Cachoeira de outros tempos

Cachoeira de outros tempos
Rua 7 de Setembro com Banco da Província ao fundo (~1928) - MMEL - Modificado por IA - Renato Thomsen

segunda-feira, 27 de janeiro de 2020

A primeira morte da Cachoeira do Fandango


A leitura de jornais antigos, ainda que seja preciso atenção à grafia e à forma de expressão, é uma das mais interessantes fontes para descobrir as histórias que estão por trás da história, ou que lhe servem de pano de fundo.  

Um texto, sem autor, publicado no extinto jornal O Commercio, edição de 13 de agosto de 1919, revela a origem do nome da Cachoeira do Fandango e expõe um crime ambiental que, de certa forma, ocasionou a sua primeira morte. 

Cachoeira do Fandango - Fototeca Museu Municipal

No texto, há a referência de que a Cachoeira do Fandango, pela tradição oral reforçada por um homem de apelido João Rabequista, era conhecida com esta denominação há séculos, ou seja, desde o tempo dos índios povoadores da Aldeia, origem da cidade.

A margem esquerda da Cachoeira do Fandango era o local tradicional de piqueniques das famílias cachoeirenses desde o século XIX. Os piqueniques daqueles tempos eram acompanhados por músicos e onde há música há dança. Daí os "fandangos". 

Segundo o jornal, "não havia domingo, ou dia de guarda, sendo bom o tempo, em que a cachoeira não estivesse cheia de gente espalhada em grupos, cada qual acolhido à sombra das árvores prediletas, debaixo das quais fumegava o seu fogãozinho para o preparo das refeições, pois ali, em geral, passavam o dia de comezainas (1), de passeios e de folguedos. Assim sendo, não era de estranhar que aqui ou ali formassem bailes campestres, ao som das gaitas, das violas ou das bandas musicais que para ali eram levadas, às vezes, depois que a grande arte dos sons entrou a ser cultivada pelos habitantes do lugar. A Cachoeira do Fandango, pois, foi o ponto inicial da formação da sociedade cachoeirense, principalmente das sociedades dançantes." 

Piquenique - Acervo Sociedade Rio Branco

O autor do texto do velho jornal afirma ainda que a denominação Cachoeira do Fandango não foi dada pelos índios habitantes da Aldeia, mas por outros elementos que foram se agregando ao lugar. E termina o seu texto com um lamento, infelizmente bem atual, apesar de ter sido expresso há mais de 100 anos, referindo que a Cachoeira do Fandango havia sido bela, mas que tinha sido espoliada da sua beleza e função:

"(...) ex-formosa cachoeira, aquele sítio pitoresco infelizmente já não existe; não que mudasse de lugar ou fosse arrasada pela comissão (2) que andou tratando de pôr o rio permanentemente navegável (mesmo por cima das cachoeiras) em virtude de cujo melhoramento se eliminasse aquele lindo e vasto banco de pedra que, no tempo das secas, opondo uma formidável barreira ao curso impetuoso das águas, faz com que estas o galguem aqui e ali, forçando a passagem e precipitando-se numa raiva barulhenta e espumosa. Não. Não foi a comissão, honra lhe seja. Essa nenhum mal fez às belezas naturais do rio, nem tão pouco nenhum bem à navegação, a não ser talvez o de revelar-lhe, com uma certeza geográfica e matemática, a situação e a medida das cachoeiras que, trezentos e cinquenta dias por ano, pelo menos, ostentam os seus galhardos vultos aos olhos de todos os navegantes. Não. Quem estragou a maior beleza natural dos nossos subúrbios foi o machado devastador dos lenhadores, abatendo literalmente o formoso bosque que, ainda há pouco tempo, cobria a margem esquerda da nossa saudosa cachoeira, deixando-a deploravelmente nua - um sacrilégio! Não mais piqueniques à sombra do mato frondoso a ouvir-se o murmúrio das águas espumantes! Não mais tardes amenas gozadas sob a copa das árvores amigas (...)
Oh! Que bom seria se os poderes públicos tivessem o poder de coibir a desnudação das margens do nosso formoso e fecundo rio, já não dizemos para o conforto dos passeantes e pescadores, mas, ao menos, para evitar que essa cruel "desmatação" favoreça o esboroo (3) das suas margens, tornando-o ainda menos navegável!

