Cachoeira de outros tempos

Cachoeira de outros tempos
Rua 7 de Setembro com Banco da Província ao fundo (~1928) - MMEL - Modificado por IA - Renato Thomsen
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domingo, 26 de abril de 2015

Cachoeira ou Itupeva?

Em 26 de abril de 1819, D. João VI mandou expedir o alvará que criou a Vila Nova de São João da Cachoeira, desmembrando de Rio Pardo a então Freguesia de Nossa Senhora da Conceição da Cachoeira. Este alvará, que tinha força de lei, deu início ao processo que se concretizaria em 5 de agosto de 1820, quando foi instalado o novo município.

A história de Cachoeira registra os diversos nomes que o local teve, começando pelo que se dava ao tempo em que a capela de São Nicolau, na Aldeia, denominava de forma religiosa e político-administrativa o povo novo que surgia. Depois se seguiram o de Freguesia de Nossa Senhora da Conceição da Cachoeira (1779), Vila Nova de São João da Cachoeira (1819), Cidade da Cachoeira (1859) e Cachoeira do Sul (1944).

Em 1943, quando o governo federal determinou que não houvesse repetições de nomes de cidades no país, Cachoeira, com homônimas na Bahia, no Ceará e em São Paulo, teve que iniciar uma discussão em torno de qual seria o nome que adotaria.

O Jornal do Povo, em sua edição de 30 de setembro de 1943, noticiou que Cachoeira terá, provavelmente, seu nome mudado, afirmando que ITUPEVA foi o nome sugerido para este município.

Página da edição de 30/9/1943 - Jornal do Povo
- acervo de imprensa do Arquivo Histórico

O Prefeito da época, Cyro da Cunha Carlos, recebeu instruções do Instituto Federal de Geografia e Estatística de que a cidade de Cachoeira, do Estado da Bahia, seria aquela que conservaria o nome, pois se tratava da mais antiga, fundada no século XVIII, e que a escolha da denominação das demais que tinham o mesmo nome deveria ter relação com qualquer coisa de forte identificação local, e preferencialmente utilizando a língua guarani. Daí que para a nossa Cachoeira, em razão do rio e das cachoeiras nele existentes, o primeiro nome a ser levantado foi o de ITUPEVA, que significa justamente cachoeira em tupi-guarani. Mas, como atesta a reportagem, o nome não agradou.

Outros nomes foram sugeridos, variantes do primeiro, como Itaipava e Itapeva. Seguiram desagradando, de sorte que em 1944 o nome Cachoeira do Sul foi legalmente adotado.


(Colaborou com a postagem o professor Alejandro Gimeno)

domingo, 19 de dezembro de 2021

Série: Registros fotográficos incríveis - III

A "Série: Registros fotográficos incríveis" chega à sua terceira postagem, sempre contando com o apoio prestimoso do memorialista Claiton Nazar, colecionador de um grande acervo de imagens de Cachoeira do Sul e com olhar apurado e experiente para detalhes e sutilezas apanhadas pelos fotógrafos do passado.

Desta vez, os registros publicados são os da Ponte do Fandango, aproveitando momento em que a estrutura experimenta mais uma de suas fragilidades, pondo autoridades e população na difícil tarefa de equacionar as dificuldades de escoamento pela sua interdição e a necessidade de encontrar solução rápida e eficiente para tal problema.

Uma pergunta recorrente de quem se interessa pela história da Ponte do Fandango é relacionada ao seu nome. Por que fandango? Bem, há três justificativas plausíveis para tal denominação. A primeira delas se refere ao local em que a ponte foi construída, ou seja, sobre a Cachoeira do Fandango, que se caracterizava por pequenas quedas d'água que embaraçavam o leito do rio. Em épocas de seca, quando as águas atingiam nível baixo, ela era facilmente atravessada, tornando-se local apreciável para banhos. Nesse período do ano, eram costumeiros os encontros e piqueniques da população em suas imediações. 

Desses encontros e folguedos nas suas proximidades pode ter surgido a denominação "fandango" para a cachoeira porque era muito comum, diante da falta de outras opções de entretenimento, que os grupos que dela se acercavam em piqueniques e festas levassem consigo uma banda ou pequena orquestra. A animação musical acabava por provocar danças, ou fandangos, associando-se o lugar ao propósito que o caracterizava por conta desses festejos. 

Uma terceira teoria para a denominação da Cachoeira do Fandango é a movimentação que as pedras causavam nas águas do rio Jacuí, semelhantes aos movimentos da dança conhecida como fandango, herança dos espanhóis e que se disseminou com força também em Portugal. A dança do fandango apresenta coreografia vibrante, da mesma forma como as águas da cachoeira se portavam ao passarem pelas pedras do leito do rio.

Registros fotográficos I e II: a Cachoeira do Fandango

Cachoeira do Fandango - Coleção Claiton Nazar

Desvendando as fotos I e II: na tomada I, sem data, é possível ver três homens aparentemente tentando acessar uma canoa presa às pedras da cachoeira. Por ela dá para ter uma visão geral dos sedimentos sobre os quais as águas do Jacuí se agitavam, demonstrando claramente que não havia produção de grandes quedas d'água e sim de marolas. Os índios chamavam estas quedas de itaipavas.

Coleção Claiton Nazar
Créditos das fotos I e II: originais de Renoardo Pohlmann

Na foto II, mais ampla, os mesmos sujeitos tentam vencer a barreira da Cachoeira do Fandango para singrar as águas do Jacuí. Interessante verificar a espessa mata ciliar que ainda existia na margem oposta do rio.

