Cachoeira de outros tempos

Cachoeira de outros tempos
Rua 7 de Setembro com Banco da Província ao fundo (~1928) - MMEL - Modificado por IA - Renato Thomsen

domingo, 26 de maio de 2019

O senhor da Tafona


Quem tem a possibilidade de conhecer a sede da antiga Fazenda São José, mais conhecida como Fazenda da Tafona, na localidade de Porteira Sete, interior de Cachoeira do Sul, fica intrigado com um retrato a óleo que domina a sala principal da casa.

Sede da Fazenda da Tafona - foto Renato F. Thomsen

O senhor de olhar plácido, porém decidido, domina o ambiente e parece hipnotizar quem circula pelo local. Como os bons retratos do passado, de dentro da moldura, a figura parece acompanhar os passos de quem ocupa a sala de seu domínio...

Retrato de José Sebastião Vieira da Cunha - obra do Atelier Calegari
- Foto Renato F. Thomsen

O senhor da Tafona é José Sebastião Vieira da Cunha, nascido a 20 de janeiro de 1846, filho de Pamphilo Vieira da Cunha e de Clara Vieira da Cruz Brilhante. Ele não foi o primeiro morador do local. A propriedade remonta ao grande sesmeiro açoriano João Pereira Fortes, bisavô de José Sebastião.

A sorte parece ter sido a sua sina, materializada em proteção e fortuna. Com vinte anos, em 18 de junho de 1866, José Sebastião, certamente movido pelos arroubos da juventude, foi para o Rio de Janeiro oferecer-se para servir ao Brasil na Guerra do Paraguai. Acontece que José Sebastião era o sobrinho preferido e protegido da solteira e rica Anna da Cruz Brilhante que, no desespero de ver o risco que o rapaz corria, conseguiu, certamente com um bom pagamento, que outro moço tomasse o seu lugar. José Sebastião, no entanto, não desperdiçou a oportunidade de ficar na capital do Império e lá se empregou no comércio.

Em 1868, Pamphilo Vieira da Cunha, pai de José Sebastião, morreu. O rapaz teve que voltar para Cachoeira a fim de assumir os negócios da fazenda de criação da tia, de que já era herdeiro universal, e cuja administração até então havia ficado sob os encargos de seu pai.

Readaptado às suas novas funções, em 23 de abril de 1870, José Sebastião casou-se com a prima Maria Manoela Pereira, filha de rico fazendeiro, na Fazenda do Capané. Como era comum aos bem aquinhoados da época, o enxoval da noiva foi encomendado em Portugal, sendo embarcado para o Brasil em uma arca (baú), até hoje conservada no acervo da Tafona.

Arca do enxoval de Maria Manoela Pereira da Cunha - 1870
- Foto Renato F. Thomsen

José Sebastião e Maria Manoela tiveram 13 filhos: Pamphilo, Emília, Afonso, Eduardo, Hermínia, Maria, Manoel, Hugo, Jorge, Edmundo, Julieta, Marieta e Carlos.

José Sebastião (1.º à esquerda) e família - Acervo Fazenda da Tafona

A morte de José Sebastião se deu em 19 de maio de 1916. Por essa época, a Fazenda da Tafona era constituída por uma légua de campos na margem esquerda do rio Piquiri, ocupados pela criação de gado. Outras atividades tinham sido experimentadas, uma delas a da extração de cal, e naquele ano um dos filhos de José Sebastião, Hugo Vieira da Cunha, era sócio de Mostardeiro & Cia., empresa arrendatária de parte das terras para produção de arroz.

A sucessão dos tempos fez da Tafona um repositório de lembranças de diferentes personalidades e épocas. Outros personagens da história de Cachoeira habitaram o lugar, nele interferindo e agregando memórias. Um dos mais célebres foi o médico José Pereira da Silva Goulart, figura proeminente da política cachoeirense e um dos mandatários do atentado contra Antônio Vicente da Fontoura.

