Cachoeira de outros tempos

Cachoeira de outros tempos
Rua 7 de Setembro com Banco da Província ao fundo (~1928) - MMEL - Modificado por IA - Renato Thomsen

terça-feira, 19 de abril de 2016

"Todo dia era dia de índio!"

Como diz a letra da música “Todo dia era dia de índio”, eternizada na voz de Baby Consuelo, resta ao índio do Brasil o dia 19 de abril para que a sua cultura seja minimamente lembrada.

Índio brasileiro - Jean Baptiste Debret

A história de Cachoeira do Sul não pode ser contada sem referir a presença indígena nos seus primórdios. Segundo Aurélio Porto, o grande historiador, no decorrer dos anos que se seguiram à assinatura do Tratado de Madrid (1750), cerca de 700 famílias de índios catequizados seguiram o português Gomes Freire de Andrade em direção a Rio Pardo, sendo estabelecidas nas proximidades do rio Botucaraí. Os espanhóis, representados por Cevallos, governador de Buenos Aires, tentaram reconquistar estas famílias oriundas das missões, levando-as para os seus domínios e com este intento enviaram a Rio Pardo dois padres jesuítas, que fracassaram na tarefa. Cevallos, numa última tentativa, solicitou a Gomes Freire que convencesse os índios a voltarem, no que obteve negativa por entender Gomes Freire que eles estavam protegidos pela bandeira portuguesa. E assim estas famílias foram aproveitadas para darem início a povoações que geraram várias cidades rio-grandenses, dentre elas Cachoeira.

Um contingente destes índios foi arranchado nas proximidades do Passo do Fandango, estabelecendo as bases da futura Cachoeira. O ano era 1769. Em 1780, do montante de 662 habitantes da Freguesia de Nossa Senhora da Conceição da Cachoeira, 383 eram índios.

Mas o que foi feito desses índios? Que legado deixaram à cidade dos dias de hoje? Quase nada restou do período em que os índios catequizados habitaram a Aldeia, embora sua presença esteja comprovada nos livros de registro dos primeiros habitantes, em assentos de batismos, casamentos e óbitos. E dentre estes registros, seguidamente aparece algum “infiel”, ou seja, índio não catequizado de tribos nômades.

Do contingente inicial de índios assentados pelos portugueses na Aldeia ou dos demais que naturalmente habitavam o território rio-grandense restaram traços culturais indeléveis e principalmente uma herança ligada à terra, traduzida pelos toponímicos que identificam rios, montanhas, vales. E ainda que desaparecidos materialmente do dia-a-dia, o sangue dos índios circula nas veias de muitos cachoeirenses.


quarta-feira, 13 de abril de 2016

Pedro Faz Tudo

Nossa história está cheia de personalidades interessantes, homens e mulheres que fizeram diferença nos mais diversos segmentos e áreas, muitos dos quais desapareceram da lembrança, apesar do sentido que suas vidas emprestaram à Cachoeira de outros tempos. Relembrá-los é oportunidade de mostrar aos cachoeirenses de hoje o quanto foram capazes de contribuir para a consolidação social, cultural, intelectual e material da comunidade mesmo sem terem tido grande notoriedade.

Uma destas personalidades viveu e deixou marcas em Cachoeira no final do século XIX e início do século XX. Era o italiano Pietro F. Battisti Allegri, ou Pedro Fortunato Baptista, que ficou popularmente conhecido por Pedro Faz Tudo.

Segundo saiu numa edição antiga da Revista Aquarela, de Humberto Atílio Guidugli, Pedro Fortunato Baptista “era homem de iniciativas admiráveis desenvolvidas por uma inteligência invulgar.”

Falecido em 1933, aos 77 anos, este homem que procedia de família da alta aristocracia italiana morreu pobre, solteiro, assistido pelo amigo Henrique Comassetto “que o acolheu nos últimos tempos de sua existência”, segundo publicado na necrologia do jornal O Commercio de 1.º de fevereiro daquele ano.

O primeiro registro que se tem de seu espírito inovador foi em 8 de fevereiro de 1896, quando apareceu desfilando pelas ruas em um velocípede, primeiro veículo deste tipo a aparecer em Cachoeira.


Modelos de velocípedes do século XIX - praiadexangrila.com.br

Foi de sua iniciativa a fundação da primeira casa de exibições da cidade, o Cinema Parque, ao ar livre, surgido em 1909 de sua associação com o também italiano Victorio Livi. Em sociedade com  Rodolfo Homrich, no mesmo ano de 1909, abriu a Fábrica de Licores, situada no Alto dos  Loretos, com depósito também para vinagre.

