Otto Büchler e Augusto Trommer.
         Com a criação da Comunidade, partiram os 27 membros iniciais em busca de um professor que também fosse o pastor. Decidiram na assembleia de 8 de fevereiro do ano seguinte convidar o professor Heinrich Gauss, de Agudo, para assumir as funções de pastor e professor. Tinha início a trajetória que no corrente ano atinge 120 anos de trabalho em prol da educação empreendido pelo Colégio Sinodal Barão do Rio Branco.
         
Primeiro prédio da Escola - 1914 - acervo Colégio Sinodal Barão do Rio Branco

domingo, 30 de junho de 2013

Série Lojas do Passado: Ponto Chic

       Havia na antiga Avenida das Paineiras, lá pelo começo do século XX, um bar chamado Ponto Chic, estabelecimento montado por Manoel Costa Júnior, proprietário do Cinema Coliseu Cachoeirense, num pequeno chalé onde eram comercializados sanduíches, doces, chocolates, bombons, conservas, bebidas e frios. Os frequentadores do Ponto Chic abasteciam-se de guloseimas ou faziam seus lanches antes ou depois de assistirem às exibições cinematográficas do cinema ao lado. Nos fundos do Ponto Chic, no mesmo chalé, ficava o Restaurante Colyseu, onde eram servidos almoços e jantares, constando o cardápio de a la minuta, saladas, café, leite, doces, chocolates e chás.

Cinema Coliseu Cachoeirense e o Ponto Chic
- Grande Álbum de Cachoeira - 1922 - Benjamin Camozato
            Sérgio de Gouvêa, jornalista que viveu a infância e parte da mocidade em Cachoeira, assim descreveu o Ponto Chic em artigo publicado no Correio do Povo, edição de 10 de dezembro de 1983:
“Atilado empreendedor, Manoel Costa Júnior decidiu-se a aumentar suas rendas de empresário afortunado e em 1912 construiu, no terreno existente à esquerda do Coliseu e também de madeira, o Ponto Chic. Na parte da frente funcionava o bar que atendia aos clientes acomodados não muito confortavelmente em mesinhas de ferro distribuídas em toda área calçada que ia até o cinema. Os fregueses dividiam suas preferências entre as cervejas locais – a Homrich e a Trommer - enquanto os jovens, a quem era vedado o uso do álcool, contentavam-se com a “Cirila” e as gasosas. (...) A segunda divisória do Ponto Chic era bem maior, bem mais ampla, pois se tratava do restaurante. Uma casa de pasto que desfrutava a vantagem de não ter concorrentes.”

Bar Ponto Chic
- Grande Álbum de Cachoeira - 1922 - Benjamin Camozato
O jornal O Commercio, edição de 3 de maio de 1916, em coluna assinada por Pangloss, assim refere-se àquele logradouro e seu Ponto Chic:
“... a cidade de Cachoeira, apesar da conflagração e das crises dela decorrentes, está sobremodo encantadora. Que o digam os frequentadores da Avenida das Paineiras, dessa multidão que às tardes e às noites a enchem, dando-lhe um aspecto de animação e bem-estar que talvez se não encontre em nenhuma das outras cidades da campanha rio-grandense. Contemplando-se esse quadro que reflete, certamente, o progresso e a concórdia reinantes neste município, não se pode deixar de recordar com louvores a parte que toca ao Sr. Manoel Costa Júnior, no que concerne ao embelezamento e animação da nossa praça de recreio, pois é incontestável que o centro de atração, a mais bela parte da avenida é o ponto que o incansável Costa denominou de – Chic. Aí tem ele o seu excelente Coliseu, o seu restaurante, o seu bar. Assim é que enquanto uns combatem os calores estivais refrigerando-se com coisas geladas, outros dão vela ao paladar no seu bem atendido restaurante, ingerindo acepipes que restauram ao mesmo tempo as forças do corpo e da alma, pois tudo isso é feito ao som de um piano habilmente dedilhado pelo maestro Curt Dreyer. Quanto tudo isto não baste aí, tem o desfilar do sexo gentil pela avenida fartamente iluminada, às vezes a cores, enquanto as músicas ressoam e as campainhas do Coliseu tilintam, convidando às fitas por entre pregões de reclames que ainda mais realçam o movimento.” 

Movimento defronte ao Cinema Coliseu Cachoeirense
- acervo Osvaldo Cabral de Castro