Cachoeira de outros tempos

Cachoeira de outros tempos
Rua 7 de Setembro com Banco da Província ao fundo (~1928) - MMEL - Modificado por IA - Renato Thomsen

domingo, 16 de dezembro de 2018

A planta de Buff

Quando o Museu Municipal de Cachoeira do Sul chega aos 40 anos de criação e deixa na esteira desta história um já inegável e inestimável serviço à preservação da memória da cidade, traz com a comemoração um presente: a reincorporação ao seu acervo da primeira planta da cidade, confeccionada por Johann Martin Buff em 1850.

Degradada em sua estrutura pelo desgaste natural do tempo e pela sua própria história de sobrevivência em meio ao conjunto documental produzido pelas sucessivas administrações municipais – até do fogo foi salva – a planta de Buff, que é o primeiro registro cartográfico do recinto urbano de Cachoeira, ficou por longos 10 anos em processo de restauro. Neste número de anos, várias foram as tentativas de custear o trabalho da especialista que nele se debruçou. De frustração em frustração, a área cultural do município alimentava a esperança de um dia ver a planta de volta à sua casa. E eis que o dia chegou, por louvável iniciativa da administração, através do Núcleo Municipal da Cultura.

A planta de Buff antes do restauro - Acervo do Museu Municipal

A planta restaurada sob o olhar do prefeito Sergio Ghignatti
- Foto Patrícia Miranda

Mas que planta é esta?

A primeira referência histórica sobre o ordenamento urbano de Cachoeira está no ano de 1800. As guerras de demarcação de fronteiras trouxeram para a então Freguesia de Nossa Senhora da Conceição da Cachoeira novos moradores e com eles a necessidade de construção de casas residenciais e comerciais. José de Saldanha, geógrafo e cartógrafo português que servia como engenheiro na demarcação dos limites do Rio Grande do Sul, elaborou o nosso traçado urbano usando como referência a Praça da Igreja, hoje Praça Balthazar de Bem. Pelo traçado, as ruas largas e amplas se distribuíam entre quadras quadradas, conforme o modelo das cidades portuguesas.
           
Desde 1830 a ordem, tranquilidade, segurança, saúde, comodidade e organização da Vila e arredores eram reguladas pelas Posturas Municipais, conjunto de leis elaboradas pela Câmara que também determinavam os limites geográficos, as regras para a elegância e regularidade externa dos edifícios e ruas e o asseio público. Até 1853 esses limites eram os terrenos entre o córrego Lava-pés e o rio Jacuí, na direção Norte Sul,  e, na direção Leste Oeste, os terrenos entre o arroio Amorim e o córrego denominado Sanga da Aldeia.  

Segundo as posturas, os proprietários de terrenos só podiam edificar dentro dos limites da Vila mediante licença da Câmara. Havia regras para o alinhamento e largura das ruas e calçadas, para o nivelamento das soleiras das portas, para a altura das casas e restrições à construção de degraus e escadas que desembocassem diretamente nas ruas. Também era vedado aos proprietários o depósito de materiais de construção em praças e vias públicas sem o consentimento da Câmara.

Apesar da delimitação do recinto da Vila, da existência de um traçado que deveria ser seguido e da demarcação de pontos referenciais como as Praças da Igreja e do Pelourinho, não havia uma planta que retratasse as ruas e terrenos existentes, o que dificultava os trabalhos do arruador e do fiscal da Câmara.
Em 17 de setembro de 1829, por sugestão do vereador Manoel Álvares dos Santos Pessoa, foi remetido ofício ao Presidente da Província solicitando a confecção de uma planta por engenheiro competente.

As atas das sessões ordinárias da Câmara de 12 de janeiro, 10 e 13 de abril de 1850 registram que os vereadores ainda estavam aguardando a planta encomendada ao engenheiro da Comarca, João Martinho Buff, para dar solução a inúmeros requerimentos de pessoas solicitando licença para construir em seus terrenos.

A ata de 4 de maio de 1850 registra, finalmente, o recebimento da primeira planta e o correspondente livro de cadastro dos proprietários de terrenos da Vila Nova de São João da Cachoeira, elaborados pelo engenheiro João Martinho Buff. A planta e o cadastro registram 422 terrenos, sendo 173 edificados e 249 desocupados:


“Foi presente a esta Câmara a Planta e Cadastro desta Vila, remetida pelo Engenheiro da Comarca João Martinho Buff, e exige a quantia de 4$500 réis, importância da despesa feita com os utensílios para a mesma Planta. A Câmara ficou inteirada e resolveu que dita Planta fosse arquivada assim como o
Cadastro dela e que se ordenasse ao procurador da Câmara que pague ditas despesas e que se leve ao conhecimento de S. Excia. o Presidente da Província o recebimento da dita Planta e Cadastro...”

