Espaços urbanos

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Pôr-do-sol no Jacuí - foto Ernani Marques

sexta-feira, 30 de janeiro de 2026

Série Antigas Fazendas de Cachoeira: Fazenda do Cedro

O blog inicia hoje nova série, desta feita tratando sobre antigas propriedades rurais da grande Cachoeira. A que inaugura a série é a Fazenda do Cedro, localizada na margem direita do rio Jacuí e à margem esquerda do arroio São Nicolau, propriedade de Leandro Ferreira Barbosa e outros. Nesta fazenda nasceu a grande liderança operária de Cachoeira do Sul - José Nicolau Barbosa, que considerava Leandro Barbosa seu pai adotivo. Mas esta é outra história. 

Conheceremos a Fazenda do Cedro através da descrição feita por um redator do jornal O Commercio, depois de visita à propriedade no distante ano de 1916.

Na tardinha de sábado, dia 12 de janeiro de 1916, o repórter do jornal, cujo nome não é citado, dirigiu-se à praia do Jacuí, onde foi recebido por Leandro Barbosa e Arthur Bastian em uma gasolina comandada pelo arrematante do passo, Eloy Lisbôa. Transposto o rio, todos seguiram em direção à fazenda em um carro posto à disposição pelo proprietário. O trajeto até a sede da fazenda ficava em torno de uma légua, trecho que precisava ser vencido antes do anoitecer.

Leandro Barbosa e Arthur Bastian acompanharam o carro em suas próprias montarias. O trajeto foi descrito como travessia por uma vasta planície de campo que margeava o Jacuí, depois da qual passaram a subir por declives "ora mais suaves, ora mais fortes", até que pouco antes do anoitecer avistaram uma colina em que se assentavam as principais edificações da propriedade.  A casa principal, vasta e espaçosa, era construída com frente para o Norte e em elevação que permitia uma vista privilegiada da região e de parte da cidade ao longe. Aos fundos dela, uma "quinta de árvores frutíferas. Laranjeiras comuns e de variedades selecionadas, umbigo, do céu, toranja, em número superior a 300 pés, pessegueiros de espécies diversas em grande quantidade, videiras, abundância de limoeiros com os seus frutos indispensáveis em casos de moléstia, bergamoteiras, etc."

Casa da sede da Fazenda do Cedro em tomada de Benjamin Camozato
- Grande Álbum de Cachoeira (1922)

Nas proximidades da casa, um grande cercado feito de tela de arame abrigava uma plantação de alfafa e outros pastos crescidos espontaneamente, onde havia fartura de pés de araçás, fortemente carregados, e de outras árvores silvestres, dentre as quais 100 mudas de pés de ipê, com os quais futuramente pretendiam fazer uma alameda à frente da casa.

Nos extremos Sul e Oeste do cercado, corria "um bambual espesso de um metro e mais de espessura, com alguns claros para a circulação do ar, produzindo uma fresca agradabilíssima." Naquele local acontecia o recreio da família, para o que existiam bancos para descanso e onde, à noite, habitualmente, reuniam-se as pessoas da casa para "fazer avenida", levando um lampião quando não havia luar.

O repórter registrou ter visto outras espécies vegetais, como ipê, cedro, angico, louro e "caroba, a preciosa planta medicinal". Avistou árvores ornamentais, como seis pés de eucaliptos das variedades citriodora, rostrata e outras que impregnavam "o ar com o agradável e penetrante aroma de suas folhas." Toda a cobertura vegetal era efeito da mão humana, pois outrora só havia campos.

Depois de uma noite de sono, "ao romper da aurora", erguidos do leito, aproveitaram o café, seguido por uma cavalgada pelos arredores na companhia do proprietário da fazenda. Leandro Barbosa contou que a propriedade tinha sido comprada em 1889 "do finado João Ferreira Barbosa ao também já falecido José Custódio Coelho Leal, naquele bom tempo em que uma légua de campo valia 30:000$000*, um novilho escolhido 12$500** e o gado de cria 5$000*** por cabeça." 

A propriedade tinha uma légua de superfície e por divisas naturais, ao Norte, o rio Jacuí, a Oeste, o arroio Capané e, a Leste, o arroio São Nicolau. Ao Sul, limitava com campos de Júlio Medeiros de Albuquerque e Capitão Francisco Gama. Eram os proprietários, à época, Carlinda de Barcellos Barbosa, viúva do casal adquirente, Leandro Barbosa, filho, e Branca Aydos Bastian, esposa de Arthur Bastian e neta do casal que, por falecimento de sua mãe, possuía um quarto de légua em usufruto.

Capitão Francisco Gama, um dos lindeiros - MMEL

No passeio, seguiram rumo Sul, "apreciando lavouras de milho e alguns exemplares de gado", dentre os quais um touro Holstein ferido por uma briga com um touro Hereford. Descendo por uma encosta, avistaram um lote de vacas, novilhas e terneiras holandesas, gado que conservava boas carnes todo ano "graças à excelência do campo e ao abrigo que, durante o inverno, fornecia o  mato próximo". Além do gado crioulo, bem conservado e em boas condições de gordura, era a raça holandesa a de maior quantidade, produtora de maior volume de leite do que a crioula. Porém, o leite da holandesa era menos gordo que o da vaca crioula.

