Espaços urbanos

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Pôr-do-sol no Jacuí - foto Ernani Marques

quarta-feira, 8 de setembro de 2021

Ataque assassino na Igreja Matriz

Em 8 de setembro de 1860, segundo dia de instalação da mesa eleitoral que procederia a eleições na Cidade da Cachoeira, integrada pelos cidadãos José Gomes Portinho, Antônio Vicente da Fontoura, Hilário Pereira Fortes, José Pereira da Silva Goulart e Tristão da Cunha e Souza, estavam sendo chamados e qualificados os eleitores para depositarem seus votos na urna. Presidia a mesa eleitoral o juiz de paz Tristão da Cunha e Souza. Os demais integrantes eram representantes dos dois partidos que disputavam o pleito: Santa Luzia, do Comendador Antônio Vicente da Fontoura e Brigadeiro José Gomes Portinho, e o Saquarema, representado pelo médico José Pereira da Silva Goulart e pelo Coronel Hilário Pereira Fortes.

Antônio Vicente da Fontoura, sentado à mesa, identificava e registrava os votantes em uma lista. Esta era a prática utilizada, uma vez que não havia ainda os documentos individuais de identificação dos eleitores. 


Comendador Antônio Vicente da Fontoura
- Museu Municipal

Cabia à mesa eleitoral o reconhecimento do eleitor e a consequente autorização para que procedesse à votação. Algumas vezes, por divergências ou desconhecimento da figura que se apresentava, havia impedimentos de voto. E nesse dia 8, justamente quando houve dúvida a respeito da identidade de um dos eleitores, com alguma discussão e posterior concessão do direito de voto, é que três tiros foram ouvidos, tendo como alvo José Gomes Portinho que, ileso, subiu à mesa para exigir a ordem. Os tiros, provavelmente, foram dados para distrair os presentes e dar oportunidade para que um homem, passando por baixo da mesa, ferisse o Comendador Fontoura com objeto cortante. Apunhalado, o Comendador ainda recebeu bengaladas na cabeça. Tais agressões acabaram por provocar-lhe a morte em 20 de outubro de 1860, certamente com atroz sofrimento.

O crime contra Antônio Vicente da Fontoura desencadeou um processo judicial com grande repercussão.

Em 20 de setembro, um mês antes do falecimento do Comendador, foram à sua casa entrevistá-lo sobre o atentado o Chefe de Polícia da Província, Dr. Eduardo Pindahiba de Mattos, acompanhado do escrivão João Henrique Froes e das testemunhas Dr. Pedro Baylet e João José de Leão. Encontraram o Comendador na cama, sendo ele inquirido pelo Dr. Eduardo. Obtiveram dele as seguintes informações: que ao ser ferido levantou-se de onde estava sentado e avistou o "preto conhecido por Manoel Pequeno", acreditando ter partido dele os ferimentos, apesar de não ter reparado que portasse faca em suas mãos. Quanto às cacetadas na cabeça, não sabia informar de quem tinham partido, pois se achava "todo banhado em sangue". Perguntado se julgava ter o atentado sido premeditado, respondeu que era o que parecia, atribuindo-o "a inimizades políticas". No entanto, sem acusar, o Comendador contou ter ouvido do Coronel Hilário, do Dr. Goulart e de Felisberto Ourique, do partido contrário ao seu, que venceriam "a eleição a todo custo", além de ter sido alertado na véspera que não fosse à Igreja porque morreria. Ao final da conversa, foi apresentada ao Chefe de Polícia a roupa que o Comendador usava no dia do crime, constatando a autoridade a grande quantidade de sangue e os sinais da facada no tecido.

Manoel Pequeno foi condenado às galés perpétuas. Os mandantes seguiram suas vidas. As divergências da política, acirradas durante a Revolução Farroupilha, encerrada 15 anos antes, conseguiram produzir uma importante vítima.

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Para saber mais: obra A Morte do Comendador  - Eleições, Crimes Políticos e Honra (Antonio Vicente da Fontoura, Cachoeira, RS, 1860), de Paulo Roberto Staudt Moreira, José Iran Ribeiro e Miquéias Henrique Mugge. Editora Unisinos e Oikos Ltda., São Leopoldo, 2016.

domingo, 8 de agosto de 2021

A Escola de Música de Cachoeira

Cachoeira é uma cidade musical e muitas podem ser as razões dessa musicalidade. Uma delas certamente foi uma iniciativa levada a efeito há 100 anos: a fundação do Conservatório de Música de Cachoeira.

