Cachoeira de outros tempos

Cachoeira de outros tempos
Rua 7 de Setembro com Banco da Província ao fundo (~1928) - MMEL - Modificado por IA - Renato Thomsen

sábado, 20 de junho de 2015

Série Lojas do Passado: Casa das Sombrinhas

Os chapéus já foram acessórios imprescindíveis na indumentária de homens e mulheres. Itens de elegância, eles compunham obrigatoriamente os trajes em diferentes épocas.

Na Cachoeira dos anos 1920, quando o uso do chapéu era imperativo, uma viúva – Bertha Keil Fuentefria – fez deste acessório o seu negócio e fundou uma casa que até hoje é lembrada por muitos cachoeirenses: Casa das Sombrinhas.

Bertha Keil Fuentefria
- acervo familiar

Bertha, que se casou em Cachoeira com o espanhol José Fuentefria, morava em Bagé. Ao ficar viúva, em abril de 1919, voltou para Cachoeira com os filhos Henrique, Esperança, Severino e Carlos. Para prover o sustento da família, instalou uma pequena casa de comércio onde consertava e comercializava sombrinhas, miudezas e também fabricava chapéus de sol.

Em anúncio publicado no jornal O Comércio do dia 7 de dezembro de 1921, intitulado Fábrica de Chapéus de Sol, Bertha K. Fuentefria avisava a freguesia que tinha recebido sortimento de formas de chapéus para senhoras, senhoritas e meninas, para todos os preços e gostos. Aceitava chapéus para reformar e tingir. O endereço anunciado ficava na Rua Júlio de Castilhos número 66.

Bertha casou-se novamente, com Pascoal Castelló. Em 1929, Castelló ampliou os negócios da Casa das Sombrinhas, comercializando artigos de malha, lã, algodão, sombrinhas e chapéus. Lá por 1932, o filho Severino assumiu a loja e aumentou as instalações, passando a fabricar camisas com a marca Licorne.

Na década de 1943, Severino Fuentefria & Cia. anexou à seção masculina da Casa das Sombrinhas uma alfaiataria e passou a ser distribuidor exclusivo das casimiras Adriáticas. Por esta época, contratou o profissional Leopoldo Hübner para contramestre e dirigente da alfaiataria. Em 1959, Severino admitiu na loja um menino de 13 anos que depois se tornou reconhecido no ramo da moda: Roberto Raifone.

Com a mudança de Severino Fuentefria para Porto Alegre, no ano de 1969, a Casa das Sombrinhas deixou de existir.

quarta-feira, 27 de maio de 2015

Festas do Divino Espírito Santo

As festas religiosas devotadas ao Divino Espírito Santo são uma tradição portuguesa e se mantêm com força ainda em muitas cidades brasileiras.

Em Cachoeira, a imprensa registra a grandiosidade destas festas no começo do século XX. No século anterior, a julgar pela construção do Império, por volta de 1855, eram bastante concorridas, mantendo o ritual da escolha de um imperador, geralmente um menino, para presidi-las. O imperador era coroado e trajava vestes semelhantes às de um monarca, dispondo de uma corte para lhe servir.

À direita, prédio do Império do Divino
- fototeca Museu Municipal

As festas locais tinham variado programa, incluindo novenas, procissões, leilões, quermesses e folguedos para a população em geral. Um dos seus destaques  eram as procissões de peditório, quando fieis percorriam ruas e até mesmo propriedades na zona rural portando bandeiras do Divino Espírito Santo e solicitando dos proprietários donativos para os mais pobres.

Modelo de bandeira do Divino
- natividade.org
Em 21 de maio de 1902, O Commercio registrou para a posteridade os versos que os pedintes recitavam em seu percurso com as bandeiras:

Passa a bandeira toda enfeitada,
Cheia de flores, cheia de fita;
Vai pelas ruas acompanhada
Por muitas moças... moças bonitas.

Muitos festejos, muita poesia,
Muitos foguetes sobem aos ares,
Loiros rapazes com fidalguia
Lançam às moças ternos olhares.

Vai a pombinha cheia de encantos
Vão os devotos cheios da fé;
Nenhum garoto zomba dos santos,
Nenhum velhote toma rapé.