Dr. José Pereira da Silva Goulart - Acervo familiar

José Sebastião Vieira da Cunha, cujo desaparecimento “da vida objetiva” já bate em 113 anos, afixou sua figura ao lugar de forma irrefutável. O retrato, obra do famoso Atelier Calegari, não é um simples objeto da história. Ele reflete o “Senhor da Tafona”, solenizado na grande sala da velha casa construída no início do século XIX. Reverência da sua filha Emília, herdeira do quinhão que restara das inúmeras sucessões familiares.

Em 1963, Emília Vieira da Cunha vendeu a propriedade para a sobrinha e afilhada Gemina Vieira da Cunha Silva e seu marido Sylvio Martins da Silva. Hoje a filha do casal, Marô Vieira da Cunha Silva e o marido Marco Schntz conservam aquele patrimônio histórico-cultural.

O retrato nunca saiu de lá. E os olhos de José Sebastião seguem a mirar o tempo. Já viram o passado, observam o presente e perscrutam o futuro.

quarta-feira, 1 de maio de 2019

Sem fugir do trabalho


O trabalho dignifica o homem e pode jogar o seu exemplo para o futuro. Existem personagens da história de Cachoeira do Sul que imediatamente remetem à memória do tanto que a sua força de trabalho representou para modificar e melhorar o seu tempo.

Dentre estas personagens, homens e mulheres. Ainda que alguns exemplos venham do século XIX, quando o protagonismo só era permitido aos homens, também aparecem mulheres que empreenderam, fizeram a diferença e deixaram sua marca.

Escolhemos apenas três e começamos por Albino Pohlmann. Este foi certamente um dos mais notáveis trabalhadores da nossa história. Criativo, engenhoso, inovador e com uma capacidade de produção incrível. De seu gênio inquieto, surgiram inovações que guindaram a economia local a outros patamares. Caso das primeiras experiências com a irrigação artificial das lavouras de arroz, no longínquo ano de 1906. Suas técnicas logo se difundiram, permitindo um incremento na produção arrozeira e no lugar que Cachoeira ocupava na economia do estado. Muito do título de Capital Nacional do Arroz devemos à genialidade de José Albino Pohlmann, para citar apenas uma de suas facetas.

José Albino Pohlmann - Acervo Tânia M. Möller Pohlmann

Antes dele, no século XIX, uma mulher teve que ser protagonista de uma obra e da vida de sua família. Seu nome: Castorina Ignacia Soares. O marido de Castorina, João Antônio de Barcellos, assumiu com a Câmara Municipal a obra de abertura da estrada Cachoeira – Cruz Alta (não é o município homônimo; tratava-se de um distrito de Rio Pardo, proximidades da serra do Botucaraí). No decorrer da obra, João Antônio foi vitimado, em 31 de março de 1853, pela queda de uma árvore. Sem alternativa e tendo que dar cumprimento ao contrato assinado pelo falecido marido, Castorina tocou a abertura da estrada. Em 28 de março de 1854, ou seja, antes de completar um ano da fatídica morte, Castorina cumpriu com o contrato, entregando a obra concluída à Câmara!

Pedro Fortunato Baptista, conhecido por “Pedro Faz Tudo”. Sua alcunha já diz muito! Italiano de nascimento – e bem nascido por lá – foi um dos mais inquietos cidadãos da Cachoeira entre o final do século XIX e o início do século XX. A primeira bicicleta, ou velocípede, aparecida na cidade foi através dele, isto em 1896! Um dos primeiros cinemas também foi sua iniciativa, assim como uma fábrica de licores e outra de sacos de aniagem e algodão. Dotado de boa verve, encantava com seus discursos. Foi um dos entusiastas fundadores da Sociedade Italiana Príncipe Umberto e agente consular da Itália em Cachoeira. As iniciativas que teve não lhe granjearam sucesso. Morreu pobre e solteiro, sob a proteção de um amigo de raízes italianas como ele...