Em meados de abril de 1921, o intendente Aníbal Lopes Loureiro recebeu o pianista Guilherme Fontainha, diretor artístico do Centro de Cultura Artística do Rio Grande do Sul. Sob sua eficiente administração, foram criados conservatórios de música em várias cidades do Rio Grande do Sul, Cachoeira uma delas. A iniciativa visava a interiorização da cultura artística, projeto idealizado por ele em parceria com o bandolinista italiano José Corsi.

Guilherme Fontainha - www.institutopianobrasileiro.com.br

O jornal O Commercio de 27 de abril de 1921 noticiou que o maestro Fontainha, diretor do Conservatório de Música de Porto Alegre, encontrou-se com o intendente de Cachoeira para incentivá-lo à criação de um conservatório na cidade, onde "além de outras vantagens, se ministrará o ensino pela escola moderna, a exemplo do que se tem feito em outros municípios". As negociações entre o intendente e Guilherme Fontainha acertaram que a Intendência iria alugar e mobiliar um prédio apropriado e, com brevidade, chegaria uma professora diplomada para lecionar e dirigir o conservatório.

O Commercio conclui a notícia dizendo: "Folgamos em registrar esta notícia, pois a fundação de tal escola muito contribuirá para difundir entre nós o ensino da arte musical pelos modernos processos".

João Neves da Fontoura, presidente do Clube Renascença, entusiasta da ideia, cedeu dependências da entidade para nelas funcionar a Escola de Música até que a Intendência providenciasse outro local apropriado e devidamente equipado.

No início de maio de 1921, assumiu a direção da escola a senhorita Laura Silva, pianista diplomada. Hospedada na residência de Francisco Timóteo da Cunha, na Rua Sete de Setembro n.º 215, Laura Silva passou a receber lá as matrículas dos interessados.

Casa de Francisco Timóteo da Cunha (com a charrete em frente) - Museu Municipal

No ato da matrícula, os alunos eram informados dos regulamentos da escola, dentre os quais destacavam-se as finalidades: "a difusão de uma verdadeira cultura musical, acessível à mocidade e com recursos relativamente módicos; preparar os candidatos a exames e ao professorado; formar bons musicistas e elevar o diletantismo à perfeição". Como se vê, o propósito era formar músicos qualificados e aptos a replicarem o seu conhecimento. Ação como essa foi fundamental para impulsionar o talento que havia em boa quantidade na Cachoeira do início do século XX.

No programa da escola seriam lecionadas as matérias desenvolvidas nos "mais acreditados estabelecimentos musicais da América do Sul". Não havia limite de idade à inscrição e a obtenção de diploma exigia o cumprimento de requisitos, sendo os exames para sua obtenção feitos por "maestro ou pessoa competente, estranha à escola".

No dia 10 de junho de 1921, sediada no Clube Renascença, foi oficialmente inaugurada a Escola Musical de Cachoeira. A notícia dada pelo O Commercio em 13 de junho dá a dimensão do acontecimento:

Sede do Clube Renascença, local de funcionamento da Escola Musical - foto Benjamin Camozato

"Domingo último, às 14 horas, em o edifício sito à Rua Sete de Setembro nº 92, onde funcionou a Associação Comercial, realizou-se a inauguração da Escola Musical, fundada nesta cidade sob o patrocínio do “Centro de Cultura Artística”, de Porto Alegre. Presentes as autoridades municipais, estaduais e federais, representantes da imprensa e do clero, exmas. senhoras e senhoritas, e os elementos mais representativos da sociedade cachoeirense, tomou a palavra o Sr. Dr. Aníbal Lopes Loureiro, que declarou inaugurada a Escola Musical, concedendo a palavra ao orador oficial, Dr. Minuano de Moura, depois de se congratular com os presentes pela fundação de tão importante estabelecimento.

Em seguida, o Dr. Minuano de Moura, tomando a palavra, discorreu brilhantemente sobre a arte, encarando-a sob todos os seus aspectos, e finalizou com o incentivo ao culto da arte do trabalho, fazendo votos para que a Escola que ora se inaugurava, sob a direção dos professores José Corsi e Guilherme Fontainha, se afirmasse em Cachoeira, onde vicejavam as mais belas flores da arte.

As últimas palavras do orador foram acolhidas com uma estrepitosa salva de palmas. Logo após, foi dado início ao concerto, onde a distinta virtuose Laura Silva, professora da Escola Musical, deu apenas uma pálida ideia de seu gênio, interpretando, com admirável maestria, acompanhada pelo professor Maurice Maissiat, Chopin, Gounod, Liszt e outros autores de nomeada.

Esse magnífico concerto produziu excelente impressão ao seleto auditório, sendo os seus intérpretes fartamente aplaudidos em todos os números que constituíam o programa. Findo o concerto, o Dr. Aníbal Loureiro tomou a palavra, encerrando a sessão inaugural da Escola, tendo sido lavrada uma ata.