A Cachoeira do Fandango morreu pela primeira vez quando, espoliada de seus matos, deixou de ser o ponto de encontro das famílias. Na década de 1950, quando iniciaram as obras para construção da barragem-ponte para travessia do Jacuí, ela foi o ponto escolhido para assentamento da estrutura da ponte. 

Desaparecida definitivamente do leito do rio, a cachoeira segue sendo lembrada pelo nome que a própria ponte tomou. Se a Cachoeira do Fandango não existe mais e restam hoje poucos que dela tenham lembrança, as águas do rio que se revoltam ao encontrar a ponte remetem à ideia de que bailam, tal qual bailavam as águas da extinta cachoeira. Segue pois o fandango, referência do que um dia foi a nossa principal cachoeira.

Ponte do Fandango - Jorge Ritter
(1) comezainas: lautas refeições.
(2) comissão: grupo de empresários e políticos cachoeirenses que a partir de 1912 se organizaram para planejar e executar uma ponte que transpusesse o rio Jacuí, antigo anseio da comunidade.
(3) esboroo: desmoronamento.

domingo, 8 de dezembro de 2019

Azul é teu manto...

Quando foi concluída a pintura da Catedral e a imagem de Nossa Senhora, no alto do frontispício, recebeu as cores que no nosso imaginário nunca teve, muitos ficaram surpresos... Mas como diz a velha canção religiosa: "Azul é teu manto, branco é teu véu/Mãezinha, eu quero te ver lá no céu".

Nossa Senhora com o manto azul - foto Ernani Marques

O fato é que as últimas gerações se acostumaram com a monocromia da imagem, julgando ser a pintura que ressalta o manto azul uma grande novidade!

No entanto, curiosamente, uma foto datada de 1.º de junho de 1944, localizada entre uma coleção de fotografias que pertenceu a Emília Xavier Gaspary, ainda que em preto e branco, sugere que Nossa Senhora já ostentou as cores que consagraram sua imagem! 


Frente e verso da foto de 1/6/1944 - Studio Di Marco

A imagem de Nossa Senhora foi assentada no frontão em 1929. Seria originalmente colorida? Ou teria sido pintada mais tarde? Para estas perguntas ainda não foram encontradas respostas definitivas. O fato é o que observamos hoje como inovação pode muito bem ser uma repetição de um padrão do passado.

Ah, a  fotografia! Que aliada da história!

Esta postagem homenageia Nossa Senhora da Conceição, padroeira de Cachoeira do Sul, em seu dia.

sexta-feira, 15 de novembro de 2019

Do Império para a República



As ideias republicanas em Cachoeira já andavam por algumas cabeças uns dez anos antes do ato do Marechal Deodoro no Rio de Janeiro. O primeiro jornal aqui editado, chamado O Cachoeirense, de 1879, já propugnava o republicanismo e, em 1882, foi fundado o Clube Republicano, presidido por João José Ferreira Leal e tendo como membros Cândido Pacheco de Castro, Isidoro Neves da Fontoura, Policarpo Álvares da Cruz, José Antônio da Cunha, Fontoura Xavier, João Alberto de Souza, Luiz Pacheco de Castro, Hipólito de Castro, Modesto Soares, Francisco Fontoura Nogueira da Gama e João Batista da Fontoura Xavier.

O dia 15 de dezembro de 1889 amanheceu em Cachoeira sem novidades. Ainda que no seu decurso o Imperador tenha sido deposto e uma nova forma de governo adotada na capital do Brasil... Os cachoeirenses, desconhecendo o ato, continuavam no Império sem suspeitar que o Brasil tornara-se republicano!