Para a distribuição correta dos terrenos, Buff traçou os limites da Vila, destacando os terrenos da Praça do Pelourinho (atual José Bonifácio), delimitado desde 1830, o da Praça da Igreja (atual Balthazar de Bem) e o da Praça de São João, onde mais de meio século depois seria erguido o Hospital de Caridade. O engenheiro registrou cada propriedade a partir da apresentação dos títulos pelos proprietários, lançando-os simultaneamente em um livro cadastro. No livro, além do nome do proprietário, foi registrada a data da concessão ou aquisição do terreno, a autoridade que concedeu os títulos, a sua localização, medidas e a observação de edificado ou não.

As Posturas Municipais do ano de 1862 determinavam que o alinhamento, largura e nivelamento das ruas seguissem o arruamento marcado na planta de Buff. Sua confecção permitiu ainda determinar os terrenos devolutos destinados para a construção de edifícios públicos, impedindo sua concessão a particulares.
           
Mas quem foi João Martinho Buff?

Johann Martin Buff - Defender

João Martinho Buff, nome aportuguesado de Johann Martin Buff, nasceu em Rödelbhein, próximo a Frankfurt, na Alemanha, em 8 de maio de 1800. Era filho de Josef Ludwig Buff. Contratado pelo Império do Brasil para integrar o 28.º Batalhão de Caçadores Alemães, denominados por D. Pedro II como os “Diabos Brancos”, participou do combate à Confederação do Equador, em Recife. Quando deu baixa no batalhão, Buff fixou-se em Rio Pardo, onde casou com Josefina de Melo Albuquerque, em 12 de julho de 1830, dedicando-se à engenharia e agrimensura. O casal teve três filhas.
           
Em 1851, foi nomeado diretor da Colônia de Santa Cruz, ocupando-se da medição de terras e da instalação de vários colonos.

De seu conjunto de obras constam: plantas de Rio Pardo e Cachoeira, projetos de construção da ponte do Couto, do Jacuí e do Botucaraí (Ponte de Pedra) e da antiga Escola Militar de Rio Pardo, hoje Centro Cultural Regional de Rio Pardo.

João Martinho Buff faleceu, aos 80 anos, em Rio Pardo.

Esta postagem é uma homenagem ao quadro de servidores do Museu Municipal de Cachoeira do Sul - Patrono Edyr Lima - de ontem e de hoje. O valioso trabalho iniciado por Lya Wilhelm frutificou! 

domingo, 25 de novembro de 2018

Uma casa de cidade grande



A Cachoeira de 1850 era um lugar bem acanhado. A maior edificação existente era a Igreja Matriz, ainda um templo inconcluso. Havia nele sempre um retoque a ser feito, um remendo em alguma rachadura, uma torre erguida apenas e a outra em permanente vontade de subir... Até o padre Antônio Homem de Oliveira andava desassossegado – queria muito adquirir uma cruz para encimar o frontão da igreja.

Em 1856, o devoto Ferminiano* iniciou a construção do Império do Divino Espírito Santo, salão destinado às festas religiosas da tradição lusitana e que ficava no meio da quadra seguinte à da igreja. Ficou quase tão imponente quanto o Teatro Cachoeirense, construção de 1830 que dominava a quadra fronteira ao que deveria ser - e ainda não era - a Praça da Igreja.


Prédio do Império à direita - década de 1910 - Fototeca Museu Municipal
Teatro Cachoeirense - Fototeca Museu Municipal

Nessa mesma Cachoeira de 1850, em ano ainda incerto, um português – que portugueses havia ainda muitos naqueles tempos – de nome José Custódio Coelho Leal, de comprovadas posses e importância no cenário da Vila da Cachoeira, erguia na Rua do Loreto (Sete de Setembro), proximidades da igreja, uma vistosa casa para os padrões da época. Será que tinha em mente reunir a família que lhe restara? Viúvo, José Custódio só tinha um neto, José Custódio, o Júnior, filho de seu único filho, também José Custódio, falecido aos 33 anos em 1831. Será que a nora, Inocência Joaquina, vivia na companhia do sogro? Conjeturas do passado presas à imaginação e por enquanto habitantes da ficção. 

Casa de José Custódio Coelho Leal ao tempo do Clube Renascença -
Fototeca Museu Municipal

O neto já era então casado com Heduviges Falcão, com três filhos nascidos na década de 1850: João (1855), Josephina (1857) e Olympio (1859). Nos anos 1860 nasceriam mais dois: Rhea Silvia (1866) e Nelson (1868).