A Cachoeira do Fandango era uma atração importante do Jacuí para os cachoeirenses. Tanto era ela considerada, que em 1943, quando os municípios homônimos foram convocados a decidir que nome tomariam, devendo considerar algo que definisse ou caracterizasse o lugar, uma comissão de cidadãos locais escolheu Itupeva*, que em tupi-guarani quer dizer "pequena queda d'água", ou corredeira. Outras variantes, como Itaipava e Itapeva foram sugeridas, mas a decisão final foi acrescentar "do Sul" ao velho nome Cachoeira.

Pois foi sobre a Cachoeira do Fandango - e daí o aproveitamento do nome - que a equipe técnica do Ministério de Obras e Viação decidiu erguer a ponte. Aliás, a ideia de erguer a estrutura sobre esse acidente geográfico já havia sido cogitada em 1912, quando houve a primeira reunião formal, publicada na imprensa, entre autoridades e cidadãos para a construção da tão necessária e sonhada ponte sobre o Jacuí nas imediações da cidade. Liderava o grupo o "Rei do Arroz", Jorge Franke.

Em 1949, diante da urgência e emergência da obra da ponte, o prefeito Liberato Salzano Vieira da Cunha foi à capital federal para tentar convencer as autoridades sobre a importância da sua construção. Dessa visita resultaram as tratativas para a execução da obra.

Enquanto as negociações para a grande obra eram desenvolvidas sob a liderança do ministro Clóvis Pestana e do prefeito Liberato S. Vieira da Cunha, o hábil projetista Joaquim de Almeida Vidal construiu uma maquete da futura ponte, tendo a edição do Jornal do Povo de 7 de junho de 1949 estampado a sua fotografia, constando no texto: "Oxalá o Sr. Ministro tenha aproveitado da ideia para levar avante tão importante quão necessária obra".

Registro fotográfico III: maquete da ponte

Maquete da ponte feita por Joaquim Vidal - Museu Municipal

Como se vê, o projeto de Joaquim Vidal, à época diretor da Seção de Obras e Viação da Prefeitura Municipal, não foi o adotado. A obra foi entregue à empresa Brasília Obras Públicas S. A., com sede no Rio de Janeiro, e desenvolvida em conjunto com a francesa Societé de Construction des Batignolles, sediada em Paris. 



Folha avulsa com o projeto geral da ponte
- Acervo CACISC

A folha avulsa de uma publicação que chegou aos dias de hoje incompleta, traz estampado desenho em perspectiva da futura Barragem-Ponte do Fandango, com os dizeres: "A maior obra no gênero construída no Brasil. Seu custo está orçado em 100 milhões de Cruzeiros". 

A Barragem-Ponte do Fandango foi construída a dois quilômetros da cidade, sobre a Cachoeira do Fandango, constando ter sido projetada pelo engenheiro civil Pedro Viriato Parigot de Souza, que recebeu o título de Cidadão Cachoeirense em 1972. Segundo a Enciclopédia dos Municípios Brasileiros, de Jurandyr Pires Ferreira (1959), a obra em concreto e aço foi a primeira do gênero a ser construída no Brasil, utilizando tecnologia alemã. 

Registros fotográficos IV, V e VI: o canteiro de obras

IV - Vista aérea geral da obra - Coleção Claiton Nazar

Nas tomadas acima e abaixo, vê-se o canteiro de obras em foto aérea. Na parte de baixo de ambas as fotos, lado esquerdo, ainda é possível ver parte das cachoeiras existentes no local. As estruturas de sustentação  estavam sendo erguidas, podendo ser notadas barreiras de contenção das águas.

V - Coleção Noé Tischler


VI - Coleção Claiton Nazar

                       Registros fotográficos da estrutura que se ergue
                       Créditos das imagens VIII a XI, XII e XIV: Werner Becker, abril de 1957
                
VII - 1956 - VI Batalhão de Engenharia de Combate com a ponte ao fundo
- Coleção Ana Margarete Ferreira

VIII - abril de 1957 - Coleção Werner Becker

IX - Ao fundo, esquerda, as torres da Igreja Matriz



X

XI - Equipe de trabalhadores

XII: foto Alvino Friedrich

XIII


XIV - A torre de comando


A Ponte do Fandango tornou navegável o trecho de 63 km a montante para embarcações de até 1,80 metros de calado. Mas originalmente a proposta era ligar o Jacuí ao Ibicuí, proporcionando que as embarcações pudessem atingir, por meio de um canal, o rio Uruguai. Mas isso nunca aconteceu, sepultando uma oportunidade de desenvolvimento da navegação com importantíssimas consequências para a economia e a mobilidade regional.


XV - Vista aérea da Barragem-Ponte por volta de 1962
- Coleção Claiton Nazar



Desvendando a foto XV: nessa tomada é possível ver, no canto superior direito, a estradinha que passando pela várzea do Castagnino levava até a estrada que conduzia a Porto Alegre, uma vez que a saída da ponte não dava em lugar nenhum. O acesso definitivo só foi concluído por volta de 1966...

A Barragem-Ponte do Fandango está assentada sobre quatro pilares de concreto, distantes 60 metros entre si. No vão da margem esquerda, encontram-se a eclusa e o passe regulador constituído de alças metálicas.  A barragem, que é móvel, utiliza a estrutura metálica da ponte rodoviária como passarela para seus guindastes de madeira. No vão, junto à margem direita, está situado o vertedor fixo, constituído de um muro de concreto armado. Todas as partes móveis da barragem são comandadas hidráulica e eletricamente, sendo os comandos automáticos. A torre de comando, com 15 metros de altura, está situada a jusante, próxima ao pilar da margem esquerda. Os viadutos de concreto armado que dão acesso à ponte, por ambas as cabeceiras, foram planejados para o livre escoamento das águas durante as enchentes. 


Robispierre Giuliani