Pedro Fortunato Baptista, súdito italiano que era, representou seu país como agente consular, sendo também um dos fundadores e presidentes da Sociedade Italiana Príncipe Umberto, inaugurada em 1912, quando compôs a nominata da primeira diretoria como secretário.


Sede da Sociedade Italiana Príncipe Umberto - Cachoeira
Endereço: antiga Rua São João, hoje Pinheiro Machado
- Grande Álbum de Cachoeira - de Benjamin Camozato (1922)


Carta do agente consular da Itália em Cachoeira - P. F. Battisti Allegri
- Acervo documental do Arquivo Histórico

Em 1916 aparecia outro investimento de vulto do Pedro Faz Tudo: a Fábrica de Sacos de Aniagem e Algodão, em sociedade com Archimino Campos e Waldemar Nunes dos Santos, para a qual foram importadas máquinas dos Estados Unidos.

Mas Pedro Faz Tudo também tinha outro dom: o da oratória e escrita. Segundo o mesmo artigo da Revista Aquarela, produzido por Humberto Atílio Guidugli, “Muito cooperou tanto na imprensa, como nas solenidades em que era indispensável a sua presença, produzindo artigos de expressivo fundamento filosófico e discursos encantadores e exuberantes na grandeza do seu sentido.”

Não há por enquanto imagem conhecida de Pedro Faz Tudo, mas ele transformou a Cachoeira de seu tempo, de forma que sua passagem pela nossa história deve ser lembrada como exemplo de inventividade, empreendedorismo e espírito inovador.
  

sexta-feira, 18 de março de 2016

Série Casas com Passado, Presente e Futuro: Casa de Cultura Paulo S. V. da Cunha

No ano de 1916 o médico, pecuarista, industrialista e político Balthazar de Bem adquiriu de Achylles e Senhorinha de Carvalho um terreno na quadra mais nobre da Rua Sete de Setembro, fronteira à Praça José Bonifácio, e deu início à construção de uma casa para sua moradia. Segundo informação do jornal O Commercio, em 1917 a casa achava-se concluída.

Casa de Cultura Paulo S. V. da Cunha - foto COMPAHC
O proprietário e sua família no saguão da residência
- fototeca Museu Municipal

Ainda não foram localizadas referências ao autor do projeto arquitetônico, tampouco ao seu executor. De arquitetura eclética, com características marcantes do estilo neoclássico, a casa possui um saguão decorado com colunas e capitéis que conduz às diversas dependências. Neste mesmo saguão há um teto móvel de estrutura metálica e envidraçada que quando aberto permitia a observação do céu.

Teto móvel - foto Antônio A. Maciel

Embora a imprensa divulgue várias recepções e reuniões na casa, o Dr. Balthazar de Bem não residiu nela por muito tempo. Em julho de 1924 o Clube Comercial transferiu para lá sua sede social, fazendo as adaptações necessárias para as suas finalidades, como a construção de um salão ao fundo, cuja cumeeira foi festivamente colocada em 31 de agosto.

Com a locação da casa para o Clube Comercial, o Dr. Balthazar transferiu-se para o sobrado que havia nos fundos, com frente para a Saldanha Marinho, até hoje existente. Mas no novo endereço ele também não ficou por muito tempo, pois a morte o colheu em novembro daquele ano, no célebre levante do Barro Vermelho. Depois disto, a viúva Marina Mattos de Bem e filhos transferiram-se para Porto Alegre.

Sobrado da Rua Saldanha Marinho (inventariado) - foto COMPAHC

Virada a página da casa como residência da família de Bem e como sede do Clube Comercial, o local abrigou várias entidades a partir da segunda metade dos anos 1950: a Biblioteca Pública Municipal, o Núcleo de Filatelia, o Aeroclube de Cachoeira do Sul, a União Cachoeirense de Estudantes, a Escola Municipal de Belas Artes – EMBA, sucedida depois pela Escola Superior de Artes Santa Cecília – ESASC, e a Associação Cachoeirense Pró-Ensino Superior – ASCAPES.

Em 1997, extinta a ESASC, a Biblioteca Pública Municipal “Dr. João Minssen” voltou a ocupar o prédio e, por proposição da Câmara Municipal, passou a se chamar Casa de Cultura Paulo Salzano Vieira da Cunha, dividindo espaço com a Associação Cachoeirense de Amigos da Cultura - AMICUS, Associação Cachoeirense de Cultura Italiana, Conselho Municipal do Patrimônio Histórico-Cultural – COMPAHC, Conselho Municipal de Educação, Núcleo Municipal da Cultura e Atelier Livre Municipal Prof.ª Eluiza de Bem Vidal.