Mais adiante, em um dos pontos mais elevados da fazenda, do qual se descortinava "um panorama esplêndido", ficava o "Cerrito", coberto de campo marcado por pedregulhos. Descendo novamente a várzea, chegaram ao "Capão do Cedro", que deu origem ao nome da fazenda. "Situado na encosta de uma colina, tinha uma grande quantidade de cedros e de outras árvores bem desenvolvidas", dando mostras de que "as florestas são as coletoras, conservadoras e purificadoras da água."

Internando-se pelo mato, à procura da melhor fonte de água da fazenda, viram a grande quantidade de vertentes "que rolavam as suas águas pelas descidas do terreno", tornando-se mais abundantes à medida que se aproximavam da fonte.  Dali seguiram para ver a criação de porcos Berkshire, "pequenos e grandes, em número de 80, todos encerrados em vasto compartimento cercado de tábuas e arame farpado, visto que o porco é um animal daninho". Os animais eram alimentados com farelo de arroz e a criação era em pequena escala, mais a título de experiência de negócio de Leandro Barbosa.

Já haviam percorrido duas léguas pela fazenda e o sol começava a esquentar, registrou o repórter. Por isto tomaram rumo da casa, passando ainda por lavouras de amendoim, melancias, melões, milho e feijão, trabalho de David Torres de Barcellos, mais conhecido por "Barcelão", "incansável perseguidor e inexorável assassino das formigas do sítio."

Antes de chegarem à casa, presenciaram "o sacrifício de uma linda e gorda novilha, laçada na mangueira e trazida para o campo. Depois de pealada, foram espichados os laços e o capataz, Sr. Lúcio Gonçalves, um homem que, a contento dos proprietários, ali exercia sua atividade há 26 anos, procedeu ao abate. A carne da novilha forneceu um churrasco superior.

Enquanto o repórter andou pelo campo com Leandro Barbosa, Arthur Bastian foi à margem do Jacuí, "trazendo no carrinho do estabelecimento" o proprietário do O Commercio, sua irmã Cristiana Möller e o sobrinho Pedro Müller que à hora do almoço sentaram-se à mesa, da qual também fizeram parte Leandro Barbosa e a esposa Rigoleta, Arthur Bastian, a esposa Branca e a filha Eulina, a senhorita Argélia Marques Pereira, David Torres de Barcellos e o noticiarista do jornal. Noutra mesa defronte, sentaram-se o menino Walmor Camozato e Maria de Lourdes, filha de Leandro Barbosa.

Walmor Camozato - Acervo familiar

No cardápio do almoço, carnes de novilha, carneiro, porco e galinha, tudo regado com a Cerveja Cachoeirense. "Apesar de já terem alguns comido uvas e outros melancias, o assalto à carne assada foi feito com excelente disposição."

Para fazerem a digestão, retiraram-se para a "Avenida dos Bambus", ocasião em que chegaram mais dois visitantes, os senhores Ramiro Ramos de Chaves e Benjamin Camozato, que ali passaram a noite de domingo. Benjamin Camozato "teve a lembrança de trazer uma pequena máquina fotográfica, tirando um grupo em que figuraram pessoas da casa e visitantes."

Benjamin Camozato - Acervo familiar

Registro feito por Benjamin Camozato e publicado no Grande Álbum de Cachoeira (1922)
- Seriam estas imagens as que foram coletadas em janeiro de 1916?
- A moça do medalhão (à esquerda, acima) é Maria de Lourdes, a filha de Leandro Barbosa?

Por fim, viram ainda "os estábulos das vacas leiteiras, galpões para abrigo dos touros de raça durante a estação invernosa e o grande açude, parte natural e parte artificial, existente a Oeste da casa, que tem canoa para excursões sobre as suas águas e constitui um dos mais aprazíveis pontos de recreio da fazenda."

Pelas 16h30, retornaram para a cidade, "a carro e a cavalo, trazendo as mais agradáveis recordações do esplêndido passeio."

Como se depreende da descrição apurada feita pelo redator de O Commercio, a Fazenda do Cedro era lugar de progresso para aqueles tempos, servindo este precioso registro para estabelecer as inevitáveis comparações com o tempo atual, demonstrando que os afazeres rurais tomaram rumos de progresso e abandono de práticas ancestrais, como o abate da novilha descrito pelo repórter. 

Preciosos são os arquivos que preservam o passado, permitindo ao presente uma incursão no tempo, nas práticas e nos costumes dos que nos antecederam. O acesso a tais registros oportuniza entender o passado e preparar melhor o futuro.

*30:000$000 = trinta contos de réis.

**12$500 = doze mil e quinhentos réis.

***5$000 = cinco mil réis.