A professora Laura Silva e o professor Maurice Maissiat foram muito felicitados pela feliz interpretação que souberam dar ao programa do concerto.

Como acima ficou dito, a Escola Musical funcionará à Rua Sete de Setembro, tendo sido o mobiliário desse estabelecimento, do valor de 2:000$000, cedido pela Intendência. A municipalidade contribui, ainda, com o aluguel do prédio onde funciona a Escola, por cuja manutenção e prosperidade fazemos ardentes votos.

O revmo. Padre Vicente da Cruz Trovisqueira, após o discurso oficial, lançou a bênção à Escola Musical".

Professor e musicista Maurice Maissiat 
com a esposa cachoeirense - Coleção Flávio Silva

A Escola de Música, também chamada de Conservatório de Música, não teve vida longa, mas suficiente para formar musicistas que seguiram carreiras de sucesso. Dentre eles, a pianista Rita de Cássia Fernandes Barbosa, depois fundadora da Escola Municipal de Belas Artes. Graças também ao funcionamento da escola, Cachoeira acolheu o pianista cearense Souto Menor, que a dirigiu por bom tempo. 

Pianista Rita de Cássia F. Barbosa

Anúncio da Escola Musical n'O Commercio, 20/7/1921
- Arquivo Histórico


Como se vê, o traço cultural da musicalidade também tem raiz histórica de iniciação formal. Os frequentadores da Escola Musical seguiram replicando as lições, fazendo jus à finalidade precípua de "formar bons musicistas e elevar o diletantismo* à perfeição". Ambiente tão propício à música também foi capaz de atrair para a cidade artistas vindos dos mais diferentes lugares, abrindo espaço também para que muitos deles aqui se radicassem e exercessem os seus dons. Está explicada em boa parte a  tradição musical de Cachoeira e provado eficiente o projeto de Guilherme Fontainha e José Corsi.

*gosto acentuado pelas artes, especialmente pela música.

Dedico esta postagem à memória do musicista cachoeirense Flávio Silva, com quem descobri muito sobre a música em Cachoeira.

domingo, 18 de julho de 2021

Desvendando uma foto centenária

Desvendar fotos é um desafio delicioso para quem trabalha com história, tarefa que por vezes se transforma em um verdadeiro quebra-cabeças, especialmente quando o distanciamento entre o tempo do registro e o momento da análise é maior.

Para começar, vivemos uma época em que ninguém mais imprime fotografias, pois muitos são os recursos de armazenamento de imagens. No entanto, ainda somos uma geração que pode acompanhar a própria evolução pessoal em fotos, álbuns, vídeos, sem contar a herança de registros fotográficos de antepassados. E, de quebra, ainda nos dar ao deleite de tentar decifrar o passado contido em velhas e desbotadas imagens...

Muitas vezes, ao observarmos fotos antigas, deparamo-nos com uma série de dúvidas relacionadas à data, ao local em que foi feita, ao evento, às pessoas envolvidas, questões postas pela inexistência  de anotações de quem viveu a situação retratada.

O recente falecimento do popularíssimo Marco Antônio Guidugli, figura querida da cidade, dono de uma memória privilegiada e de um tipo físico também marcante, despertou a atenção sobre uma fotografia que está prestes a completar 100 anos! Trata-se do registro feito no dia 20 de setembro de 1921, quando a Hidráulica Municipal foi inaugurada.

Figuras da cidade presentes à inauguração da Primeira Hidráulica
- foto Benjamin Camozato - Grande Álbum de Cachoeira

Na foto, muitos homens da Cachoeira de então, dentre os quais é possível identificar o Padre Luiz Scortegagna, Vigário da Igreja Matriz, o comerciante Nicolau Roos, Henrique Möller Filho, dono do jornal O Commercio, Ernesto Müller, Vice-Cônsul da Áustria e liderança da comunidade germânica, e dois meninos atrás dos quais está uma figura que lembra muito o Guidugli que há bem pouco tempo estava entre nós. O tipo físico, o trajar e até mesmo a maneira de se postar na foto fazem pensar que a figura bem poderia ser um antepassado dele. Aí começa o exercício que poderá, ou não, levar à identificação...

Marco Antônio Guidugli era filho de Umberto Atílio Guidugli que, por sua vez, era filho do italiano Francesco Guidugli, imigrante nascido na Toscana e casado com a italiana Assunta Tagliassachi, nascida em Pisa. No Brasil, tiveram o filho Umberto Atílio, em 1904, chamado de Eliseu pela mãe que não queria que o menino tivesse o nome do príncipe italiano assassinado*. Eliseu, por sua vez, casou-se com Suely Medeiros Pereira, sobrinha-neta de Borges de Medeiros. O casal teve dois filhos: Umberto Fernando e Marco Antônio, nascido em 10 de maio de 1947 e falecido em 5 de julho de 2021.