O interessante é que a casa que José Custódio, o avô, construiu extrapolava os padrões da acanhada Cachoeira. A rivalizar com ela somente a do Dr. José Afonso Pereira, na Rua dos Cachorros (Saldanha Marinho), que havia hospedado D. Pedro II em 1846, por ser a maior e mais confortável existente.

Casa que hospedou D. Pedro II - Fototeca Museu Municipal

Em 5 de setembro de 1858, José Custódio faleceu. O neto José Custódio herdou “uma morada de casas sitas à Rua Sete de Setembro desta cidade, com frente a Oeste e fundos a Leste, com cinco janelas, porta de entrada e portão ao lado, contendo toda a frente dezessete metros e setenta e sete centímetros, dividindo ao Sul com casas do inventariante, ao Norte com terreno de Luiz da Silva, a Leste com terrenos e casas de Gaspar Xavier da Silva e de D. Mathilde Nunes da Silva Castro, a qual acharam valer seis contos de réis...” Pela data do inventário é possível verificar que a casa já estava construída no final da década de 1850. Na descrição sucinta do bem, não constam as estátuas do frontão. Teriam sido elas adereços originais da casa ou colocadas ali posteriormente?

Estátuas do frontão - Imagem Antônio Sarasá

No meio tempo entre a morte de José Custódio e a do neto, ocorrida em 1910, há uma lacuna de informações sobre a casa exceto que no ano de 1907 estava alugada para o Dr. Balthazar de Bem, ocasião em que foi sondada para servir de colégio aos irmãos maristas. Em 1911, quando Heduviges, viúva de José Custódio, o neto, faleceu, no inventário do casal apareceu “uma casa, sob número 41, nesta cidade, à Rua Sete de Setembro, que avaliamos em dezesseis contos de réis; uma casa sob n.º 39,  mesma rua, que avaliamos em nove contos de réis; uma outra casa, sob n.º 37, à citada Rua Sete de Setembro, que avaliamos em seis contos de réis...”, demonstrando que as posses da família não se restringiam apenas à casa das estátuas.

Família de José Custódio Coelho Leal Jr. e Heduviges Falcão Leal
- Acervo Ucha Mór

Seis anos depois, o herdeiro da casa em questão, Olympio Coelho Leal, vendeu o imóvel para o Clube Renascença, iniciando-se um período em que várias entidades fizeram dele sua sede, como a União de Moços Católicos, nova proprietária a partir de 1925, entidade de cunho religioso e social que acabou por incorporar à edificação a denominação pela qual a casa do português José Custódio Coelho Leal chegou aos nossos dias.

Da casa original restou a fachada que confere imponência ao residencial que atrás dela se descortina. Os elementos e técnicas construtivas empregadas na edificação revelam segredos do passado e poderão alcançar respostas à estatuária que domina o frontão, cujas figuras despertam curiosidade pela significação que encerram. Que segredos guardam? Que propósitos deveriam refletir? As respostas podem surgir na delicada tarefa de reconstituí-las, assim como um documento do passado poderá surgir dentre os escaninhos do tempo e dizer mais sobre os propósitos do português que construiu a casa de cidade grande numa ainda acanhada e inculta vila.

Esta postagem é dedicada à colega Maria Lúcia Mór Castagnino, a Ucha, detentora das informações preciosas aqui traçadas.

*Ferminiano: provavelmente Ferminiano Pereira Soares, o construtor da Casa de Câmara, Júri e Cadeia, atual Museu Municipal.

sábado, 20 de outubro de 2018

Belezas da política


A política, seja em que tempo for, atribui aos indivíduos que se confrontam em ideias e atos, todo tipo de “qualidades”, sendo este termo genérico empregado tanto para “qualidades de fato” como para defeitos. Nas disputas por cargos eletivos, os políticos costumam explorar os “calcanhares de Aquiles” de seus adversários. Esta prática, ainda que velha, segue aplicada plenamente.

No ano de 1913, duas grandes e eminentes personalidades da política local, ainda que oriundas das mesmas fileiras partidárias, por desavenças pessoais e disputas de poder, passaram a se atacar mutuamente, utilizando-se dos dois principais jornais que circulavam na época.

O mais antigo deles e de ampla circulação, o jornal O Commercio (1900-1966), traz em sucessivas edições uma seção livre intitulada Bellezas do Isidorismo, assinada por Arlindo Leal. De uma forma satírica e ácida, o autor faz uma análise das ações e obras do Coronel Isidoro Neves da Fontoura, então chefe político do Partido Republicano Rio-Grandense em Cachoeira e intendente municipal até o ano anterior.

