O blog inicia hoje nova série, desta feita tratando sobre antigas propriedades rurais da grande Cachoeira. A que inaugura a série é a Fazenda do Cedro, localizada na margem direita do rio Jacuí e à margem esquerda do arroio São Nicolau, propriedade de Leandro Ferreira Barbosa e outros. Nesta fazenda nasceu a grande liderança operária de Cachoeira do Sul - José Nicolau Barbosa, que considerava Leandro Barbosa seu pai adotivo. Mas esta é outra história.
Conheceremos a Fazenda do Cedro através da descrição feita por um redator do jornal O Commercio, depois de visita à propriedade no distante ano de 1916.
Na tardinha de sábado, dia 12 de janeiro de 1916, o repórter do jornal, cujo nome não é citado, dirigiu-se à praia do Jacuí, onde foi recebido por Leandro Barbosa e Arthur Bastian em uma gasolina comandada pelo arrematante do passo, Eloy Lisbôa. Transposto o rio, todos seguiram em direção à fazenda em um carro posto à disposição pelo proprietário. O trajeto até a sede da fazenda ficava em torno de uma légua, trecho que precisava ser vencido antes do anoitecer.
Leandro Barbosa e Arthur Bastian acompanharam o carro em suas próprias montarias. O trajeto foi descrito como travessia por uma vasta planície de campo que margeava o Jacuí, depois da qual passaram a subir por declives "ora mais suaves, ora mais fortes", até que pouco antes do anoitecer avistaram uma colina em que se assentavam as principais edificações da propriedade. A casa principal, vasta e espaçosa, era construída com frente para o Norte e em elevação que permitia uma vista privilegiada da região e de parte da cidade ao longe. Aos fundos dela, uma "quinta de árvores frutíferas. Laranjeiras comuns e de variedades selecionadas, umbigo, do céu, toranja, em número superior a 300 pés, pessegueiros de espécies diversas em grande quantidade, videiras, abundância de limoeiros com os seus frutos indispensáveis em casos de moléstia, bergamoteiras, etc."
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| Casa da sede da Fazenda do Cedro em tomada de Benjamin Camozato - Grande Álbum de Cachoeira (1922) |
Nas proximidades da casa, um grande cercado feito de tela de arame abrigava uma plantação de alfafa e outros pastos crescidos espontaneamente, onde havia fartura de pés de araçás, fortemente carregados, e de outras árvores silvestres, dentre as quais 100 mudas de pés de ipê, com os quais futuramente pretendiam fazer uma alameda à frente da casa.
Nos extremos Sul e Oeste do cercado, corria "um bambual espesso de um metro e mais de espessura, com alguns claros para a circulação do ar, produzindo uma fresca agradabilíssima." Naquele local acontecia o recreio da família, para o que existiam bancos para descanso e onde, à noite, habitualmente, reuniam-se as pessoas da casa para "fazer avenida", levando um lampião quando não havia luar.
O repórter registrou ter visto outras espécies vegetais, como ipê, cedro, angico, louro e "caroba, a preciosa planta medicinal". Avistou árvores ornamentais, como seis pés de eucaliptos das variedades citriodora, rostrata e outras que impregnavam "o ar com o agradável e penetrante aroma de suas folhas." Toda a cobertura vegetal era efeito da mão humana, pois outrora só havia campos.
Depois de uma noite de sono, "ao romper da aurora", erguidos do leito, aproveitaram o café, seguido por uma cavalgada pelos arredores na companhia do proprietário da fazenda. Leandro Barbosa contou que a propriedade tinha sido comprada em 1889 "do finado João Ferreira Barbosa ao também já falecido José Custódio Coelho Leal, naquele bom tempo em que uma légua de campo valia 30:000$000*, um novilho escolhido 12$500** e o gado de cria 5$000*** por cabeça."
A propriedade tinha uma légua de superfície e por divisas naturais, ao Norte, o rio Jacuí, a Oeste, o arroio Capané e, a Leste, o arroio São Nicolau. Ao Sul, limitava com campos de Júlio Medeiros de Albuquerque e Capitão Francisco Gama. Eram os proprietários, à época, Carlinda de Barcellos Barbosa, viúva do casal adquirente, Leandro Barbosa, filho, e Branca Aydos Bastian, esposa de Arthur Bastian e neta do casal que, por falecimento de sua mãe, possuía um quarto de légua em usufruto.
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| Capitão Francisco Gama, um dos lindeiros - MMEL |
No passeio, seguiram rumo Sul, "apreciando lavouras de milho e alguns exemplares de gado", dentre os quais um touro Holstein ferido por uma briga com um touro Hereford. Descendo por uma encosta, avistaram um lote de vacas, novilhas e terneiras holandesas, gado que conservava boas carnes todo ano "graças à excelência do campo e ao abrigo que, durante o inverno, fornecia o mato próximo". Além do gado crioulo, bem conservado e em boas condições de gordura, era a raça holandesa a de maior quantidade, produtora de maior volume de leite do que a crioula. Porém, o leite da holandesa era menos gordo que o da vaca crioula.