Proclamação da República - tela de Benedito Calixto

Só três dias depois a notícia chegou por meio de um telegrama remetido de Porto Alegre à Câmara pelo Visconde de Pelotas. Sob a presidência de Crescêncio da Silva Santos, a Câmara se reuniu, contando ainda com a presença de 70 pessoas, civis e militares. Comunicado o teor do telegrama, a Câmara aderiu ao novo regime de governo e o primeiro ato foi substituir, na sala das sessões, o retrato do Imperador Pedro II pelo do General José Gomes Portinho, “velho defensor da República”. O ato da Câmara foi comunicado por telegrama ao Visconde de Pelotas, louvando a "atitude calma e digna do Povo Brasileiro".

José Gomes Portinho - "velho defensor da República"
- Museu Municipal

Em 7 de janeiro de 1890, foi empossada pelo governo provisório uma junta governativa para reger os negócios do município. Compunham a junta os cidadãos João Ferreira Barbosa e Silva, Antônio Nelson da Cunha e Isidoro Neves da Fontoura, sob a presidência do primeiro, que era o mais velho dos três.

Assim foi a transição do Império para a República em Cachoeira: lenta para os tempos que correm, mas lépida para 1889!

sábado, 2 de novembro de 2019

Mortais, lembrai-vos que fomos o que sois e sereis o que somos


“Mortais, lembrai-vos que fomos o que sois e sereis o que somos”. Esta frase conduz à reflexão sobre a inexorabilidade da morte e faz adentrar pelos caminhos que conduzem aos sepulcros dos que repousam eternamente no cemitério mais antigo de Cachoeira do Sul.

Cemitério das Irmandades - Foto Ucha Mór

Era prática desde o Brasil Colônia o sepultamento dos fiéis dentro dos templos e em seu entorno. Em Cachoeira não era diferente. Desde a construção da capela na Aldeia que este era o procedimento. Com a inauguração da Igreja Matriz no local onde até hoje está, o vigário não perdeu o hábito. Os mortos eram enterrados nos fundos, na frente e dentro da igreja.

Igreja Matriz - Foto Museu Municipal

A necessidade de um cemitério para a Vila era entendimento de muitos, dentre eles, alguns membros das Irmandades da Igreja Matriz, especialmente a de Nossa Senhora da Conceição e do Santíssimo Sacramento. Um dos membros, de nome Bernardo Moreira Lírio, doou terreno nas proximidades da Aldeia para tal fim. Mas eram muitos os entraves e azedos alguns humores...

Até que em 1827 o cirurgião-mor Gaspar Francisco Gonçalves, impressionado pelo estado lastimável da Igreja Matriz em razão dos sepultamentos em seu recinto, chamou a atenção dos vereadores sobre os riscos que tal prática podia causar à saúde pública. Além do ar nauseabundo, as matérias emanadas das paredes ofereciam riscos.

O alerta foi feito, mas as ações ainda demorariam cinco anos. Somente em 1832 é que cessaram os enterros dentro da igreja.

No dia 16 de janeiro de 1833, uma ata de sessão de vereança, assinada pelos vereadores Manoel Álvares dos Santos Pessoa e José Pereira da Silva, registrou o recebimento do ofício nº 37, encaminhado pelo vigário da Freguesia, Padre Ignácio Francisco Xavier dos Santos, acusando ter recebido a chave do Cemitério da Aldeia, depois denominado Cemitério das Irmandades Conjuntas, como o é até nossos dias. 

Pórtico do Cemitério das Irmandades - COMPAHC

O Cemitério das Irmandades mudou muito de 1833 para cá e praticamente não guarda mais nenhum vestígio daqueles primeiros tempos, o que é de se lastimar. Mas ainda conserva em seu recinto uma riqueza imensa em arte tumular, eivada do simbolismo que nos remete à ideia de que a morte é só um caminho. Mas quem quer trilhá-lo?