Cel Isidoro Neves da Fontoura 
- Fototeca Museu Municipal

Jornal O Commercio, Cachoeira, 12/2/1913, p. 1
- Acervo de Imprensa do Arquivo Histórico

Uma das grandes e polêmicas iniciativas do intendente Isidoro foi a aquisição da área em que seria implantado o Bairro Rio Branco, referido no texto de Arlindo Leal como “A Cidade Nova”:

Despertou um dia El-Supremo com ideias de fundar uma cidade nova. Imediatamente foi adquirida uma grande chácara* nas proximidades da via férrea. O engenheiro da Intendência traçou sobre o terreno os alinhamentos da nova cidade e grandes escavações já foram feitas. Uma casa já foi construída e talvez outras o sejam. Porém, o filho de El-Supremo, o príncipe do automóvel negro, o aiglon**, devia ser o principal proprietário do bairro novo.
A banca de advogado do Príncipe, florescendo em dezenas de causas gordas, era rendosa. Estava o aiglon em condições de edificar palácios e casas de aluguel. Foram-lhe, pois, adjudicados os terrenos melhor situados e que menos escavações exigiam.
O secretário do aiglon, o Sr. Odon*** também foi contemplado com dois bons terrenos apesar... de ter sido cadete. Tudo se arranja numa administração modelar.
Apenas nos acessos de enxaqueca d’El-Supremo, a moral republicana, sonhada por Ferreira Leal****, por Policarpo*****, por ele e tantos outros, nos conciliábulos do primeiro clube republicano, prescrevia a livre concorrência pública!
O velho republicano entrouxava as ideias do passado para ver seu filho feliz, endinheirado, de automóvel. E o filho lhe prescrevia Pyramidon****** para a enxaqueca. Essa persiste, porém, porque essa droga não cura de abatimento moral; persiste e persistirá ainda enquanto houver a luta entre a pureza do passado remoto e a ganância do presente. O mal emana do moral e não do físico; a consciência vibra sempre.
Nenhuma conta apresentarei à S. Excia. por este receituário.

(O Comércio, 12/2/1913, p. 1)

Pyramidon - gettyimages

*Chácara pertencente a Maria Egypcia da Fontoura, filha do Comendador Antônio Vicente da Fontoura.
**aiglon: filhote de águia em francês.
***Odon Cavalcanti Carneiro Monteiro, advogado e colega de banca de João Neves da Fontoura; ocupou vários cargos públicos, inclusive o de secretário da Intendência entre 1910 e 1914.
****João José Ferreira Leal, fundador e primeiro presidente do Clube Republicano de Cachoeira (1882).
*****Polycarpo Alvares da Cruz, fundador do Clube Republicano.
******Pyramidon: remédio para enxaqueca

Por sua vez, o jornal do Partido Republicano, o Rio Grande, em sua edição de 23 de fevereiro de 1913, rebate as acusações de Arlindo Leal com o seguinte título: “Desmentido formal”.


Jornal Rio Grande, Cachoeira, 23/2/1913, p. 1
- Acervo de Imprensa do Arquivo Histórico

Ao deputado Dr. Arlindo Leal nos aleives que em estilo mazorro* e arreeiro** tem assacado contra a respeitável personalidade do coronel Isidoro Neves da Fontoura e contra a sua administração – houve por bem envolver o meu obscuro nome, dizendo que fora eu contemplado com dois bons terrenos na larga faixa de terra adquirida por aquele ex-intendente para o patrimônio do município.
Para que fique evidenciado até onde vai o cinismo estanhado do ofensor, dirigi ao Dr. Balthazar de Bem, atual intendente, o seguinte requerimento:

Sr. Dr. Balthazar de Bem

Peço-lhe a fineza de dizer ao pé deste: 
a) se não é verdade ter o infraescrito comprado terrenos à Intendência Municipal, situados no bairro Rio Branco, ao preço de 10$000 o plano;
  b) se em idênticas donições foram comprados terrenos no mesmo bairro pelos Srs. José Fernandes, Dr. João Neves, Cacílio Menezes, Antonio Lara, Germano Hoffmann e outros;
  c) se na sua própria administração não foi por mim comprado um outro terreno pelo mesmo preço, sendo que este mesmo terreno esteve até então à venda, sem aparecer comprador;
  d) se, finalmente, convizinhando aos terrenos por mim comprados, outros existem por preço igual aos que têm sido estipulados até hoje por esta Intendência aos adquirentes.
Subscrevo-me amº e ad.
Odon Cavalcanti

Odon Cavalcanti 

O Dr. Balthazar de Bem mandou que o Secretário da Fazenda informasse. A informação foi do seguinte teor:
Cumprindo vosso despacho supra, tenho a informar que revendo o talão dos recebimentos das importâncias provenientes das vendas de terrenos municipais, verifiquei serem verdadeiros os itens formulados pelo requerente.

