Espaços urbanos

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Ponte do Fandango - Robispierre Giuliani

domingo, 18 de julho de 2021

Desvendando uma foto centenária

Desvendar fotos é um desafio delicioso para quem trabalha com história, tarefa que por vezes se transforma em um verdadeiro quebra-cabeças, especialmente quando o distanciamento entre o tempo do registro e o momento da análise é maior.

Para começar, vivemos uma época em que ninguém mais imprime fotografias, pois muitos são os recursos de armazenamento de imagens. No entanto, ainda somos uma geração que pode acompanhar a própria evolução pessoal em fotos, álbuns, vídeos, sem contar a herança de registros fotográficos de antepassados. E, de quebra, ainda nos dar ao deleite de tentar decifrar o passado contido em velhas e desbotadas imagens...

Muitas vezes, ao observarmos fotos antigas, deparamo-nos com uma série de dúvidas relacionadas à data, ao local em que foi feita, ao evento, às pessoas envolvidas, questões postas pela inexistência  de anotações de quem viveu a situação retratada.

O recente falecimento do popularíssimo Marco Antônio Guidugli, figura querida da cidade, dono de uma memória privilegiada e de um tipo físico também marcante, despertou a atenção sobre uma fotografia que está prestes a completar 100 anos! Trata-se do registro feito no dia 20 de setembro de 1921, quando a Hidráulica Municipal foi inaugurada.

Figuras da cidade presentes à inauguração da Primeira Hidráulica
- foto Benjamin Camozato - Grande Álbum de Cachoeira

Na foto, muitos homens da Cachoeira de então, dentre os quais é possível identificar o Padre Luiz Scortegagna, Vigário da Igreja Matriz, o comerciante Nicolau Roos, Henrique Möller Filho, dono do jornal O Commercio, Ernesto Müller, Vice-Cônsul da Áustria e liderança da comunidade germânica, e dois meninos atrás dos quais está uma figura que lembra muito o Guidugli que há bem pouco tempo estava entre nós. O tipo físico, o trajar e até mesmo a maneira de se postar na foto fazem pensar que a figura bem poderia ser um antepassado dele. Aí começa o exercício que poderá, ou não, levar à identificação...

Marco Antônio Guidugli era filho de Umberto Atílio Guidugli que, por sua vez, era filho do italiano Francesco Guidugli, imigrante nascido na Toscana e casado com a italiana Assunta Tagliassachi, nascida em Pisa. No Brasil, tiveram o filho Umberto Atílio, em 1904, chamado de Eliseu pela mãe que não queria que o menino tivesse o nome do príncipe italiano assassinado*. Eliseu, por sua vez, casou-se com Suely Medeiros Pereira, sobrinha-neta de Borges de Medeiros. O casal teve dois filhos: Umberto Fernando e Marco Antônio, nascido em 10 de maio de 1947 e falecido em 5 de julho de 2021.

Francesco aparece com armazém na Rua Moron em 1902, anunciando no jornal O Commercio que estava se estabelecendo na Rua Sete de Setembro, no endereço em que funcionara a casa comercial de João Gerdau. Anos mais tarde, adquiriu terrenos na Rua Saldanha Marinho, instalando-se ali com seu negócio. Na mesma rua, muito tempo depois, o filho Eliseu abriu a sua tipografia que ficou famosa pela  edição das revistas Aquarela.

Voltemos à foto do dia 20 de setembro de 1921.  Poderia a figura semelhante ao já saudoso Guidugli ser o seu avô Francesco? 

Seria Francesco Guidugli?

A ata da inauguração da Hidráulica traz as assinaturas de muitas das pessoas que estiveram prestigiando o acontecimento. Nela não consta a assinatura de Francesco Guidugli, o que não pode ser tido como conclusivo.

Por enquanto, diante da impossibilidade de afirmar a identidade do homem retratado por Benjamin Camozato, fica a questão no ar e o gostoso exercício de adivinhação. Alguém pode me ajudar? 

* Umberto I, rei da Itália, assassinado em 29 de julho de 1900, em Monza, por Gaetano Bresci.

4 comentários:

  1. Adoro teu blog e como ele nos instiga a pensar!

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  2. Mirian,lá pelos anos 70 eu ia na tipografia do Sr. Eliseu Guidugli e mesmo com uma vaga lembrança, essa pessoa que instiga poder ser Francesco, pai do Eliseu e avô do Humberto e do Marco, ele tem sim o porte físico, especialmente, do Marco. E, pra falar a verdade, tem todo o jeito dos velhos imigrantes italianos. Eu ainda lembro que conheci uma senhora na década de
    80 de sobrenome "Guidugli", se não me engano era professora municipal.

    Parabéns pelo teu trabalho!

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