José Albino Pohlmann, Castorina Ignacia Soares e Pedro Fortunato Baptista têm em comum a característica da força do trabalho. José Albino viveu uma vida altamente produtiva até o fim. Castorina recolheu-se ao lugar subalterno que caracterizava as mulheres de seu tempo, e Pedro Faz Tudo se aventurou em atividades que não compensaram seu esforço criativo. Cada um com sua história e todos tendo o trabalho como ponto comum. Viveram suas vidas sem fugir do trabalho.

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sexta-feira, 26 de abril de 2019

26 de abril de 1819 ou 5 de agosto de 1820?

26 de abril de 1819:

Eu El Rei Faço Saber que aos que este Alvará com força de Lei virem: Que os Moradores da Freguesia da Cachoeira, Termo da Vila do Rio Pardo na Província de São Pedro do Rio Grande do Sul Me representaram os incômodos e prejuízos que sofriam em irem repetidas vezes à dita Vila, de mandar os seus recursos na distância de dez léguas, sendo-lhes necessário atravessar dois rios, a maior parte do ano invadeáveis, e deixar por muito tempo ao desamparo as suas casas e negócios: Pedindo-Me por isso a Graça d’erigir em Vila a sobredita Freguesia, a qual sendo reputada uma Povoação considerável pelo número de seus habitantes, e tendo as vantagens de estar situada à margem do Rio Jacuí, que é navegável, e de abundar em boas águas e matas, se achava nas circunstâncias de poder ser elevada àquela Graduação. O que sendo-Me ponderado em Consulta da Mesa do Meu Desembargo do Paço à vista das informações que a este respeito Mandei tirar pelo Governador e Capitão-General da referida Província, e do Ouvidor da respectiva Comarca com audiência da Câmara da dita Vila do Rio Pardo: E conformando-Me com o Parecer da mesma consulta, em que foi ouvido o Procurador da Minha Real Coroa e Fazenda: Hei por bem criar uma Vila na sobredita Freguesia da Cachoeira com a denominação de = Vila Nova de São João da Cachoeira = Cujo Território se comporá do que forma e constitui a mesma Freguesia;  (e segue o documento dando os limites da Vila).
O Ministro que for encarregado da ereção da dita Vila fará levantar o Pelourinho, Casas da Câmara, Cadeia e mais oficinas debaixo da inspeção da Mesa do Meu Desembargo do Paço, e à custa dos moradores da dita Vila e seu Termo. E este se cumprirá como nele se contém. Pelo que Mando à Mesa do Meu Desembargo do Paço, e da Consciência e Ordens, Presidente do Meu Real Erário, Conselho da Minha Real Fazenda, Regedor da Casa da Suplicação; e ao Governador, e Capitão General da Província de São Pedro do Rio Grande do Sul, e a todos os mais Governadores, Tribunais, Ministros de Justiça, e a quaisquer outras pessoas, a quem o conhecimento deste Alvará haja de pertencer, assim o Cumpram, e guardem, e façam Cumprir e guardar, não obstantes quaisquer Leis, Alvarás, Regimentos, Decretos, ou todos Hei por derrogados; como se delas e deles Fizesse expressa, e individual menção, para o referido efeito somente; ficando aliás sempre em seu vigor. E valerá como Carta passada pela chancelaria, posto que por ela não há de passar, e o Seu efeito haja de durar mais d’um ano sem embargo da Ordenação em contrário. Dado no Rio de Janeiro aos vinte e seis de abril de mil oitocentos e dezenove. = Rei com Guarda =

Capa do Livro n.º 1 da Câmara, onde estão todos os documentos que contam esta história
- CM/OF/TA-008 - Acervo documental do Arquivo Histórico

O documento acima, produzido há exatos 200 anos, representa o "nascimento" da Vila Nova de São João da Cachoeira. Ele atendeu à aspiração dos moradores da então Freguesia de Nossa Senhora da Conceição da Cachoeira, uma crescente povoação cuja dependência de Rio Pardo retrogradava os desembaraços das questões que lhe eram postas, seja de ordem administrativa, de justiça e de recursos, para citar apenas algumas.

