Cachoeira de outros tempos

Cachoeira de outros tempos
Rua 7 de Setembro com Banco da Província ao fundo (~1928) - MMEL - Modificado por IA - Renato Thomsen

quarta-feira, 27 de maio de 2015

Festas do Divino Espírito Santo

As festas religiosas devotadas ao Divino Espírito Santo são uma tradição portuguesa e se mantêm com força ainda em muitas cidades brasileiras.

Em Cachoeira, a imprensa registra a grandiosidade destas festas no começo do século XX. No século anterior, a julgar pela construção do Império, por volta de 1855, eram bastante concorridas, mantendo o ritual da escolha de um imperador, geralmente um menino, para presidi-las. O imperador era coroado e trajava vestes semelhantes às de um monarca, dispondo de uma corte para lhe servir.

À direita, prédio do Império do Divino
- fototeca Museu Municipal

As festas locais tinham variado programa, incluindo novenas, procissões, leilões, quermesses e folguedos para a população em geral. Um dos seus destaques  eram as procissões de peditório, quando fieis percorriam ruas e até mesmo propriedades na zona rural portando bandeiras do Divino Espírito Santo e solicitando dos proprietários donativos para os mais pobres.

Modelo de bandeira do Divino
- natividade.org
Em 21 de maio de 1902, O Commercio registrou para a posteridade os versos que os pedintes recitavam em seu percurso com as bandeiras:

Passa a bandeira toda enfeitada,
Cheia de flores, cheia de fita;
Vai pelas ruas acompanhada
Por muitas moças... moças bonitas.

Muitos festejos, muita poesia,
Muitos foguetes sobem aos ares,
Loiros rapazes com fidalguia
Lançam às moças ternos olhares.

Vai a pombinha cheia de encantos
Vão os devotos cheios da fé;
Nenhum garoto zomba dos santos,
Nenhum velhote toma rapé.

Passa a bandeira, descem uma lomba,
Entra na igreja, sobe um degrau:
Todos os velhos beijam a pomba,
Todas as velhas beijam o pau.

domingo, 10 de maio de 2015

Mãe Intelectual do Povo Cachoeirense


O segundo domingo do mês de maio, dedicado às mães, traz à memória uma ilustre mulher cachoeirense que não foi mãe na acepção primeira da palavra, mas que recebeu o título de “Mãe intelectual do povo cachoeirense”.

Esta mulher, perdida na bruma do tempo, somente é lembrada pelo nome que dá a uma importante escola. E foi responsável pela formação de centenas de crianças e jovens. Seu nome: Cândida Fortes Brandão.

Cândida Fortes Brandão - fototeca Museu Municipal

Diplomada pela Escola Normal de Porto Alegre, Cândida Brandão era grande conhecedora da pedagogia vigente e lecionava com segurança as matérias que constavam do currículo ministrado na virada do século XIX para XX. Austera, como ditavam as regras de seu tempo, ganhou grande popularidade e respeito pelas orientações e conselhos que publicava com regularidade nas páginas dos jornais locais O Comércio e Rio Grande.
 
A imprensa não era, no início dos anos 1900, um espaço para mulheres e, neste sentido, Cândida foi uma precursora. E mais do que isto, ela costumava abordar assuntos delicados para aqueles tempos e que exigiam dela coragem e muito discernimento na hora da reação dos leitores. E havia também a Cândida poetisa, ficcionista e crítica de literatura.

Este conjunto de predicados incomuns às mulheres de seu tempo, bem como a grande erudição que demonstrava fizeram que a escritora Júlia Lopes de Almeida qualificasse Cândida Fortes Brandão como “Mãe intelectual do povo cachoeirense”.

Esta mulher não foi mãe, mas foi a primeira de uma legião de outras que, movidas pelo conhecimento e reconhecida capacidade, deixaram contribuição inequívoca para a intelectualidade cachoeirense.

domingo, 26 de abril de 2015

Cachoeira ou Itupeva?

Em 26 de abril de 1819, D. João VI mandou expedir o alvará que criou a Vila Nova de São João da Cachoeira, desmembrando de Rio Pardo a então Freguesia de Nossa Senhora da Conceição da Cachoeira. Este alvará, que tinha força de lei, deu início ao processo que se concretizaria em 5 de agosto de 1820, quando foi instalado o novo município.

