Espaços urbanos

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Campo de arroz com parte da cidade ao fundo - Robispierre Giuliani

sábado, 30 de maio de 2026

O projetista do Cine-Teatro Coliseu

O Cine-Teatro Coliseu, cuja fachada é tombada como patrimônio histórico-cultural e embeleza uma das mais importantes quadras da Rua 7 de Setembro, em marcante estilo "art-déco", até o momento não tinha divulgação de quem havia sido seu projetista. Pois graças ao acervo de imprensa do Arquivo Histórico e reportagens nos jornais O Comércio e Jornal do Povo, ano 1936, foi possível descobrir que o projeto foi assinado pelo engenheiro José Stammel, de São Leopoldo. Stammel estava envolvido, à época, com a construção da Igreja Santo Antônio, projetada por José Lutzenberger. Muito provavelmente sua presença na cidade, em razão da obra da igreja, favoreceu a contratação do trabalho pelos empresários Henrique Comassetto e Algemiro Carvalho, proprietários do Cinema Coliseu Cachoeirense e empreendedores do novo cine-teatro. Com mais de uma frente de trabalho na cidade, proporcionou-se que abrisse, juntamente com o construtor local Jacob Bauer, um escritório de engenharia e construções no final daquele ano de 1936.

17/2/1938 - inauguração do Cine-Teatro Coliseu - IA por Renato Thomsen

Henrique Comassetto - um dos proprietários do novo cine-teatro - MMEL

Na edição de 19 de abril de 1936, página 3, o Jornal do Povo publicou uma entrevista com o engenheiro, intitulada: A construção do prédio para o novo cinema. Uma entrevista do engenheiro José Stammel ao "Jornal do Povo". Na matéria, a primeira pergunta feita ao profissional, que estava acompanhado de Henrique Comassetto, um dos mandantes da obra, foi sobre em que local seria erguido "o novo teatro". Respondeu o engenheiro que, de acordo com Henrique Comassetto, tinha ficado resolvido que o novo edifício seria "levantado no terreno existente entre a Confeitaria do Sr. Olivio Costa e o Restaurante Comercial em virtude de oferecer o mesmo maiores vantagens do que o terreno onde se acha o Hotel América". Eis aí um dado novo na história do Cine-Teatro Coliseu. O Hotel América ocupava a esquina da Rua 7 de Setembro com Rua 7 de Abril, hoje Dr. Milan Kras. No lugar deste antigo hotel, foi construída, no início da década de 1970, a agência central do Banco do Brasil.

Antigo Hotel América - Rua 7 de Setembro - MMEL

Voltemos à entrevista. A próxima pergunta foi sobre o início das obras. Segundo Stammel, a construção seria iniciada em 25 dias, pois o que dependia dele em termos de plantas e orçamentos já estava finalizado. 

Indagado sobre a lotação do novo cinema, o engenheiro respondeu que o empreendimento comportaria 1.500 lugares e que as plantas previam dotar a sala de projeção de ampla ventilação, facilitar o escoamento rápido do público, em caso de incêndio e outros perigos, havendo, além das portas de entrada, seis portas laterais para saída, todas com persianas de aço, facilitando a sua abertura. Para o palco estava planejada ventilação por três das suas faces, sendo dotado de camarins e de instalações para uso dos artistas. O projeto do edifício com três andares previa espaço no térreo para a plateia e a sala de espera. No primeiro andar, a segunda plateia e alguns compartimentos para escritórios ou apartamentos. No segundo andar, a cabine, o depósito e outras necessidades. Além disso, o engenheiro destacou a previsão de modernas e várias instalações sanitárias. 

Quanto ao estilo do prédio, Stammel denominou-o "moderno", marcando a entrega da obra para um prazo de sete a oito meses, se não houvesse nenhum percalço.

E, finalizando a matéria jornalística, assim deixou registrado o Jornal do Povo: "Cachoeira parece que, desta feita, vai ver realizado seu sonho decenal. Depois de tanta promessa veremos surgir, afinal, o edifício grandioso do grande Comassetto. Cachoeira não terá mais que se humilhar do indecente barracão que há tantos anos enodoa a Praça José Bonifácio e a própria cidade. Estamos, pois, de parabéns."

O "indecente barracão" referido pelo jornal era o do antigo Cinema Coliseu Cachoeirense,  sucessor de outros cinemas ali instalados desde a década de 1910, ocupando a esquina da Praça José Bonifácio com a Rua Andrade Neves. O negócio já era explorado pelos empreendedores do novo cine-teatro desde meados da década de 1920 e, por muitos anos, tinha sido o grande e festejado ponto de cinema da cidade, além de importante palco para artistas, conferencistas e famosos de outros tempos .

Barracão do Cinema Coliseu Cachoeirense - Praça José Bonifácio - MMEL

Já o outro jornal, O Comércio, em sua edição de 3 de junho de 1936, referiu-se ao Cinema Coliseu Cachoeirense de uma forma mais saudosista: "Quantas ilusões, quantas vidas se entrelaçaram e até mesmo quantos projetos sonhados dentro do velho recinto do Coliseu! Muitas destas quiméricas ilusões tornaram-se em realidades e outras foram desfeitas pelas mãos cruéis do destino." E acrescentou que, no ano de 1926, "por ocasião de ser calçada a cidade, o Sr. Comassetto fez uma reforma geral no seu cinema, melhorando-o consideravelmente e deixando-o em condições para que nele pudessem trabalhar grandes companhias teatrais."

Quanto à edificação do Cine-Teatro Coliseu, cujo nome só foi decidido depois de ter passado por outras versões, coube à união de José Stammel ao construtor Jacob Bauer. 

Em dezembro de 1936, José Stammel, intitulando-se arquiteto e construtor, comunicava à população cachoeirense que havia assumido todos os negócios do falecido Sebastião Moser a pedido da viúva Josefa Moser, anunciando que qualquer assunto relacionado aos seus serviços fosse tratado com o gerente Jacob Bauer. 

Segundo Günter Weimer*, Josef Hermann Stammel era natural de Coblenz, na Alemanha, nascido em 22 de dezembro de 1903. Formou-se  na Escola Estadual de Construção de Barmen, Elberfeld. Quando emigrou para o Brasil e apresentou seu diploma, já apresentava um extenso currículo como engenheiro-chefe de uma importante empresa na Alemanha. Além da Igreja Santo Antônio, do Cine-Teatro Coliseu, da refinaria de banha e da casa do Dr. Milan Kras em Cachoeira, deixou obras em São Leopoldo e Taquara. 

*Arquitetos e construtores no Rio Grande do Sul - 1892/1945, de Günter Weimer. Editora UFSM, Santa Maria - RS, pp. 169 a 171.

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