Da emissão do alvará, em 26 de abril de 1819, até a instalação de fato da Vila, em 5 de agosto de 1820, decorreram um ano e pouco mais de três meses! Há que ser considerado para tal demora o fato das disponibilidades de comunicação da época, das distâncias geográficas entre a Corte, no Rio de Janeiro, e a Província de São Pedro do Rio Grande do Sul, da burocracia que envolvia tais atos e das resistências que certamente surgiram.

Ao se aproximar a data da instalação da Vila mandada erigir em 26 de abril de 1819, novo documento foi emitido por ordem de D. João VI, com data de 15 de maio de 1820, em que o rei determina ao ouvidor da Comarca de São Pedro e Santa Catarina, Joaquim Bernardino de Sena Ribeiro da Costa, dê cumprimento ao disposto no alvará e procedais à ereção da Vila Nova de São João da Cachoeira, regulando-vos em tudo pelo dito Alvará. E diz mais o rei: Cumpri-o assim, dando-Me conta de sua execução. Joaquim Bernardino de Sena Ribeiro da Costa não só o cumpriu, em 5 de agosto, como deixou registradas cópias de todos esses documentos nos primeiros livros que a norma portuguesa determinava fossem abertos. Se assim não o tivesse feito, haveria dificuldades de recontar esta história.

Eis as razões documentadas para que comemoremos solene e oficialmente os 200 anos de instalação do Município de Cachoeira em 5 de agosto de 2020!

sexta-feira, 12 de abril de 2019

Uma casinha e nada mais?


O patrimônio histórico-cultural de Cachoeira do Sul é assunto tão palpitante que, vez ou outra, para não dizer, seguidamente, vem à discussão nas mais diversas rodas. Isto é bom, porque populariza e democratiza o tema, levando-o para dentro das casas dos cidadãos. E quanto mais as pessoas conhecerem da história e seu legado, mais chance há de preservação.

O assunto da vez é a casinha das Cinco Esquinas, ou casinha da família Scarparo. Até bem pouco tempo poucas pessoas se davam conta da sua existência, o que não deixa de ser o indicativo que está muito bem inserida na paisagem! De repente, a ideia de melhorias na mobilidade urbana e a desapropriação da casinha para as obras despertou na família e na comunidade o olhar de que a edificação carecia há tanto.

Casinha das Cinco Esquinas - www.jornaldopovo.com.br

As perguntas sobre a casinha são de toda ordem. Tem valor histórico? Tem valor arquitetônico? Por que tombá-la como patrimônio histórico se nem inventariada está e ficou por tanto tempo esquecida?

O que foi possível levantar da história da edificação que domina a quina mais emblemática das Cinco Esquinas é que ela foi adquirida em 1924 por Olindo Scarparo. Sua existência, desde data ainda incerta, deve remontar ao final do século XIX, pois o próprio Olindo Scarparo, quando a adquiriu, se servia do açougue que nela já estava instalado. Barbearia, revistaria e outras destinações comerciais teve a casinha.

No entanto, o mais significativo da sua existência suplanta o valor histórico e o arquitetônico e se firma na importância que ela tem para a definição do traçado urbano que a toma por base e, ao mesmo tempo, define o seu contorno.

Há priscas eras a casinha era o limite da cidade, o “fim da linha”. Depois dela estradas de terra, pedras e lama que levavam à zona colonial. A sua existência limitava a cidade e era pela cidade limitada em sua estrutura.

Merece a casinha a perpetuidade? Merecem as Cinco Esquinas perderem um de seus elementos?

A casinha, mais do que a sua materialidade, representa a imaterialidade e a força da denominação “Cinco Esquinas”. Está nas nossas mãos a decisão.