Hoje a Casa de Cultura abriga a Biblioteca Pública Municipal, o Atelier Livre Professora Eluiza de Bem Vidal, a AMICUS, a Secretaria Municipal de Cultura e a Lojinha do Hospital de Caridade e Beneficência. 

Tombada pelo COMPAHC em 1985, a Casa de Cultura é uma das tantas e magníficas construções que têm passado, presente e futuro.

Calçamento da Rua Sete, vendo-se a casa do Dr. Balthazar à esquerda
- fototeca Museu Municipal - 1926

Tratores Case, da firma de Achylles Figueiredo, à frente do Clube Comercial
- fototeca Museu Municipal - 1926


Nota: colaborou com dados a historiadora Ione M. Sanmartin Carlos.

sábado, 27 de fevereiro de 2016

A última edição d’O Comércio agrega-se à coleção existente no Arquivo Histórico

No dia 23 de fevereiro de 2016, exatamente 50 anos depois, a última edição do jornal O Comércio (1900 – 1966) que circulou no mesmo dia do ano de 1966, foi entregue para compor a coleção cuidadosamente guardada no acervo de imprensa do Arquivo Histórico do Município de Cachoeira do Sul.

Última edição d'O Comércio - 23/2/1966
Acervo de Imprensa do Arquivo Histórico
A doação do último – e provavelmente o único – exemplar da edição que pôs fim a uma história de 66 anos de circulação foi feita por Sérgio Moacir da Silva Pacheco, ex-funcionário da Tipografia do Comércio, e responsável à época pela impressão do jornal.


Sérgio Moacir da Silva Pacheco - último impressor e guardião da última edição
- Fotos: Arquivo Histórico
O Commercio, órgão comercial, noticioso e literário fundado em 1º de janeiro de 1900 por Henrique Möller Filho, guarda algumas curiosidades: nasceu bilíngüe, ou seja, trazia anúncios e alguns textos também em alemão (o que indicava a forte presença germânica na cidade) e era distribuído aos leitores já na terça-feira, embora trouxesse no seu cabeçalho a indicação de que saía às quartas-feiras. Sobre isto Paulo de Gouvêa escreveu:

“O Comércio, que todo mundo chamava de Comercinho e tinha a inédita peculiaridade de sair terça-feira com data de quarta. Por que essa anomalia, nunca ninguém pôde saber. Em todo o caso, graças a ela, nós, os cachoeirenses, desfrutávamos do privilégio sem igual de ter o único jornal no mundo que era publicado na véspera.”

O Commercio registrava em cada edição as chegadas e partidas dos cachoeirenses, os aniversários, as notícias dos distritos e abria espaço para articulistas, muitas vezes escondidos sob pseudônimos. E, dentre eles, uma mulher: Cândida Fortes (depois Brandão), com publicação já na primeira edição do jornal, quando usou o pseudônimo Canolifor (iniciais de seu nome de solteira – Cândida de Oliveira Fortes).

Volume das edições d'O Commercio do ano 1900
- Acervo de Imprensa do Arquivo Histórico
Para a impressão do jornal Henrique Möller Filho contava com o auxílio dos seus irmãos Guilherme Antônio (redator) e João Antônio (tipógrafo). Henrique Filho faleceu em 1941, passando a direção do jornal aos irmãos. Em 1966, quando do encerramento das atividades, eram diretores Carlos Möller Sobrinho e Edgar Pohlmann.

A coleção hoje resguardada e disponibilizada pelo Arquivo Histórico foi reunida, organizada e depois cuidadosamente encadernada por Carlos Möller Sobrinho. Depois de seu falecimento, por decisão de sua esposa e filhos, a coleção foi doada à Biblioteca Pública Municipal; depois passou a integrar o acervo da Câmara Municipal, sendo franqueada à pesquisa de interessados. Por iniciativa do vereador Henrique José Möller, filho do fundador do jornal, a coleção foi repassada ao Museu Municipal de Cachoeira do Sul, de onde, por questões técnicas, foi finalmente repassada para o Arquivo Histórico do Município, onde já estavam as coleções dos demais jornais cachoeirenses.

66 anos de circulação é uma marca. Cachoeira teve diversos jornais, de diferentes ideários e propósitos, a maioria de vida efêmera. Atravessar mais da metade do século XX, notadamente época de convulsões sociais, econômicas e culturais, faz d’O Commercio um jornal riquíssimo no conteúdo, na forma de apresentação e na interação que manteve com a comunidade, evidenciada no apelido carinhoso que carregava: O Comercinho. 

Créditos das fotos: Neiva Ester Corrêa Köhler e Maria Lúcia Mór Castagnino, do Arquivo Histórico