Francesco aparece com armazém na Rua Moron em 1902, anunciando no jornal O Commercio que estava se estabelecendo na Rua Sete de Setembro, no endereço em que funcionara a casa comercial de João Gerdau. Anos mais tarde, adquiriu terrenos na Rua Saldanha Marinho, instalando-se ali com seu negócio. Na mesma rua, muito tempo depois, o filho Eliseu abriu a sua tipografia que ficou famosa pela  edição das revistas Aquarela.

Voltemos à foto do dia 20 de setembro de 1921.  Poderia a figura semelhante ao já saudoso Guidugli ser o seu avô Francesco? 

Seria Francesco Guidugli?

A ata da inauguração da Hidráulica traz as assinaturas de muitas das pessoas que estiveram prestigiando o acontecimento. Nela não consta a assinatura de Francesco Guidugli, o que não pode ser tido como conclusivo.

Por enquanto, diante da impossibilidade de afirmar a identidade do homem retratado por Benjamin Camozato, fica a questão no ar e o gostoso exercício de adivinhação. Alguém pode me ajudar? 

* Umberto I, rei da Itália, assassinado em 29 de julho de 1900, em Monza, por Gaetano Bresci.

domingo, 13 de junho de 2021

Uma igreja para o "Santo Casamenteiro"

"Ó gentil e amoroso Santo Antônio, cujo coração foi sempre cheio de simpatia humana, sussurra a minha petição aos doces ouvidos do Menino Jesus, que gostava de estar em seus braços. A gratidão do meu coração será sempre sua. Amém." 

O dia 13 de junho é dedicado a Santo Antônio, cuja devoção se traduz bastante antiga em Cachoeira. Cultuá-lo, muito antes de ser em razão de sua fama de "santo casamenteiro", se relaciona com a nossa raiz histórica portuguesa. Da mesma forma que herdamos dos nossos fundadores o culto à Imaculada Conceição, a padroeira de Portugal, rendemos preces ao santo que nasceu em Lisboa a 15 de agosto de 1195.


Santo Antônio - Robispierre Giuliani

Santo Antônio nasceu Fernando de Bulhões, nome substituído durante a sua formação religiosa na Ordem dos Cônegos Regrantes de Santo Agostinho. Sua dedicação à doutrina fez dele um estudioso e grande teólogo que foi postumamente reconhecido pelo Papa Pio XII com o título de Doutor da Igreja (1946).

A primeira homenagem oficial a Santo Antônio, em Cachoeira, foi a denominação, em 1858, de uma das principais ruas da Vila Nova de São João da Cachoeira, e uma das mais antigas, popularmente conhecida como Rua dos Cachorros. Nessa antiga rua possuíam terrenos dois vultos da história da instalação da Vila, os vereadores Francisco José da Silva Moura, português de nascimento, Joaquim Gomes Pereira, e o médico José Afonso Pereira, proprietário da casa em que D. Pedro II foi hospedado em 1846.


Cartão-postal da Rua Saldanha Marinho - Museu Municipal


Francisco José da Silva Moura possuía dois terrenos na Rua de Santo Antônio, um deles concedido em 1820. Seria ele devoto do santo português, seu conterrâneo, influenciando assim na denominação da rua?

A Rua de Santo Antônio não conservou este nome, passando a se chamar Rua Saldanha Marinho ainda no final do século XIX.

Na década de 1920, quando os padres redentoristas chegaram em Cachoeira com a disposição de aqui instalarem um convento e uma igreja, foram obsequiados com a concessão de um terreno junto ao Potreiro dos Fialho. A doação foi feita por Antoninha Fialho com a condição de que a igreja a ser erguida homenageasse a Santo Antônio. E assim foi feito. A igreja foi inaugurada em outubro de 1937, o local passou a ser conhecido como Bairro Fialho depois que os herdeiros de Antoninha estabeleceram um loteamento e, finalmente, como Bairro Santo Antônio. 


Construção da Igreja Santo Antônio - Museu Municipal

O "santo casamenteiro" ganhou um templo que é uma das mais ricas pérolas da arquitetura sacra de Cachoeira do Sul, projeto do arquiteto e artista alemão José Lutzenberger, e inventariada como patrimônio histórico-cultural.


Detalhe da Igreja Santo Antônio 
- Robispierre Giuliani


Torres da Igreja Santo Antônio - Renato Thomsen