Passa a bandeira, descem uma lomba,
Entra na igreja, sobe um degrau:
Todos os velhos beijam a pomba,
Todas as velhas beijam o pau.

domingo, 10 de maio de 2015

Mãe Intelectual do Povo Cachoeirense


O segundo domingo do mês de maio, dedicado às mães, traz à memória uma ilustre mulher cachoeirense que não foi mãe na acepção primeira da palavra, mas que recebeu o título de “Mãe intelectual do povo cachoeirense”.

Esta mulher, perdida na bruma do tempo, somente é lembrada pelo nome que dá a uma importante escola. E foi responsável pela formação de centenas de crianças e jovens. Seu nome: Cândida Fortes Brandão.

Cândida Fortes Brandão - fototeca Museu Municipal

Diplomada pela Escola Normal de Porto Alegre, Cândida Brandão era grande conhecedora da pedagogia vigente e lecionava com segurança as matérias que constavam do currículo ministrado na virada do século XIX para XX. Austera, como ditavam as regras de seu tempo, ganhou grande popularidade e respeito pelas orientações e conselhos que publicava com regularidade nas páginas dos jornais locais O Comércio e Rio Grande.
 
A imprensa não era, no início dos anos 1900, um espaço para mulheres e, neste sentido, Cândida foi uma precursora. E mais do que isto, ela costumava abordar assuntos delicados para aqueles tempos e que exigiam dela coragem e muito discernimento na hora da reação dos leitores. E havia também a Cândida poetisa, ficcionista e crítica de literatura.

Este conjunto de predicados incomuns às mulheres de seu tempo, bem como a grande erudição que demonstrava fizeram que a escritora Júlia Lopes de Almeida qualificasse Cândida Fortes Brandão como “Mãe intelectual do povo cachoeirense”.

Esta mulher não foi mãe, mas foi a primeira de uma legião de outras que, movidas pelo conhecimento e reconhecida capacidade, deixaram contribuição inequívoca para a intelectualidade cachoeirense.

domingo, 26 de abril de 2015

Cachoeira ou Itupeva?

Em 26 de abril de 1819, D. João VI mandou expedir o alvará que criou a Vila Nova de São João da Cachoeira, desmembrando de Rio Pardo a então Freguesia de Nossa Senhora da Conceição da Cachoeira. Este alvará, que tinha força de lei, deu início ao processo que se concretizaria em 5 de agosto de 1820, quando foi instalado o novo município.

A história de Cachoeira registra os diversos nomes que o local teve, começando pelo que se dava ao tempo em que a capela de São Nicolau, na Aldeia, denominava de forma religiosa e político-administrativa o povo novo que surgia. Depois se seguiram o de Freguesia de Nossa Senhora da Conceição da Cachoeira (1779), Vila Nova de São João da Cachoeira (1819), Cidade da Cachoeira (1859) e Cachoeira do Sul (1944).

Em 1943, quando o governo federal determinou que não houvesse repetições de nomes de cidades no país, Cachoeira, com homônimas na Bahia, no Ceará e em São Paulo, teve que iniciar uma discussão em torno de qual seria o nome que adotaria.

O Jornal do Povo, em sua edição de 30 de setembro de 1943, noticiou que Cachoeira terá, provavelmente, seu nome mudado, afirmando que ITUPEVA foi o nome sugerido para este município.

Página da edição de 30/9/1943 - Jornal do Povo
- acervo de imprensa do Arquivo Histórico

O Prefeito da época, Cyro da Cunha Carlos, recebeu instruções do Instituto Federal de Geografia e Estatística de que a cidade de Cachoeira, do Estado da Bahia, seria aquela que conservaria o nome, pois se tratava da mais antiga, fundada no século XVIII, e que a escolha da denominação das demais que tinham o mesmo nome deveria ter relação com qualquer coisa de forte identificação local, e preferencialmente utilizando a língua guarani. Daí que para a nossa Cachoeira, em razão do rio e das cachoeiras nele existentes, o primeiro nome a ser levantado foi o de ITUPEVA, que significa justamente cachoeira em tupi-guarani. Mas, como atesta a reportagem, o nome não agradou.

Outros nomes foram sugeridos, variantes do primeiro, como Itaipava e Itapeva. Seguiram desagradando, de sorte que em 1944 o nome Cachoeira do Sul foi legalmente adotado.


(Colaborou com a postagem o professor Alejandro Gimeno)