Mais adiante, em um dos pontos mais elevados da fazenda, do qual se descortinava "um panorama esplêndido", ficava o "Cerrito", coberto de campo marcado por pedregulhos. Descendo novamente a várzea, chegaram ao "Capão do Cedro", que deu origem ao nome da fazenda. "Situado na encosta de uma colina, tinha uma grande quantidade de cedros e de outras árvores bem desenvolvidas", dando mostras de que "as florestas são as coletoras, conservadoras e purificadoras da água."
Internando-se pelo mato, à procura da melhor fonte de água da fazenda, viram a grande quantidade de vertentes "que rolavam as suas águas pelas descidas do terreno", tornando-se mais abundantes à medida que se aproximavam da fonte. Dali seguiram para ver a criação de porcos Berkshire, "pequenos e grandes, em número de 80, todos encerrados em vasto compartimento cercado de tábuas e arame farpado, visto que o porco é um animal daninho". Os animais eram alimentados com farelo de arroz e a criação era em pequena escala, mais a título de experiência de negócio de Leandro Barbosa.
Já haviam percorrido duas léguas pela fazenda e o sol começava a esquentar, registrou o repórter. Por isto tomaram rumo da casa, passando ainda por lavouras de amendoim, melancias, melões, milho e feijão, trabalho de David Torres de Barcellos, mais conhecido por "Barcelão", "incansável perseguidor e inexorável assassino das formigas do sítio."
Antes de chegarem à casa, presenciaram "o sacrifício de uma linda e gorda novilha, laçada na mangueira e trazida para o campo. Depois de pealada, foram espichados os laços e o capataz, Sr. Lúcio Gonçalves, um homem que, a contento dos proprietários, ali exercia sua atividade há 26 anos, procedeu ao abate. A carne da novilha forneceu um churrasco superior.
Enquanto o repórter andou pelo campo com Leandro Barbosa, Arthur Bastian foi à margem do Jacuí, "trazendo no carrinho do estabelecimento" o proprietário do O Commercio, sua irmã Cristiana Möller e o sobrinho Pedro Müller que à hora do almoço sentaram-se à mesa, da qual também fizeram parte Leandro Barbosa e a esposa Rigoleta, Arthur Bastian, a esposa Branca e a filha Eulina, a senhorita Argélia Marques Pereira, David Torres de Barcellos e o noticiarista do jornal. Noutra mesa defronte, sentaram-se o menino Walmor Camozato e Maria de Lourdes, filha de Leandro Barbosa.
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| Walmor Camozato - Acervo familiar |
No cardápio do almoço, carnes de novilha, carneiro, porco e galinha, tudo regado com a Cerveja Cachoeirense. "Apesar de já terem alguns comido uvas e outros melancias, o assalto à carne assada foi feito com excelente disposição."
Para fazerem a digestão, retiraram-se para a "Avenida dos Bambus", ocasião em que chegaram mais dois visitantes, os senhores Ramiro Ramos de Chaves e Benjamin Camozato, que ali passaram a noite de domingo. Benjamin Camozato "teve a lembrança de trazer uma pequena máquina fotográfica, tirando um grupo em que figuraram pessoas da casa e visitantes."
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| Benjamin Camozato - Acervo familiar |
Por fim, viram ainda "os estábulos das vacas leiteiras, galpões para abrigo dos touros de raça durante a estação invernosa e o grande açude, parte natural e parte artificial, existente a Oeste da casa, que tem canoa para excursões sobre as suas águas e constitui um dos mais aprazíveis pontos de recreio da fazenda."
Pelas 16h30, retornaram para a cidade, "a carro e a cavalo, trazendo as mais agradáveis recordações do esplêndido passeio."
Como se depreende da descrição apurada feita pelo redator de O Commercio, a Fazenda do Cedro era lugar de progresso para aqueles tempos, servindo este precioso registro para estabelecer as inevitáveis comparações com o tempo atual, demonstrando que os afazeres rurais tomaram rumos de progresso e abandono de práticas ancestrais, como o abate da novilha descrito pelo repórter.
Preciosos são os arquivos que preservam o passado, permitindo ao presente uma incursão no tempo, nas práticas e nos costumes dos que nos antecederam. O acesso a tais registros oportuniza entender o passado e preparar melhor o futuro.
*30:000$000 = trinta contos de réis.
**12$500 = doze mil e quinhentos réis.
***5$000 = cinco mil réis.





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