Cachoeira de outros tempos

Cachoeira de outros tempos
Rua 7 de Setembro com Banco da Província ao fundo (~1928) - MMEL - Modificado por IA - Renato Thomsen

domingo, 5 de outubro de 2014

Velocidade dos automóveis em 1913

Rua 7 de Setembro - foto Jorge Ritter
Cachoeira vive hoje uma verdadeira “invasão” de automóveis em suas ruas. Faltam vagas para estacionamento, sobram reclamações de motoristas e pedestres com as questões de mobilidade urbana.

Rua David Barcelos - foto Dimi Machado
Mesmo acostumados aos automóveis e reconhecendo neles a utilidade que têm para a vida moderna, não nos furtamos a reações de estranheza com os problemas que surgem de sua utilização indiscriminada. Os moradores da Cachoeira do século passado, desacostumados à novidade, além de estranhar, temiam os primeiros automóveis que por aqui apareceram.

No jornal O Commercio (1900 – 1966), excelente fonte para vasculhar o passado da cidade, na edição do dia 1.º de agosto de 1913, há uma notícia que mostra o quanto os primeiros “bólidos” estavam causando preocupação:

“Nos últimos dias vários chauffeurs vêm cometendo o abuso de andar a toda velocidade pela Rua 7 de Setembro e por outros pontos movimentados da cidade. Aos domingos, em que muitas famílias passeiam de auto, certos chauffeurs dão-se ao luxo de efetuar corridas de velocidade no caminho do Amorim, felizmente pouco transitado, e pela Rua Júlio de Castilhos, uma das mais frequentadas da cidade. Ainda à tarde de domingo penúltimo tivemos ocasião de observar como dois chauffeurs tocaram os seus autos a sete pontos pela Rua Júlio de Castilhos, cada um na ânsia de tomar a dianteira. Para este fato chamamos a atenção do Sr. Capitão João Luiz Pinheiro, ativo subintendente da sede, esperando que S. S. dê um paradeiro a tal abuso antes que tenhamos a registrar alguma desgraça.”

Rua 7 de Setembro no primeiro quartel do século XX
- Fototeca Museu Municipal -
Rua Júlio de Castilhos em imagem posterior a 1913
- Fototeca Museu Municipal - 
Caso o jornalista que redigiu o texto acima entrasse na máquina do tempo, o que diria dos bólidos que paulatinamente foram tomando a cidade?

Rua 7 de Setembro - década de 1930
- Acervo Dr. Fritz Strohschoen -

sexta-feira, 26 de setembro de 2014

Série Lojas do Passado: I. Neves & Companhia

O poderoso Cel. Isidoro Neves da Fontoura, nome forte na política cachoeirense do final do século XIX e início do século XX, também era homem de negócios muito respeitado. Além dos empreendimentos agrícolas e industriais, também teve atuação marcada no comércio.

Cel. Isidoro Neves da Fontoura

A I. Neves & Companhia era um grande armazém de secos e molhados, fazendas, louças e miudezas de sua propriedade. Oferecia roupa pronta, como as então famosas e legítimas camisas Jaeger, chapéus e sabonetes em barra e em caixas. Mantinha ainda um estoque de variadas marcas de máquinas de costura, tanto de pé quanto de mão.

Armazém de I. Neves & Cia.
- Rua Sete de Setembro - fototeca Museu Municipal
Jornal Rio Grande, janeiro de 1908
- acervo Arquivo Histórico
O armazém estava localizado em lugar nobre da Rua Sete de Setembro, esquina com a atual General Portinho, e ocupava um casarão antigo que depois foi destruído, dando lugar ao prédio hoje ocupado por uma farmácia.


À esquerda, 1.º plano, o local onde outrora estava o Armazém de I. Neves & Cia.
- foto Claiton Nazar - 
Agradecimento à historiadora Ione M. Sanmartin Carlos, que corrigiu a esquina anteriormente publicada.

sexta-feira, 19 de setembro de 2014

Hospital de Caridade - mais histórias dos 111 anos de história

Como sabemos, o Hospital de Caridade nasceu da união comunitária. O advogado Ernesto Barros, utilizando-se das páginas do jornal O Commercio, fez um "Apelo aos corações generosos", dando início a uma subscrição popular que arrecadou recursos para a tão almejada e necessária obra.