A história de Cachoeira registra os diversos nomes que o local teve, começando pelo que se dava ao tempo em que a capela de São Nicolau, na Aldeia, denominava de forma religiosa e político-administrativa o povo novo que surgia. Depois se seguiram o de Freguesia de Nossa Senhora da Conceição da Cachoeira (1779), Vila Nova de São João da Cachoeira (1819), Cidade da Cachoeira (1859) e Cachoeira do Sul (1944).

Em 1943, quando o governo federal determinou que não houvesse repetições de nomes de cidades no país, Cachoeira, com homônimas na Bahia, no Ceará e em São Paulo, teve que iniciar uma discussão em torno de qual seria o nome que adotaria.

O Jornal do Povo, em sua edição de 30 de setembro de 1943, noticiou que Cachoeira terá, provavelmente, seu nome mudado, afirmando que ITUPEVA foi o nome sugerido para este município.

Página da edição de 30/9/1943 - Jornal do Povo
- acervo de imprensa do Arquivo Histórico

O Prefeito da época, Cyro da Cunha Carlos, recebeu instruções do Instituto Federal de Geografia e Estatística de que a cidade de Cachoeira, do Estado da Bahia, seria aquela que conservaria o nome, pois se tratava da mais antiga, fundada no século XVIII, e que a escolha da denominação das demais que tinham o mesmo nome deveria ter relação com qualquer coisa de forte identificação local, e preferencialmente utilizando a língua guarani. Daí que para a nossa Cachoeira, em razão do rio e das cachoeiras nele existentes, o primeiro nome a ser levantado foi o de ITUPEVA, que significa justamente cachoeira em tupi-guarani. Mas, como atesta a reportagem, o nome não agradou.

Outros nomes foram sugeridos, variantes do primeiro, como Itaipava e Itapeva. Seguiram desagradando, de sorte que em 1944 o nome Cachoeira do Sul foi legalmente adotado.


(Colaborou com a postagem o professor Alejandro Gimeno)

domingo, 12 de abril de 2015

Escola Antônio Vicente da Fontoura - mais uma história

O centenário de uma escola é acontecimento que merece saudação da comunidade, seja pela marca atingida, o que se restringe a poucas instituições em nosso meio, seja pela significação da árdua atribuição de instruir/educar gerações atravessando o tempo e as naturais mudanças culturais, sociais e pedagógicas.

A Escola Antônio Vicente da Fontoura chega ao seu centenário com pelo menos duas características dignas de nota: desde o início conserva o mesmo patrono, e com isto forja uma identidade associada ao líder farroupilha que não foi professor, mas que, nas palavras de Cândida Fortes Brandão, foi um educador “pelos brilhantes exemplos tanto na vida privada como na pública, merecendo por isso, servir de exemplo à juventude”, e por estar localizada desde sempre em ponto mais do que especial da cidade: os arredores da Praça Balthazar de Bem.

Antônio Vicente da Fontoura



E a respeito da localização, já foi abordado na postagem anterior que a escola passou a ocupar as dependências do antigo Teatro Municipal, transferido pela municipalidade para o governo do Estado. O prédio do teatro sofreu grande avaria nas estruturas do telhado em janeiro de 1908. Em 1915 estava há sete anos parado e sem as obras necessárias de recuperação. A ocupação pelo Colégio Elementar e Fórum foi a sua redenção. E destas obras surge uma quase desconhecida história.

Teatro Municipal - prédio ao centro
- fototeca Museu Municipal

As obras de recuperação e adaptação do jovem e combalido prédio (inaugurado em 1900) foram entregues a um construtor italiano chamado Giuseppe Tellini, ou José Tellini. E o intrigante desta história é que este construtor que apareceu pela primeira vez nos registros, segundo o arquiteto e escritor Günter Weimer*, em 1911, morreu em Cachoeira, justamente enquanto tocava as obras no prédio do Teatro.

O jornal O Commercio, edição do dia 23/4/1917, noticiou que José Tellini faleceu às 12h30 do dia 16 de abril de 1917, aos 52 anos. O italiano, na hora do almoço, recostou-se para um pequeno cochilo..., mas não mais acordou. Residente em Porto Alegre, Tellini deixou mulher e oito filhos e estava morando em Cachoeira há alguns meses em razão das obras. 

O construtor italiano, cujas notas biográficas são esparsas, fez em Cachoeira, quem diria, sua derradeira obra. Histórias da centenária história da Escola Antônio Vicente da Fontoura.

*Günter Weimer, em Arquitetos e Construtores do Rio Grande do Sul (1892 - 1945), Editora UFSM, 2004.