Secretaria da Fazenda Municipal, 21 de fevereiro de 1913.

Hermilo Pohlmann

Aí está a que se reduz a acusação de Arlindo Leal atinente à defraudação que fez do patrimônio do município, o benemérito Coronel Isidoro Neves... Certamente todas as demais afinam pelo mesmo timbre.
Aproveito a boa oportunidade para apresentar ao ex-chefe político e ex-intendente os meus extremados protestos de solidariedade, hoje que ele não tem a mínima parcela de mando em política ou administração, e que está sendo vilmente atacado pelo mesmo homem que lhe tecia exaltados elogios em discursos retumbantes, ao tempo em que era chefe político e intendente municipal, como é público e notório nesta cidade.
Já era um vezo*** dos incas atirar pedras ao sol que se ocultava e que lhes dera luz e calor.

Odon Cavalcanti

(Rio Grande, 23/2/1913, p. 1)

*mazorro: grosseiro
**arreeiro: condutor de bestas, tropeiro
***vezo: mau hábito

Como se vê, natural seria que os republicanos se defendessem das acusações de Arlindo de Freitas Leal, outro republicano combativo, cuja experiência política passava pela Assembleia, como deputado estadual, e conselheiro do município entre 1908 e 1912. O engenheiro Arlindo Leal também era um dos mais bem sucedidos produtores de arroz do município, com grande prestígio e fortuna. Nos dias de hoje, a disputa acirrada facilmente seria classificada como “briga de cachorro grande”. Au au!

quinta-feira, 20 de setembro de 2018

Prosit!


Os tempos que correm têm apresentado uma tendência: a da fabricação artesanal de cerveja. Apreciadores da bebida testam combinações, fazem harmonizações e provocam a criatividade de muitos cervejeiros.

Em Cachoeira também há os “paneleiros”, termo popularmente usado para os que se aventuram na fabricação artesanal da bebida. Mas os paneleiros provavelmente desconhecem uma tradição cervejeira que a cidade tem desde o século XIX, quando os primeiros fabricantes se atiraram à produção da bebida, trazendo ao mercado local diferentes tipos e marcas.

O primeiro deles, Rudolph Homrich, era dono da Deutsche Bier Breuerei, estabelecida na Rua Sete de Setembro, logo abaixo da Estação Ferroviária.

O jornal 15 de Novembro (Cachoeira), edição de 28 de maio de 1890, à página 3, traz a seguinte notícia:

“A Cervejaria. De Rudolf Homrich. Rua 7 de Setembro, próximo à estação da estrada de ferro. O proprietário desta fábrica, uma das mais acreditadas desta cidade, previne ao público e à rapaziada diletante da refrigerante cerveja Homrich, a mais própria para a estação, que teve a original ideia de fazer um poético bosque, sob o qual é agradabilíssimo tomar-se um espumante copo dessa bebida sem rival. Custa apenas a garrafa de cerveja preta ou branca, simples, 240; dúzia 1$920, garrafa de cerveja dupla, 350; dúzia, 2$880. Ao bosque, pois! Ao bosque do Homrich diletantes do bom gosto!”

Em 1912 a cervejaria foi modernizada, sendo acrescidas novas máquinas e ampliados os compartimentos. A maior novidade foi a instalação de uma fábrica de gelo. sendo o processo fabril da cerveja feito a partir de matérias primas importadas da Europa. As marcas produzidas então eram a Crystal, clara, Homrich, obscura, e Dragão, preta, especial para o inverno. Tais marcas, segundo o fabricante, não receavam confronto!

Instalações da cervejaria na Rua 7 de Setembro - Fototeca Museu Municipal


A cervejaria de Rudolph Homrich, surgida no século XIX, atravessou o primeiro quartel do século XX e, através da imprensa, em 1925, avisava aos consumidores de seus produtos que devido ao alto valor da matéria prima teria que elevar “na razão de 100 réis o preço por garrafa de todas as suas marcas de cerveja.”

O complexo cervejeiro da Rua 7 na década de 1920 - Fototeca Museu Municipal


Rótulo da cerveja Bock da Cervejaria Homrich, já associada
a Pedro Port - Gentileza Mico Vargas


Da próxima vez que mirarmos um copo de cerveja, olhemos para o líquido fazendo a reverência à história dos pioneiros da sua preparação por aqui. Prosit!