Prédio do 1.º Hospital - acervo COMPAHC

Em 8 de agosto de 1906, quatro anos antes da concretização do sonho dos cachoeirenses, o Vice-Intendente e médico Dr. Cândido Alves Machado de Freitas, um dos grandes entusiastas da causa, enviou uma carta ao citado jornal dando conta do montante que até então havia sido levantado em prol do Hospital, 771$710 réis, e a longa relação dos primeiros contribuintes. Chama atenção o engajamento das pessoas, pois muitas delas ofereciam seus serviços ao invés de dinheiro, o que por si só demonstra a importância da causa. As doações em dinheiro são dos mais variados valores, o que confirma que a campanha atingiu as diferentes camadas sociais da cidade.

Segue a relação dos primeiros contribuintes que participaram com doação de materiais ou serviços:
- Epaminondas Barcellos - 10.000 tijolos
- Augusto Wilhelm - mão-de-obra para todo o vigamento
- Manoel Gomes Pereira, construtor, uma semana de serviço com todo seu pessoal na colocação da pedra fundamental e na construção do edifício
- Higyno Livi, construtor, vinte dias de serviços de pedreiro
- Antonio Marques Ribeiro - 200 pipas d'água
- José Sebastião Vieira da Cunha - 2.000 telhas
- Francisco Teixeira Guimarães - obriga-se pela pintura do edifício
- José Leopoldino Marques - 30 dias de serviço no assoalho ou forro
- Frederico Wilhelm - em serviços de carpinteiro e esquadrias
- Ignacio Loureiro - toda a pedra que for necessária para os alicerces
- Antonio Thomaz da Fontoura - 10 carradas de areia
- José Franco de Azevedo - 10 carradas de areia
- Miguel Thomaz da F. Sobrinho - 5 carradas de areia
- Manoel Marques da Silveira - 2.000 tijolos
- Alfredo Souto - 1.000 telhas
- Miguel Paiva - feitio da porta principal do edifício
- Laureano Araujo - caiação da parte de dentro do edifício
- O Commercio - 1.000 envelopes e 1.000 circulares
- Julio Peixoto - escritura da compra do terreno para o Hospital
- Carlos Barros - obriga-se pelo valor de uma rês bem gorda
- André Bello de Castro - a importância de um documento a receber
- Galvão Alvares de Abreu - colchões e cobertores precisos
- Claudiano Moura - colchas e lençóis necessários
         Em outra oportunidade, será publicada a relação dos primeiros contribuintes em dinheiro.

domingo, 14 de setembro de 2014

Buena-dicha*

Marcelo Gama, cuja trajetória curta de vida foi marcada pelas emoções postas em versos, inspira-nos nesta quase primavera, revivendo no poema publicado n’O Commercio, de 24 de março de 1915, um soneto que combina com os dias floridos que já se anunciam, revivendo uma prática que os tempos de hoje não têm mais...


Espécie de malmequer - Parque Witeck - foto Henrique Witeck


Buena Dicha

Mal surge o dia, para os montes sigo,
a consultar agrestes malmequeres,
que se os segredos sabem das mulheres,
podem dizer-me se és cruel comigo.

E ansioso por saber se tu me queres,
- mal-me-quer, bem-me-quer – baixinho digo,
mas os desfolho em vão, que não consigo
um só dos que se chamam bem-me-queres.

Malmequeres são todos. Entretanto,
quando os teus olhos fito, cariciosos,
torna-se em risos o que fora pranto,

em mar de rosas o que fora escolhos!
Dize-me tu quais são os mentirosos:
- Os malmequeres ou teus lindos olhos!

* Buena-dicha: (do espanhol buena dicha) boa sorte, fortuna, sina.