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quarta-feira, 20 de fevereiro de 2019

Série Histórias que Viraram Livros: Tragédia Passional

A Série Histórias que Viraram Livros pretende abordar momentos do passado histórico que adentraram pela literatura, tirando da realidade elementos capazes de compor cenários ficcionais.

A série se inaugura com um crime registrado na primeira página do jornal O Commercio, edição do dia 20 de fevereiro de 1929.  O trágico acontecimento comoveu a cidade de Cachoeira, enlutando duas famílias e despertando perplexidade. Tragédia passional foi o título dado à matéria, palavras que conferem a dimensão do infausto acontecimento e dão a medida da motivação.  

Um homem casado que se apaixona perdidamente pela jovem telefonista. Não correspondido, prefere o destino avassalador da morte para si e para a infeliz amada. 

Eis a notícia publicada n'O Commercio:

Tragédia passional
Pouco depois das 10 horas da noite de sexta-feira desenrolou-se, nesta cidade, uma tragédia que impressionou profundamente a nossa população.
O 2.º sargento Antonio Luiz Rodrigues Barcellos, do 3.º Grupo Independente de Artilharia Pesada, de 34 anos de idade, casado com a Exma. Sra. D. Dulcina Ribeiro Barcellos, foi, numa hora de infeliz desvairamento, o autor dessa tragédia.
Pelas 9h30 chegara o referido sargento ao Centro Telefônico local, onde costumava palestrar.
Depois de algum tempo, voltava de uma visita que fizera a senhorita Amelia Olga Aquino, de 23 anos de idade, filha da Exma. Sra. D. Catharina Prato de Aquino e funcionária da Cia. Telefônica Rio-Grandense.
O sargento Barcellos pediu à referida senhorita que lhe desse um copo d’água. Sendo atendido, pediu que queria falar-lhe, ao que a moça respondeu com palavras de recusa. Disse então que queria despedir-se dela, porque ia seguir para o Norte, para onde tinha sido removido.
Poucos minutos depois, pediu-lhe água novamente, o que causou estranheza a uma das moças presentes, que chegou a falar nessa insistência a respeito da água. Quando a moça vinha para atendê-lo, esperou-a dentro da cabine e puxando um revólver, descarregou-lhe três tiros à queima-roupa, produzindo-lhe ferimentos gravíssimos que a prostraram sem vida. A cena foi tão rápida que ninguém pode intervir. Em seguida, Barcellos apontou o revólver ao Sr. Paulo Pardelhas, atual gerente da Cia. Telefônica, que lhe pareceu querer intervir na cena e, volvendo a arma contra si, descarregou dois tiros em sua cabeça, provavelmente porque lhe parecesse que o primeiro não era eficientemente mortal e caiu, ato contínuo, sobre o assoalho.
A senhorita Olga Aquino faleceu imediatamente, em consequência da hemorragia interna que lhe produziram ferimentos por bala no hemitórax direito.
A pavorosa cena de sangue desenrolou-se às 10h15 e o sargento Barcellos, socorrido e conduzido para o Hospital de Caridade, veio a falecer às 11h50, curtindo atrozes padecimentos, em consequência de fratura da base do crânio por ferimento de bala.
O desventurado militar deixou várias cartas escritas, explicando os motivos de seu ato de desespero e fraqueza por uma profunda paixão que nutria pela infortunada moça.
A tragédia abalou profundamente a nossa população.
O sepultamento da senhorita Olga Aquino, que era muito relacionada e estimada em nossa sociedade, realizou-se às 4 horas da tarde de sábado, com grande acompanhamento de exmas. sras., senhoritas e cavalheiros.
À frente do cortejo seguiam, processionalmente, as senhoritas da Congregação Mariana, da qual fazia parte a extinta, indo também o estandarte do Apostolado da Oração, que a acompanharam até ao Cemitério das Irmandades.
Inúmeras coroas cobriam o ataúde (...).
O sepultamento do sargento Barcellos, cujo corpo, conforme desejo que deixou escrito, foi velado em casa de sua esposa, realizou-se às 5 horas da tarde de 16, com grande acompanhamento de camaradas de armas.
(...)
(O Commercio, Cachoeira, de 20/2/1929, p. 1., Acervo de Imprensa do Arquivo Histórico).
Pois esta tragédia passional ensejou a obra Cachoeira dos Ausentes, da jornalista e museóloga Teniza Spinelli, lançada em setembro de 2013. A história se passa na fictícia cidade de Cachoeira dos Ausentes e aborda o crime que se desenrolou na Cachoeira do começo do último ano da década de 1920.
Paixão, traição, ciúme são ingredientes que emergiram de uma trágica página da vida real para a ficção. O folhetim, ainda que tenha se servido de um fato do passado, aborda um tema que infelizmente não perde a atualidade. Mesmo que noventa anos tenham se passado, crimes desta natureza seguem a se repetir, demonstrando o quanto o ser humano não sabe lidar com frustrações e contrariedades.

Cachoeira dos Ausentes, de Teniza Spinelli
Edição ALF-Exclamação, 2013

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